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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Linha a Linha



Eu era sua poesia, assim como você era a minha inspiração. Respiração cadenciada, calma, cheirosa como a terra molhada, onde sua semente de beleza era espalhada a cada passo seu, flor de lis que desabrocha o ano todo.
Contemplava seus passos de bailarina do vento, leve, solta, livre como asas sobre o mar tão azul que se confundia com o céu dos sonhos de Ícaro, tão desesperador quanto as agonias de Dédalo, tão necessários quanto o toque suave da seda sobre a pele nua, se é que a nudez necessita ser coberta.
Ouvia atento suas histórias, sabidas de cor por nós dois, mas incrivelmente inéditas aos meus ouvidos a cada nova contação. Seus lamentos não caberiam em nenhum muro, não porque fossem muitos, mas porque eram mudos, breves, quase indignos de serem chamados de sofrimento. Seu choro era quase como o canto da avezinha noturna: piado tímido e baixo, calado com beijos que eu trazia nas conchas das mãos.
Pequenina, conservava o tamanho dos gigantes dos tempos idos: de força e beleza incontáveis aos meus olhos. Fantasticamente condensando todos os tamanhos do mundo em sua altura mediana. Incrivelmente comum e bela, como os milagres cotidianos que não notamos.
Sufocava-me com abraços inesperados e beijos jogados ao léu que eu me esticava para pegar. Dona de si e de mim. Dona da minha respiração, dos meus suspiros, de minha devoção, mas sufocava-me mais quando se fazia ausente de meus dias, entristecendo os meus eternos domingos ensolarados ao seu lado.
De suas mãos eu sentia-me prisioneiro, curiosamente livre e cativo, paradoxos de quem vive as delícias de um amor indizível, que não tem pátria porque não cabe no mundo, que não anda porque as pernas seriam poucas, então, voa. E provoca-me vertigens em seus volteios. E sacia-me com seus ares novos a cada amanhecer.
Eu, que era sua poesia, descrevia-lhe poeta, dona das palavras que eu não saberia arquitetar. Dona de dons intangíveis por aqueles de pouca sensibilidade e apenas imaginada por quem se julga sensível. Eu, escrito por suas delicadezas, história de fazer felizes, sem necessariamente ter um final, de capa a capa intraduzível, a menos que o fosse por seus olhos, sua língua, sua versão.
Eu, contado de tantas maneiras diferentes, precisava despir-me diante de suas linhas para encontrar-me. Via-me tanto como em um espelho quanto em um caleidoscópio, com brilhos, cores e formas espetaculares, que só era inteligível pela amada.

Eu, tão comum, era raro para ela. E isso mudava o rumo dos capítulos da história que eu pensara em escrever, porque permitira, um dia, que ela assumisse a pena, sem penas, mas com toda leveza, para escrever cada um dos meus dias vindouros, linha a linha. 

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