Visitas da Dy

sábado, 31 de agosto de 2013

Check-in como Autora



Desde que eu me entendo por gente que gosto de livros. Desde que me entendi como compradora de livros, eu tinha um sonho: ir à Bienal do Livro.
Morando em Juiz de Fora, sendo professora e tendo medo de andar sozinha pelo Rio de Janeiro, nunca tinha me aventurado pela feira. Em 2011 isso mudou.
Eu me mudei para o Rio e meu primeiro compromisso fixado na agenda com grande expectativa foi a Bienal. Em 2011 lá estava eu: ansiosa, feliz, cheia de gás! Visitei a minha primeira Bienal!
Em 2013 eu realizei outro sonho: escrever um livro! Junto com meus companheiros de mestrado entrei na seara dos escritores. Juntos construímos um livro sobre políticas públicas em educação. Conseguimos unir nossas pesquisas e sonhos que se materializou em uma capa lilás linda.
Não era tudo. Nosso lançamento oficial foi marcado para a XVI Bienal do Livro do Rio! 30 de agosto de 2013! Uau! Sexta-feira à tarde. Quem estaria lá? Todos os pobres mortais costumam trabalhar nesse dia e horário, inclusive os pobres-mortais-autores! Tudo bem. Sonho é sonho. Vamos lá!
Fiz, emocionada, meu check-in como autora. Sem filas. Recebi um aceno de cabeça da recepcionista que me disse “bem-vinda-autora”, como um robô. Agradeci, sai orgulhosa com o meu crachá – também lilás – pendurado no pescoço.
Andar pelas ruas da Bienal rumo ao stand de lançamento foi incrível. A cada passo eu sentia o sonho se concretizando até que cheguei e peguei, pela primeira vez o MEU LIVRO!
Que cheiro de livro novo é tudo-de-bom eu já sei faz tempo. A novidade é que o cheiro do livro da gente é melhor: parece que gruda, que enche os olhos de lágrimas, que te faz maior, a gente sai um pouco de si mesma.

Minha capa era lilás, meu crachá, lilás, a flor que recebi era lilás. Nesse dia 30 de agosto, lilás foi a cor do meu sonho realizado.

Rotina


Ultrapassei todos os horários.
Atrasada, não fui trabalhar.
Àquela hora e com o trânsito,
Melhor nem arriscar.
Voltei a dormir.
A cidade acordou cedo:
Trouxe-me cheiro de café.
Eu ali na cama...
A cidade berrava lá fora:
Buzinas, construções, gritaria.
Levantei abandonando os sonhos.
O sono ficou comigo o dia todo,
Entre bocejos e gracejos.
Findei o dia.
Calaram-se as buzinas,
As construções, a gritaria.
Calaram-se meus planos.
Vague pelo final da luz do dia.
Cansada dormi cedo.
Era a falta da rotina.
Ou o excesso dela
Embriagando minhas horas,
Convencendo-me a sentir falta

De toda a minha correria.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Promessa


Jurei solenemente nunca mais o ver.
Conversei com Deus, que há de me entender!
Fiz promessa, pode crer:
Daquele telefone não quero mais saber.
Se me ligar não vou atender.
Nenhuma mensagem vou escrever.
Definitivamente, seu nome vou esquecer.
Allegro ma non troppo:
Em pouco tempo, desse amor nunca mais sofro.
Coloco meu vestido roxo,
Caio no samba ao pé do morro,
Giro a saia, dou trela para outro moço.
Pensarei em como foi rápido esquecer o seu rosto.
E me darei conta de que não o esqueci.

Mais uma promessa que não cumpri!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Café


Ela fervia bem mais do que a água no bule. Batia as unhas pintadas de um castanho semelhante ao que beberia em alguns instantes na beirada do fogão. Conservava os dedos em uma distância segura da chama, mas a sentia aquecer a pele, ardendo.
Ela ardia bem mais do que aquela chama. Derreteria a neve só com o olhar. Inflamaria uma floresta inteira se passasse entre as árvores. Ardia em febre, mas ninguém notava.
Na sala pés ansiosos se sacudiam. Havia mãos que não sabiam o que fazer também. Do sofá dava pra ouvir o sussurro de uma música. Alguma coisa de amores, de dores, de flores. Ela adorava essas letras com rimas comuns, que beiravam o brega.
Ele suspirou e sentiu o cheiro do café.
Enquanto deixava a água fervente do bule escorrer pelo coador, ela se doava, como se estivesse se colocando na bebida, se transformando de clara a castanha. Era fascinada por cores.
Gostava de ver como a água se modificava só para atender ao capricho de bocas desejosas de sabor, de calor, de energia. Gostava de acompanhar como e em tão pouco tempo dois se tornavam um, sem se perderem, já que conservavam suas essências.
O cheiro do café invadiu a casa. Em poucos minutos a mesa estaria posta, mas nenhum complemento seria necessário. O café bastaria. Ele sempre basta.
Com a paciência de uma flor que se abre devagar ao amanhecer ela esperou o café passar, observando atenta cada gotejar do final. Não passa das nove da manhã. Seu visitante inesperado a esperava na sala. Não lembrou-se dele. Não lembrou-se porque não o havia esquecido. Ela ardia. Estava febril. Chegou a corar.
Decidiu servir logo o café. A boca o desejava. A língua pedia para molhar-se com o calor-amargo recém-feito.
Entrou na sala e viu um corpo inquieto no sofá. Por um segundo teve a impressão de que sairiam algumas palavras daquela boca, mas recebeu só um sorriso.
Sem falar, fez um sinal convidando-o para a mesa, que logo se sentou ao lado dela, olhando-a fixamente, como ela olhava para o café, instantes atrás.
De repente, ali, naquelas xícaras de café, ela colocou todo o amor que podia. Todo o amor que gostaria de declarar, mas a boca t(r)emia. Serviu a bebida. Viu o cheio dos cafés subirem e se misturarem aos perfumes do dia.

Devagar levantou a xícara e inspirou fundo. Sentiu o aroma (mais do amor que tinha colocado do que do próprio café) e, ao bebê-lo, pensou que nada podia ter de melhor em sua vida: um amor, um café e um bom dia. Sentado ao seu lado ele a observava e não pensava em mais nada... Estavam os dois inebriados pelo café, pelo dia e seus aromas.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sabores II

Gentileza da Revista Biografia:
http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/

Sabores


É pelo gosto das coisas
Que descubro o que amo
Do vermelho aze-do-ce do morango
Ao castanho quente do café.
Da cana que é de açúcar,
Interessa-me a água
– Refrescante? Não! Ardente!
A vida é doce demais, meu rapaz,
Para perder tempo em jogar mais branco-cristal-refinado.
Aproveito o dourado-caramelo
Natural como a luz do sol:
Derrete na boca como o sonho
De padaria,
De madrugadas,
De menina,
De amor.
Encho a boca de menta (lizando)
Bons ventos
E rio risos de licores
E vago entre algodão-doce(u)
Estrelado, imenso.
Sussurro poemas de vertigens
Em boca de maçã-vermelha-do-amor
Com pitada de canela:
Se não pode comigo,

Não meta sua colher em minha panela.

Passos


Passamos pelas vidas,
Andamos em compassos.
Corremos contra o relógio no fim de semana,
Aceleramos os ponteiros nas quartas-feiras.
Abrimos nossos segredos, diários revelados:
Jornal de domingo lido no parque.
De repente um baque:
Não há mais vinho na taça.
A rede balança sozinha.
Sua mão não abre mais a meia-taça
E o diário voltou a ser fechado.
A distância entre nossos dois corpos
Fica como à beira de um abismo
Deixa de ser um passo,

Se assume o infinito.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Historiar


Ser historiadora é não caber em meu tempo e perceber que ele mesmo não se basta e extrapola as barreiras dos relógios e calendários e das muitas luas que já passaram.
É sufocar-me com o ar viciado de outros tempos que ainda paira entre nossos vãos-sonhos de progresso (?) ou de mudança e ter uma angústia que só se sacia quando volto os meus olhares para o que está guardado naquele a qual aprendi a chamar de passado, mesmo sendo tão presente no agora e no futuro.
Ser historiadora é ter a certeza de que parte da luz que busco é composta dessa razão, a qual tiro para dançar entre documentos e notas de séculos passados, empoeirados, emudecidos.
Equilibro-me na tênue linha que forma o tripé passado-presente-futuro com olhos atentos, ávidos para decifrar o que ainda não foi dito.
O desafio de ser historiadora é dar voz às bocas caladas pelas mãos que se achavam poderosas, mas que hoje são mordidas por dentes petulantes e famintos por devorar todo o tempo que lhes foi roubado, querendo gritar o seu silêncio.
“Historiar” é trazer a luz para os olhos que foram tapados por mãos injustas, mas que as brechas entre os dedos permite uma espiada e dá forças para romper as barreiras impostas.

Descobrir-me historiadora foi entender que os meus questionamentos são a minha força, meu desejo de prosseguir. Foi perceber que mais do que uma profissão, ser historiadora é viver uma eterna busca pela mudança própria e da sociedade, porque nunca me canso de desejar um mundo melhor.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Poeminha da construção


*Foto: Obras de Mário Brasil em São Luís do Maranhão

(Para Mário Brazil, a pedido de Ubirajara Sá - em fase de eterna construção nas mãos de nosso construtor)

De onde meus olhos veem pedras
Suas mãos erguem castelos,
Não medievos,
Mas verdadeiras torres.
Abrigarão as princesas solitárias,
Os mancebos beberrões,
Viúvas devotas,
Famílias de amores transbordantes.
De onde meus olhos só veem o cimento,
Faz das horas tijolos:
Ergue os pilares
E solidifica os sonhos.
Tudo o que é sonho se solidifica por suas mãos.
Não é poeta das palavras,
Mas aprendeu a tirar do chão
Tudo aquilo que cuidadosamente
Foi desenhado à mão!

domingo, 11 de agosto de 2013

Palavras Mal Ditas


Até parecia que tudo estava como deveria ser. Céu, nuvens, carros, pés, mãos, bocas, palavras bem ditas e as malditas palavras mal ditas. Não fossem pelos não-ditos e não-feitos tudo estaria certo, nos conformes, como diziam por aí.
Era um inverno mais frio que os outros porque era marcado pelo silêncio causado pelos mal entendidos ou seria pelos não-entendidos deles de cada dia? Tanto fazia. Por um ou pelo outro havia um ruído ali na sala, mergulhando os corpos companheiros em mares imensos de desilusão, descontentamento e cada vez um silêncio maior, levando ao afastamento e às mágoas.
Engoliam o sal das suas próprias lágrimas sem queixar-se ou sem ao menos tentar entender o porquê elas se jogavam da margem do olho, como cachoeiras que não pedem licença.
Ela literalmente se afogava em seu sal. Calava-se com as palavras que desejava dizer. Ele apenas remoia o porquê de ela ter se calado, mas já não ousava falar. Dos olhos úmidos, só ela sabia explicar. Só ela sustentava a cena de se deixar transbordar pelo que sentia. Ele, homem, segurava, parecia mais frio que o mármore da estátua da praça, mas ela sabia que não era assim.
Compartilhavam um silêncio de cristal, fácil de ser quebrado, mas temido pelos cacos que poderiam deixar pelo chão. Compartilhavam ainda uma admiração um pelo outro e não sabiam de onde vinham as mágoas que os afundava naquela poltrona da sala.
Tudo estava como deveria estar: quem os via até elogiava o casal. Estavam muito bonitos até para uma foto, não fosse o coração em frangalhos, retalhado ao longo dos anos por tantas palavras não ditas e muito mais pelas mal ditas.
Ele, estátua de bronze, ainda a queria para aquecer seu coração com aquelas mãos tão pequenas e delicadas – mas que nem eram tão menores que as dele e que se encaixavam tão bem com seus entrededos.
Ela fazia uma prece dessas decoradas, inconformada, desejosa por uma lareira que fosse capaz de reaquecê-los, porque mais do que os “mal” e os “não” entendidos, embaixo de toda a neve que teimava em glaciar a sala, havia amor naqueles corações.
Era um dia de inverno mais frio que os outros, mas esperançoso pela chegada das flores e do calor amoroso da primavera, anunciando, mais uma vê, o verão que poderia fazê-los arder.

sábado, 10 de agosto de 2013

Amores Difíceis



Ele era só mais um homem comum que todos os dias pensava em como era difícil amar a sua mulher. Ela que, àquela hora da madrugada dormia pesadamente, mas com o semblante tranquilo, completamente desarmada, mostrando-se mais bela com o jogo de sombras da penumbra do que ele já havia reparado antes.
Era possível ver a sua alma feminina entregue, exposta, bem ali ao lado dele. Uma imagem que inspirava confiança: a mulher confiava naquele homem e permitia-se repousar profundamente em seus braços, tendo-o como abrigo e proteção, como guardião de seu sono e até alguns sonhos.
Há dias ele pensava consigo mesmo sobre aquele momento, que agora lhe parecia um deja vu: intimamente ele desejava um momento em que pudesse contemplá-la assim, despida de suas armaduras diárias, livre de qualquer apetrecho que a permitisse esgueirar-se pelas entrelinhas ou entressorrisos que ela sabia bem como fazer. E ele a achava ainda mais linda.
Ele a amava. Não restavam dúvidas quanto a isso. Mas como todo espírito humano, não estava livre de medos e dificuldades e conforme a madrugada ia chegando ao seu fim, refletia em como era difícil viver aquele infinitivo: AMAR.
A aurora entrava pelas frestas da persiana. Em pouco tempo o sol anunciaria o início de mais um dia e aquela mulher despertaria animada, agitada, ativa e mergulharia em sua rotina: cumpriria alguns protocolos, ignoraria outros, inventaria outros tantos. Para ele era fascinante como ela conseguia ser previsivelmente imprevisível.
Não é fácil amar uma mulher que se diz em seus silêncios. Que se expõem em meandros como rio de sentimentos. Não é fácil amar uma mulher de entrelinhas e parênteses, que se equilibra em reticências e pausas, que economiza nas palavras para esbanjar em olhares e sutilezas de gestos e detalhes.
Ela permitia se guardar nesses silêncios. Enrolava-se neles como se fossem vestidos de seda – e eles lhe caiam tão bem! Gostava de lançar olhares e aquilo que não lhe saia da boca repousava sobre os espíritos que não a conheciam como enigmas esfíngicos.
Era uma mulher de ações: perdia-se em suas anotAÇÕES, assumia tarefas e dava cabos de todas as suas formulAÇÕES, gostava de lançar provocAÇÕES e brincar de conquistar corAÇÕES. Esse jeito prendia-o a ela. Era como um encanto para seus olhos, mas era, também, a raiz de suas inseguranças.
Em sua movimentação e independência, mantinha toda a sua bagunça (des)organizada: assumia e desmarcava compromissos com a mesma velocidade que atravessava a rua ou dava um suspiro. Isso assustava o homem que a amava, mas ela ria. Por ele, ela rasgaria toda a agenda, jogaria tudo para o alto. Ritmava seus dias pelas buzinas, toques de telefone e velocidades dos carros, mas, sobretudo, era movida a amor. E amava aquele homem que agora a observava. Amava-o, mas não o brindava com a certeza do que sentia.
O homem a contemplava e a amava ainda mais, mesmo tendo a insegurança como companhia. Devagar ele sussurrou que a amava. Como se o ouvisse ela sorriu e seus lábios sugeriram o nome dele. Ela mexeu-se na cama, procurando-o com o braço. Enlaçou-o. Ele suspirou e sentiu o cheiro dela. Entorpecido, alegrou-se e sentiu-se amado.

Amar aquela mulher era difícil, mas ele aceitaria o desafio todos os dias, a cada amanhecer, porque era sublime ver como aquele corpo de mulher se entregava leve a ele todas as noites, porque era indescritível a sensação de ouvi-la dizer seu nome, como quem  recita um poema ou entoa uma canção.

Tudo Está no Lugar


Algumas horas haviam se passado. Ninguém sabia ao certo quantas. E isso pouco importava, afinal, as lacunas deixadas por elas eram muito maiores a cada minuto que se seguia e a cada lembrança, crescendo no ritmo da respiração ou do bater dos corações.
Havia uma agitação inexplicada dentro de cada um deles. De maneiras diferentes estavam profundamente afetados com o abismo que se abrira, mas seria difícil dizer qual deles iria saber descrever, qual deles se aventuraria a dar o passo no sem rumo que os separava. Agora eram versos escritos em folhas rasgadas.
Não era coisa de um dia só. A folhinha na parede já estava com alguns números riscados, sinalizando a curta-longa-duração daquele vão. Conscientemente sabiam que os dias ainda eram poucos, mas lhe pareciam semanas. Descobriram como o tempo é relativo, dando razão à teoria de Einstein, finalmente simplificada à lógica dos mortais.
Teimavam como crianças. Calavam-se como folhas de papel em branco. Queimavam-se nas geleiras que criaram. Congelavam-se com o ardor de seus quereres expressos nos próprios olhos.
Sabiam que nada era pra sempre. Sabiam que os sorrisos teriam algo faltando. Ficariam mais sérios. O quebra-cabeças ficaria com um buraco. Mas ao mesmo tempo sabiam que tudo estava no lugar que deveria: livros na estante, roupas no varal, cada macaco no seu galho, cada pensamento voando desordenado. Cada dúvida com sua interrogação e cada um com o muito do pouco que lhe havia sobrado.

Algumas horas haviam passado. Muitas estavam por vir. Os corações ainda se doíam. A vida seguia. Um pra lá. Outro pra cá. E agora, em pouco-muito-tempo, tudo está no lugar. Era só questão de arrumação.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Olhos-Verão


Seus olhos de setas
Atravessam meus olhos de alvo.
Seu castanho de certezas,
São incertezas para o meu querer,
Assim como o meu castanho explícito
É mistério para tantos outros.
Seus olhos de frio para algumas estações,
Sempre me são olhos de verão.
E comigo sempre verão
A primavera e o outono,
Mas evitarão o inverno.
Não porque não gosto de frio,

Mas porque me aquece num piscar de olhos.

Diariamente


Ajunto todos os beijos que me deu
E guardo-os embrulhados
Na palma de minha mão:
Cuidadosamente, calmamente.
Ajunto todos os abraços que me deu
E guardo-os no armário
Junto com seu cheiro que ficou na blusa:
Saudosamente, fraternalmente.
Ajunto todos os seus olhares
E guardo-os debaixo de meu travesseiro
E os conto nas noites insones:
Lentamente, esperançosamente.
Ajunto cada uma das suas palavras
E guardo-as em uma fita k-7 imaginária.
Ouço-as em meu silêncio,
Solitariamente, devotamente.
Ajunto todos os seus risos
E espalho-os pelo ar:
Esses eu não quero guardar.
Quero que me sirvam de inspiração para seguir na vida

Alegremente, diariamente.

Pensamentos Sinuosos


Eu tenho pensamentos mais sinuosos que a curva de um rio, mais até do que a moça que passa desfilando um vestido floral pela praça no final da tarde e que arrasta todos os olhares. Aquela moça que eu, às vezes, invejo.
Eu tenho pensamentos que me enovelam em mim mesma, servem-me de abrigo e prisão. Aquecem-me no calor de suas confusões nas noites mais frias, sendo meus eternos companheiros insones. Prendem-me por horas a fio no correr dos ponteiros que fazem tic-tac na parede da sala.
Meus pensamentos parecem labirintos móveis, desses que as paredes trocam de lugar e não me permitem sair. E eu desejo sair. Desejo sair de casa, sair sem rumo, sair de mim. E eu desejo cair. Desejo cair de amores, cair pelas tabelas, cair no mundo e descobrir. Ah, eu quero descobrir todas as razões pelas quais chorei. Todas as razões pelas quais me calei. Quero descobrir o que as vírgulas do seu discurso solto não me deixaram compreender. Quero descobrir como preencher os vãos das mãos que me cercam.
Sou um infinito de pensamentos também infinitos que se entrelaçam, se embaraçam e se organizam na bagunça que é minha mente e coração. E cada um desses pensamentos tem um tamanho diferente. Tenho infinitos grandes e pequenos, entre os quais danço-menina, choro-adolescente, rio-mulher.
Para esses pensamentos crio outros pensamentos. Crio soluções entre os soluços que me saem entre lágrimas ou entre frios, mas todos noturnos, na hora escura em que meu corpo não me basta. Na hora triste em que sonhos não se realizam. Na hora cruel em que ouso dizer que, como outros tantos homens, somos sonha-dores, porque as dores de nossos sonhos não realizados nos açoita a carne se fazendo ainda maior.
Tenho pensamentos teimosos que são só seus ou são só você, névoa que encobre os meus horizontes. Paisagem de dia de segunda-feira corrida entre buzinas e cinzas prediais. Ou ainda, paisagem imaginada em meu feriado preguiçoso de olhar para o lado e dar um bom-dia-às-três-da-tarde. Seja qual for a paisagem, em alguns dos pensamentos só dá você.
Pensamentos teimosos me pintam como a moça bonita do quadro do museu de artes, belas artes, voando noturna com corujas, anjos, sabedorias e virtudes que não tenho entre os brilhantes da Via Láctea. Gosto de me ver assim: voando. Leve. Gosto de me perder nos sorrisos, mesmo quando sou triste.
Tenho pensamentos que se eu contasse, seriam minha salvação e perdição, como me são agora as poucas palavras de meu vocabulário limitado e tudo o que me enche o coração.

Ah, se essa boca abrisse pra deixar sair todos os meus pensamentos... ah, se eu me precipitasse em chuva de sorrisos e abraços, de amores e até dores... Ah, se eu conseguisse ser mais leve que o raio de sol e mais quente que um abraço... Ah, se eu não me perdesse em meus pensamentos que são mais sinuosos que a curva de um rio. Talvez eu me perderia no tilintar das estrelas que me sussurram seus segredos brilhantes antes do nascer do dia, porque saber me perder em versos e poesia tem sido a mágica de continuar levando os dias.