Visitas da Dy

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Notas sobre um coração partido



Corações partidos são pontos de partidas, oportunidades para deixarmos alguém nos ajudar a juntar os cacos e fazer uma nova obra de arte, ainda que remendada, mas construída à duas mãos.
Já tive o coração partido, os sonhos rasgados, a alma ferida.
chorei por tudo isso e achei que o mundo era cruel, as pessoas egoístas e os sentimentos uma perda de tempo.
Hoje rio disso tudo: eram só lições, como de uma cartilha que a gente vai vencendo as etapas.
Um dia a gente aprende que os coração são partidos porque por descuido o entregamos a quem não o merecia, não porque somos melhores, mas porque as pessoas não nos enxergam como especiais.
Um dia a gente aprende que nem sempre uma obra que parece pronta e acaba com a sua superfície lisa é a mais bela de todas. Aprendemos que ter um coração partido é reconstruí-lo em mosaico, como as obras de Gaudí, tão belas que entorpecem os olhos.
Aprendemos que as lentes que usam para nos ver independem de nossas vontades, ações ou sentimentos e descobrimos que ali, em algum lugar do nosso caminho há alguém nos esperando para trilhar ao nosso lado, nos dando o que merecemos, o que de fato é nosso.
A diferença é que precisamos amadurecer, crescer, para conseguir enxergar e a vida nos ensina pelos caminhos tortuosos, para aprendermos a valorizar.
Aquieta esse coração que se quebra com facilidade. Aprende que ele foi feito para ser reconstruído. Acalma a alma e espera. A Felicidade mora ali do lado, só foi buscar umas flores para o jardim, mas logo vem...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Solidão e Solitude




Do que você tem medo?  A pergunta me correu a espinha e me fez gelar, mas mais rápido que o arrepio veio a resposta pelos dedos que acelerados digitaram: S-O-L-I-D-Ã-O.
Eu temo a solidão. Temo esse sentimento de falta, essa impressão de que sempre há algo que poderia me preencher. Temo ser deixada em solidão.
É como se eu temesse que as luzes se apagassem e que a música não mais tocasse e eu ficasse como a adolescente deixada no meio do salão vazio em seu baile de formatura. Eu temo não ter ninguém com quem caminhar, com quem dividir minha alma, meus sentimentos, meus segredos, minha companhia.
Às vezes a gente mesmo não se basta. E quando se basta, quando se está cheio de amor e se quer ficar sozinho, não é solidão. É solitude. Muitas vezes eu quis ficar sozinha. Quis parar pra pensar. Quis meditar. Olhar pro escuro é bom: mostra nossas fraquezas, nossos pontos fracos. Olhar o por do sol em solitude é mágico: conseguimos compreender melhor  a maravilha de se estar vivo. Mas chega uma hora que a gente sente mesmo essa falta dentro do peito.
Acho que a solidão é um veneno, desses suaves, que nos mata aos poucos. Vai corroendo lentamente o peito, rasgando o coração como quem rasga um bilhete velho que já não tem sentido ou uma foto de quem se amou e sente raiva nesse momento.
O curioso é que não sinto falta de coisas simples, que podem ser compradas ou conseguidas por aí com um pouco de esforço. Eu sinto medo é de sentir falta das pessoas. E isso é o mais difícil de se conseguir: as pessoas que verdadeiramente vão estar do nosso lado quando a gente precisar.
Um dia, quando eu não estiver mais com a beleza jovial, com moedas no bolso ou com uma vida tão cheia de badalações, será que as pessoas que me cercam estarão comigo? Será que, de fato, consegui fazer um amigo? Desses que nos acompanham pela vida? E se eles se perderem pelo caminho? E se eu na mais os tiver por perto? A vida terá valido a pena? A minha não.
Sou absolutamente dependente de meus amigos, da existência deles. De saber que serão meu apoio quando eu precisar, que serão uma mão segura e, já não sei quantos o são. Em quem posso confiar? Como saber se estarão lá?
Essas questões me assombram, muito mais pela possibilidade de saber que amanhã poderemos não estar mais juntos do que pela decepção de saber que hoje não são verdadeiros. A decepção, embora doída, vai passar, mas o medo da solidão, esse vai fazer dentro de mim um turbilhão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Não



E se chego a lhe negar alguma coisa é porque era necessário. É porque dentro do meu coração o não era a melhor alternativa.
Sei que bem se acostumou a só ouvir de meus lábios palavras de concordância, de incentivo e, em certa medida, até de submissão. Mas não era nada disso. É que em muitos momentos, olhamos para o mesmo horizonte, com os mesmo sonhos e planos, por isso o sim era tão constante. Era muito mais uma aposta do que uma promessa.
Agora que uso novas lentes, ainda olhando para os mesmo lugares, vejo novas histórias, onde o não é muito mais constante: faço dele uma canção de celebração. Nego tudo aquilo que me faz mal, que me deixa parecida com as outras pessoas.
Nego a rotina, o café fraco, a música com notas cansativas e letras repetitivas. Rejeito a vida morna e essa água com açúcar que servem a todos nós pela manhã para que possamos carregar um riso amarelo. Abro mão de tudo que torna os meus dias sem cor, ofuscados pela névoa gris que jorra pelas chaminés das fábricas de personagens homogêneos que se desejam para a sociedade ideal, sem voz, sem vez, sem questões.
Nego as cortinas nas janelas que me impedem de ver o sol ou o brilho das estrelas ou o breu da noite ou as pessoas que passam. Quero arrancar todas as sedas, todos os véus. Quero acordar, olhar pela janela e abrir os braços aos dias que chegam e que são tão belos, por mais que carreguem em si a crueldade, a frieza e o desespero das atitudes humanas impensadas contra os seus pares. Enxergar a beleza até no que me indigna é um exercício de libertação, de crescimento, de vida.
Olhando para a lista de nãos que distribuo aos quatro ventos, em alto e bom som busco as suas origens e as encontro em mim mesma, como se não fossem a minha extensão, mas eu mesma, meu eco em minhas palavras. Eles não surgem de minhas dúvidas. E já não duvido de onde vem.
Meus nãos surgiram (e se mantiveram) de lugares que muitas vezes eu evitava entrar nos porões de meus sentimentos, de meu coração permeado de insegurança e de tremor. Hoje sei que meus nãos vieram da minha vontade de não ir embora, de não saber onde colocar a mão, de não querer encerrar um livro, de não ver o dia acabar, de não ver a lua se esconder atrás da montanha, de não perder o brilho das estrelas e o lume nos olhos.
Hoje faço dos meus não um uso quase religioso, quase que como uma prece, recusando-me a ser mais do mesmo, mas sem saber ao certo me equilibrar nessa corda bamba da vida.

Conexões


(para ler ouvindo Kanun el Parking)



Onde é que sua vida se liga à minha?
Busco entender nossa conexão,
Onde foi que se encontraram os nossos destinos?
Em em que estação nossas rotas se cruzaram?
Eu era chegada ou os meus dias já se desenrolavam como partida?
Os fios das Moiras se embolaram por que têm vida própria,
Por mero capricho ou, de fato, elas teceram nossos encontros?
Ah, e esses desencontros?
Já são tantos que me acostumei a ter os olhos rasos a cada vez.
Por mais que os ventos soprem à favor,
Por mais que as velas estejam todas em seus devidos lugares,
Há um sem número de extravios:
Entre eu e você,
Entre a palavra e o silêncio,
Entre o meu querer e o que vai ser.
Em que rua vamos nos esbarrar?
Faremos de nossos desvios uma nova rota
Ou voltaremos ao ponto de onde viemos?
Em que momento nossas mãos seguirão dadas?
Ou elas, em breve, estarão apenas espalmadas,
Vagas, vadias, desatinadas?
Na próxima esquina o que faremos?
Seguirei,
Seguirá
Ou seguiremos?



Silêncios


(para ler ouvindo "Epilation en do Mineur")



Meu silêncio não me basta e seu silêncio me constrange. É dele que surge um vão, aquele vão entre as nossas mãos, nossas vontades, nossos sonhos. É por ele que nos rendemos à monotonia, ao que era pra ser dito e fica preso na garganta, difícil de ser engolido.
É pelo seu silêncio, pelo meu silêncio que o segredo que era só meu e um outro qualquer, que era só seu, vira nosso. É por ele que nos tornamos mais frios e distantes, mais quietos e vacilantes. Rendemo-nos às bocas caladas, a um desfile de dúvidas e de "talvez" que nos açoita em noites insones.
Pelo silêncio que fazemos perdemos nossa suavidade, nossa doçura sagrada de cada dia. Viramos expectadores de nossa vida, sem ações para mudar o fim da história, se é que há história.
Deixamos nos levar pelos ritmos de buzinas no trânsito febril das cidades que vivemos, que percorremos. Perdemos nossas direções pelas mãos trêmulas que seguram quaisquer volantes. Perdemos nossos desejos de amantes de nós mesmos e da vida.
Pensamos dançar um tango argentino em plena praça Paris, mas nos sobrou apenas acordes soltos do que seria uma sonata.
Sonhamos voar com o arrebol, mas esquecemos de tirar nossos pés do chão, de alimentar nossos sonhos com doses de coragem e já que perdemos a noção da hora, acreditamos que junto com o tempo nós também passamos e nossas vidas vamos levando em silêncio.

Afinidades




Traçamos padrões para os nossos dias e nos desesperamos quando tomamos outra rota.
Essa incessante busca pelo controle de tudo, de nossas vidas, nossas ações e sentimentos torna-se doentia. Nos deixa cansados e sem aproveitar o que há de mais precioso: nossa vida.
Buscamos pessoas que sejam parecidas conosco, para que tenhamos assuntos, tracemos planos. Chamamos isso de proximidade, afinidade. E a valorizamos extremamente.
A bailarina sonha com a música perfeita, onde encaixe seus passos ao som cuidadosamente marcados pela sintonia, pelo ritmo que a conduzirá.
O palhaço busca o riso da plateia. Faz piada e dá cambalhotas. A brincadeira tem que vir bem montada, entrar no coração do expectador para afastar as angústias e o fazer rir, momento mágico de entrega e liberdade, onde rir passa ser não só o melhor remédio, mas a maior necessidade.
A moça da janela sonha com a perfeição. Quer ver chegar pelo caminho seu príncipe, sem defeitos, sem erros, desenhado dentro de tudo aquilo que ela própria classifica como o melhor.
Cada um deles, cada um de nós, na verdade, esquece-se que melhor do que essa afinidade padronizada e encantada que se busca é a surpresa do descobrimento, de desvendar o novo e fazer com que ele faça parte de nós, de modo que já não seja só desconhecido, mas parte de nossa essência.
O que vale não é fazer com que os outros se encaixem em nossos perfis forjados a ferro, a fogo e a nossos gostos. O segredo é fazer com que coisas diferentes se aproximem, que opostos, realmente se atraiam, que a flexibilidade e a compreensão sejam as peças fundamentais de nossa existência, facilitando a nossa convivência e a nossa construção da felicidade.
O importante é a gente saber receber o que o outro tem para nos dar e nos doar ao máximo, para liberar espaço para nosso próprio crescimento.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ao que está por vir



Não, eu não sou tão apressada quanto pareço. Tenho tempo pra você. E sempre terei. Minha agenda parece lotada, mas na verdade não passam de vãos, esperando que você apareça com esse sorriso, com essa cara de quem tem saudade, com essa voz que faz o coração tremer. Meus vãos esperam por suas mãos para os preencher.
Sim, eu espero por você. Todos os dias. Às vezes sem dar conta, como país que estás prestes a ser invadido, mas crê que o inimigo dorme à noite. Outras vezes, eu espero muito, como a criança na janela, olhando para o céu, desejando ver o trenó do senhor Noel.
Desejo sua chegada em minha vida de várias formas: delicada como uma flor, surpreendente e leve, deixando o seu cheiro no meu casaco depois daquele abraço. Pode ser uma chegada meio morna, com seu hálito quente no meu pescoço, na tarde dourada de um outono ou pode ser uma chegada festiva, com balões e música, de parar o trânsito e me tirar o fôlego. O que precisa entender é que eu desejo a sua chegada, seja lá como ela for, seja lá quando ela for, mas não demore. Sou inquieta de natureza e posso me distrair com outras coisas e deixará de ser tão desejado, poderá ser tarde demais.
Quero que me traga flores de vez em quando, mas que me afague sempre. Quero que esteja sempre em uma distância segura: nem tão perto que eu possa lhe machucar com meus espinhos – naturais em todas as rosas, mas chamados de defeitos nos humanos – e nem tão longe que possa cortar meu coração com as lâminas afiadas da saudade. Quero sentir a sua ausência de modo suave, para que ela possa ser aplacada em um abraço que pare o mundo e que nos desligue de todos os problemas lá de fora, que insistem em nos atormentar.
Vamos rir juntos. Você deve ser bom nisso. Faça piada de meu cabelo desgrenhado pelo vento, do esmalte descascado nas unhas, das buzinas enlouquecedoras do trânsito. Presenteie-me com o seu bom humor assim como eu lhe entrego o meu. Deixe as carrancas para os artesãos e as tradições populares.
Cante. Pode desafinar. Eu também não sou uma diva pop. Mas temos que ter uma música para cada momento, construindo o filme de nossas vidas. Elas nortearão nossas lembranças se um dia nos perdermos no tempo, no vento, na vida, de nós mesmos.
Faça de mim a sua companhia mais agradável em dias de chuva. Mas aceito passar algumas horas de longe, sentada, lendo um livro, tomando um bom café e ouvindo um blues enquanto você se contorce vendo o seu (com sorte o nosso) time jogando na TV. É que eu não gosto da TV, mas um filme, um vinho, um cobertor e você já será o melhor programa da semana, desses de horário nobre.
Diga-me algumas mentiras, dessas que os homens contam, do tipo: “não, não vamos nos atrasar se resolver trocar de roupa pela quinta vez” ou ainda “sim, ela é linda, mas você é mais!” eu vou saber que é mentira, mas ficarei feliz em saber que tenta me agradar e tranquilizar.
Dê-me seu ombro quando eu quiser chorar, sua mão pra eu segurar e seus pés pra eu seguir. Quero fazer de seus olhos os meus faróis e de seu colo o meu alento e segurança. Não me deixe sozinha. Não me deixe no escuro. Não me deixe na madrugada. Eu tenho medo das criaturas que habitam as noites roubando nosso sono, nossos sonhos, nosso sossego.
Não seja sempre certinho: adoro flores roubadas do jardim do vizinho, um leve porrezinho, uma fugidinha no meio da tarde. Deixemos para ser politicamente corretos com os outros. Podemos nos dar ao luxo de sermos divertidos de vez em sempre em nós.
Sejamos sinceros, eu, você, nós. Que nossas palavras sejam medidas, certeiras, firmes e verdadeiras. Não gosto de rodeios. Não gosto de círculos que não nos levam a lugar nenhum e me perco em labirintos, então, sejamos lisos.
Ah, e não demore a chegar. O coração já anda aos pulos, ele não sabe esperar, e a cada dia põe-se à janela, a espiar por onde andas. Ele ainda não sabe de onde vem, quando vem ou que cheiro tem, mas está pronto para reconhecê-lo no meio da multidão e o aguarda, quente como um vulcão, aberto em emoção.

sábado, 27 de outubro de 2012

Flores de Libertar

              *** Hoje nem vou postar um texto meu. Depois de muito tempo postando só coisas autorais, hoje vou postar um texto que foi feito pela minha MÃE! Pois é, ela escreve também! ***





              Do muito que falo, faço ou escrevo só nas entrelinhas estão meus segredos e aos sábios de mim, o reconhecimento daquilo que realmente sou eu.

              Embora eu nada queira senão a minha tão sonhada liberdade, que ela nunca seja castrada e seja sempre preservada...

              Sou de ir e vir,de ser e estar, de chorar de rir e rir de chorar... de ter e ser todinha eu, minha só minha e de mais ninguém. Sou
 de amar, de me dar dar, me perder e me achar, mas não sou de julgar, de reprimir ou processar, sou de voar e lá das alturas me atirar, sem medo de me quebrar...

          Sou de nuvem, de ar, de sonhar, não fui feita pra me desmembrar, sou inteira num eterno sonhar...

           Não sou tua, não sou minha, não sou de coisa alguma e nem de nenhum lugar. Sou apenas eu, de um verde no olhar pra esperança mostrar, de um rápido caminhar pra nenhum lugar. Mas certamente vou chegar, vou estar lá onde sei que vou me encontrar, mas enquanto isso vou me perdendo e me achando pelo fascínio que é viver de sonhar semeando flores de libertar...


(escrito em 29/07/2012...Edna )

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Et maintenant on va où?







Agora pega esse seu colo que, eu um dia foi só meu e que emprestei para tantos outros que não souberam o que fazer com ele, e faze-o o seu ninho.  Aconchega nele não só sua cabeça, mas seus pensamentos, seus sonhos, tudo aquilo que ainda quer fazer e não sabe por onde começar. Toma esse colo como seu porto seguro, seu ponto de partida e de chegada. Faz dele a base para que possa sair, se aventurar e ter pra onde voltar.
Agora toma essa mão que estava em desatino, pensando que vagava em solidão e faz dela a sua companhia, seu fio condutor, seu apoio nas horas mais frias, nas noites mais escuras. Toma dela todo o carinho que puder escapar pelos dedos a enrolar em seus cabelos, a correr-lhe pelas costas largas e a contornar seu rosto, como quem desenha uma moldura para uma tela de encantamento.
Agora toma das palavras que só podem sair de sua boca e explica-me para onde vamos. Diz-me que rumo tomaremos, ou faz melhor e brinda-me com suas histórias que já me parecem tão minhas, por mais que sejam de um mundo completamente alheio ao meu.
Agora ignora o tempo que corre lá fora, que faz com que o dia rompa a barra da noite e que o sol brilhe por trás das nuvens e explica-me como foi que nossos caminhos se cruzaram. Explica-me como minha estrada torta e sem sinais me levou para você, atalho ou desvio, caminho ou descaminho, por onde meus pés agora percorrem e se perdem em rastros de admiração tão sublime e repentina.
Diz-me em que lugar nossas almas já haviam se cruzado, porque nossos olhos apenas se reconheceram e brilharam no meu sem fundo de anseios e receios. Diz-me o porquê de eu achar que as letras de um livro, por mais distantes que estejam, se embolam e se encontram quando a capa se fecha e por quê eu tenho a certeza de que somos palavras de um mesmo livro.
Se puder, sem medo, revela-me como é essa magia de nos surpreendermos a cada dia com o novo que nos parece já ser conhecido. Mostra-me como andar sem temer o próximo passo, sem pensar no que estar por vir. Se puder, ensina-me a andar simplesmente pelo prazer de se trocar os passos, sem esperar chegar, mas tendo a certeza de que algo sempre está por vir.

(Et maintenant on va où? - E agora, onde estamos indo?)


Salvação




E quem disse que o que buscamos é salvação?

Quem foi que disse que quero adiamentos?

O que eu quero não dá pra esperar e nem é pra ser só agora.

O que eu quero vem longe, de tempos idos, 

O que eu quero está no futuro, em dias ainda desconhecidos.

Dorme que o sono te salva: te engana dizendo que vai curar, que vai passar.

Dorme que o sono adia: adia a agitação, a euforia.

Mas asseguro: o sono não vai trazer aquela felicidade que foi ver raiar o dia...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O que comemorar?



Muito mais do que vocação. Muito mais do que profissão. Muito mais do que romance ou poesia. Muito além (na verdade seria aquém?) do que se espera por carreira bem-sucedida. Muito mais do que um discurso ou uma ideologia.
Ser professora, para mim, é, sobretudo, fazer uma declaração explícita de esperança todos os dias. É escrever no nosso quadro-negro – há tempos era verde – e já substituído pelos brancos em algumas escolas uma canção de desejos de um futuro bom.
É uma profissão de fé. Especialmente quando entramos em nossas salas e olhamos fixamente para nossos alunos. A cada bom dia que eu dirijo a eles faço, na verdade, uma oração, onde entrego a eles todos os meus desejos de que saiam dali diferentes de como entraram, fazendo valer a aplicação do mito do rio. Com alguma coisa apreendida, com seus sonhos renovados, com expectativas melhores, com vontade de se tornarem melhores e de crescerem. Eu creio, todos os dias, que faço o meu melhor. Creio, todos os dias, que um dia isso será reconhecido. Que deixarei uma marca, por menor que seja na vida deles.
Ser professora é não importar-se tanto comigo mesma. É ir ao cinema e pensar em como levar aquele assunto para a sala de aula. É estar tomando um café e procurar desesperadamente por um pedaço de papel para anotar um insight que acabei de ter e que pode tornar a aula melhor. É passar a noite corrigindo provas, levar o trabalho pra casa, dormir com o trabalho, acordar com o trabalho e acreditar que isso vale a pena.
Ser professora é saber que temos a profissão mais nobre do mundo, já que formamos todos os outros profissionais e é ter o coração partido a cada dia quando não temos o nosso valor correspondido. Não aqui, nas terras tupiniquins. Não aqui nas escolas que insistem em dizer que a jornada dupla pode ser uma das vias de se aumentar o salário, que beira o mínimo, o risível.
Ser professora é olhar para o futuro e saber que lá na frente eu terei passado pela vida de um profissional competente, que ele exercerá sua função com amor e que me terá em sua lembrança.
Afirmo que é imensurável a alegria de presenciar uma formatura de um aluno, de vê-lo trilhar os caminhos do sucesso profissional. Mais que isso, é vê-lo se voltar a você e agradecer o conselho, o ensinamento, o ralho, o afago, o riso e a companhia.
Sou professora porque escolhi. Sou professora porque amo o conhecimento e ajudar a construí-lo é fundamental para o crescimento dos homens. Sou professora porque ainda acredito nas pessoas. Acredito que juntos podemos mudar. O começo já nos foi dado: a história está no meio, mas o enredo a gente altera, o final a gente cria. O mundo a gente muda mudando a nossa mente e eu posso ajudar nessa construção, nessa reflexão, nesse exercício.
Sou professora porque não há outro modo de dizer ao mundo como eu o amo, como eu o quero bem e livre de jugos e opressões. Sou professora porque recebo o melhor de todos os salários: o prazer de ver os meus alunos realizados num futuro muito próximo e de ter a certeza de que tudo isso vale a pena.
Sou professora, principalmente por reconheço que não há um sacrifício quando o encaro no seu real sentido de sacro-ofício, mas não posso deixar de me entristecer com o desrespeito que me é cabido, especialmente pelos governos que gerem a educação e às escolas particulares que seguem a mesma baila.
Sou professora porque sonho com o dia em que através da luta seremos tratados dignamente, valorizados e respeitados. Sonho com o dia em que o alicerce da educação seja reconhecido e que possamos, assim, construir os pilares de um país melhor, livre se suas politicagens e seus joguetes que ainda tentam manter a educação abaixo do desejável para evitar que as mentes críticas e pensantes se voltem contra a estrutura enferrujada e carcomida que insiste em nos manter prisioneiros de sistemas absurdos.
Sou professora porque sonho. Porque luto. Porque amo.

Aos amigos que como eu se tornaram professores, guerreiros, bravos e que acreditam, como eu, que podem mudar a estrutura em que estamos, um feliz dia dos professores
Aos meus professores, dos quais nunca me esqueço, que souberam me aturar, me encorajar e serviram de espelho para que eu abraçasse a carreira com dedicação e afinco, desejo um feliz dia dos professores e agradeço pela paciência.
Aos meus alunos 1: que já passaram por minha vida, que se tornaram meus amigos e que hoje me privilegiam com o prazer de dividir com eles a minha história e que dividem as suas comigo. Obrigada por fazerem parte da minha vida!
Aos meus alunos 2: que estão na minha vida, que alegram os meus dias, mesmo sendo os mais bagunceiros de todos, que me dão motivação e me fazem querer melhorar a cada dia. Obrigada por serem luz para os meus olhos!

domingo, 7 de outubro de 2012

Eleições



Juiz de Fora, dia de eleição para prefeito e vereador, 2012.

Domingo. Sol, calor, dia bom de ir à praia. Eu fui às urnas.
Acordei às 4:30 da manhã, saí do Rio de Janeiro, onde os fervores pro causa do pleito estão à mil, e vim para Minas Gerais só para votar.
Escolhi cuidadosamente meu candidato a vereador, um amigo já de longa data, historiador, professor e cuja minha preferência nunca foi velada e meu voto nunca foi secreto: meu vereador é o Jucélio – 40013.
Sou defensora das eleições. Acho fundamental que votemos. Fico indignada com as pessoas que não votam, compro uma briga feia, ideológica, seja lá com quem for só pra dizer que acredito nas eleições e na mudança pelo voto.
Não sou analista política, nem me prendo mais aos quadros que se passam nas cidades, mas agora, já quase às 20h, encerraram-se as apurações em Juiz de Fora e o resultado me deixou absolutamente descrente.
Tenho cada vez mais a impressão de que o caso de Juiz de Fora – que sempre qualifiquei como sendo tacanha – é bem mais grave. É falta de consciência política, de senso crítico. Tivemos algumas renovações na Câmara de vereadores, mas alguns daqueles que se mantiveram – e que ganharam uma quantidade enorme de votos – é o reflexo de que o cidadão juizforano ou é completamente masoquista  ou acomodado. Reeleger nomes que votaram à favor de aumentos absurdos em IPTU, passagens, dos próprios salários é demais pra mim.
Faço esse post por indignação. Precisava falar o quanto fiquei insatisfeita com o que se deu nessa cidade. Com o resultado das tais eleições.
Platão disse que “o preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”, mas na minha cidade o preço a pagar por gente que vota é ter que passar quatro anos sofrendo com mandos e desmando e joguetes políticos que só beneficiam os grupos de lideranças econômicas e as famílias já estabelecidas nesse podre poder político que se desenha por aqui.
Estou cansada, decepcionada e reflito sobre uma série de conversas que já tive por aí sobre os votos nulos, brancos, a obrigatoriedade de votar e o preço que pagamos pelas más escolhas.
Anulei meu voto para a prefeitura porque não acredito em nenhuma das propostas e candidaturas, ok, deixei de opinar? Pode ser... mas pode ser também porque sei bem onde isso vai chegar.
 Votei em um amigo em quem acredito para vereador, sim! Estou orgulhosa de ele ter chegado lá e realmente creio que ele fará valer meu voto e que vai tirar esse amargo que fica na boca quando vejo que o povo ainda é tacanho, ainda é acomodado, ainda não sabe escolher...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Entreguismo





Um dia deixamos, inocentemente, que nos disséssemos o que fazer.
Acreditamos que aquele homem que se julgava melhor que nós, a grande maioria, fizesse com que a mentira que havia criado se tornasse uma verdade. Achamos graça quando ele mesmo, mais tarde, chegou a dizer que uma mentira dita cem vezes se torna verdade.
Fomos ingênuos ao dar ouvidos a ele. Na verdade, nossa ânsia de ter dias melhores acabou por nos levar a crer que havia entre nós pessoas melhores. Que uns fossem mais capacitados que os outros e que, por isso, poderiam se sobressair e com certa propriedade até oprimir.
Deixamos nossos olhos cegos diante da cobiça. Calamo-nos diante do primeiro homem que se levantou e proclamou orgulhoso: “Isso é MEU!”. Chegamos a aplaudi-lo pela sua coragem. Encolhemo-nos em nosso medo, em nosso comodismo.
Assistimos passivos à construção de mecanismos e sistemas que prometiam melhorias, avanços, progressos e maravilhas infindáveis para nossa vida. Sonhávamos com facilidades, com diminuição de distâncias e de perigos. Buscávamos um horizonte mais belo, um futuro mais tranquilo e um lar mais bem provido para nossos filhos e netos.
Aceitamos que grades fossem colocadas em nosso entorno para a nossa segurança, pensando que estar preso é que era ser seguro, deixando o perigo lá fora, no mundo que era, naturalmente, maravilhoso, naturalmente o NOSSO espaço e lugar de vida. Prendemo-nos espontaneamente em nossas próprias amarras invisíveis que criamos para dar a falsa sensação de segurança.
Depositamos nossos conhecimentos em livros que nos foram proibidos. Guardamos nossa sabedoria em estantes e agora ela jaz empoeirada, sonhando com nossos olhos que deveriam percorrer aquelas linhas e com as bocas que deveriam espalha-la a toda gente.
Fomos capazes de dizer que um pedaço de papel seria mais importante que a dignidade, que ele poderia ser a chave de tudo, senão de todos, já que aceitamos alguém dizer que “todos têm o seu preço”.
Não criamos o mercado. Tornamo-nos mercadoria. Vendemo-nos a cada dia pelo pão de cada dia e somos infelizes. Continuamos tendo fome, mesmo depois do jantar farto. Já não nos reservamos tempo para os que amamos. Andar pelas ruas e ver a lua é coisa rara. Não temos mais tempo. Perdemos tempo vendendo-o.
Caminhamos a passos largos para aquele que pintamos como sonho dourado e que se mostra lamacento. Seguimos pelas rotas rotas e esfarrapadas que tentamos enfeitar e que já não surtem tanto efeito quanto no início. De alguma forma, aprendemos a ver a nossa desgraça sagrada de todas as manhãs quando acordamos antes do sol nascer e nos enfurnamos em nossos afazeres obrigatórios dos mais de vinte dias produtivos de cada mês. Fazemos uma prece engolida com café amargo misturado com nosso próprio amargor todas as noites em que chegamos em casa depois que o sol se foi e, novamente, nos afundamos em nosso travesseiro comprado na liquidação.
Já não somos mais os senhores de nós. Somos nossos escravos. Somos ao mesmo tempo o carrasco e o penitente. Desenhamo-nos como criador e criatura e nos perdemos entre os tons de cinza, bege e preto que escolhemos como as cores de nossas cidades. Perdemos a fé em Deus e em nós mesmos.
Estamos em penúria. Por mais que os bolsos estejam cheios a alma anda vazia. As casas têm suas luzes acesas, mas falta calor. Os bares estão cheios, mas falta o amor. Os livros são escritos, mas não atentamos para o conteúdo. Somos robôs programados para um futuro que sonhamos e que ao mesmo tempo em que o construímos, paradoxalmente o destruímos, em uma lógica inversa daquela que traçamos em nossos planos.
Estamos definhando. Nosso fim não está próximo. Ele está acontecendo. Devoramo-nos a cada instante. Comemo-nos de garfo e faca no almoço e jantar e nos engolimos com fel cada vez que nos martirizamos para manter essa roda do progresso girando, cada vez que trabalhamos naquilo que não gostamos, cada vez que nos desgastamos em nome de algo que já não acreditamos.
Não, não há esperança. Tornamo-nos nossos algozes. Esfriamos. Ficamos cruéis. Não precisamos de lareiras, mas de humanidade. Não precisamos de grandes máquinas, mas de afeto. Nosso mundo não vai parar em lugar algum: ele está parado, estagnado em nossa arrogância e solidão. Gritamos em silêncio. Choramos sozinhos. Assistimos nossa derrocada de camarote e fingimos não ver o nosso fim.
Precisamos de lentes ou de um baque mais forte?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Quem é que paga?



O que fazer quando chega o tempo de já não ir mais ao café, aos bares, aos parques, à rua?

O que fazer quando o que parece restar é uma saudade do que ainda está por vir que se baseia na saudade do que se passou e na vontade de acelerar o tempo pra ver tudo dar certo, ainda que a certeza seja a partida?

Um café com cointreau já perde seu sabor.

As folhas do outono parecem não parar de cair, por mais que seja primavera lá fora. Parece que o inverno se instalou aqui no peito e que o verão não vai chegar. Parece que vai sempre faltar uma andorinha, que foi voar mais longe, mais alto.

No fim de tarde, um por do sol e as ondas batendo lá em baixo, nas pedras. Aqui dentro o que bate é o tic-tac do relógio e seus passos apressados rumo aos dias desconhecidos. No meio da tarde vem um gosto de medo, porque temos a mania de temer o desconhecido. Porque temos medo de que ele, o amanhã, não seja belo. Seria ele um filme ou uma aquarela, ah, esse futuro que teima em não se revelar para nós antes de seu tempo... e esse seu tempo que teima em não ser o mesmo que desejamos, que teima em ter a sua dinâmica própria...

Ah, se já perdemos a última sessão, se não temos mais a menor noção das horas, nos resta escolher uma canção, daquelas bem suaves, bem leves, que tocam nas trilhas sonoras dos filmes, dos tantos que já vimos, dos tantos que ainda vamos ver. Cantarolar essas canções fará o tempo parar, com sorte, até voltar: nossos momentos desfilarão em nossos olhos como em flashs e virá o riso.

E quando voltar a acalmar o peito, quando o susto das idas e vindas e dos passos em desalinho passar, voltaremos aos cafés, mas uma pergunta ainda ficará: e a conta da saudade, quem é que paga?