Visitas da Dy

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Desejos II



Entre tantos desejos que tenho e que escrevo cuidadosamente em uma lista para não esquecê-los e ter o prazer de relembrá-los depois de satisfeitos está você.
Você compõe uma lista separada, de outros pequenos desejos, de pequenos momentos que juntos farão uma história. Tão bonita e feliz como qualquer outra. Tão cheia de dificuldades e alguns problemas como qualquer outra, mas será diferente e leve porque teremos um ao outro. E esta será a nossa história: única, com brilho, com companheirismo e perpetuada em nossa pele, marcada pelas nossas emoções.
Tenho desejos de acordar na segunda-feira e ter você ao meu lado, primeira visão antes de encarar o despertador. Isso vai me encorajar pelo resto da semana. Vai dar forças pra vencer o engarrafamento, a correria do dia e o almoço fora de hora. Vai ser incentivo para sair da crise do eu-nã-vou-dar-conta e voltar para casa.
Quero sentir o cheiro bom do café invadindo as narinas, enchendo a casa enquanto misturo as minhas especiarias à bebida que vai aquecer nosso dia e embalar nossa conversa e até o nosso silêncio, necessidade urgente de pessoas que já se conhecem e dividem tantas coisas.
Vou ter o trabalho de ler as matérias que me agradam e que poderiam lhe agradar, ou algumas que levantariam um bom debate entre nós antes do jantar. Será ótimo ver como seus olhos brilham diante de conversas interessantes, de debates sadios.
Irei me derreter cada vez que, por cima das lentes de meus óculos, perceber seus olhos pousados sobre mim, que me perdia distraída nas páginas de um livro novo, enrolada em uma manta na rede da varanda. E mais ainda quando ganhar um sorriso que ilumina qualquer escuridão que eu possa viver.
Desejo que nossas vidas que se cruzaram há algum tempo, continuem assim, emboladas, de maneira que saibamos exatamente quem é um e quem é o outro, mas que já não consigamos deixar nossos fios soltos, para não perdermos a nossa meada.
Quero ganhar cada beijo como o prêmio do vencedor, com a certeza de ter sido a escolhida entre tantas outras e saber que a escolha foi recíproca e verdadeira.
Quero contar, incansável, nossas histórias para nossos filhos e netos e amigos, não nos colocando como exemplos, mas como caminhantes e desafiadores da corda bamba que é a vida, rindo dos nossos medos e equilibrando-me com nossas certezas.
Quero olhar pela nossa janela e nos enxergar no futuro, olhando para trás e agradecendo pelo dia em que nos encontramos nessa vida. Quero ter a certeza de ser feliz porque sei que há muitos amores na vida, mas que só há um amor para a vida toda e que ele chegou diante de meus olhos em uma estação qualquer, num dia comum, mas com a pessoa certa.
Desejo que venha ser parte de minha memória, minha história, minhas melhores lembranças e motivo de meus sorrisos.

Desejo que não seja um capítulo de meus livros, um personagem de minhas linhas ou um herói inatingível, mas o amor tangível, real e sentido todos os dias enquanto houver ar em meus pulmões, sangue em minhas veias e brilho nos meus olhos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Parecia Outono


Parecia outono. As janelas estavam completamente abertas, deixando entrar a luz do dia.
Parecia uma manhã. Bem cedinho, quando o sol ainda não se levantou por completo da cama e só sentimos o clarear de raios que ele despreguiçou.
Parecia um dia de domingo. Desses que não se tem compromisso algum a não ser com o nada-pra-fazer.
Parecia uma moça comum. Que tomava seu café requentado, comia seu pão com manteiga e levava os dias como todo mundo.
Parecia. Só parecia. Na verdade, não era nada disso.
Já era inverno e o frio caia, entrava impiedoso pelas janelas escancaradas, que ela não queria fechar porque contemplava o dia. Para se aquecer usava casaco de lã e touca e ria com o vento que desgrenhava seu cabelo e cortava os lábios.
O dia já se ia alto, a tarde caia sobre as poucas flores do jardim que desafiavam a estação gelada. O tempo parecia calado, absorto, compondo uma paisagem quase fotográfica, inerte.
Não era domingo, nem sábado, nem nenhum dia de folga. Era mais um dia corrido como os outros que desfilam em nosso calendário, mas ela resolveu dar uma pausa para o dia e para si mesma. Riscou os compromissos da agenda e entregou-se ao ócio, à contemplação da paisagem que se desenhava diante de sua janela.
Podia até se parecer com uma moça comum, mas tinha traços bem peculiares que lhe davam ares de mistério, de riso (quase Monalisa!), de alegria e até melancolia, bem no fundo dos olhos. Definitivamente não levava a vida como os outros. Acordava todos os dias com uma vontade imensa de mudar a si e ao mundo, de amar mais e outra vez e se recusava a acreditar que as coisas iriam mal para sempre.

Pareciam coisas que já haviam sido ditas e pensadas, mas ali, no meio daquele dia em que se deu uma pausa no tempo para deixar o frio entrar pela janela da casa vazia tornaram-se companhias para a reflexão do que seriam os próximos sóis de outono, inverno ou primavera que todos verão.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O que a boca não diz



Há muito estabeleceram uma relação de confiança entre si. Eram dedicados, alguns diziam até devotados. Havia um ar de cumplicidade entre eles que chegava a incomodar quem os rodeava e não entendia muito o que se passava.

Pautavam-se muitos de seus momentos no silêncio. Não precisavam mais usar as palavras. O silêncio de cada um deles dizia muito e mais, coisas que a boca simplesmente não conseguia exprimir: ou porque não conhecia as palavras ou porque gostavam de deliciar-se com as palavras silenciadas como quem degusta um manjar divino.

No silêncio que às vezes, faziam conseguiam entender melhor a si mesmos. Era como uma experiência de reconhecimento. Acreditavam que ficar em silêncio com o outro era um momento mais mágico, mais especial do que quando as palavras saiam desenfreadas, soltas, sem sentido, atordoantes.

Era um silêncio aconchegante, acolhedor, envolvente. Era a prova de que as pessoas podem ir mais e além quando encontram quem as entende, assim, sem que fossem necessárias verborragias.

Conseguiam, em silêncio, contemplar o vento bater nas folhas, uma obra de arte de séculos passados, uma música mais harmoniosa. Com o tempo, achavam que o silêncio poderia ser melhor do que qualquer palavra e passaram a reparar um no silêncio do outro, decifrando tudo o que a boca dizia quando calada.

Era possível entender as lágrimas de um sufocadas num soluço noturno sem que uma palavra fosse dita. Era possível ver a grandeza do mundo e a pobreza das tantas palavras que conheciam diante da falta de sutilezas para expressar todo o sentimento.

Com o passar do tempo, aprenderam a jogar esse jogo de conhecimento e desconhecimento que era marcado por suas palavras, mas em muito, pelos seus silêncios. Perdiam-se neles. Perdiam-se em uma aura de amor, cumplicidade e companheirismo que dispensava as palavras, porque ninguém jamais entenderia. Porque, por vontade própria, diante de tal relação, até as palavras escolheram se calar, amando-se num cochicho, num sussurro até chegarem no silêncio pleno, completo de coisas que a boca não dizia.

domingo, 23 de junho de 2013

Liberté


Separe-se da lua!
Deixe que os lobos se enamorem dela.
Rompa seus laços, como o dia rompe a noite.
Beba do próprio veneno e veja como é causar a dor.
Sinta seu sangue pelas veias e o veja cair no chão
Gota a gota.
Deixe o canto para os pássaros,
Deixe as luzes para as estrelas.
Sinta o vento que lhe corta a pele:
É tudo o que lhe restou.
Perca-se na névoa, como lama que vaga perdida.
Aprenda um pouco do que é ser profundo.
Coloque seu próprio dedo na ferida.
Veja que não é impossível,
Só é diferente,
Mais vazio,
Mais sozinho,
Mais frio.
Quando não lhe restar calor,
Quando perceber-se carta de um baralho não usado,
Quando o tempo parecer estagnado,
Pule!
Jogue-se no mar,
Solte-e no espaço,
Corte as amarras.
Vai doer e todos sabem disso.
Vai ser lento e só você irá sentir.
Vai ter cura com o que chamam de tempo.
Vai ser triste como todo adeus,
Mas corte as amarras
E aprenda a caminhas com seus próprios pés.
Aprenda a viver consigo mesmo.
Aprenda a voar com as suas asas:

Sua queda será também o seu impulso.

Doação



Ela poderia até acreditar em horóscopo. Poderia ser dessas que confere o que os astros revelam para ela todas as manhãs, mas escolheu o lado prático. Não tinha lá muito tempo para essas coisas de estrelas.
Ela poderia ser do signo de Peixes e dizer que se doava assim para os outros em função da influência da astrologia. Esse discurso estava na moda. Sempre na moda.
Naquela manhã ela até pensou em ler as previsões do dia ou da semana, só para quebrar a rotina. Ia desprezar o caderno de política, economia, cultura educação e tal. Pensou em permitir se encontrar nos blá-blá-blás nossos de cada constelação, mas logo isso passou.
Sabia que não era de Peixes. Sabia que o signo era outro e já havia lido muito sobre isso. Sabia até qual era o seu ascendente. Em alguns tempos ela até pensava sobre a ideia de se ter um planeta regente, mas gostava mesmo da ideia de ter um planeta para si: e, se ela pudesse sair desse mundo e dar uma volta em Plutão? Observar o planeta azul lá de longe, dos confins, da escuridão? Deveria ser divertido....
Se ela ainda se deixasse acreditar nessas influências, talvez, faria sentido quando alguém a chamava de volta à Terra, solicitando a sua partida do mundo da Lua imediatamente.
Mas ela não acreditava em nada disso. Ela só acreditava em três coisas: nela, no amor e na doação. Em cima dessas três palavras vivia seus dias a trancos, barrancos, atropelos e acertos.
Tinha o hábito de acreditar em tudo o que fazia. De sonhar mais alto, de traçar os planos sem régua nem compasso, buscando originalidade e apostava as suas fichas nesses riscos.
Amava. Ela julgava amar demais. Era julgada por amar assim. Algumas vezes era chamada a deixar de lado a sua fé na vida, a sua alegria e a viver de modo mais condizente com a sociedade. E ela detestava isso. Não conseguia entender como as pessoas poderiam viver sem amor.
Ela amava demais. Chegava a transbordar pelos olhos. Chegava a encher a boca cheia de dentes e sorrisos e a empurrar-se goela abaixo daqueles que ainda cultivavam o desamor. Ela amava tanto que sentia o peito doer. Amava ver o dia nascer e as cores que o céu ganhava com a chegada do sol. Amava o cair da noite, o soprar dos primeiros ventos mais frios da madrugada, as estrelas luzindo, risonhas, e compadecendo-se da Lua tão solitária e apaixonadamente brilhante e paciente no céu, aguardando anos por um encontro rápido e lindo com o Sol.
Ela amava as pessoas. Especialmente as que a rodeava. Amava o cheiro delas em suas roupas depois de um abraço. O cheiro de café que entrava pelas narinas toda vez que ela tinha boas conversas sem hora pra acabar. Não abria mão de olhar nos olhos e reparar bem no brilho que eles tinham. Amava o brilho dos próprios olhos quando o telefone tocava e era pra anunciar uma saudade. Ela amava. Era demais. E por isso se doava.
Doação. Muitas vezes essa palavra nem estava na ordem do dia, mas ela, sem se dar conta, doava-se. Abria-se para os outros como um livro abre-se ao leitor, expondo suas entranhas, deixando-se ver como uma fratura exposta deixa a carne aberta. Ela rasgava o seu peito todas as vezes que alguém o solicitava. Sim, ela sentia dores. Ninguém abre o seu peito e tem o coração pulsando nas mãos dos outros sem sentir dores. Sem mágoas, sem decepções ou ressentimentos. Ainda que esses fossem consigo mesma, mas ela não se cansava. Não conseguia parar de doar-se.
Já tinha jurado solenemente que pararia de estar sempre disponível, sempre ao alcance das mãos, ao alcance de um telefonema, de um chamado, mas era inevitável. Era partia disposta a colaborar seja lá que horas fosse. Seja lá para quê fosse. Ela se doava.
Jorrava de seus atos um quê de necessidade de agir assim. Era maior do que ela, como se ela fosse uma fonte abundante e inesgotável de dedicação, de atenção, de carinhos e presteza. Como uma fonte, transbordava e escorria por veios diversos, deixando-se beber por quem precisasse, por quem assim o desejasse. Ela doava o seu amor, a sua confiança em si e nos outros.

Ela bem que poderia ser do signo de Peixes. Bem que podia ser de qualquer outro, mas há muito tempo, decidiu ser do signo do bem-querer e assim, deixava-se iluminar pela luz que saia de seus próprios olhos quando era feliz e, ao longo de seus dias, já havia aprendido a ser feliz mesmo quando se sentia triste.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um filho teu não foge à luta


Nos últimos dias o Brasil parece estar, de fato, vivendo o que se é cantado em nosso hino nacional.
Ouviram não só do Ipiranga, mas em várias partes do território nacional, o brado retumbante de um povo. Um povo cansado, exausto de ser explorado, indignado com a situação social, política e econômica do país, em seus estados, em suas cidades.
Colocamos o nosso braço forte nas ruas, lutando pelo nosso direito à liberdade, ameaçado pela inconstitucional medida proibitória dos manifestos em muitos municípios. Abrimos o nosso peito, desafiamos esse sistema, ainda não com mortes, mas já às custas de muita dor, prisões e sangue.
Não! Não é por "meros vinte centavos". É porque temos uma pátria amada, idolatrada e a queremos salvar! Os “míseros vinténs”, já apontados em comentários infelizes, foram as últimas gotas d’água em um enorme caldeirão que estava em banho-maria e agora é fervilhante, que chamamos Brasil.
Brasil, sua juventude voltou a ter um sonho intenso, como aqueles jovens que eu vi em reportagens, documentários, fotos e vídeos do período da vergonhosa ditadura militar que dói aguda na nossa história. Somos iluminados por um novo raio vívido, com amor e esperança em nossa juventude, por nossa terra, que sob o seu céu azul ou debaixo de chuva ou ainda sob o gris que se fez com as bombas de gás lacrimogênio e efeito moral, não arredaram o pé das ruas, não correram com seus ideais, guardando-os em suas mochilas.
Somos gigantes por natureza e por vontade e acordamos! Vimos que diante de toda a nossa beleza, querem à força, nos fazer engolir sapos, impostos, contas a pagar de uma Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas que, salvo alguns poucos ganhos, nos renderam morar nas cidades mais caras do país (nesse momento falo da segunda cidade com o custo de via mais alto, o Rio de Janeiro, que só perde (?) para São Paulo).
Somos um povo impávido e por isso afirmamos que não queremos que os estádios sejam os nossos colossos. Queremos, sim, que o nosso futuro espelhe a nossa grandeza e queremos nos orgulhar disso e clamamos por respeito, dignidade e atenção: é mister que nossos políticos revejam os seus conceitos e invistam em todos os nossos públicos: saúde, educação, transporte, justiça.
Não ficaremos mais deitados no berço que nos foi prometido como esplêndido, mas que acabou sendo de vime e folhas de bananeiras – Yes, nós temos bananas! – só para combinar com nosso clima tropical.
Cansamos de ter a nossa  imagem (inter)nacional sendo vinculada ao som do mar azul, do bom samba e das caipirinhas geladas, como se todos os dias fossem domingos ensolarados. Não é que estejamos cansados do nosso sagrado futebolzinho, mas a nossa seleção (inclusive a de futebol) não é a melhor faz tempo: não temos craques em administração política, não temos grandes artilheiros em políticas públicas. Não conseguimos sequer ter uma justiça que se cumpra no tempo regulamentar, quem dirá ter juízes bem preparados. Ah, e se por acaso sonhamos com substituições para melhorar o time, uma parceria público-privada pode ser pensada: temos muitas empresas privadas querendo lucrar em cima do povo brasileiro e muitas licitações para serem burladas ou, com sorte, apenas com meros beneficiamentos de meia dúzia de três grandes grupos, curiosamente marcados pela letra “x”.
Queremos ser o Novo Mundo: onde a luta é a nossa marca, onde nosso sangue reflita nossos ideais de quem já não consegue mais dormir em paz com tanta exploração, com tanto sofrimento empurrado em nossas goelas diariamente.
Ó, Pátria Amada, deixa que seu povo a salve! Deixa que tomemos as ruas e vejamos o verde-louro de sua flâmula esvoaçar diante de nossos sonhos embalados nas noites estreladas! Abra-se para as mudanças e faça valer a letra de seu hino, onde teremos “Paz no futuro e glória no passado”. Deixa-nos erguer essa clava forte, apoie os seus filhos que não fogem à luta, junte-se a eles, que não temem a própria morte, que fingem que a dor das balas de borracha não são tão grandes, porque perto do amor que têm à sua terra, essa dor é mesmo pequena.
Deixa-se ser adorada, terra minha!
Deixa-se levar pelos rumos da mudança anunciada e acorda para a luta. Desperta para fazer a história e construir o seu novo futuro. Esperar nunca foi saber, façamos dessa a nossa hora para que adiante possamos falar só de flores.

sábado, 15 de junho de 2013

Cores


E o mundo que transparente era
Esperou pacientemente que nasceste
Para tirar de ti as cores mais belas:
Dos teus olhos, primeiro azuis,
Coloriu-se o céu e encheu-se o mar.
Da tua cabeleira loura, dourada,
Espreguiçou-se o sol e roubou-te o calor.
Do teu riso largo, branco e tanto,
Afofaram-se as nuvens, algodões celestes.
E pelo brilho prateado dos teus olhos,
(sempre eles e agora verdes)
Caíram as estrelas e encheu-se a lua.
Foste a aquarela mais completa.
Fonte de inspiração
Da qual o mundo, tomou toda sua graça,
Retirou todas as suas cores.

Aplacou todas as minhas dores.

Afastamento




E quem vai medir o tempo que leva?
Quem se atrevesse a dizer o quanto dura uma dor?
Eu já não sei de mim, nem de você,
Transito em estado de torpor.
Seu silêncio ecoa alto,
Minhas lágrimas rolaram, secaram, mas ainda me salgam.
Ainda falo em teu nome quando recito uma reza.
Ainda me vem o seu cheiro quando falo de amor.
Ainda me arrumo bem bonita esperando você vir me ver.
Preciso ao poucos me livrar da sua imagem.
Preciso me acostumar com a saudade...
Daqui a pouco é noite e vou me embalar em uma miragem:
Longe de você há de ter felicidade.


Não se quebra paradigmas sem deixar cacos



Frente a uma série de pedidos de PAZ nas manifestações que estão ocorrendo no Rio de Janeiro e São Paulo, resolvi falar um pouco do que penso, claro, baseado no que já vivi e no que percebo com relação à mídia, especialmente a televisiva, no Brasil.
Para você, leitor, que chegou até esse texto e que, provavelmente já leu algo nas mídias pedindo a paz nas manifestações, eu tenho apenas um pedido: Descreva manifestação com PAZ, por favor.
Sofremos a repressão do governo em todos os manifestos desde que eu me entendo como militante e falo com propriedade, uma vez que luto pelos diretos (meus e da sociedade) há 14 anos.
Conheço as realidades de Juiz de Fora e do Rio. Já fiz passeata, já parei o trânsito, fui a audiência pública, abracei museu, árvore e já fui da ala dita como radical, quando invadi reitoria, câmara de vereadores, conselho superior da universidade federal. Já sofri com cercos montados pela polícia, já apanhei da polícia. Já tive amigos que apanharam e foram parar na delegacia e, ao contrário do que pensa, NÃO somos VÂNDALOS. Somos apenas CIDADÃOS preocupados com a sociedade e com o estado que vamos deixar esse mundo para nossos filhos e netos.
Longe de mim prestar o papel de defensora os atos de alguns manifestantes que depredaram o patrimônio público, mas convenhamos: um ponto de ônibus quebrado não significa absolutamente NADA frente aos absurdos que nos são expropriados há séculos.
Não sejamos inocentes acreditando que só o voto é suficiente para mudar a realidade política do país. É claro que através dele vamos retratar nosso pensamento crítico e politizado, mas espere um momento: só alcançamos um nível crítico e politizado quando temos, minimamente, uma educação de qualidade, quando os governos aplicam as boas e já tão conhecidas e velhas ideias iluministas de Rousseau: o governo deve REPRESENTAR o POVO e a EDUCAÇÃO é a BASE de toda SOCIEDADE, servindo para despertar justamente esse senso crítico.
NÃO HÁ o menor interesse político em fazer da educação a base de nossa sociedade. E por quê? Ah, meu caro, uma sociedade crítica dá muito trabalho: ela entende quando não é representada e vai às ruas. Ela LUTA, ela faz barulho, incomoda aqueles que se acomodam com a mesmice, aqueles que seguem no comboio rumo a mais um dia de amanhã que será igual ao ontem e tão monótono e expropriador como é o hoje.
Que me desculpem os conservadores e reacinhas de plantão, mas palavrinhas bonitas não fazem mudanças no mundo. Não as do tamanho que precisamos.
Há séculos, observamos no curso da História que as grandes revoluções só acontecem com o povo nas ruas. Isso assusta. Causa medo, sim, mas temos sempre os corajosos que tomam o front, que se doam às causas da sociedade e é a eles que eu me ajunto. É com a voz deles que eu faço o meu coro.
Quero mais é ver as ruas tomadas. Quero é ver o que a mídia manipuladora e parcial chama de vandalismo, de caos, acontecer todos os dias até que esses políticos que não me representam, nem irão, jamais, representar vejam a força que nós temos. Quero mais é que esses movimentos se espalhem pelo Rio, São Paulo, Juiz de Fora, Porto Alegre e os quatro cantos do meu país e sirvam de exemplo. Que mostrem sem o menor pudor que vivemos em uma sociedade doente e acomodada.
Não se muda o mundo só com palavras. Não se faz revoluções sem que haja enfrentamento. Não se quebram paradigmas sem deixar cacos pelo chão. A paz é o prêmio de quem luta e merece, ao final, o descanso sagrado dos guerreiros que não temem os mandos e desmandos de um governo autoritário, infame e corrupto.
Que me venha a paz, que meu espírito se aquiete, mas que isso só venha após eu ter a certeza de que muito lutei. E que não sejamos ingênuos achando que os omeletes serão feitos sem que os ovos se quebrem.

Todo apoio ao movimento! Todo apoio aos manifestantes! Que a luta venha árdua, porque não calaremos nossa voz, não deixaremos nossos ideais. E porque há o meu direito de representação, o meu direito de expressão e o meu direito de mobilização eu os usarei até o fim.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fast-food



Ele foi fast
Ela serviu de food
A noite os acompanhou na velocidade
Pela manhã não houve coffee
Nem break:
Saíram apressados, esquecendo-se pelas ruas da cidade...

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Drama da Classe Média



Pouco mais de 10h da manhã e eu, ainda sonolenta no meu dia de folga, resolvo correr os olhos nas notícias do dia.
O primeiro baque vem ao abrir o site do blog Limpinho e Cheiroso que traz a matéria do dia 02 de junho (eu sei que estou lendo com atraso, mas convenhamos, não acompanho porcarias!) da Revista Época. A matéria se refere ao Drama da Classe Média. O resumo da ópera: gente com renda familiar entre 8 e 15 mil reais por mês, chorando as pitangas porque não pode pagar míseros 800 reais no salão de beleza, não pode mais frequentar restaurantes e cinemas todas as noites, não pode mais sair pra beber com os amigos. A choradeira se dá, segundo a revista devido aos muitos erros do governo em sua política econômica.
Sim, é triste. É de doer. Cheguei a chorar. Especialmente quando vi que a mesada da filha de 15 anos do casal que mais chora SÓ ganha 500 REAIS DE MESADA ao mês. Um minuto, por favor, escorrem-me lágrimas... só que é em face da minha desvalorização, da minha tristeza. A boneca aí ganha mais pra comprar balas e doces e telefones da modinha do que eu para cuidar da educação de crianças... como ela!
Sinceramente, isso acaba com a semana de qualquer brasileiro que, como eu, se mata de trabalhar em um emprego e vários “bicos” pra aumentar a renda-nossa-de-cada-mês honestamente. A conta do salão de beleza da moça é quase o meu salário como professora!
Não posso recolher-me em minha indignação e ficar calada. Penso que devemos nos mostrar mais: é uma afronta que tenhamos que ler esse tipo de coisas em nossas bancas e bater palmas.
Chegamos ao limite da abominação política, ética e cognitiva, como bem nos diz Marilena Chauí. A Classe Média perdeu o (bom)senso há tempos, talvez lá nos idos do século XVIII quando ousou clamar por liberdade, igualdade e fraternidade, mesmo assim, bem sabemos (que me ajudem os amigos historiadores) a história não foi bem essa, e cabeças rolaram quando os tais trabalhadores sonharam que estavam incluídos no novo projeto de mundo liberal.
Ao ver essa matéria percebo claramente que estão, mais uma vez, colocando-nos (sim, nós, os trabalhadores que não chegamos ao patamar de semideuses da classe média) no lugar de pobres miseráveis, condição eterna que fazem questão de reforçar de tempos em tempos. Ainda me indigno, mas não me assusto mais. Já tornou-se comum o discurso pronto para nos confirmar na situação da miséria, da linha da pobreza, daqueles que (sobre)vivem de teimosos que são ou será que é porque são “brasileiros e não desistem nunca”?
Não estou aqui dizendo que quem conseguiu alcançar um salário de 8 mil mensais esteja errado e nem possa gastar o seu vintém como lhe convém, mas por favor, fazer drama onde não há é, no mínimo, desrespeito com o meu suor, pago com poucos cobres e não é por falta de estudo, não é por falta de vontade, é por outro problema, denunciado mais à frente, com outra notícia, que me deixou mais perplexa ainda.
O site Ecaderno trouxe na manhã de hoje uma notícia da Revista Forbes, na qual estão listadas as 10 profissões menos promissoras (que fique claro que os parâmetros são os EUA, mas não deixa de se refletir no Brasil).  
(Não deixe seu filho escolher uma delas ou ele não chegará à casse média!)
Não fiquei surpreendida dessa vez, mesmo vendo a minha profissão – historiadora e professora – figurar na lista. Não me surpreendeu que várias outras profissões que se voltem para a educação estejam na lista dos EUA e que poderia facilmente ser encaixada no contexto brasileiro, e sabe por quê? Explico:
Porque não me admira que cada vez mais desvalorizemos as profissões que visem nossa formação crítica. Quem vai se compadecer dos pobres coitados da revista Época se todos forem capazes de criticar a situação vivida? Primamos pelo comodismo, pela vida longa das vacas-de-presépio que só aceitam, aceitam, aceitam.
Em tempos de dramas da classe média, quem critica e se expõe é pseudointelectual, é “comuna”, é “do contra” ou só chato mesmo.
Quem vai dar trela para todo esse blá-blá-blá de que o atual governo federal cometeu erros que fazem a classe média penar se forem capazes de analisar o conjunto das medidas político-econômicas que foram feitas no Brasil nos últimos anos e notar os visíveis avanços? Longe de mim fazer apologias partidárias ou políticas, mas o fato é que se a classe média padece, coitadinha, mais brasileiros têm novas oportunidades. (Mas isso é assunto pra outra hora.)
Sou professora e acompanho nossas lutas diárias pelo aumento do salário, pela valorização, pelos incentivos à carreira e não posso negar que temos alguns avanços. Não posso negar também que me entristece muito ver minha profissão na lista das menos promissoras, mas é sinal que nós, professores, fazemos o nosso trabalho direitinho, incomodamos. Precisamos seguir nesse caminho e reverter a situação, sim, mas com a certeza de que nossos esforços rendem alunos mais críticos.
A lista deprimente serve para mostrar que há muito pelo que lutar ainda, especialmente pela nossa valorização, mas me dá a certeza de que eu não sou mais uma a me calar diante dos lixos editoriais que vejo pelas bancas esparramados aos montes nas páginas da revista VEJA, ÉPOCA, ISTO É. E porque há o meu direito de me expressar, escrevo. E quem não gostar, que feche as páginas.

O Drama da Classe Média
As Dez Profissões Menos Promissoras

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Leminskyando



Edylane

É dya
de quase frio
é o
o
u
to
    n

        o

Ela dança
girando sua saia
no vento.



(Que Leminski me perdoe!)

O Tempo



No meu relógio o tempo é um tic:
nervoso
um tac:
de porta fechando...
lá se foi ele:
a gente não viu.
Ele não se despediu.

domingo, 9 de junho de 2013

Chuva



Espero pela água que vem do céu para molhar os homens:
Quem sabe ela nos livra do pecado de não enxergar a beleza nos dias?
Quem sabe é da água que virá nossa redenção?
Será de sua transparência que saltará a alegria?
Será de seu cheiro que se inebriará  meu coração?
Se preciso for, farei dança da chuva, batucando um tambor.

Faço de tudo para nesse mundo, espalhar mais amor!

Dias Melhores



Abri por inteiro o meu peito:
Coração era brasa e lá dentro ardia.
Não podia sufoca-lo deitada no leito.
Ter desejos de dias melhores eu ousaria.
O tempo agora demora a passar,
As batidas do relógio seguem um ritmo lento.
Faz um grande silêncio e ouço o meu respirar,
Ele se mistura com a cor do vento.
Para a casa enfeitar, uso flores.
Gosto de seus perfumes e muito mais de suas cores.
Cortinas nas janelas para disfarçar a chuva,
Que mais cedo ou mais tarde romperá as nuvens.

Enquanto isso no sofá, delicio-me com uva.

Mudança



Como se fossem páginas virei meus pensamentos
Redecorei cada canto do novo apartamento.
Esperei todas as luas descerem para o mar
E todos os mares se mudarem para os sertões,
Na esperança de que as pedras parassem de chorar
Todas as minhas lamentações.
Fiz questão de entoar um novo canto,
Desfazendo-me de todo pranto
(A menos que esse fosse de alegria!)
              Olhei no espelho: lá a moça sorria! 

Império de Sal



Cair da noite nas terras cariocas, lua cheia em meio a nuvens, queijo, vinho, friozinho gostoso e um novo CD, de um velho conhecido, Dudu Costa, a tocar.
É só mais uma noite em que um blues cairia bem. E sempre achei que um blues deveria ser azul – talvez por pura influência do nome – mas tive O Descobrimento: um Vermelho Blues surgiu em meus ouvidos, levou-me longe, como se eu passasse pela Janela do Céu e rapidamente chegasse nas montanhas mineiras, saudosas, de tantos santos de São João e São José Del Rey.
Via-me menina entre as montanhas onde a lua termina, onde ainda ressoa pelos ares a minha poesia que se sonhou canção e onde ainda toca na vitrola a Nossa Canção, que eu desejava ser a escritora. Via-me rodando a barra da saia pelos quintais floridos. O vento a me levar, eu a sonhar com o mar e a conservar um olhar de Miraflores, correndo de pés descalços.
Em um piscar de olhos estava de volta, perto do mar como sempre quis, mas perdida em meio a tantos impérios e entre eles um Império de Sal, com meus castelos de nuvens, sonhos e areia. Castelos que construí e nunca mais os visitei, castelos para os quais eu tive que navegar dentro de mim para os revisitar, Pra Matar a Saudade, tendo em meu olho um Olho D’água, já marcado pelo sentimento que me invadiu.
Lidar com a saudade é perigoso, é por o coração à prova, é atravessar um Fogo-mar cujos desafios (des)conheço e teimo, deixo-me ir, porque é lá na terra da saudade que a alma ganha força pra seguir adiante.
Era só uma noite fria com um CD novo, agora é marco de música e poesia, de solidão acompanhada e de alegria, porque é maravilhoso descobrir coisas novas inesperadamente.

Acho que é hora de ouvir de novo a Branquiara, para perder-me nos versos, sons e sensações dessa noite que está apenas começando...

Pretérito Imperfeito



Ela o amava como uma criança,
De olhos fechados, com plena confiança.
Amava-o como se estivesse em um lugar alto,
Pronta para dar um salto:
Chegava a ter uma vertigem
Que sequer sabia a origem.

Ela o amava de maneira incondicional
Como se ele lhe fosse o ar vital.
Era capaz de mover mundos e fundos,
Percorrer quilômetros em segundos.
Por ele jogava-se ao chão,
Deixava até que ele lhe pisasse o coração.

Ela o amava como só se vê nos filmes, sem medida.
E entregar-se assim foi o seu caminho só de ida:
Perdeu-se a si mesma no que achava ser certeza
Seu amor era um rio e ela deixou-se levar pela correnteza.
No fim, sentia-se como um barco á deriva, sem rumo,

E por mais que buscasse nos mapas, não encontrava seu prumo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Papel de Deus


Não é que eu não acreditasse em Deus. É que eu era cientista. É que eu não gostava mesmo dessa ideia de ter alguém responsável por guiar a minha vida.
Em uma outra teoria, eu achava mesmo era que Deus jogava xadrez com a gente, só que como ele já sabia de tudo, acabava “roubando” no jogo: puxa, vida! Jogar xadrez com um cara que sabe qual vai ser a sua próxima jogada é derrota na certa!
Passei noites em claro tentando entender essa relação entre o humano e o divino. Li livros, li a Bíblia, vi filmes, conversei com amigos religiosos e outros nem tanto. Ninguém conseguia, de fato, me aclarar as ideias, acalmar os ânimos ou dar uma resposta satisfatória à minha pergunta contundente: qual o papel de Deus na minha vida?
Depois de anos sem por os pés em uma igreja, muitas cabeçadas, meia dúzia de vitórias e dúvidas que me faziam um turbilhão na cabeça eu resolvi dar uma chance para mim mesma. Reatei meu contato com Deus. Confesso que foi tudo muito tênue, muito tímido, mas mudanças comearam a acontecer.
Hoje é impossível negar que há uma mão superior que guia nossos caminhos, acolhe nossas dores e nos prepara para dias melhores. É inegável que ele se vale de muitas pessoas para se fazer notar. E é incrível a maneira como por mais que sejamos duros e teimosos, Deus não desiste de nós e está pronto para nos dar um caminho de vitórias e alma sossegada se nos permitirmos ter um contato mais próximo com Ele.
Um dia me disseram que a oração era a chave para todos os problemas. Hoje eu tenho certeza que ela é a melhor coisa que podemos fazer: orar pra agradecer todas as dádivas e para pedir aquilo que seja o melhor para nós.
De uns tempos pra cá Deus te falado grandemente em minha vida pela boca de pessoas queridas, pelo mexer de suas mãos em meus caminhos e, sim, Ele é o dono de tudo aquilo que me faz feliz e andar com ele tem sido maravilhoso.

Voltemos á questão: qual o papel de Deus na minha vida? O principal, o do diretor, o do roteirista, deixando-me livre para escolher a minha atuação, não por descuido ou displicência, mas por amar demais e saber que todo bom filho à casa torna...