Visitas da Dy

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Mundo Anda tão Complicado…


 Naquela hora em que já se pensa que nada mais vai acontecer e que o dia vai seguir o seu rumo sem maiores novidades me apareceu um rosto, já um pouco conhecido, e que  me mostrava não estar nada bem, nada feliz, nada satisfeito.
Era uma cara assim meio azedinha, mas que no fundo me sinalizava um misto de decepção, de aborrecimento. Talvez não fosse nada disso, talvez fosse um não sei o quê que me impedia de ver um sorriso que já espero quase que com hora marcada.
Acabei por me por a pensar. Penso muito.
Pensei em como eu podia fazer pra melhorar a situação. Pensei se conseguiria espantar aquela nuvenzinha cinzenta que pairava no meio da tarde. Não tinha jeito. Não havia nada que eu pudesse fazer. Ou se havia, não consegui descobrir.

Às vezes é assim em algumas situações de minha vida, especialmente quando vejo alguém a quem quero bem meio jururu: tenho uma enorme vontade de acalmar, encorajar, alegrar, dar colo mesmo.
A vontade é de fazer qualquer coisa que me traga olhos brilhantes e sorrisos de volta. Sei que isso não adianta muito, mas é meio jeito. Deve ser porque sei como é se sentir “pra baixo” e porque não gosto nada desse sentimento.
Pena eu não ser boa com piadas, se não teria tentado fazer risos voarem pelos ares nessa tarde.
Pena é eu não saber fazer poema e poesia, se não a tarde teria se transformado num sarau, com rimas e leveza.
Pena é não ter bola de cristal pra adivinhar, de verdade, a melhor solução para os problemas de todo mundo que gosto e que precisa desfazer uma carranca e gargalhar com o corpo todo.
O que me aborrece é só saber que vontade de mudar não resolve, que e preciso agir, mas que nem sempre sei o que fazer, simplesmente porque nem sempre há o que EU possa fazer, porque cada um sabe dos problemas que tem. Cada um é que sabe o que se passa no coração e que eu, sou mera platéia nesse espetáculo que as pessoas dão todos os dias nesse mundo e não vejo, nem posso ver muito além do que os personagens me mostram.
Não posso espiar pela cortina do teatro dos outros e ver o que se passa nos corações alheios sequer pra tentar entender o que há, então, o que posso fazer é tentar me conformar com o que me é apresentado e na medida do possível oferecer um café, um sorriso, um ombro.
E se esse mundo anda mesmo tão complicado, eu que não sou boba vou tentar descomplicar: vem cá, meu bem, que hoje eu quero fazer tudo por você… porque, além se essa ser a parte de uma música que adoro, é assim que funciona: se o mundo não para e gira com ele todas as nossas vidas e se encarrega de fazer um grande emaranhado de sentimentos e confusões e situações, o meu papel vai ser o de ser a pessoa que tenta desemaranhar essas questões, então, o que me resta é não desistir de fazer tudo o que puder pra deixar o dia de quem me cerca mais leve. Se vai adiantar não sei, mas desconfio que não posso parar.


***Para todos os que quero bem, os que não quero ver tristes, aborrecidos, cabisbaixos, porque o que faz meu dia mais feliz é saber que todos com quem me importo dão sorrisos luminosos e que por estarem felizes, me enchem de alegrias!***


*** Inspirado também no blog da Elô, com o post que tem o mesmo nome deste: “O Mundo Anda tão Complicado”.***

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Abraços III









Uns braços, seus braços… Abriram-se pra mim em um abraço. 

Mostraram-se em segurança e deixaram corações expostos que por pouco não se tocaram ali no meio daquela sala, bateram colados, descompassadamente se encontrando, numa cumplicidade quase clandestina e, talvez, por isso quase encantada.
Ali, poderiam se sentir no meio do mundo e, no meio do dia, parou por instantes toda a correria e eu que era passarinho assustado, acuado e desconfiado, tremi, mas em pouco tempo ganhei força pra voar.
Ali no meio do dia, meus braços, teus braços, nossos abraços, laços que nos prenderam em nós mesmos, um emaranhado confuso que envolvia mãos e dedos numa eternidade finita.
O tempo no relógio não parou, o mundo lá fora não mudou, mas a agonia e a solidão que me pareciam intermináveis aos poucos foram se dissolvendo.
Ali, no meio do mundo tive alento, recebi carinho, apoio de que sairam de uns braços e me encheram a alma...

Acaba logo, segunda-feira!



Tem dias que a gente não sabe o por quê levanta da cama. Hoje é um dia desses. Bem me lembro agora de Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...”.
O domingo foi maravilhoso, amigos, praia, barzinho e o Rio de Janeiro ficou mais lindo e colorido – apesar do dia estar meio lusco-fusco, meio acinzentado.
Foram sorrisos e abraços e alegrias pra todos os lados e parecia que o dia seria pouco pra tanta coisa boa que estava acontecendo. E foi. Com o avançar da hora e a necessidade de se encerra as atividades de fim de semana e voltarmos pro nosso mundinho real, o que ficou foi uma saudade danada desse domingo e o mais engraçado, uma saudade danada de próximos domingos como esse.
Finalmente depois de dois fins de semana seguidos aqui no Rio eu não me entreguei ao tédio dominical... já quase sagrado na minha rotina.
Com o fim da noite restou-me ir pra cama com um sorriso largo, coração aquecido, alma leve e feliz.
Só que chegou a segunda-feira. Um diazinho muito mais ou menos, que não gosto nadinha e me deu de presente uma torção no pé direito logo ao sair da cama – isso quer dizer que acordei com o pé esquerdo mesmo que tenha colocado o direito no chão primeiro?!
Pra completar demorei quase duas horas pra chegar no trabalho. Bem-vindos ao Rio! Aqui é assim: passa-se um domingo maravilhoso e enfrenta-se um mega engarrafamento na segunda de manhã que piora o seu humor que já estava péssimo...
Sabe a sensação de que tudo o que se faz está errado? Sou eu hoje.
Sabe quando se sabe que é preciso mudar alguma coisa? Pois é, preciso mudar, mas não sei bem o que...
Sabe quando o mundo fica mais distante de você? É uma estranheza enorme! Dá vontade de fugir, de mandar parar pra você descer. Eu não quero que o mundo pare hoje. Hoje eu quero encontrar uma nave e sair por aí pra ver se encontro o meu lugar no mundo.
Os prédios cariocas ficaram infinitamente maiores essa manhã e teimavam em querer me esmagar...
Os carros absurdamente mais rápidos que o de costume passavam “à milhão” e me entonteciam...
O sol que não apareceu ontem veio dar uma debochadinha de mim, pra dizer que ele é quem sabe a hora de aparecer...
Os sorrisos alheios pareciam todos risos, mas não pra mim e, sim, de mim...
Coisa mais estranha, de repente a gente se sente assim deslocada de tudo, longe de todos...
Senti-me invisível, desnecessária e desimportante nesses espaços em que transito.
Oh, e agora quem poderá me ajudar?
Será isso o meu “inferno astral”?? Quando é que vai passar? Será que eu já posso sorrir tranqüila ou ainda vai demorar pra encontrar algum sossego pro coração que amanheceu apertado?
E tem mais: quem é que ta apertando tanto esse coração? Pra que tanto desânimo num dia só? Não dá pra dividir isso: um pouquinho pra cada dia? Ia ser mais fácil de contornar se fosse assim...
Ai, acaba logo, segunda-feira!


Contato Imediato
Peço por favor
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear
No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal
Se o pensamento duvidar
Todos os meus poros vão dizer
Estou pronto para embarcar
Sem me preocupar e sem temer
Vem me levar
Para um lugar
Longe daqui
Livre para navegar
No espaço sideral
Porque sei que sou
Semelhante de você
Diferente de você
Passageiro de você
À espera de você
No seu balão de são joão
Que caia bem na minha mão
Ou numa pipa de papel
Me leve para além do céu
Se o coração disparar
Quando eu levantar os pés do chão
A imensidão vai me abraçar
E acalmar a minha pulsação
Longe de mim
Solto no ar
Dentro do amor
Livre para navegar
Indo para onde for
O seu disco voador
 



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Não encontramos amigos, reconhecemos


23 de setembro, sexta-feira, dia de correria, de trabalho, de aula, de por o pé a estrada e de subir a serra rumo a Juiz de Fora. 
Rotina agitada, mas já me acostumei. Pelo menos duas vezes por mês é isso: mochila nas costas e saudades, muitas saudades para serem extravazadas nas montanhas mineiras.
Mas essa sexta tem um gostinho diferente e ainda que a saudade da casa e da família seja enorme, já que há 15 dias não vou pra junto deles, hoje o dia tem um quê especial.
Hoje é aniversário de uma amiga que é de uma raridade tamanha, que tem um espaço enorme no meu coração e que merece muito mais do que um simples texto, merece muito mais do que todos os desejos de felicidades que lhe serão desejados nesse dia.
Vinícius de Morais diz que amizade é encontro de almas. E eu assino embaixo.
A mocinha que aniversaria hoje é Semiramis, alma-irmã com quem posso contar. Alma que posso afirmar ter sido um dos melhores achados de minha vida.
Nos conhecemos há pouquíssimo tempo se levarmos em conta os calendários, mas não há explicação para a intensidade dessa amizade. Nem para explicar como começou.
Foi numa sexta-feira! Era noite, primeira aula no curso de pós-graduação em Gestão do Patrimônio Cultural. Eu já conhecia metade da turma: historadores companheiros de curso e, claro, sentamos todos juntos. Semiramis sentou-se longe. Do outro lado da sala. Nos olhamos, sorrimos, tudo muito normal, numa simpatia social e só.
Intervalo das aulas. Trocamos meia dúzia de palavras e só. De volta à sala, a aula se arrastava… nos olhamos e isso bastou pra que pegássemos nossos cadernos – sim! No primeiro dia tínhamos, as duas, cadernos! – e saimos da sala já engatadas num papo animado, tão animado que parecia que éramos amigas de infância.
Duas aulas depois e já éramos assíduas frequentadoras das nossas casas: viramos membros da família uma da outra.
Alguém explica isso? Alguém explica essa rapidez em se consolidar uma amizade? Em se tratando de Edylane eu acho difícil… boa mineira, desconfiada, tímida – isso é sério! – raramente saio me abrindo assim… Vinícius de Morais explica: encontro de almas!
Com a Semiramis passei bons e maus bocados naquela pós. Comemoramos o primeiro contrato dela na prefeitura. Tomamos chuva. Viajamos pra Argirita, trabalhamos no JF Folia – Sodoma e Gomorra! – por três noites seguidas, trabalhamos na w100… ela ainda está lá! Matamos aulas – que feio! – muitas vezes pra ir pro bar beber… coca-cola: por conta do trabalho ela não podia beber. Encontro certo era às 18h no Saulin: x-bacon! O lanche da sexta-feira era sagrado! Depois virei professora dela num curso de extensão da UFMG…
Cineminha na quinta-feira à noite e por R$1,00 a sessão? Era com a gente mesmo: e muitas vezes a gente só tinha as passagens de ônibus e o R$1,00 do cinema.
Vimos a Angelina Jolie bancar o Magaiver em “Salt”. Choramos em “Comer, Rezar e Amar” – era tempo de crise, todo mundo tinha namorado e a gente tinha livros pra ler!
A lista de filmes é grande! Sócias do Cine Palace, o que não era nada ruim: construção tombada, supercharmosa e a gente se divertindo!
Meu filho virou “o meu loiro lindo” da tia Semiramis… minha mãe passou a sentir falta dela quando a carga de trabalho aumentou as visitas começaram a diminuir e o telefone tocava pouco.
2010 não foi um ano fácil. Ao finalzinho do ano pressenti que meu telefone ia tocar. Eu que fico de pijamas até a hora de sair de casa resolvi me arrumar logo após levantar da cama. Alguém podia me ligar e eu precisaria sair correndo: se já estivesse arrumada seria mais fácil.
O telefone tocou. Do outro lado uma voz fraquinha, longe, e uma frase aterradora: “Dy, meu pai…” não quis nem saber. Voei pra casa dela e descobri que quem tinha voado era o Sr. Geraldo… pai de Semiramis, pai emprestado de Edylane. Exemplo, amigo, brincalhão e bom cozinheiro. Voou pra longe de nós sem dar a menor explicação, como quem vai ali na esquina comprar pão e não volta… que dor! Não sei  dia, não sei a hora, mas lembro que sai de casa num dia e só voltei depois de ter certeza de que minha amiga estaria minimamente bem.
Dias difíceis. Até que a dor se trasnforme em saudades demora muito. E acho que nunca se transforma de todo… sempre fica uma dorzinha, como um espinho que não sai nunca.
Superados o susto, a dor, a saudade, as coisas começaram a voltar a seu eixo.
Juntas comemoramos cada etapa da minha entrada no mestrado: aprovação do projeto! Uhu! Festa! Aprovação na prova teórica: oba, bora pro bar! Aprovação na prova de línguas: Yo sabía que hablaba bien el español! Vamos a beber un mojito! Aprovação definitiva: três dias de comemoração sem parar!
No meu aniversário a maior de todas as surpresas: uma festinha na pós e fiquei sem palavras, emocionada, com os olhos cheios de lágrimas… que lindo!
E natal e ano novo e carnaval e páscoa e todas as comemorações e a gente junto! Ah, quantos bons momentos!
Difícil foi ter que vir de vez pro Rio. Difícil foi deixar minha amiga pra trás – e todos os amigos também!
Hoje, acostumo-me à saudade, mas não esqueço um dia sequer dela!
Hoje, escrevo palavrinhas simples, que relembram partes importantes de nossas vidas, que mostram parte daquilo que ela deixou marcado no meu coração.
Hoje busco palavras que sejam suficientemente boas pra dizer o quanto eu amo essa mocinha e o quanto ela se faz importante em minha vida.
Que nesse aniversário, que comemoraremos daqui a pouco, tenha a sabedoria necessária para enxergar os seus obstáculos e encontrar as soluções. Que cresça nas dificuldades, que não me esqueça e que conte comigo. Que seja feliz a maior parte de seus dias, que chore muito de felicidade, que tenha muita saúde, muita paz e amor. Que alcance o sucesso e não perca sua raridade nunca.
Que jamais deixe de ser sincera, forte, crítica, divertida, amável, menina! Esses ingredientes te fazem ser tão especial. São eles que a temperam e a colocam  como um ser tão especial pra nós que felizmente temos o privilégio de lhe conhecer.
Obrigada pela amizade franca e verdadeira.
Obrigada por fazer parte de minha vida.
Obrigada por entra em meu mundo e não o criticar.
Amo você grandão!
Felicidades, minha querida!


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Abraços II


Eram braços novos, de pouco mais de dois anos de idade. Braços fortes, infinitamente amáveis que se abriram pela surpresa e se deram em nó no meu pescoço.
Eram braços que vinham acompanhados de olhos verdes, os mais lindos do mundo, que antes eram azuis.
Braços que vinham anunciados por palavras simples: “mamãe Dy!”.
Um pulo, um abraço e o mundo parado. Um beijo, um tombo e dois seres rolando pelo chão frio, não menos frio que a noite que já ia alta.
Outro beijo, braços embolados, calor de mãe, amor de filho e a noite se esquentou.
A saudade lentamente foi morrendo, agonizando, abafada pela alegria de se ter de volta nos braços um amor que não se mede, que não cabe no peito e enche o mundo que também fica pequeno, sufocado.
E, de repente, em meio a risos eufóricos de uma boca pequena saíram palavras curtas e mágicas: “mamãe Dy, Heitor amor no coração”… o mundo que estava parado voltou a girar e a certeza de que tudo vale a pena veio embotando olhos, mas dessa vez eram os olhos castanhos.
Olhos castanhos úmidos de amor e envolvidos nuns braços pequenos… o melhor dos abraços.

Abraços I



Ganhar um abraço é ganhar uma passagem só de ida para o mundo do outro.
É entrar no peito aberto de quem lhe estende o braço.
É quando alguém se doa e te recebe e já não se sai de um abraço como chegou: leva-se muito do outro, deixa-se muito de si.
Deixar-se envolver num abraço é entregar-se à magia da transformação onde a saudade vira alegria, alegria vira êxtase e a vida ganha combustível para seguir mais leve, mais colorida.
Ganhar um abraço de quem se ama é tornar-se alado, é voar pelo céu da aurora, com brisa suave e sol nascente, é perfume de rosas e chá de cidreira. É jardim em flor, momento em que se vê desabrochar os mais variados tipos de amor.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

VivaVida com Neruda




Vivavida. Essa era a frase que estampava o fichário todo preto e cheio de colagens que a minha vizinha, uma moça bonita e simpática, carregava.
A vizinha era uma moça inteligente e bem mais velha que eu, uma menina de pés descalços que jogava bola na rua. Nossa diferença de idade parecia enorme, um abismo.
Essa moça chamava muito a minha atenção: era diferente das outras moças. Estudava no centro da cidade, andava na garupa da moto de seu irmão, era simpática: só sorrisos para todos os vizinhos  e tinha um fichário! Todo preto ele era. Ela cuidadosamente fizera sua capa com recortes de fotos e revistas.
Um dia peguei o mesmo ônibus que ela e consegui sentar ao seu lado. Bisbilhotei o seu fichário e li na capa: VIVAVIDA. A frase estava bem no centro e em volta tinha fotos dela com os amigos e bem lá ebaixo uma outra frase parecia fechar em grande estilo o quadro: “serei… serás… seremos…” e sob a frase uma palavra: “Neruda”.
A frase pouco me dizia. Era uma pura conjugação verbal… fiquei mesmo foi pensando sobre o que era “Neruda”. Eu era uma guria nova, uns 12 anos, talvez, mas lia muito e conhecia um sem fim de palavras, mas nenhuma delas se parecida com “Neruda”. Acabei cansando-me de pensar, mas nunca esqueci a tal palavra.
Continuei sendo a menina-moleque de sempre até os 14 anos: jogava bola na rua, pulava muros, roubava frutas no vizinho, brincava de pique, roubava no jogo de baralho. Cresci. Todo mundo cresce um dia.
Comprei um fichário preto. Montei a sua capa aos moldes daquele que nunca havia me saído da memória. Fui estudar no centro da cidade. Pegava o ônibus todos os dias. Cansei-me do fichário. Comprei um caderno. Desisti do caderno e passei a ir pra aula sem nada pra anotar, meio sem lenço, mas com documento.
Aquela moça parou de crescer. Eu cresci mais um pouco. Ela perdeu a graça. Eu ganhei um pouco de graça. Faz parte da vida de toda menina: ganhar um pouco de brilho quando faz certa idade. Meu brilho demorou um pouco pra chegar… vinha mais pelo que eu sabia do que pelo que eu mostrava ser.
A moça passou a ser, além de vizinha, minha colega de ônibus. Nosso abismo etário nem era tão grande. Uns 6 ou 7 anos. Nos descobrimos com gostos até parecidos. Ela me disse que queria ser professora, eu também. Ela pensou em mudar o mundo e eu acordava e tramava esses planos mirabolantes todos os dias.  Viramos “conhecidas”.
O engraçado nisso tudo é o tempo: os anos parecem muitos até certo ponto, mas depois param de exercer tanta influência sobre nós.
Aprendemos a lidar com o tempo.
Aprendemos que quando somos muito jovens queremos que ele passe rápido e logo em seguida desejamos que ele volte, ou que pare. Demora um pouco, mas o que precisamos aprender, de fato, é que o melhor que temos a fazer é estabelecermos uma relação sadia com o nosso tempo e aproveita-la ao máximo.
Ah, e sobre a palavra que eu não sabia o que era, hoje sei bem: adoro o Neruda! Pablo Neruda! Um dos meus poetas favoritos e que alegra meus dias e enfeita a estante.
Anos depois entendi que a frase do diário da minha vizinha, não era mera conjugação de verbos, mas uma linda declaração de amor, da qual chego a me invejar às vezes.
Hoje, depois que reencontrei essa vizinha no ônibus, o mesmo que pegávamos há anos, lembrei-me desse episódio.
Sigo lendo Neruda, aproveitando o meu tempo como dá e tentando, de verdade, viver bem comigo, com os outros e com o tempo.



“E desde então, sou porque tu és
E desde então, és,
Sou e somos…
E por amor…
Serei… serás… seremos…”
Pablo Neruda

Boa semana pra quem por aqui passar.
Dy.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Contramão




De repente me vejo andando na contramão de mim mesma.
Fazendo coisas que jamais pensei, seguindo caminhos absolutamente diversos dos que antes eram planejados.
Eu que não faço tantos planos, que busco não criar expectativas só pra ter o prazer de me surpreender com tudo, especialmente com o que é simples, me surpreendo agora só de ver o quanto tenho andado ao contrário do que imaginava.
Sonhava em ter um trabalho daqueles que me deixasse rica: hoje abro mão de muita coisa só pra fazer o que gosto, não importando muito o quanto vou ganhar.
Dizia que jamais sairia das Minas Gerais, que sair de Juiz de Fora era fora de cogitação e, hoje, comemoro seis meses de Rio de Janeiro.
Queria ser medievalista, trabalho com Patrimônio Cultural…
Faculdade de Educação??? Bah, queria distância das teorias que passavam por lá, hoje estou num curso dessa faculdade.
Para além dessas questões práticas há ainda um sem fim de sentimentos que andam às avessas… eu que achava os cariocas metidos, chatinhos e descomprometidos com as coisas, rendo-me ao charme natural que eles têm, à vida leve, à simpatia e ao calor de abraços que me lembram um por-do-sol.
Eu que quebrava regras só pelo prazer de chocar, choco-me ao quebrar padrões pré-estabelecidos e limitadores.
A garota MPB se rendeu ao samba.
A menina rock’n roll também é bossa.
Cachoeira que veio das montanhas desaágua no mar e gosta.
É de calmaria, mas sabe muito bem virar maremoto, mas se um vento sopra leve, volta a ser mar tranquilo, mas que também tem seu dia de ressaca. Mistura sua doçura ao sal e dá novos sabores para a vida.
Novos gostos, novos cheiros, novas cores.
Do azul da saudade passa pelo verde de novos caminhos, que precisam amadurecer, e muitas vezes não se encontra nos seus mistérios castanhos, perde-se, desfaz-se e refaz-se a cada novo amanhecer.
Já passou do vermelho ao marrom, se apagou, entristeceu, voltou ao vermelho e se acendeu: porque a vida é fogo, é pra arder sem medida, é pra ser que nem pimenta: gosto e cheiro que marca, tempera e esquenta.
No dia prefere a noite, coruja, atenta, desperta no repouso da cidade.
Egoísta, quer tudo e quer agora.
Não sabe dividir: é só olhos para capturar tudo. Queria estar em vários lugares ao mesmo tempo, queria muitos braços, abraços e bocas para beijos intermináveis, de parar o mundo, perder o fôlego, sossego dos olhos, batidas no coração.
Não sabe dividir e divide: espalha seus sorrisos, sua alegria, seu ânimo, esperança, vida.
Não sabe dividir e divide: quer tudo por inteiro, mas contenta-se com metade: meio-dia, meia-noite, mas em quantidade sempre é pouco e quer mais. Quanto mais melhor.  O que é pouco cansa. Deixa insatisfeita. Sobra falta, falta paciência, falta tempo, sobra saudade.
Não sabe dividir e divide: uma parte do coração nas Minas e outra no Mar.
A mineira está virando carioca.
Saiu da linha pro trem (de doido, sô!) não pegar!
Saiu do rumo e do prumo.
Saiu da mão e anda na contramão, sua própria contramão, e aprendeu a abrir mão muita coisa, menos dos sonhos, aprendeu que o que é determinado nem sempre é bom. E seguir em outra direção dá outra visão, que o horizonte é longe, mas não é inalcansável: tem pés que deslizam pelos caminhos de luta, que viajaram muito e ainda viajarão porque caminhar é preciso e o ponto de chegada está logo ali, basta começar a andar.


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Luz dos Olhos

Luz dos Olhos

Essa semana aconteceu uma coisa muito engraçada.
No caminho para o trabalho pela manhã fui lendo um livro de crônicas de Martha Medeiros (Coisas da Vida) e encontrei um texto maravilhoso, que exponho aqui os fragmentos:

“Se alguém perguntar o que pode haver de mais íntimo entre duas pessoas, naturalmente que a resposta não será sexo, a não ser que não se entenda nada de intimidade, ou de sexo.
(…)
O filme ‘Encontros e desencontros’ mostra a complexidade de dois americanos no Japão – e a vivência profunda de sentir-se um estrangeiro, inclusive para si mesmo. Chega a ser previsível que a cena mais caliente do filme não seja a de um beijo e suas derivações, e sim a cena em que o casal de protagonistas está deitado na mesma cama, ambos vestidos, falando da vida, quando o cansaço e o sono os capturam. (…) eles apenas sentem-se à vontade para entrar juntos num estado de inconsciência, que é o momento em que ficamos mais vulneráveis e desprotegidos. (…) Poucas vezes o cinema mostrou cena tão íntima”.

Ao ler o texto a cena do filme que não conheço foi se desenhando em minha mente com outros personagens, mas com a mesma intimidade, com a mesma intensidade. Parei pra pensar em quantas pessoas já dormiram ao meu lado, bem nesse sentido que Martha coloca.
Nos deixar envolver pelo sono ao lado de alguém é realmente algo muito íntimo e que exige muita confiança no outro. Não se sabe o que pode se passar, podemos ter um psicopata conosco. Dei-me conta que dessa forma, pouquíssimas vezes me entreguei. Foram raras as pessoas com as quais me permiti cair em sono profundo, especialmente na mesma cama, coisa que demonstra uma proximidade e uma confiança ainda maior.
O fato curioso foi o de o filme tratar, segundo o texto, de um casal – que não necessariamente pode configurar uma relação amorosa, aqui pode ser mesmo só a forma de designar que eram um homem e uma mulher – que se sente estrangeiro até a si mesmos. Na hora me lembrei – e vi – essa cena acontecer comigo.
Recém chegada ao Rio fui passar o domingo com um amigo e o que se desenhou foi exatamente o fragmento acima: eu completamente alheia à cidade, já cansada de me sentir uma estranha no ninho, meio perdida e com a impressão de estar num mundo que não é o meu, estava em busca de uma boa companhia – que ele sempre foi.
Depois do almoço fomos ouvir boas canções da MPB e de um coral que não me lembro o nome, mas me lembro que era muito bom, e nos deitamos na cama pra tagarelar, ver o domingo passar, ter e ser companhia – pelo menos pra mim – e acabamos por dormir. Dormi tanto que nem vi a hora passar. Acordei já era noitinha. Entrega total ao cansaço, ao domingo preguiçoso, à confiança.
Martha diz que poucas vezes o cinema mostrou cena tão íntima. Eu digo que poucas vezes, na verdade, nenhuma vez até esse dia eu vi uma semelhança tão grande entre a realidade e a ficção.
Fui tomada de uma alegria e de uma certeza de que há pessoas que devem ser levadas conosco pra toda vida e que esse meu amigo tão amado será guardado, não num cofre, mas em um lugar especial, onde eu possa revisita-lo em minha memória sem muitos esforços. Senti uma saudade enorme dele e tive vontade de ligar, mas deixei passar. Mais tarde mandaria um email, tavez contaria o motivo, talvez dissesse só que era saudade.
O dia passou e não escrevi o email. Já no fim da noite recebi um sms dele! Que fantástico! Uma sintonia que nos acompanha há muito: várias vezes já postamos emails com minutos de diferença um pro outro, já nos “encontramos” no msn por puro acaso. Acabamos por combinar de pegar o mesmo ônibus para a volta pra casa e como o expediente ainda demorou a acabar me esqueci de contar o acontecido.
Conto agora. E mais que isso, confesso publicamente o quanto amo esse rapaz! Não há nada melhor que amizade pra nos tirar do tédio, pra nos tirar da rotina, pra nos fazer felizes.
Há anos, muitos já, ele é meu fiel escudeiro, meu ouvinte, conselheiro, parceirinho de passeios ótimos em museus, de ir a peças teatrais, comer pastel na pastelaria rolante, cachorro-quente de barraquinha no parque, de escola, de emprestar o ombro, de me fazer dar risada, de não me deixar desistir, de me emprestar até coisa que não se empresta: a fé em mim e em Deus.
Meu amigo forte e leve, presente e ausente, menino que vi crescer, homem que me ampara quando me desespero, que abre meus olhos e me mostra respostas que são claras, mas que eu, teimosa, não vejo, que ri das minhas maluquices, mas que não deixa de apostar pelo menos uma fichinha em mim.
Luz dos meus olhos, pés que caminham a uma distância segura pra eu saber que é apoio, que respeita meu tempo, meu espaço, meu ritmo, pessoa em quem confio de olhos fechados, dormindo!

Esse texto é para o meu amado amigo, Roberto Dutra.
Escrito há muitos meses atrás...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Diário

Às vezes, em noites como essa penso que seria bom ter um diário.
Olho lá atrás, nos meus 10, 11 anos, quando ganhava um monte de diários bonitinhos, cor-de-rosinhas, com cadeadinhos e canetas perfumadas e simplesmente ignorava todos. Fazia de rascunho. Repassava o presente: era alguém fazer aniversário e eu dava o tal diarinho... achava chato escrever.
Hoje as coisas estão beeem diferentes. O que é o tempo na vida da gente... quem diria que 15 anos depois de ter ganhado vários diários eu iria desejar um...
Penso que criar o hábito de escrever diariamente o que se passa em minha vida seria uma grande ajuda ao coração: ajudaria-o a se desafogar.
Há algum tempo tenho feito um exercício interessante, que é o de pensar em tudo o que aconteceu no dia. Pesar os fatos, extrair tudo o que eles podem me trazer de melhor e depois apagar tudo, como se apertasse um “delete” e deixasse o coração vazio e pronto para mais um dia.
Esse exercício é bastante eficaz, mas percebi que tenho feito boas reflexões e as tenho perdido no vento... memória fraca... escrever seria mais sensato. Seria mais proveitoso.
Tenho usado bastante a caneta e o papel, já acabei com um caderninho e tenho outro já pela metade.
Por muitas vezes ecrevo após ler alguma coisa. Escrevo as minhas impressões.
Peguei um livro de Clarice Lispector emprestado essa semana onde li: “Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo mesmo escrever”. Dessa vez vou discordar de Clarice.
Desde a infância gosto de ler. Lia muito. Devorava livros. Não escrevia, mas pensava. Pensava muito, ainda penso. Criava histórias. Tirava conclusões. E sempre quando alguém me fazia a perguntinha mais sem graça de todas “o que você vai ser quando crescer?” além de fazer uma cara de bonequinha na caixa – aquela que você faz pra fingir que não está ali – eu respondia: posso ser muita coisa, professora, cantora, mas eu quero mesmo é ler.
Não virei cantora. Não tenho talento, mas canto o tempo todo.
Como eu já pressentia, cresci e fui ler: li tanto que virei professora de história. E como é bom: leio de tudo um pouco ou tudo muito!
Ao contrário de Clarice eu amo estudar e talvez essa seja a única coisa que faço bem, claro, quando consigo me concentrar. E o processo de concentração é complicado: primeiro é preciso me apaixonar. Se não me apaixono pelo ponto a ser estudado, já era! Não sai nada. Agora, se os olhinhos brilham é uma beleza: haja papel.
Não acho que para escrever não seja necessário estudar, como Lispector apontou. Isso, na verdade me entristece.
Precisamos estudar: ler mais. Quem lê escreve melhor. Se expressa melhor. Livra-se dos horrores de um “menos”, de um  “seje”. Abre a mente. Se torna crítico, pensa mais.
Penso muito e escrevo e as palavras vão saindo e se desenrolando e não necessariamente fazem sentido, mas saem. E aliviam.
Deve ser por isso que a própria Clarice disse que não sabia como é que se escreve. Porque não dá pra saber mesmo. A caneta parece ter vida, segue seu rumo…
Hoje quero iniciar o ritual sagrado de escrever todos os dias. Ora no computador, ora no caderninho, não importa. O que vou fazer é me esvaziar ao máximo pra poder me encher de novo no outro dia e deixar registrado, pra poder me absorver cada vez que for necessário, como se fizesse um ritual antropofágico de mim mesma.

sábado, 10 de setembro de 2011

Erros da madrugada ou Fez-se a Confusão

Uma da manhã e lá fui eu em busca de desabafar as agonias do dia com alguém que me entendesse… escrevi um texto pra postar no blog, meu eterno diário público (?) e fiz um mail pra uma amiga. Desses que tem endereço certo, mas foi pro endereço errado.
Fez-se a confusão.
Tenho explicações lógicas para justificar o erro no envio, mas o fato é que não adiantariam e, como diz Quintana, não devemos nos prender a explicações. O que está feito, está feito e ponto e vírgula, porque não gosto de ponto final.
Descobri meu engano de uma das formas mais constrangedoras possíveis, na verdade porque me envergonho sempre que alguém fala dos meus textos, mas mais ainda porque era uma confissão. Longe de ser secreta, mas uma confissão de agonias, de aflições.
Tratava-se sobretudo de um dos arranhões que ganho ao longo da caminhada da vida. Ou mais, tratava-se de uma abertura na cota de malha metálica com a qual tenho revestido meu coração, uma brecha que permite ver  que eu tenho o coração vermelho.
Descobrir que as minhas confissões  tinham se desvelado a olhos “errados” me fez ficar mais envergonhada, mais tímida, com uma vontade enorme de me esconder num pacote de papel e só deixar dois buraquinhos para os olhos…
Não havia nada demais lá.
Só dizia que estava triste. E comentava minhas saudades.
Mas é ruim quando alguém sabe das saudades que a gente tem, das dores que a gente sente assim, meio que sem ser convidado. É meio que se despir ao desconhecido. É expor o coração a olhos curiosos dos quais não se sabe o que virá a ser dito.
Fiquei assim: adolescente que fugiu de casa, flor sem perfume, cortina sem janela, exposta sem querer me expor.
A parte boa foi que ganhei um elogio, quem leu meu texto, gostou. Mas nunca sei o que fazer com os elogios: não sei se os deixo no bolso e corro o risco deles se amassarem, se os deixo numa gaveta trancados e os perco no tempo ou se só os recebo com carinho e devolvo um sorriso… muito difícil isso de alguém gostar do que a gente escreve, ainda mais quando se escreve só o que se pensa, só o modo como se vê o mundo, sem maiores pretenções.
Uma coisa engraçada foi que entre os breves comentários que tecemos sobre o acontecido, o destinatário – errado – do meu mail disse que eu não escrevia desse jeito pra ele.
A questão é: e eu deveria? Acho que ainda não. Acho que isso depende de como as teias da vida são conduzidas. Já escrevi pra amigos de 20 anos, já escrevi pro meu filho, já escrevi pra uma amiga cuja amizade tinha meses, mas que de tão intensa parecia anos.  
Não é que nunca tenha pegado na caneta inspirada por uma ou outra coisa que o tal destinatário tenha me dito ou feito. Isso já aconteceu e é bem  verdade que lá no fundo eu só acho que não é a hora de mostrar os dois ou três textos que fiz tendo-o em pensamento, ou talvez essa hora não vai chegar, ou não sei se será bom apontar em qual ele está sendo a inspiração.
Não acho que seja muito bom explicitar essas questões. Pode ser que ao escrevermos acabemos por desmanchar as expectativas alheias. Quando se promete algo ou se prepara algo pra alguém, o outro sempre espera que seja bom, como não é o caso, como os textos são sempre simplórios e meio confessionais, não vale a pena.
Algumas revelações devem ser evitadas só pra manter o encantamento, como um segredo que não se conta – porque se é compartilhado não é mais segredo, é confissão, como as que fiz, como a que faço e as que vou fazer.
Outra questão que nunca me abandona e que vem acompanha de uma série de outra perguntas é: por que escreveria? Teria alguma importância isso? Seria relevante? A resposta para essas questões se dá através de outra pergunta: porque a necessidade de deixar à vista algo que está tão bem guardado?
Não vejo o motivo pelo qual abrir meu mundo e mostra-lo aos outros seria bom. Serviria apena pra que apontassem e dissessem o quanto fujo dos padrões… ah, padrões… como fujo deles, e como caio neles!
Parece-me que quanto mais tento me desvencilhar desses regramentos sociais mais me prendo em suas teias. Quanto mais livre, mais desprendida, mais percebo que no fundo o que há é uma rebeldia limitada, permitida até certo ponto, como todo o resto de nossas vidas. Como todos os nossos comportamentos e ações e sentimentos.
O que é ser livre? O que é fazer o que se deseja? É ir até onde não ultrapasse os limites do outro. Que beleza de liberdade! Limitada! Convecionada! Quer dizer que só posso querer o que me é direcionado?! Muito bonito isso! Muito livre mesmo.
Parabéns pra nós, pobres mortais, que nos julgamos livres e democráticos, mas que nos sujeitamos a nós mesmos. Que deixamos por muito tempo a alma como prisioneira do corpo e que agora fazemos o contrário: prendemos nosso corpo à alma, que somos livres para fazer qualquer coisa, mas que nos mortificamos depois, pelo que os outros vão falar e pensar sobre nós e pior, pelo que nós vamos pensar de nós! Pelo fato de como vamos lidar com a tal da nossa consciência, nossa algema eterna.
Parabéns pra mim, que tão moderninha, ainda me prendo pensando em “questões filosóficas” de certo e errado quando já devia ter desistido de entender esse mundo. E aqui me coloco como moderninha mesmo. Não, não quis dizer contemporânea, o que é bem diferente. Sou moderninha: leio clássicos renascentistas, inspiro-me em Maquiavel, ouço músicas do século XVI, então é isso mesmo, sou moça moderninha, talvez com um corte de cabelos contemporâneo: estilo sem corte!
Enfim, essa noite só peguei na caneta pra dizer que passados os meus 15 minutos de vergonha pelo elogio que ganhei pelo texto, preciso devolver um sorriso e fazer uma confissão, já que vai deixar de ser segredo: sim, tenho pelo menos um texto que seria dedicado ao senhor destinatário errado, mas está manuscrito num caderninho e não será digitado e nem postado tão cedo e quando  o for, claro, não será apontado! ;-)

Um bom fim de semana pra quem passar por aqui!
                                                                                  Beijocas,
                                                                                                     Dy.

“(…) hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
(Fragmento de Soneto da Fidelidade – Vinícius de Morais)


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sentimento do Mundo


“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”… Há uns três ou quatro (ou mais) meses li esse livro do Drummond. Achei lindo e fiquei horas pensando só no título. Trata-se de uma obra que reúne alguns poemas. Mas o que importava de fato era a ideia de se ter apenas duas mãos… e o sentimento do mundo…
Tenho pensado muito em textos que li há algum tempo e em como eles se tornaram tão atuais “de repente, não mais que de repente”.
Normalmente escrevo sobre coisas que ouço, que vejo, que li e que senti, mas hoje escrevo porque me aborreci, porque vi um dia – o meu dia – colorido ficar monocromático.
Hoje escrevo porque vi outros dias que estavam coloridos passarem para a escala de cinza como em um passe de mágica. Escrevo porque nem se eu tivesse todas as tintas do mundo poderia pintar de novo esses dias.
Escrevo porque vi que se faz urgente pro meu coração se esvaziar de duas questões que são tão diversas entre si, mas que andam tão juntas, como duas mãos a aperta-lo e a fazer com que uma agonia enorme tome conta dele.
Pego na caneta hoje porque aprendi que o papel é janela aberta pra alma fugir, correr e talvez encontrar alento e consolo: ou só pelo fato de ter saído livre a voar ou porque alguém vai ler e depois me acalentar.
Atrevo-me a escrever hoje porque foi o único meio de companhia desacompanhada que encontrei, porque na verdade o que queria mesmo era um abraço, de uns braços que fossem capazes de parar o mundo, de dar conforto, de mostrar que tudo o que eu sentia e ainda sinto é passageiro, que daqui a pouco a madrugada vem com seu vento frio, seu breu misterioso, mas que assim como todos os meus sentimentos desse dia, vai passar, como o andor da procissão, como a chuva de verão, como os anos, os dias, os minutos.
Encaro o papel porque, hoje, talvez tenha sido um dia em que lamentei ter apenas duas mãos, lamentei ser limitada, lamentei não poder resolver todos os problemas que surgem ao meu redor e isso inclui os meus.
Depois de uma ou outra reclamação diária, daquelas que ouvimos por aí, o dia que estava alegre, colorido e ainda enfeitado com os livros que comprei na minha primeira visita a uma Bienal de Livros acabou por ficar pesado, cinza-chumbo-muito-pesado. Não podia e não posso resolver todos os problemas que se descortinam aos meus olhos, mas tentei da melhor maneira que pude. Isso bastou pra eu reparasse a minha pequenez.
A melhor solução que pude dar é só paliativa. Breve. Amanhã ou depois não terá servido de muita coisa.
O que ocorre é que mais uma vez percebi que muitas vezes tomo medidas que julgo serem boas, mas não são suficientes. Não bastam. Passam. Isso me faz mal.
Sinto-me diminuida, como se encolhesse de repente e  ficasse insignificante.
Pra completar “ganhei” um conselho: “você não é a salvadora do mundo”… logo eu que sempre quis fazer do mundo um espaço melhor, que sempre busco fazer o que julgo ser o melhor.
Impotência. Foi o que me sobrou.
Um mundo enorme e eu minúscula.
Um sentimento do mundo e eu só com duas mãos, sendo incapaz de solucionar questões que, em tese, seriam fáceis de resolver, com um ou dois pontos de organização administrativa, bom senso e comprometimento.
As pessoas não são acostumadas com comprometimentos. Não sabem cumprir suas palavras. Na verdade, acho que nem sabem o valor das suas palavras.
Isso é ruim.
Foge ao meu controle.
Não posso pensar que todos sejam iguais e tenham os mesmos parâmetros, as mesmas condutas. Que todos cumpram suas palavras.
Eu não estou cumprindo a minha, ou estou cumprindo em parte, ou estou indo mesmo é na minha própria contra-mão.
Já escrevi sobre isso. É recorrente a questão. Faz parte da segunda coisa que aflige meu coração nesses dias – e acabou extrapolando nessa quinta-feira, com cara de segunda.
Volto a me questionar sobre as coisas que quero. Sobre a minha postura no mundo. Sobre estar ou não sendo “correta”, quando nem mesmo sei o que vem a ser  “ser correta”…
Hoje tenho medo de querer o que quero. Na verdade tenho me contentado em só imaginar, sem necessariamente querer, sem desejar de verdade, que é pra não correr o risco de acontecer e depois de não conseguir bancar, embora a coragem (pra bancar) não falte.
O que penso é que em qualquer historinha da carochinha nenhum personagem é sozinho. Nenhum ato tem consequencias apenas para quem as pratica. Atinge os outros. E causar mágoas e decepções é ruim.
Vejo pistas de duas histórias que estão prestes a se repetir, vejo personagens que representam bem, outros, nem tanto, e eu sem saber direito onde entro, qual minha cena, minha voz, meu papel. Lembro-me de passagens shakespearianas, de peças chinfrins, de frases feitas, de frases não ditas, de oportunidades perdidas e outras tantas se perdendo e o tempo passando e eu ficando, e o tempo passando e eu indo, cada vez mais indo de volta pra terra de onde vim e para onde não queria voltar.
É um misto de sentimentos. Ao mesmo tempo que algumas situações fazem com que me sinta pequena em outras sinto-me invisível. E não consigo definir qual dessas angústias é pior.
Os versos de Arnaldo Antunes ajudam um pouco a entender o que se passa:

Eu estava lá mas você não viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim
(…)
Quando eu fui falar

Minha voz falhou
Tudo se apagou você não me viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim
Mas
se eu já me perdi

Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você
Mas se eu já te perdi
Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você

Sabia que não devia me meter a estudar demais. Filosofia me deixa assim, em crise. E só penso se meu destino está traçado por Arthur Schopenhauer  quando ele diz que "A solidão é o destino de todos os espíritos eminentes  e quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre". Longe de mim colocar-me entre os grandes, mas é que quando se vê o mundo de maneira diferente paga-se um preço alto. Muito alto. Ganha-se só olhares curiosos, comentários nada agradáveis e raros são os que nos compreendem de verdade.
Querer fazer o melhor de si sem medir esforços, cumprir as palavras que são dadas e fazer as próprias vontades, buscando ser feliz parecem não ser coisas muito comuns para as pessoas que se colocam como normais…
É… acho que só porque eu passo os dias cantando não faço parte desse mundo…
Acho que só porque o sorriso insiste em morar nos meus lábios, ainda que haja um pouco de tristeza no coração sou tida como um “bicho estranho”.
Na verdade eu queria mesmo era ser só metade da fortaleza que aparento. Queria que meu castelo fosse de pedras, forte e resistente e não esse arranjo de areia e sal que teme a próxima onda que se aproxima…
Queria poder ganhar o melhor dos abraços agora.
Queria ter olhos que olhassem na mesma direção que os meus e pés que seguissem no rumo do mesmo farol… queria voar lá pra perto da lua, pra contar pra ela meus segredos, medos, inseguranças e talvez enxergar, lá de cima alguém que fosse capaz de me entender…
Queria mesmo era poder chorar igual todo mundo sem ter que dar muitas explicações, uma vez que explicar não resolve… “se fosse resolver iria te dizer foi minha agonia”…
Já que agora o coração está um pouco mais leve depois de se esvaziar pelas palavras, é hora de carregar as baterias para um novo dia.

“O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou…
O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou…” (Nando Reis)

Uma sexta-feira iluminada para todos.
                                                             Beijocas,
                                                                                  Dy.