Visitas da Dy

sábado, 28 de setembro de 2013

Harmonia Escandalosa


Enquanto as horas passam em desvario lá fora, nos perdermos em um chá da tarde, nada pontual-como-os-ingleses, longe daqueles sabores tradicionalíssimos. Permitimo-nos o desfile de sabores locais, com cafés e sucos e geleias, talvez até mesmo um chá, para honrar o nome do nosso programa, o tal “chá da tarde”.
Encerramo-nos no nosso mundo com um pouco de poesia e muita realidade, mas que foge de toda gritaria que está nos rodeando e, como se estivéssemos dentro de um quarto fechado somos só nós: você e eu. E ao mundo, cabe o lá fora. Mas nossas portas não são fechadas. Muito menos nossas janelas.
Criamos o nosso espaço com paredes transparentes. Assim, por mais que estejamos desligados de tudo o que acontece em nossa volta, podemos, vez ou outra, espiar a loucura que nos cerca. E rir das nossas próprias loucuras.
Nunca cafés foram momentos tão sublimes. Nunca sabores quentes esquentaram tanto a alma. Nunca olhos brilharam tanto e palavras soaram tão melodiosas. É um bem-querer que voa e busca pouso lá onde os olhos não podem ver. Lá onde só temos o desalcance de quem não tem com quem experimentar essa deliciosa sintonia.
Distraímo-nos com as páginas de um livro novo. Caetaneamo-nos, poetisamo-nos, filosofamos em um pão de queijo quentinho, derretemos nossa manteiga no calor das entranhas de tão simples receita, mas de tão ricas lembranças. Djavaneamo-nos e discutimos se amar é um deserto ou se é azulzinho e de nossas cadeiras vemos o tempo ruir no meio de um oceano que fazemos questão de não lembrar o nome, no meio de uma baía qualquer ou da Guanabara.
Temos os olhos famintos, mas com ares de distração. Buscamos os detalhes de cada uma de nossas linhas, de nossas sutilezas. E sem maiores esforços, acabamos por encontrá-las no próximo pedaço de bolo de laranja ou coco que combine com as notas florais de um chá novo.
Nossos rostos já são tão familiares que nossa luz ocupa os espaços vagos das ruas. Algumas de nossas frases que parecem soltas são bem mais do que isso e se convertem em perfeita comunhão de ideias passadas, tidas em outros cafés, em outras danças, em outros palcos, em outras ruas pelas quais nos aventuramos.
Pela familiaridade que temos já sei como o seu riso sairá: tão branco pelas palavras inventadas, tão amarelo pelos inconvenientes cotidianos, tão plástico nos “bom dia” educadamente espalhados, mas tão livres e soltos que chego a desejá-los para mim. E eu teria uma coleção só deles. E me alegraria a cada novo item colocado na estante. E teria dias ainda mais felizes. E inventaria novas palavras e novas cores e novos sons, tudo para aumentar a coleção de pequenos riscos de felicidade que me caberiam.
Com essa cena em pleno dia qualquer, em horário qualquer, provavelmente marcado por meus atrasos sagrados e cometidos quase que religiosamente todas as vezes por culpa do trânsito, da chuva, do sol ou da cor do vestido e do sapato, seríamos capazes de neologismos que dariam inveja a Guimarães e Rosas e outras flores quaisquer dessa ou de outra estação. Que pode ser do ano ou de trem, de cinema ou teatro, desde que nos leve para longe desses concretos que nos prendem e nos julgam.
Em nossas cenas de cafés com torradas, não dispensamos o vermelho das geleias tão reais quanto nossos sonhos ou nossos dedos segurando, firmes, a faca ou batendo displicentes na borda da xícara, assim como não dispensamos o vermelho de nossas paixões pelo que está por vir, pela vida e pelo que somos.
Deliramos poeticamente tão conscientes de nosso papel ali naquele cenário e fora dele que quem quer que passe, nos inveja. Somos como as estátuas de bronze das praças que já conhecem cada detalhes das pedras portuguesas do calçamento e estão harmoniosamente completas na paisagem.

Somos donos de uma harmonia escandalosa que vai muito além da compreensão de quem nos tem apenas como componentes de uma vitrine. Somos donos de uma ternura que não se acha mais em qualquer esquina, em lojas de departamento ou sites de compras coletivas. O que temos aqui, disposto nessa mesa de café, entre mim e ti, é sintonia que vem de dentro e que nos ocupa tanto, que se torna visível a quem passa!

Inconformada



Como quem nunca se acostuma com o que vê, ela não se acostumava em ver as pessoas dizerem que sentiam saudades de quem estava longe. Essa era uma lógica que não fazia o menor sentido para ela.
E também não achava a saudade triste, como alguns diziam. Para ela, a saudade era coisa boa. Na verdade era uma “dorzinha gostosa” que apertava o peito de vez em quando.
Sobre a saudade dizia-se ser uma inconformada e, de tanto ouvir que a saudade era tristeza, um dia ousou dizer aos quatro ventos o quanto a sua saudade era diferente das dos outros:

– Nunca senti saudade de quem estivesse longe de mim, de quem, por algum motivo, tenha simplesmente passado por minha vida. Só senti, e sinto, saudade de quem está perto, tão perto que chega a ser dentro de mim, dentro do meu coração. Daí a minha lógica irracional: sinto saudade de quem já passou por mim e agora não fica mais longe, mas que mora dentro. E isso enche a minha alma e me faz sorrir em meio às lágrimas de cristal-saudoso.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Lapso de Tempo


Foi um lapso do tempo,
Um piscar de olhos
Um vento brando:
A solidão desfez-se em espuma,
Voou na luz da tarde quente de quase primavera.
A conta-gotas, contando passos, ele veio.
O sentimento não mediu espaços,
Não mediu o tempo,
Não desfez os laços
E nem os fez.
Caiu como areia na ampulheta.
Rasgou o corpo, serpentou por toda veia
Desembocou no coração.
Jogou pela janela a razão.
Tremeu terras, coloriu os céus.
Deu asas para os sorrisos,
Fez verão na contramão.
Perde-se o rumo, perde-se o prumo,
Perde-se a noção.
Acelera o relógio e para o tempo:
Faz da eternidade um suspiro,
Mora na alma e muda-se para perto de um rio.
Leva a alma, salva, calma,
Ainda que cause arrepio.
Vaga no ar, na noite, no dia,
Pisca o olho e encerra a monocromia.
Concentra-se nas cores,
Nos sons do dia.
Acorda do sonho e a cabeça rodopia:
Tudo aconteceu num bater de ponteiros,
Num passar de segundo,
Na rota entre eu e a gota de orvalho que caia.
Tudo passou em breve tempo,
Breve espaço,
Breve raiar de euforia.

Era o lapso do tempo que já se despedia.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Positividade



Na flor da idade, a vida em flor, olhando as flores pelos jardins que se espalhavam pela cidade, aos vinte e poucos anos vivia em plena primavera.
Experimentava as delícias dessa estação como se jamais fosse chegar ao outono ou ao inverno.
Planejava, no máximo, seus verões, tão quentes quanto a temperatura em meios aos seus lençóis cúmplices. Quentes como os seus sonhos de muitas noites de verão. Quentes como versos de Hilda Hilst, lidos na companhia de vinhos e carícias de igual teor de força, de calor, uma equidade rara, muitas vezes incompreendida por quem apenas olhava pela janela. Uma homogeneidade que por ser incompleta, se completava.
Caminhava assim em sua primavera. Ah, a flor da idade... era um poema de Drummond, era um quadro de Van Gogh. Era vida, viva, plena. Uma vida repleta de desejos cintilantes que lhe pulsavam na carne. Possuía olhos descobridores. Entregava-se com uma nau à deriva pelos mares de surpresas, vagando pelas ilhas de novos sentimentos e sensações, transformando-se em terras nunca desbravadas só pelo prazer de sentir-se (re)descobrindo-se a si.
Tinha o privilégio de caminhar sob um céu tão azul que chegava a enjoar. E sob ele sonhava sonhos de outros céus. Outros caminhos, outras portas. Dessas portas que se encolhem, como se fosse possível experimentar o líquido mágico de Alice e encolher. Desejava ficar do tamanho microscópico. Desejava ser minúsculo em carne e osso, mas grande em essência, conhecimento. Diminuir para aumentar de tamanho deveria ser uma boa teoria: pelo menos não era a mesma  usada por todos os outros.
Mas em toda primavera, há tardes chuvosas. As flores precisam de água. A água salva. A água lava. Água límpida e transparente. De sal, de suor, de lágrimas. E um céu nublado. Que parecia anunciar maus agouros. Parecia fim. Parecia fim de estrada, fim de romance, fim de férias, fim de domingo. Um fim desses dolorosos. Desesperançoso. Triste fim, quase como o de Policarpo, com uma dose muito maior de drama. Era drama real, talvez. era um drama.
Era um fim. Mas os fins costumam ser anunciados de modo triste, em aura carregada, num ar pesado como chumbo que não se adapta bem nas narinas e esse fim vinha embrulhado. Era um papel tão branco. Podia ser um evangelho qualquer. E era. Só não havia sido lido como deveria.
No meio da primavera, a chuva. Uma tempestade. Reviravoltas. Cristais no chão. Diamantes perdidos no tempo e no espaço como se o final feliz pra sempre terminasse ali, diante dos olhos embotados.
Pelos olhos transbordantes corriam cachoeiras de revolta, medo, raiva, tristeza, desespero, insegurança e solidão. Fez um oco no meio do peito. Arrancaram-lhe parte da seiva essencial para a vida. Ceifaram-lhe a cor dos dias. E tudo passou a ser branco. Um branco quase fúnebre. Porque o negro era denso demais pra ser sentido. O branco era tudo o que lhe caia bem: branco do papel, da paz que perdera naquele momento, dos sonhos esmorecidos, das desistências corajosamente tomadas em atos covardes. O branco que preencheu o vão entre o que era e o que queria. O branco dos questionamentos, das interrogações, das dúvidas e da eterna pergunta: e o amanhã, virá?
Como gigante fragilizado quedou-se de joelhos e perdeu-se em pensamentos, orações – Deus há de ouvir a prece dos corações partidos – e dormiu. Em seus sonhos tão reais quanto podiam parecer, fugiu. Foi pairar debaixo de outro céu, mas da mesma cor de antes. Não adiantou. O branco do papel sempre o perseguia, dessa vez, estampado nas nuvens do céu.

Restou-lhe só a redescoberta do branco: que podia muito bem ser o início de vida nova, de nova estação. Uma pausa na primavera, uma poda, uma reflexão um pouco mais severa do que para os outros mortais, mas vestida da única certeza que temos nessa vida: o pra sempre, sempre tem o seu fim. E colorir o caminho está nas suas mãos, sob o controle de suas escolhas e cores. O branco do papel que antes era terror, fez-se tela nova, para novas possibilidades e novos caminhos, novas intensidades e a certeza de que revelações fortes só surgem diante dos olhos que são capazes de ver a positividade como ela é: oportunidade de se viver mais e melhor, consciente de sua busca.

Escolhas



Para Dante Scola e Alessandra Ferreira

Faço minhas escolhas todos os dias. (In)felizmente vai além do vestido e do sapato e da bolsa. Vai além da fragrância do perfume e da cor do batom.
São escolhas dessas que nos acompanham pelo resto da vida. Que trazem consigo a dúvida das outras tantas possibilidades do que poderia ter sido, mas eu as aceito.
Aceito as minhas escolhas e toda a carga que elas me trazem. Aceito beber das poucas gotas do mel que escorre do canto de seus lábios. Aceito fechar os olhos e me imaginar sorvendo-o direto da fonte. Aceito sem reclamar as migalhas que me sobram, não porque me contento com pouco, mas porque até os cães que se alimentam das migalhas de seus senhores lhes são fieis. E eu, pelas escolhas que fiz, pelas escolhas que faço, escolhi ser fiel, muito mais ao medo do que à coragem, confesso, mas escolhi. E carrego o peso dessa escolha todos os dias. E acho o fardo leve. Principalmente quando ele se reflete no seu riso tão branco, tão limpo, tão sincero, tão próximo e tão meu, mesmo não o sendo tanto quanto eu gostaria.
Eu não posso escolher ser imune aos sofrimentos, ninguém pode. Mas que esses sofrimentos me sejam doces é um esforço que preciso fazer tão certo como respirar. Que o espinho que me crava a alma seja, pelo menos, banhado em sândalo. 

Eu aceito as escolhas e todos os seus doridos frutos. Eu aceito as minhas escolhas e toda sorte de marcas que ela vai me deixar e as exibo com certo orgulho, já que refletem a minha força em seguir adiante. Trago na pele as letras de cada escolha que fiz como se eu mesma fosse uma folha de papel em branco e as letras que me cobrem são escritas pelas minhas próprias mãos, por minha própria vontade, porque fiz delas minhas criaturas. Criei cada vírgula do texto que me recobre a pele. Eu sou as minhas escolhas, assim como as minhas escolhas são partes inexoráveis de minha própria carne.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ávida


Na ausência do rosto, o nome.
Na falta do nome, o sonho.
Queimando no sonho, o desejo.
Desejo da noite chegar,
De me perder pela lua,
De ter as estrelas nos olhos,
De ter o mar sob meus pés
E de não me conter.
De na me caber em mim,
De extrapolar, enfim,
O que carrego nas voltas do meu coração.
O que atrapalha e atropelo meus pensamentos.
Que me faz mais leve que o vento,
Que me dá mais voltas que um labirinto,
O que me faz cada vez mais, mais...
Ávida.
Ávida pelo fio-condutor
Ávida pela ciência de ser-te,
Saber-te, conhecer-te
Aqui e a sós,
Desembolar teus nós, em nós, nos lençóis.
Ávida por ter-te.

Tu que és sem ser.

sábado, 14 de setembro de 2013

Trem



Com o embalo do trem ela havia pegado no sono. Sua figura apresentava uma beleza quase marmórea não fossem tantas cores, não fossem os leves solavancos que dava, acompanhando o movimento férreo.
O pescoço esguio, longilíneo, ficava todo à mostra quando o lenço de seda que ela usava esvoaçava, bailando com o vento quase úmido. As linhas retas de seu pescoço e ombro faziam um leve ângulo, sustentando a cabeça, cachoeira da qual escorriam madeixas castanhas, levemente onduladas nas pontas. Era um ângulo convidativo aos beijos de minha boca de expectador.
Imersa em seu sono apoiava-se na janela. Eu, do outro lado do corredor, a observava atento, quase encantado. Ameacei atravessar o vagão e sentar-me ao seu lado, só para saciar a minha curiosidade de ares pueris: ela passava-me a impressão de exalar perfume de fruta fresca ou de rosas. Eu quase podia sentir aquele frescor que saia de minha imaginação.
No meio da tarde o trem estava sendo tocado pelo sol que a iluminava e a deixava especialmente atraente aos meus olhos. O contraste entre o amarelo-pálido-brilhante dos raios macios que atravessavam a janela com os seus cabelos era fascinante.
Os lábios tinham a cor de um Carménère, vermelho-rubi, cuidadosamente pintados, aflorando desejos de se experimentar o sabor intenso e equilibrado de frutas vermelhas e café. Desejei aquela boca como a uma taça de vinho, com vontades loucas de sorver cada gota que ela derramaria.
Entreabertos como um relicário, os lábios deixavam à mostra dentes tão brancos quanto pérolas recém recolhidas de um mar de segredos. Eram marfins muito firmes, enfileirados como teclas de um piano que mesmo em silêncio soavam uma toada leve aos meus ouvidos e eu me entontecia.
Abandonei meu lugar. Na iminência de ter alguém ao lado dela, voei baixo e pousei no assento vago à sua esquerda. Hipnotizado, não ousei desviar os olhos daquela quase-Vênus-de-carne-e-osso-e-charme.
Ela dormia profundamente e suspirava. Não podia imaginar que eu a admirava, observando-a a tanto tempo.
Minha estação se aproximava. Ela não acordava. Mas e se acordasse, o que eu faria? Desviaria o olhar e só. Busquei encher-me daquela presença e mergulhar em minhas fantasias contemplativas antes que a perdesse de vista para um nunca mais qualquer.
Subitamente ela acordou e olhou-me, atravessando com seus olhos de seta. Soltou um cumprimento meio tímido, mas polido, embrulhado ricamente em um tom de voz que aveludava aquele boa tarde. Tremi mesmo sabendo que aquela cordialidade era plástica, uma praxe social.
Com ares tocados pela distração e um leve não-saber-onde-se-estava ela olhou pela vidraça. Aquele par de olhos da mesma cor que seus cabelos eram úmidos como uva fresca. E atentos. Logo capturaram a localização e minha musa levantou em um passo ligeiro, mas quase flutuante. Deu-me um sorriso liso e desceu na estação que havíamos acabado de chegar.

Deslizando entre os tantos passantes ela sumiu na multidão, levando consigo parte dos meus sonhos ensolarados daquela tarde. Depois dela vieram as nuvens e o céu nunca mais foi o mesmo.

Faxina


Entre salas e quartos,
Cozinhas, varadas,
Pratos, copos,
Roupas e poeiras,
Vassouras e pás,
Passou-se o dia:
Haja faxina!
Mas para toda rotina,
Para todo cotidiano,
Há a possibilidade de uma parada.
Entre as vagas do relógio,
Parava por dois minutos para sonhar:
O sábado morria preguiço.
O sol se escondia entre laranjas e lilases.
Na taça bebeu seus amores,
Brindou a noite que caia.
Respirou fundo...
E em meio a tantos afazeres,

Houve um tempo para se sentir alegria!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Caos


Domino o caos dos meus pensamentos,

Organizo todas as ideias,

Aquieto meu coração

E sigo até o próximo sinal.

Até que me venhas quase inocente,

Até que me jogues em um turbilhão.

Então, respiro fundo e mergulho

Nesse mar abissal,

Provo do meu próprio sal.

Visito novamente o meu próprio caos.

E recomeço, e reconstruo, e reorganizo. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Poema do Amor sem Fim


No inverno seus olhos verdes
Vieram ao mundo.
Começava a estação fria mais quente de minha vida.
(O verde de seus olhos anteciparam a primavera)
Ah, olhos verdes, de ver-de-perto o meu amor!
Menino curioso, nasceu de olhos abertos
E assistiu a tudo:
Chegou no mundo para desbravá-lo.
Da boca aberta ouviu o choro,
Estreia triunfal de voz que mal canta,
Mas a todos ao redor encanta.
Aos pés pequeninos, sonhamos o melhor destino.
Para as mãos perdidas, meus dedos:
Segurança, proteção.
Do meu peito que parecia vazio, abrigo,
Alimento, acalanto, doação.
Da minha boca aos teus ouvidos, oração e canção:
O amor existe e se multiplica quando a gente se divide.
Em meus olhos castanhos, verão.
E eles verão os teus verdes
Verem de perto o verão que nos aquece.
Serão dias mais dourados pelos teus cabelos que pelo sol.
Mais ardentes por sua presença,
Mais quentes em seus abraços,

Mais infinitos pelo som de tua voz.

domingo, 8 de setembro de 2013

Lonjuras


Entre você e eu, o mar
A ponte, o leme, o mapa.
Entre meu coração e o seu,
Dúvidas latitudinais me partem ao meio.
Não separo mais o perto e o longe.
Tornaram-se duas incógnitas:
Estar perto quando longe
E longe quando perto.
Entre você e eu, um mundo de inquietações.
Encolho-me entre minhas reticências,
Dobro todas as exclamações em questões,
Aprendi a gostar das curvas das interrogações.
Por trás de minhas lentes, escondo-me.
Mostro-me em linhas longitudinais:
Desfaço-me em versos lisos, soltos, debruçados no papel.
Estendo-me remotamente pelos dias.
Entre você e eu, miragens.
Rumo em busca de um norte,
Tateando os pontos cardeais
De uma rosa que desabrocha no vento.
Não vejo sequer sombras.
E como se definhasse de sede,
Vejo em você um oásis,
Refúgio para meu peito aberto e cansado.
Entre você e eu, um presente.
Um equilibrista teimoso que nasceu do ontem,
Que é fruto de um passado lácteo, como a Via,
Com suas estrelas e nebulosas
(São todas distâncias férreas, anos-luz)
Somos igualmente distantes entre os que passam
E entre nós que trocamos passos.

Somos ao mesmo tempo contiguidade e solidão.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Invasor


Invade-me como a um país.
Acerta-me com seus olhares,
Como a seta chega ao alvo.
Toma-me como a terras desconhecidas.
Habita-me.
Espalha-se por todos os cantos:
Da casa, da rua, do corpo.
Sorriso na estante, pôr do sol, beijos.
Invade-me petulante.
Acampa em meus sonhos,
Rouba-me o sossego.
Coloniza-me com seus planos.
Ergue-se Babel e sugere me levar ao céu.
Rasga-me ao meio e mais:
Abandona-me à própria sorte
E diz que voltará logo.
E volta. E recomeça.
E invade-me novamente.
E não resisto.
Entrego-me como o cordeiro ao holocausto.
Como a virgem no altar.
Abro-me como semente na terra.
Rendo-me como prisioneira de guerra.

Aceito o invasor como meu senhor.

domingo, 1 de setembro de 2013

Céu da Boca


Quero perder-me em seus braços, abismada,
Buscando sair de mim.
Que saia de si!
Que se perca no balançar da minha saia.
Quero ziguezaguear pelo espaço,
Correr pela lua,
Conhecer seus planetas,
Tirar-lhe da órbita.
Quero ser estrela.

Que habita o céu de sua boca.