Visitas da Dy

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Olha o Golpe



Pela família.
Pela moral.
Pelos bons costumes.
Por Deus.
Por Deus!
Derrubaram a mulher.
A mulher guerreira na ditadura.
A mulher envergada na ditadura.
A mulher presidenta da República.
Os homens em seus ternos sufocados,
Em suas mentiras afogados.
Defendendo sua integridade
Ou a integralidade 
De sua mamatas.
A mulher incomodava 
Mais por seu batom e saltos
Ocupava "lugar de homem".
Foi achincalhada. Desrespeitada. Vilipendiada.
Caiu.
Olha o Golpe!
Três anos!
Mais de mil é uma noites de pesadelo...
Olha o desmonte!
Previdência e aposentadoria 
Educação e pesquisa
Corrupção já faz parte do pão nosso de cada dia:
Tem que ser engolida a seco.
"Mas se for ruim a gente tira"
E só o que tiram são meus direitos.
"Mas se for ruim a gente bate panela"
E as panelas estão vazias de comida
Os ricos sem argumentos
Os pobres (quase) convencidos pelo discurso divino:
Deus ajuda quem cedo madruga.
Eu tenho é a força de Maria, Maria
Que tem fé na vida,
Que ganha as ruas e grita
Que se cansa e briga
Que chama a greve e denuncia:
Basta de Catilinas!
Olha o Golpe!
Eles comemoram
Eu bebo molotovs
Estou prestes a explodir,
Mas sem lutar eu não morro.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Parindo Estrelas






Por vezes, escrever é a única coisa que me acalma, me liberta, me salva. Diante de uma folha em branco, com a caneta na mão, posso povoar aquele universo inteiro com sentimentos, como se eu fosse o céu e estivesse parindo estrelas que, por vocação, servirão de alento, esperança, conforto. As palavras saem de mim. Eu me abandono em cada uma delas e passo a habitar entre margens como uma singela forma de estar em vários lugares ao mesmo tempo: moro em cada um de meus escritos, onde quer que eles estejam. Nasci poesia. Sinto demais. Escrevo demais. É o esvaziar-me que me dá vida. É a palavra que me salva e, por ser eu mesma quem a (re)cria, sinto-me tão sagrada quanto ela: coexistência divina. Sou verbo. Ação. 

domingo, 28 de abril de 2019

Da despedida de um amigo



Eu ainda não sei bem se meu café com cardamomo vai ser o mesmo amanhã. Se quando eu dançar um dabke, terei a mesma alegria que tive antes. Eu nem sei bem em quanto tempo vou conseguir lidar com a saudade.
Despedir de um amigo sempre foi algo que me assustou. Não sei lidar com perdas: de jogo de botão a adeuses longos. E hoje foi dia de adeus.
Hoje foi dia de refletir a brevidade, de colher lágrimas em abraços benfazejos, de repensar a dança, a vida, sentir dor e alegria ao mesmo tempo: aquele que se vai cumpriu sua missão. É uma felicidade chegar ao fim do trajeto e ser sinônimo de boas lembranças! Mas, sou egoísta, e me dói saber que amanhã beberei sua ausência.
Hoje eu queria um afago na alma, um cafuné em cada um que chorou comigo.
Hoje eu queria só amor, ser um vento calmo, mas fui lágrima e sal.
Hoje aprendi mais uma coisa com meu amigo: o sonho vale a pena e precisa ser continuado através de quem fica. Agora, todas as vezes que eu dançar, será por sua memória.
Agora que não está aqui  e não me incentiva, me inspira. E será por sua lembrança que meus pés encontrarão os palcos.
Ao querido amigo, Tufic Nabak, que hoje é muito mais luz do que já havia sido em vida.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Habitação





Habita em mim uma deusa,
Um sonho, seu som ancestral.
Habita em mim uma força,
Um lamento, um grito silencioso.
Habitam em mim gestos coloridos,
Traduções de meu eu em movimento.
Não sou mais que um eco rouco.
Não sou mais que a prece fervorosa.
Não sou mais que o milagre da vida,
Sua necessidade, seu colo,
Seu respiro, seu alimento.
Sou a fértil margem do rio,
O calor do sol e a força da lua.
Sou o que lhe cabe nas mãos e escapa:
Sou o tempo dançando na imensidão.
Não me descobri no mundo...
Foi o tempo que se encarregou de me encaixar.
Lugar nenhum me cabia,
Mas o ritmo, a dança, me cadenciam
Sou levezas, um pouco de cada deusa,
Transformo-me em sutil poesia.
Ganho asas, pássaro sagrado, 
Pousado nas margens do passado,
Dançando no meu mundo-presente
Sou, antes de tudo, faísca.
Sou parte da criação divina.
Danço o som do universo.
Habitamos o mesmo ritmo.

domingo, 21 de abril de 2019

Bailarina



Tendo nascida um pouco mais forte de que a maioria em seu tempo, ela, de envergadura pequena, mas de muita presença de espírito, tinha pouco mais amigos que dedos nas mãos e um coração-terra com o qual travava diálogos truncados no espaço-tempo de longas madrugadas, deitada na cama, na penumbra.
Quis o destino que ela soubesse o que era o amor-par apenas por ouvir falar e que o cultivasse não da forma romântico-encantada dos contos, mas de modo saudoso, como quem já o experimentara, deixando-o quase de lado. Dedicava-se, por outro lado, aos amigos-sementes, que lhes floresciam no coração.
De certo, cansada da jardinagem diária, sentindo-se sozinha em uma noite outonal indagou seu coração:
- Então, coração, você que floresce amizades, que esbanja amor-fraternal, o que me diz dessa sensação de lonjuras que me vem a cada vez que me deito e olho para as solidões de meus caminhos?
- Ora, pequena jardineira, não sou eu a terra em que firmas suas sementes. Sou, nesse caso, de contrários: sou a semente dormente, cujo amor latente vem de longe no tempo, de passados. E, embora sofra de dias nublados, repara bem nos brotos que já me saltam quando certo sorriso-sol me aquece...
Cansada, adormeceu aconchegada entre aquelas palavras e, tão logo despertou, passou a observar os sóis que lhe faziam generosas carícias quentes com seus sorrisos até o momento que, de súbito, o rosto corou... a pele ardeu, o peito parecia romper-se e o coração, aos pulos, lá no fundo gritava:
- Dê boas vindas à primavera da vida: floresci! Sou oásis em seu peito que era deserto... Estenda a mão e colha o seu amor-par.
Ainda desnorteada estendeu a mão e ouviu a música do universo tocando para que, entre levezas, com seu par, deixasse de ser jardineira e se tornasse bailarina.

sábado, 20 de abril de 2019

Janela



Toma conta de mim. 
Cede seu (a)braço um pouquinho.
Mesmo nas horas que eu pareço forte. 
Às vezes, preciso fugir de mim. 
Seja meu abrigo. 
Eu pareço dar conta de tudo, 
Mas tem uma hora que estanco. Sofro. 
Choro. 
Quero colo. 
Careço de sorriso, 
Seu carinho em meus olhos, 
Minha paisagem favorita. 
Às vezes, quero me abrir feito janela: 
E ver você debruçado em minhas margens.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Tatos



Pouco sei dizer do teatro da vida, mas me lembro bem daquela aparição no palco de minhas histórias.
Tinha uma iluminação que transpassava minha inspiração de recém-poeta, que aclarava os sentidos ao mesmo tempo me levava para outro lugar que era completamente alheio ao que já conhecia.
Era uma iluminação sagrada da qual tornei-me alma devota, entregue ao encantamento, ao desalinho de um não-sei-o-que-fazer, de um saber que, daquele momento em diante, eu deveria ser espera.
Aceitei o espetáculo ingênuo e singelo que o amor apresentava como quem não tem outra alternativa a não ser beber da eterna confusão dos corações que pairam entre a ilusão e realidade. Agora, aprendi a lidar com a luz que ofusca meus olhos: ela ensina-me o tato. E, enquanto anseio pelo toque, tateio sentimentos e sou expansões de compreensão, cuidado e sonho.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Espera em Movimento



A mulher que lhe ama, hoje, saiu atrasada de uma cama que mal reconhecia. Sacudiu os cabelos molhados, recolheu a roupa do chão e não deixou bilhete de bom dia. Não vai ligar pra ele. Nem sabe se atenderá a ligação que ele fará.
Ela pairou ali, naquele lençol por diversão, por vontade, porque nenhuma espera precisa ser estática.
A mulher que ama você foge às suas regras: pede uma cerveja, ri alto e serve no jantar uma comida congelada. Ela tem as próprias rédeas e raramente as usa.
A mulher que ama você poderia mudar o mundo, poderia correr até você, poderia por-se aos seus pés, mas, ao contrário ela o faz enxergar o mundo como um turbilhão. Ela o faz correr pelas ruas sem pouca direção. Ela lhe dá pés para a caminhada e sabe que as histórias serão longas. É por isso que ela lhe espera chegar. Mas a espera dela é agitada. É fuga da monotonia. É fuga da saudade que ela tem dos dias que ainda não vieram.
A mulher que lhe ama diz seu nome ao vento enquanto ouve sua música favorita. Ela o enxerga nos detalhes que têm seus traços, seu cheiro, suas cores. E ela o espera, mas nunca vai parar por você, porque ela é movimento.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Ferida



Não, eu não quero lhe ver
Depois de ter-lhe sonhado a noite inteira.
Não quero relembrar o cheiro
Que ainda estava no travesseiro.
Não vou atender as ligações,
Quebrar o silêncio, 
Embriagar-me com sua voz.
Hoje não responderei ao bilhete entregue a outrem
Quando poderia te-lo deixado sobre minha mesa.
Não, eu não vou dizer uma só palavra
Vou guardar a saudade que é só minha
Esconder a euforia que sinto ao vê-lo.
Vou esconde-lo de mim, em minhas entranhas.
Vou apaga-lo dos meus dias.
Vou libertar-me percebendo sua ida
Vou lamber minhas feridas
E vou renascer

quinta-feira, 21 de março de 2019

O Despertar das Deusas



(Poema feito para Tufic Nabak e Cíntia Prado para o espetáculo "O Despertar das Deusas, em novembro/2018)

A cada nascimento de uma mulher
Uma estrela brilha mais forte:
É a certeza dos céus de que a vida é bela.

A cada folha do calendário que vira
O tempo respira e contempla a serenidade:
Ele sabe que cada mulher desperta em sua hora.

Somos ecos ancestrais
Espelhos de energias cintilantes
Somos mulheres-deusas:
Um descobrir-se constante.

Profetize, Sibila, em seus versos noturnos!
Cabe à mulher a arte de um ser profundo:
Inanna nos guia em nossa busca interior!
Cada mulher tece sua história, 
Regenera suas forças, é um pouco de Freya:
Dança a sensualidade, o amor, veste-se de flores. 
Incompreendidas, fomos, como Lilith, lançadas nas sombras,
Aprendemos a lidar com nossas tempestades
E também somos calmarias
Donas de nossos corpos e destinos,
Guardando nossos tesouros na caixa de Fulla.
Na palma da mão ou no suor do rosto, não desistimos:
Ártemis nos torna caçadoras incansavelmente fortes.
Nascemos como ela: guerreiras.
Somos quentes, explosivas, um vulcão à flor de Pele
Destruímos o mal, protegemos nossos sonhos.
Cada mulher é um inconstante vai e vem,
Ondas de mar, Iemanjá!
Temos o dom de amar
De fecundar outras vidas e chorar rios de Ísis
Sabendo ser parte da plenitude da alegria e do amor
Somos equilibristas de sentimentos, dançarinas, coloridas como Hator.
Cada mulher é um universo, Eurínome,
E, diante de sua descoberta, toca o êxtase.

Eu, mulher, já fui criança,
Amiga, amada, amante, caminhante
Fui tristeza, colo, amparo, carinho
Já fui santa elevada
Já fui calada na fogueira
Experimentei solidão, sonho, paixão
Eu, mulher, no tempo sou corpo-templo
E abrigo em mim um grande movimento:
O Despertar de todas as Deusas
Que me faz ser resistência,
Luta, fervor, sororidade 
E, sobretudo, amor.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Marcas (Epitélio)




Então, despida, só terei no corpo as marcas que se tornaram naturais. Meu símbolo preferido exposto. Cru. Sem explicações. Apenas ele, compondo minhas complexas fases, reverberando parte do que acredito. Ora amuleto da sorte, ora lembrança do que fui, sempre sinal de minhas escolhas.
Não terei muito mais do que olhares e entrega. Palma da mão estendida, olho aberto, espera... A boca semi-calada, bebendo suspiros. Ouvidos atentos, colhendo frases como mãos em concha cheias de areia.
Serei eu, envolvida nos escuros de meia-noite, a guardar meus segredos, a ser silhueta, pronta para desfazer-me em suas pontas de lança, que, pela aveludada confiança, podem matar-me em afogamentos de desejos?
Serei eu o alvo da seta?
Serei?
Sou, pouco mais do que posso, esse quê de liberdade e fantasia, de sonhos e feituras, de querer-me bem, mais do que a você, mas ainda lhe quero.

sábado, 2 de março de 2019

Sem mapas



Os caminhos são vaaaaastos
E não tenho nenhum mapa.
Mesmos as linhas retas me soam labirintos.
Não que eu esteja perdida.
Não que eu não saiba onde vou.
É que gosto de olhar o futuro pelas janelas do passado
E deixo o tempo escorrer pelo meus cabelos 
Como se fosse o vento...
Sinto-me leve
E desejo voar até você.
Onde é seu ninho?

domingo, 6 de janeiro de 2019

Coisas Simples


O que sei do amor ficará para sempre nas coisas simples que experimentei.
A vontade de ver você chegar, de beber em seu copo e sorver beijos. 
A cor do céu quando o sol se foi e a tempestade caiu, fazendo brilhar os meus olhos.
O seu cheiro na camisa. A cor do pneu e do asfalto nas viagens.
O gosto da bebida. O mundo girando. As ideias girando. As pernas tremendo. O sono manso da tarde de domingo. O abandono do corpo na cama macia.
O que sei do amor pode ser contornado pelos meus dedos, emaranhado de cabelos, silhuetas na madrugada, páginas de livros.
O que sei do amor, nunca vai ser escrito, descrito, às vezes, nem vivido. Mas permanecerá, pra sempre, entre as coisas mais simples.

domingo, 25 de novembro de 2018

Olho do Furacão




Emprestei-lhe meus corpos em tantos tempos...
Dancei sob seus sons, seus toques, seus olhos.
Mesmo quando estávamos perdidos,
Mesmo quando me era só um sonho,
Mesmo quando só ouvia seus ecos,
Era o seu ritmo que me guiava.
Não tenho as medidas do que sinto
Tampouco sei suas definições.
Danço...
Repito minhas palavras secretas
Sussurro meus encanamentos à noite:
Ela me sabe, me acolhe, me ampara.
Ela me inspira, me sonha, me desperta.
Sou senhora de incertezas,
Flertando com teimosias.
Sou a que ouve conselhos e não os segue
A que tem um coração e não o cede.
Sou a que lhe espera sem saber se virá
Sou a que deseja resiliência sem saber o que é calmaria.
Danço no olho do furacão
Em sua ausência faço tempestades,
Mas, não sei se sua presença me acalmaria.
Talvez, ao tocar-me, eu explodiria.
Que fazer, então, se o meu bem me faz tão mal?
(Con)viver é dosar o veneno diário
Até ele seja a própria cura.

sábado, 24 de novembro de 2018

Sob as brumas do tempo




Eu não sabia nada do mundo
O mundo não me sabia, 
Mas eu pari os seres,
As luzes, as cores.
Sou a guardiã da vida!
Aos poucos, sacerdotisa, deusa
Árvore frondosa
Sempre mãe, aquela que nutre.
Feroz, protetora, amor-ardente
Minha força causou medo:
Queimaram meus sonhos,
Afogaram meus planos,
Rebaixaram meu papel...
Mas eu sou o próprio tempo em movimento!
Olhei o passado e despertei
Renasci
Resisti às brumas do tempo
Às mãos que tentaram me calar
Sou hoje amplitudes
E o mundo todo é meu lugar






segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Ao seu dispor




Mora em meu peito, amor,
Uma saudade, um lampejo de ardor
Das noites tão quentes
Em seus braços envolventes,
Eu me abria em flor...
Memórias tardias,
Nessa tarde vazia,
Em que olho o meu corpo
Em que não cabes mais.
Miro no espelho o meu rosto descrente
Tão certo de que não vai amar jamais
É o frio pungente, dessa solidão doente
Que não se desfaz
Mas, ainda é cedo, amor,
Para voltares a ser meu calor,
Tenho o leito em espera,
Alimentando a quimera,
Pondo-me a seu dispor...

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Transgressão




Foi assim. Quando menos esperei ele chegou e me fez parar. Não por ação. Não houve movimento. Só a existência. Só a presença.
Estanquei. Parei de respirar. Só o coração pulsava, descaradamente confuso, trocando o sangue nas veias, embaralhando os pensamentos. Acho que me perdi ao ser encontrada.
O fato é que, por ora, no trânsito da vida, aquele instante pareceu um engarrafamento: uma vontade de avançar com impedimentos. Quando o fluxo se restabeleceu, alguma coisa havia mudado. O rumo, a direção, o sentido. 
Eu me sinto ainda perdida naquela tarde que parecia outono e sou esmagada pela vontade - que tive! - que ainda tenho, de transgredir a ordem do dia, de saltar na direção do meu descontrole, de dizer que eu sempre fui espera, mesmo quando nem sabia.

sábado, 9 de junho de 2018

Lirismo




Ao esforço da literatura recaem meus lamentos e amores. Não os sonho muito mais do que um piscar de olhos e um “só por hoje”. Aprendi que essa, quiçá, seja a breve fórmula da felicidade: viver o hoje.
É um exercício, de fato, que as horas não sejam contadas a longo prazo, apenas como brevidades. Ora, vistas de olhos bem fechados, despertando sensações. Ora, sonhadas de olhos bem abertos, atentos aos milagres da existência.
Aprendi que a descrição, via poesia, torna tudo mais leve, mais completo. O viço de seu sorriso só perde para o frescor de sua chegada. Assim como beber o castanho de seus olhos me desperta bem mais do que qualquer café que eu coloque na xícara.
Não se tratam de loucuras ou delírios febris. São apenas as formas poéticas de descrição daquilo que coleciono nos dias: meus sonhos e quereres.
De certo, faltam-me palavras às vezes. Faltam-me línguas escorregando por troncos diferentes, em sentidos mais amplos do que posso compreender, para  (d)escrever as sutilezas que me saltam ao coração.
Percebo-me, então, na condição eterna de aprendiz: por vezes alegre com as conquistas, mas infeliz alma que nunca se sacia, porque o que se almeja nunca chegará à completude.
Oh, sísifo esforço! Nenhuma medieval dedicação lhe será suficiente aos sentidos tão seus e próprios dos desejos que brotam à alma. Não há descanso nem durante as longas noites em que mergulha nos véus de Salomé (se é que essa um dia os ostentou).
Não se revelarão os segredos mais tolos, porque deles é o reino da imaginação, onde, além de suas nuances, habitam os léxicos tantos que só arrisco na borda transparente que contorna um sumo tinto e inebriante.
Não se responderão minhas perguntas filosóficas, minhas expectativas ou conjecturas dignas de uma Babel, porque não se traduz o que se sente senão por exageros e lirismo e, uma vez tocado por esse encantamento, não poderão se descolorir em realidade.
Contento-me no esforço diário da escrita: cartas, versos, poesia e entrelinhas que, para além de uma organização de palavras, são, sobretudo, uma tentativa de compreensão do mundo e de sua existência longe da minha.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Estação Espera





Conto o tempo pela lua. Ela já virou desde a última vez que lhe vi.
Era cheia de brilho, do meu afeto, do seu cheiro, de minutos de nós, passageiros como a fase da lua, mas nossos.
Agora ela míngua. Definha suas saudades que eu coo com um café. Filtro de vontades quentes, que me queimam a língua e repetem à boca: não existem essas miragens minhas.
Fomos roubados pelo Tempo... Há um vau entre nossas histórias que os pés não cruzam, não se deixam molhar pelo desconhecido.
Nunca estivemos tão empenhados em planos de papel, sutilmente  próximos-distantes, estranhamente colocados em cenas que não nos cabem, se não, exercendo outros papéis, mas a presença ainda é uma energia translúcida que me invade, alegra e não aquece...
Sinto frio. Pouco respiro. Nunca tivemos tanto a perder: o rumo, o tempo, a chance, o que poderia ser, o raio caindo na terra, partindo (des)entendimentos, mas evita minhas tempestades (de areia, em copo d'água, de verão) e desvia seu caminho, seu olhar, adia a-próxima-ção.
Fiz-me estação, espera. Estávamos nós caídos sob nossos sonhos antigos?  Estávamos incontestes entre sorrisos não dados e vazios na estação à espera de que o medo dissipasse? Ele não vai passar. Ele é o fixo desafio vital.
Acomodados, aguardamos que tudo nos viesse ao próprio tempo, lento, como-deveria-ser e nos esquecemos de nós. Esqueci-me de mim. Estanquei contando luas, como as nuvens que ardem até se precipitarem em nossos olhos.
Sou a tempestade. A água escorre pelos meus olhos. Rogo que alivie a seca de meu coração deserto de suas chegadas.




quinta-feira, 7 de junho de 2018

O Sagrado e o Profano




Eu não mentiria se dissesse que gosto do momento em que sou o alvo de seus olhos. Mesmo de relance, quando os pego em flagrante. Mesmo sendo fato anunciado, presença que deflagra.
Porém, mais sagrado é o instante que precede a ação. Espontâneo. Intrépido. Que bagunça seu meio-dia desenhando, de alguma forma, minha presença em seu pensamento.
Esse indomável momento descuidado em que apareço e alegro. Avivo. Será que chego a roubar um sorriso?
Esse é, de fato, o encanto, o sacro: quando, sem que possa controlar, reino nos desertos pensamentos e, se não pareço dançar, sou a música, o vento, a poesia e a pausa em que se lança sem preocupação. Alheio tempo. Estanque hora.
Nesse instante em que não controla, sou mais livre do que nunca. E existo só pelo seu bem querer. Só porque me pensa. Só porque me credita um fio de seu dia.
Claro, se vem me ver, serei feliz, mas também saberei de todas essas coisas: os passos são todos derivados do sagrado. Do sagrado momento que invado seus pensamentos.
Mas que fique claro: quando me olha, minha pele tem sensações profanas.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Sempre posso parar




Eu sempre posso parar, afirmo diante das lembranças que me fazem perder a hora em algum momento entre o despertador tocar, a consciência se ativar e, de fato, desandar o dia em correrias.
É sempre a mesma coisa: só mais cinco minutos. Sob os lençóis mornos fecho os olhos, lembro dos seus olhos e boca e hálito e tudo o mais o que lhe compõem e me transfere energia e imagino o que não é, mas que eu gostaria.
Eu sempre posso parar, mas pela janela do ônibus, combinando com essa música, invento algumas histórias que deveriam virar um livro. E encontro seus contornos em uma ou duas frases. Não tem jeito. Eu lhe uso como inspiração.
Eu sempre posso parar, repito quando estou em um dia conturbado e gostaria de ligar pra alguém e ouvir só a sua voz. Não é por nada demais, só que ela se transformou no meu som preferido desde mil novecentos e tanto. Desde que respirou pela primeira vez. Desde que eu nem sabia de sua existência.
Eu sempre posso parar tudo, menos a paisagem que se agita com o vento. Com os passos de dança do relógio certeiro, mas que atrasa nosso encontro.
Eu sempre posso parar, mas sua miragem é o que me dá contentamento em dias cinzas e prefiro continuar. Mas que fique claro: estou me convencendo de que eu sempre posso parar.




terça-feira, 5 de junho de 2018

Deserto do meio-dia





Há estações que são minhas preferidas. Caberia aqui citar cidades, trens, concreto, ferro e pó. Mas me falam mais alto a cor das flores, o cheiro do sol da manhã, as voltas dessa Terra na imensidão.
Por ser assim, sempre que posso relembro a estação na qual parei, desembarquei alguns sonhos e não tenho certeza se já parti ou faço dela minha morada: aquela na qual experimentei seus olhos sobre mim, um quase frio, ameno, um quase dia ensolarado, brando, um prelúdio de noite calma, meu antônimo.
Escrevo nessa noite de outono e pouco importa seu número no calendário. Pouco importa se lhe experimentei ontem ou na semana que vem. O tempo passa e caber-me nessa ou naquela noite da semana não faz sentido... A ampulheta doa-se a cada um dos lados e sou parte do pó. Escorro por uma fresta. Sou o tempo que está (se) perdendo (?).
Conto os meses só pra saber se estou, de fato, na mesma estação.
Deve ser o quarto: mês. Também é o local. Minha pouca atenção recai sobre o nada. Não interessa-me a racionalidade matemática ou a precisão do tempo numérico. Sou regida pela lua. Sei em que ciclo estamos: ela e eu. Estamos minguantes. Nosso inverno não tarda. Ele se anuncia pelo cinzento que margeia o castanho de meus olhos.
Estamos à míngua daquilo que já foi desejado. Acostumamo-nos com o jogo complicado do ser-não-ser: o possível depende da ação.
A palavra que precede a ação a deseja, mas é incapaz. Abstrata. Inerte. Vaga. Vazia. Eu que já quis tanto, tenho dúvidas ou é só cansaço?
Sou espera na estação, mas não sei até quando. Minguo. E comigo vai a espera, o desejo, sua imagem, quase vulto.
Sinto o frio de um vento lunar tão deslocado quanto eu nesse momento e, embora cansada, sou capaz de suplicar:  deixe-me. Ou deixe que me aqueça sob a luz do seu olhar.
E, entre as artes que domino, deixe-me lhe pedir que me ilumine enquanto a luz de seus olhos pousa sobre mim enquanto passo um café, paixão minha, calor meu. (Desas)sossego meu, quente na ponta dos dedos, perfeito na ponta da língua, fogo que me arde mais nos véus noturnos que nos desertos do meio-dia.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Até que meu amor dure




Eu vou esperar por você até o último minuto. Até o momento em que a porta quase se fecha e, de repente, uma mão se atreve pela fresta e realiza o milagre da esperança.
Vou esperar por você sob essa nuvem densa, prestes a precipitar porque sei como é o seu rosto em um banho de chuva inesperada e ainda desejo colher algumas gotas à margem de sua boca.
Ficarei à sua espera de olhos bem fechados porque não quero perder seus detalhes e porque já era sonho meu antes do tempo começar a ser contado.
Serei esse mundo envolto em ansiedade e vultos até que se canse de correr por aí, mantendo essa distância segura de meus lábios e perceba que sua sede é provocada pela estiagem que me causa.
Talvez, nessa hora de sua consciência vívida, eu seja o seio de calmarias e a fonte de sua morada, inebriada por minhas histórias, cheia de meu próprio veneno-antídoto, que chamam amor, que me matou um pouco a cada dia, mas diante de sua presença me curou.
Não serei mais aquela que espera, mas a que acompanha: sua lua da sorte, amuleto sagrado, bênção diária de Sol poente.
Serei aquela que deita em sua linha do horizonte próximo, borda dos olhos, margem de sua cama.
Serei aquela que sempre desejei ser: completamente minha, mas, por escolha, temporariamente sua. Até que os dias permitam. Até que meu amor dure.

domingo, 3 de junho de 2018

Morada





Qual foi o tempo de minha morada em seu pensamento hoje?
Quanto de mim povoou seu sorriso?
Em que hora do dia sua desatenção foi por minha existência?
Houve um tempo em que o brilho dos seus olhos refletia a minha luz e suas mãos desejaram minha silhueta?
Rogo aos deuses que sim, porque aqui dentro, na minha desorganização cotidiana, a única coisa que parece no lugar é o seu olhar sobre mim.
Aqui nesse emaranhado de saberes e incertezas que coleciono, só o seu ser é pleno e me ordena, orquestra, pacifica.
Sou explosões confusas de sentimentos que só são contidas por saber que, em algum lugar, de certa forma, sua energia me rege.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Curvas




Não foi à toa que dobramos aquela esquina.
Entre as nossas curvas, tagenciamos desejos.
E, na distância de um ponto e outro,
Encurtei os vãos.
Presentes. Surpresa boba no canto da boca.
Sons tantos e palavras várias,
Onde estavam os sentidos?
Engolidos.
Saltaram da borda do copo.
Bebidos.
Quase embriagados.
E cruzaram-se os dedos.
(A fé infantil, crença na torcida sincera)
E cruzaram-se os destinos.
(Teriam culpas as pernas?
Foram elas que as chaves giraram?
Foram elas que os caminhos encurtaram?
Foram elas que se embolara!)
E, ao sol da meia-noite, queimamos.
E, apenumbrados, só os olhos brilharam.
Mais do que palavras, toques.
Cruzaram-se os destinos
E nenhuma margem nos coube.
Nenhum sono decretou-se.
Acordamos o dia à meia-noite
Porque a madrugada não nos cabia
E aceitou o seu fim resiliente:
Nenhum deserto é imune às caravanas.
Nenhum oásis míngua sem visitante.
Nenhum sol desperta sem razão,
Há de se saber apenas domar o tempo perdido,
Rejeitar os nãos.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Vela acesa




Meu universo, infinito, se divide, simples:
Parte é o amor que sinto,
Outra, é o amor que crio.
Os dois nasceram em mim.
De mim.
Consomem-me como chama.
O amor é vela acesa:
Aquece e ilumina e,
No tempo de uma vida,
quase finda, sabe-se eterno.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A Casa




Faltava a casa. Não uma construção, paredes, quadros, mobílias, fotografias. Isso existia. Faltava o sentimento de autenticidade, o reconhecer-se parte de tudo aquilo. Faltava a integração. Faltava um calor, acolhimento, fortaleza.
Faltava tanto que a boca chegava a amargar memórias inventadas de um além-limites no qual, agora, estava em imersão.
Em certa medida, queria voltar ao passado, mas esse, só era conhecido de maneira muito vaga, pelo inconsciente, através de seus efeitos de torpor, nos minutos antecedentes ao sono, tangentes ao delírio, à invenção e aos desejos mais puros (originais, não virginais).
Buscava um refúgio na linguagem, em símbolos e códigos que pudesse usar para transportar-se para um lugar seu, de fato e de direito. E essas construções nada tinham de magníficas. Não chegavam a ser castelos, nem paisagens elaboradas. Reinava a simplicidade. A insustentável beleza do vento. A paz carregada na asa de uma borboleta. O som do amado-passarinho em cantos de entardecer.
(D)escrevia, de certo modo, uma floresta de significados próprios, cruzamentos de vontades, esquadrinhamentos das constelações que eram seus pensamentos e, como navegante interestelar, sentia-se finalmente em casa.

Não dominava um estilo. Não dominava a si. Não tinha intenções tão grandiosas. Apenas buscava o movimento de existir junto a algo mais, algo no qual pudesse ser parte e isso estava além da casa, além do tempo. Estava, em verdade, atrelado à busca. E era isso: a casa só passava a existir pelo único propósito da procura. No mais, tudo era espera. Tudo era um eterno pairar sobe o tempo, enquanto esse passava ligeiro como um rio, rumando para as outras tantas casas que também só existiam para seus donos enquanto uma viagem em um contexto quase filosófico da escrita, uma poesia desprendida de sentido, apegada apenas à leveza do bem-querer.  

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sem conta



Amanheceu em mim um tanto de pedaços.
Eu que não sou dada às contas,
Não farei conta se algo me faltar.
O meu coração parece ter sido feito em cacos,
Cintilantes brilhos vistos de meu olho.
Planetário, observatório:
Contemplando estrelas distantes:
Gotas de meu amor derramado pelo chão.
Não, não há nada de todo o mal.
Não há nada de todo sério.
É só mais um passo.
Trôpego, eu sei, mas o destino é esse:
Um toque de “não me leve a mal,
Não me leve a sério”,
Por mais que, no fundo, eu só pensasse em dizer “me leve”.
E fui leve na passagem do tempo.
Fui o que podia ser,
Alegre verão, mesmo preferindo outono.
Fui passarinho,
Aprendi com o poeta que os problemas passarão.
E meu coração, atropelado,
Na contra mão, em desvantagem,
Sem passe livre, foi deixado ao chão,
Pobre vítima da queda livre da paixão.
Afogado num copo qualquer
Jogado da borda de uma taça,
Misturado ao vinho-sangue que bebi.
Machuquei-me de leve
E não faço conta da cota que paguei:
Valeu o sabor da bebida.
De resto, a vida me apanha ali na estrada,
Em seguida.
Como quem não quer nada,
Como quem me quer bem.
Como quem me sabe companhia
E vai me levar por aí,
Sem me exigir pouco mais que atenção.