Visitas da Dy

domingo, 25 de setembro de 2016

Por hoje, não




(Texto composto ao som de I Have Love You Wrong - The Swell Season, disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=1RCUJav54NU

Olhando assim, de longe, pareço ser como todo mundo, mas tenho asas. Nasci herdeira da liberdade e aprendi a ser algo entre a água (pouco calma, muito profunda) e o fogo (ardente e intensa).
Confesso que desconheço a facilidade quando se trata de meu eu e dispenso as frases feitas e os manuais “de bem viver”. Gosto de ser esse auto desafio constante.
Tenho um coração que me transborda, me afoga em seus sonhos, me cobra o preço alto, mas justo, de quem sabe que não consegue se domar senão pelo afeto.
Bebo, assim, a rebeldia natural da juventude que tem vitalidade e vai sem medo em busca da experiência e sou bicho solto, asas abertas no desconhecido, selvagem vôo no seu brando céu azul de domingo de folga.
Não me agrado com a ideia das rédeas, mas não descarto a possibilidade de ficar. O que não me cabem são as celas, então, se souber fazer de seus braços um ninho, irei pousar e se houver o afeto na dose certa vou querer voltar.
Não gosto do café morno, muito menos quando esfria, então esteja ciente de que o fogo que me ilumina os olhos, corre pelas veias e se espalha ao redor, não admitindo nada que me tente cercear.
Sou, por vezes, aquele enigma da esfinge, mas que traz as respostas ao pé de página, como jogo infantil. Tendo o cuidado no olhar encontrará a simplicidade que me conquista.
Na tristeza me inspiro. Na alegria sou sorrisos. Entre as duas, suporto o dia e desprendo-me na madrugada. Não busco minhas soluções. Aceito meus problemas e a eles dou o tempo necessário para que se dissolvam em luz.
Mas o meu tempo, meu bem, é areia. Se de ampulheta é precioso e limitado. Terá a sua cota. Não a desperdice. O preço pode ser caro para seu parco investimento. Se de deserto, é um tempo amplo, misterioso. Será um convite à descoberta. Também ao conhecimento. Alerto-lhe que há movediças, mas também oásis. Atravessar-me, então, será escolha sua.
Tenho quereres infantis e fantasias proibidas para menores de 18.  Tenho preguiça de quem não sabe o que quer e quero tudo e quero agora.
Gosto de ser livre, mas em algum momento posso questionar porque me deixa tão solta. Saiba ser a presença, o toque, o sussurro e todos os meus espaços serão mantidos e preenchidos ao mesmo tempo. Parece paradoxal, mas é tudo muito simples.
Ah, e se eu disser que lhe gosto, entenda que é real. Não preciso de tipos. Por hoje, não. E não preciso que seja recíproco, apenas sincero. Apenas claro. Preciso que seja. Qualquer coisa. Mas que seja.

sábado, 24 de setembro de 2016

De Assalto






Toma-me de assalto essa insônia.
Pouco há de vida além de minha respiração nesse quarto.
Muito há de inquietações em meu peito.
Não há paz quando o pensamento cria asas.
No nada que vejo há algo de transparente,
Algo que desfaz os medos antigos.
Algo que cria medos novos.
Experimento a vontade de ser e estar
De encantar e encarar tudo o que estiver por vir.
Pareço criança que ensaia os primeiros passos.
A criança que não teme a queda
Até que acontece a primeira queda e a dor.
Evito que me conheçam a dor.
Evito que me olhem em profundidade.
É um misto de medo e agonia.
Se me olham demais, me descobrem.
Se me descobrem, enxergam meus segredos.
Se me roubam os segredos, serei cofre aberto
E, sem meu tesouro, vazia, não há razão que me valha,
Não há contentamento que me caiba.
Entre a revelação e o oculto,
Ainda pairo nas incertezas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mnemósine







Possivelmente, a memória me trairá. Aqui, para além do que foi vivido, aparecerá a mistura das sensações, das vontades e das imaginações. Das vantagens de ser poeta, tenho a licença poética. Mas, para outros casos, seriam, também confissões (inventadas). É preciso lembrar que o poeta escreve o que sente, mas também o que ouve e adota, assim, faço minhas as sensações que me brotam e as que acolho.                        
O equilíbrio é dispensado.
Trata-se de um escape nesse momento: deixar fluir algo que poderia ter sido, mas agonizou antes do tempo e já me despeço por prever que, apesar de ser um precipício que merecia o mergulho, era raso. E, nesse tipo de queda, a cara é a primeira a ser quebrada.
Acontece quando o observador se distrai e é puxado para dentro da vitrine. E, como havia uma lente, cai no zoom. Foi descuido, eu sei. Um pouco de ingenuidade. Uma boa dose de aventura, obediência à vontade. Salto. Escuro. Luzes acesas. Olhos. Histórias. Bocas e sorrisos e ninguém viu onde foi parar a noite no anúncio do dia.
E foi bom dia duradouro. Foi como um eco, rítmico, prolongado, bom aos ouvidos. E seguia. E tinha ares de pista de decolagem. Tinha ares de rio, que serpenteia manso e tranquilo e sabe pra onde vai.                        
E, de todas as metáforas, o rio é a melhor. Porque as águas são imprevisíveis, mas podem se afastar, podem secar, e o rio, que nunca é o mesmo sem deixar de sê-lo, de repente, inexiste. É só memória. Fica preso ali, na coleção de histórias. E eu, que já prevejo a estiagem, escolho os nomes dos personagens para nada parecer tão pessoal.                         
Já escolho as palavras certas, conjugando os verbos em pretéritos para me desacostumar desse presente que desembrulhei e parece não ser o meu.
No descuido que dei, me perdi e, confesso, quis permanecer naquela condição de mapa sendo descoberto, tateado, por mais tempo do que o relógio pode contar. Mas tento acostumar-me com a brevidade. Ela também constrói.                        
Tento separar aqui aquilo que me coube viver e o apanhei observando aquela vitrine. E todas pelas quais passo.
Tento fazer que essas linhas soem como minhas confissões ao mesmo tempo que as falseio com tanto sentimento alheio que acolho.
Não sei mais se, de fato, essa noite contada foi bebida em sua veracidade, mas se apenas como inspiração me ocorreu, como um fado que me é saudade, como poema que me pertence, mas voa.
Se estou nessas (entre)linhas, não me é claro, mas outros tantos olhos atentos podem estar. Isso faz de mim poeta e me liberta, por mais que a memória me traia, por mais que ela seja inventada.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A Delicadeza do Amor











Na tarde quente de segunda-feira ele estava ali parado, assustado, tremendo, coração acelerado e, nos olhos, um quase terror, especialmente por me ver tão perto.
O pequeno beija-flor conseguia ser menor que minha mão e não ofereceu resistência aos meus dedos que o envolveram sutilmente, esperançosos de que o cuidado lhe caísse bem.
Ao segurar o filhote, que ainda não descobriu o poder de suas asas e a grandeza de sua existência, embora aparentemente pequena se considerada apenas suas dimensões, lembrei-me do título de um filme francês: A Delicadeza do Amor.
Como era delicado aquele pedaço de amor da natureza que eu segurava na palma da mão... e como era frágil e exigia cuidado. Um cuidado tão especial e, ao mesmo tempo, simples, que eu não sabia se poderia dar.
E, olhando de perto, toda aquela fragilidade em vida parecia um espelho: ali, com o coração aos pulos, assustado diante do inesperado desconhecido que poderia cuidar ou encerrar aquele sopro. Era como se eu estivesse me vendo: com todos os medos, com todos os telhados de vidro, com todas as chances de abrir as asas e saltar pelos precipícios, mas sem saber, ao certo, como fazê-lo.
No meio da tarde segurei um fio de vida que sempre admirei em beleza e vitalidade e, no meio da tarde, percebi que sou, na verdade, tal qual o passarinho: um ser alado, que precisa de pausas. Um ser leve que pousa, mas que tem no peito inquietações tão vitais quanto o ar. Tenho um coração de todo o mundo, como todo mundo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Héstia






(Héstia, da mitologia grega, é guardiã do fogo sagrado e vale-se da solidão para renascer)
 
Longe de ser a Hora da Estrela, nessa madrugada nem Selene, deusa-lua, flutua na imensidão de breu que me cobre. E, por seu turno, ainda que eu recorra aos livros, os únicos lampejos de literatura que me ocorrem são esses: patéticos desabafos que sequer me pertencem, porque já os ouvi aqui e acolá nas bocas amargas das gentes que não sabem o que querem.                         
Rolo na cama e faço rebuliço entre os lençóis com a vivacidade de amores novos, mas há pouco mais do que a densidade das sombras e um vão que me envolve. Também essas sensações de ausência não são originalmente minhas. Já as contemplei mais cedo, quando a música invadia o parque e o banco ao lado de alguém estava vazio e aquela mão parecia vaguear à procura de outra.                        
Era um estar sozinho sutil, que caiu aos meus olhos com certa melancolia e que, ao invés de engolir ali mesmo, trouxe para casa, trouxe para a poesia.
Apodero-me, assim, do cotidiano que escapa das vitrines e os acomodo, confortáveis, em meu leito, até que, inquietos, transformam-se na palavra que me teima e me salta, buscando o rumo branco de mais um dia ou de um papel.                                                                          
Desse modo, não sei mais quais dessas agonias que me invadem são completamente minhas, quais foram inventadas, quais devo libertar (ou abandonar) e quais devo preservar pelo prazer de tentar domá-las.     
Não sei em que medida pertenço ao meio em que estou, em que medida me cabem aqueles olhares (sejam os casuais, os curiosos ou, quiçá, de admiradores [?!]) e, não perceber-me nesse tempo dá-me ares de distraída, ora lânguida, talvez lacônica, mas à espreita das frestas de minhas janelas interiores, o que se vê é agitação.
Experimento, silenciosa, paixões avassaladoras de um bom dia, turbilhões de uma coleção de roteiros abandonados, pensados puramente para não acontecerem, saudades dos dias que estão por vir e desejos de passados tão remotos que, aos meus olhos, só mil anos (para trás) me deixariam, de fato, à vontade.                        
É que se pareço calmaria no fim da tarde, estou me preparando para arder nessas fogueiras antigas.
É que se me cabem forças de montanha, por dentro, corre a lava, contenho, à duras penas, a energia de um vulcão.
É que se sigo em desvio de rio, estou saudosa das águas profundas e das (tão minhas) insatisfações de maré.
É que se venço o dia e suas gentes desinteressantes e cansativas e suas vaidades inúteis, estou à espera do momento em que serei eu: a noite. É, portanto, por amar as noites que resisto aos dias. É porque me crio sob a lua que aprendi a caminhar com o Sol.
Não tenho o sagrado descanso noturno. Não me cabem braços ou abraços, mas é assim, sob o céu negro, em minhas inquietudes plenas que ganho as forças necessárias para o novo dia.