Visitas da Dy

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Escrever


E depois de ver que o blog alcançou mais de 3 mil acessos preciso, de verdade, agradecer a cada um quem por aqui aparece, que comenta, que manda e-mail, que elogia, que critica, que gosta ou não, mas que faz com que os números cresçam!
É muito gostoso chegar por aqui e ver que recebi visitas.
É muito importante ver que tudo o que eu sinto é compartilhado com pessoas que conheço, amo e até por quem nunca vi!
Obrigada pelas visitas, sempre!



Escrever é uma coisa engraçada. Há poucos meses eu nem pensava em escrever. E acho que ler também é engraçado. Quando comprei um livro da Clarice Lispector li a crônica “Por detrás da devoção” e por incrível que pareça, não senti nada. Não houve o despertar de nenhuma sensação, o que é muito difícil de acontecer quando leio. Sempre tenho ideias, fico horas pensando, refletindo, mineiramente “metutando” pra extrair algo de bom. Essa indiferença frente à clarice me chocou.
Por alguns minutos fiquei parada tentando refetir sobre o que tinha lido, tentando me lvrar daquela apatia. Pra variar, meu pensamento criou asas e foi parar bem longe, num assunto que não tinha a menor conexão com o tal texto.
Desde que vim para o Rio comecei a escrever. Embora tivesse rabiscado alguns textos em Juiz de Fora a coisa tem ganhado volume nas terras cariocas.
Esses textos versam sobre mim e minhas reflexões, são a minha janela para o mundo, fresta por onde me deixo espiar, espaço onde fica claro que meu coração é vermelho e bate forte e descompassado, mas nem tudo é assim tão confessional. Tenho muitos textos fictícios, muita coisa que “pesco” aqui e ali, no ônibus, na rua, no mundo em que circulo. Falo do comum que me incomoda, coisas que me inquietam, falo do que me deslumbra, do que me encanta, do que me chama a atenção.
Acho que esse é o ponto: porque falo de coisas comuns, que vão me surgindo aos montes pelas tabelas é que se tornam interessantes. Tenho gostado de me ler e reler e ver quanta coisa boa eu penso e sinto e volto a sentir a cada vez que me leio.
Estou surpresa em ver como as pessoas gostam do que escrevo. Há uns três ou quatro anos criei um blog e o encerrei porque não publicava nada. Do final de 2010 até agora resolvi escrever.  Levar essa coisa mais a sério, usar o recurso da caneta para aliviar a alma e o coração. E nessa empreitada, o meu blog chegou a 3 mil acessos. As pessoas estão lendo o que escrevo e gostam.
Fico surpresa quando abro o Facebook e vejo que alguém colocou uma frase minha no seu “status” e faz a referência. São alguns amigos, mas isso faz toda a diferença, toda a importância: eles me lêem, gostam, se identificam e, então, me entedem? Será? Tomara!
Lembrei-me de Isaías e Vanessa Farias, dois queridos, que outro dia leram um ou dois textos meus e logo vieram me dizer o quanto se identificaram e desde então fiquei pensando: será que todos nós sentimos as mesmas coisas? Por que alguns de nós conseguem expor melhor esses sentimentos que afligem nossas almas? Isso me soa estranho. Sempre que lia e me identificava o que me vinha na cabeça era “como deve ser escrever e ter alguém lendo e gostando e se identificando?” e agora eu sei um pouco como é. E é estranho. Dá uma sensação de estar olhando pelo buraco da fechadura dos outros, espiando pra poder contar depois, mas na verdade eu só espio o meu coração.
Penso que pelo menos uma vez na vida deveríamos todos pegar no papel e na caneta e começar a escrever sobre nós, nossas vidas, sentimentos, angústias e deveríamos deixar esse livro aberto, para que os outros lessem nossa história, deixar que nos vejam como nos vemo, como somos, saber como nos entendem, nos enxergam e talvez, até se reconheçam…


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Turbilhão




Como é impactante e até chocante perceber que outras pessoas também vivem a turbulência que é não entender o que se sente, de buscar e buscar e parecer nunca encontrar a resposta, nunca ter nas mãos o Graal ou descobrir a pedra filosofal.
Nessa nossa eterna busca por respostas muitos vão se perder no caminho, muitos vão se ajuntar a nós, mas, infelizmente, serão poucos que nos entenderão e nos ajudarão a encontarmos as nossas respostas e mais, serão poucos os que conseguirão, de fato, ter as suas próprias questões resolvidas.
Tenho pensado que não se trata exatamente de respostas difícies ou escondidas, veladas, guardadas por enigmas desafiadores do tipo “decifra-me ou te devoro”. É o contrário.
Passamos uma vida procurando as respostas erradas. O que queremos é que as coisas aconteçam à NOSSA maneira. Não queremos uma orientação, queremos é a confirmação de algo que idalizamos. Aí está o problema. Não aceitamos as situações como elas são e, claro, não enxergamos a resposta que cobramos. É que as perguntas estão todas erradas. Estão todas projetadas em cima de expectativas que traçamos e não admitimos outra realidade do que a que inventamos.
Abrir os olhos para a simplicidade pode ajudar nesse processo de busca. É preciso abrir os olhos e ter a exata noção de que ser consciente das situações é fundamental para que se alcance o que buscamos e que aceitar o que é certo nem sempre é o que desejamos que aconteça. De olhos fechados não há luz que nos faça enxegar.
Enquanto isso não acontece, porque o processo é mais difícil do que parece, seguimos vivendo num turbilhão se sentimentos, sensações e pensamentos que não é só nosso, que está girando todo o tempo nas cabeças que encontramos andando pelas ruas.
28/04/2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Quando me permito




Quando me coloco no caminho de alguém, quando me permito ser pelo menos um breve atalho na vida de alguém coloco-me por inteiro.
Sem meios termos. Sem restrições. Sem desconfianças. Sem maiores intenções, mas por puro prazer de ter a companhia.
Se me permito entrar pela fresta de uma janela ou pela porta aberta é porque acho que vale a pena. E se não valer? Ah, já valeu! A dor da decepção também ensina e é por isso que a gente tem bons motivos pra rir mais tarde: porque erramos, porque nos permitimos errar. Eu me permito. E daqui há uns anos vou me divertir com isso.
Acertar sempre é chato. Ter uma estante cheia de troféus só serve pra ter mais poeira pra limpar.
Quando entro em uma brincadeira é pra valer: sou a companhia que vai torcer, que vai correr, que vai se animar quando vencer e tentar não desanimar quando perder.
Se topo caminhar do lado é pra ajudar com toda minha seriedade, dedicação, opinião firme, mas também jogo o tabuleiro de xadrez pro alto quando o xeque-mate é certo. Tomo rumos não anunciados, porque um pouco de incosntância é necessário.
Posso doar o meu coração e enche-lo de esperança, ser criança feliz e inocente que se alegra ao ver um brinquedo novo.
Posso ver esse mesmo coração sendo despedaçado e só recolher os pedaços sem dar uma palavra, sem exibir a dor. Detesto exibiconismos gratuitos, mas posso chorar e gritar e espernear porque tenho o direito ao grito, à voz, à indignação.
E esse coração pode ser pedra. Frio. Impenetrável. Não devia, mas guarda mágoa. Não sabe muito como é essa coisa de perdoar, mas dura pouco. Acaba perdoando, porque rancor faz mal pra saúde.
Tenho um humor contagiante que dura meses, mas o mau-humor é de amargar. E se for me aceitar na sua caminhada vai ter que aguentar aquela segunda-feira em que a única frase que vai ouvir é “não quero nem ver e nem falar com ninguém”. Mas é só em uma ou outra segunda-feira. Não gosto muito desse dia.
Sarcasmo? Só se merecer. Normalmente prefiro a indiferença. Não que não saiba usar jogos de palavras, mas é que os olhares são mais fulminantes que muitos comentários. E sou de olhares, de gestos, de gostos e cheiros.
Também sou preguiçosa. Boa de cama: deito e durmo, isso quando não tenho insônia. Quando não me pego pensando nos olhos negros, castanhos, verdes ou azuis pelos quais me apaixonei na correria do dia. Ou perco o sono por conta de um problema ou porque fico aflita com alguma coisa que virá no outro dia. Mas nada melhor do que uma boa noite de sono. Evita olheiras, recarrega as baterias. Mas gosto das noites insones. Traz reflexão. Luz na escuridão.
Gosto da noite e do silêncio que ela traz. É bom pra pensar. O dia é da música, pra eu cantar e dançar e rodopiar.
Adoro andar saltitando. Só o faço no corredor do prédio, mesmo sabendo que tem câmeras, mas queria faze-lo no meio da rua. Ah, e bato palmas de felicidade: se me alegro, pronto! Bato palmas – plac, plac, plac!
Intensidade e paixão é comigo mesma! Adoro me apaixonar! E são sempre tão intensas: me apaixono por uma música, por um livro, por um quadro, por uma flor, por uma pessoa, pelos meus amigos. E sempre é sem culpa. Arrependimentos não me caem bem, acho que é por causa da cor dos cabelos… vermelho não combina com muita coisa…
Em seus caminhos posso ser atalho, companhia, sombra, rio, cachoeira, vento, brisa, flor, espinho, palavra ou ação. Só depende de você e do que quer que eu seja.

domingo, 23 de outubro de 2011

O mundo é chato



O mundo é uma coisa estranha, um lugar estranho, com pessoas que também são estranhas.
Procuramos seguir um padrão certinho, tudo igualzinho, quando na verdade esse padrão não existe! O padrão é ser diferente!
Desse modo eu digo que o mundo parece chato, mas eu sei que não é.  O que é ser chato? Pode ser um pires!
É… o mundo parece um pires. E é assim mesmo já que não vejo ninguém andando de cabeça pra baixo por aí, certo? É até seria, mas tá tudo errado. Nós só não percebemos que ele é redondo. Na verdade é só mais uma impressão errada que temos do mundo. Como temos de tantas outras coisas, de tantas pessoas, de tantas situações.
Achar que o mundo é um pires é mais fácil, se aplica melhor a nossa mania reducionista, nossa mania de simplificar.
Muitas vezes acho o mundo chato, de ser sem graça mesmo. Mas passa rápido. Quem acha que o mundo é chato é porque não descobriu ainda como se deve viver. Achar que o mundo é pra quem não corre atrás dos próprios sonhos, pra quem não encontra motivo pra se animar.
Que fique claro: não sou a senhorita alegria, aliás, ondas de desânimo me afetam muito, mas a diferença entre eu e mundo é uma só: sou mais eu! E quando me pego desanimada busco consolo, conforto, esperança e volto a afirmar que o mundo parece chato, mas eu sei que não é.

Abril de 2011.


Entrelinhas...



É... e eu que passei a vida toda sempre muito desconfiada, com o pé atrás, decidi confiar em alguém. Decidi abrir meu coração, mostrar um pouquinho da alma, um pouquinho da dor, mostrar minhas esperanças, meu mundo, exibir os raros planos que tracei e que deixava guardados porque já pensava em não pratica-los.
Expus-me como um quadro na galeria.
Dediquei-me com tamanha entrega.
Apostei quase todas as fichas.
O pior de tudo é que livre de qualquer desconfiança fui aceitando as palavras, cada uma delas. Gotas adocicadas que traziam alegrias para um coração já um pouco cansado, que apesar de jovem, parece ter vivido por séculos.
Palavras… às vezes nem precisam ser ditas…
Entrelinhas… muitas delas não estão só em textos, mas escorrem pelos olhos. Escorrem pelos dedos como a areia fina, da ampulheta que marca o tempo.
Tempo… o tempo que mostra em quem podemos confiar de verdade… o tempo que mostra que as palavras quando vêm adocicadas demais podem estar escondendo promessas vãs, mentirosas, que logo vão ter seu véu descortinado.
Ah, a verdade… e eu que sempre achei que ela não existia de fato… que só se trata de pontos de vista, de olhares que apontam para direções dierentes, mas que acreditam no que estão vendo.
Bastaram meia dúzia de palavras e um coração ingênuo…
Bastou um pouco de tempo e os véus começaram a cair…
Bastaram entrelinhas nem tão explícitas, mas que saltaram a olhos desconfiados para que as coisas se aclarassem.
E lá se vai mais um dia em que tentaram enganar meu coração.
Na verdade, lá se foram os dias em que esse coração foi enganado.
Sabe o que é bom disso tudo? É que aqueles que são vistos como bobos, nem sempre são e da maneira mais mansa, mais calma, mais tranquila, são agraciados com as verdades e com a força para recebe-la, enfrenta-la, absorve-la e dizer: é… com mais essa eu aprendi a viver!

Olhos para o mundo




–  Pode ir mais devagar com o carro?
– Posso, mas vamos demorar mais.
– Não tem problema. Quero ver cada detalhe desse caminho.
– Você e sua mania de olhar tudo.
– É que gosto de passar por essa serra. É linda. Quero guardar tudo isso na memória.
– Mas é só uma serra. Igua a muitas outras. E podemos passar por aqui mais vezes. Aliás, você já conhece bem esse caminho.
– Sim…
– Então, por que essa coisa de “ver cada detalhe”?
– É porque gosto de me lembrar, oras. Quero ver como as folhas das árvores dançam quando o vento as acaricia, ver como o verde fica mais bonito com os raios do sol, como o sol rompe as nuvens…
– É tudo muito bonito, mas é só uma serra.
– Quero olhar com olhos apaixonados, olhos que capturam pra sempre, que conseguem perceber as singelezas, que fotografam. Quero ter os olhos bem abertos pra que possa rever toda essa beleza quando estiver lá em baixo na correria da cidade e cercada pelos prédios com suas escalas de preto-branco-bege-e-cinza, que os compõem. Quero estar atenta para poder absorver esse cheiro que sai da mata com a terra molhada pelo fio de água que escorre pelas montanhas rochosas. Quero sentir o vento balançar os meus cabelos e pensar que sou como as árvores, que se deixam balançar sem compromisso. Quero mesmo é matar essa saudade antecipada que sinto dessa paisagem, só de pensar que vou demorar a ve-la novamente.
– Invejo essa serra…
– Por quê?
– Porque você parece ama-la de uma maneira tão grande…
– Amo os caminhos pra onde ela me leva…
– Às vezes acho que você gosta de tudo. Olha para as coisas como se sempre fosse uma descoberta…
– E são. Sempre há detalhes para serem descobertos. Nada é igual sempre.
– Filosófica…
– Realista.
– Apaixonada…
­– Saudosa…
– Não vamos chegar num acordo?
– Talvez… Pode parar o carro?
– Pra quê?
– Pra subirmos naquela pedra.
– Pra quê?
– Aff… pra eu te mostrar o tamanho do mundo.
– Não vai dar pra ver.
– Então agora você entende!
– Entendo o quê?
– O modo como eu olho para as coisas.
– Não.
– É que nunca vou conseguir olhar o mundo todo, por mais que eu queira, por mais que eu me esforce, então aproveito para olhar bem tudo o que posso, porque não posso olhar tudo. Não posso saciar essa vontade enorme de conhecer todos os lugares, sentir todos os cheiros, ganhar todos os sorrisos, então aproveito bem todas essas coisas que eu tenho ao redor.
– Você não existe…
– E você nunca vai entender…
– Quer chiclete?
– É pode ser. Posso ligar o som?
– A conversa entediou você? Pode ligar o som.
– Não. A conversa tá boa. Tô me explicando pra você. Isso é bom, mas é que preciso de uma trilha sonora pra essa viagem.
– Trilha sonora?
– É… é que o meu filme da vida é igual a qualquer outro: precisa de trilha sonora pra ser completo.
– Você é mesmo diferente…
– E você é corajoso para tentar entender.

sábado, 22 de outubro de 2011

Noturno II



              Por muitas vezes ela olhava a lua nas noites quentes enquanto ele dormia pesadamente na cama, palco de seus momentos de cumplicidade.
Era uma “filha da noite”. Gostava de ficar acordada enquanto todos dormiam. Gostava do silêncio das madrugadas, o que parecia contraditório já que ela afirmava não gostar de silêncio e passava a maior parte do tempo ouvindo músicas ou cantando.
Gostava de ver o vazio das ruas, o voo de aves noturnas. Gostava de dar asas aos seus pensamentos e isso acontecia com mais freqüência nas noites, no escuro, naquele silêncio aveludado.
Naquela noite, ela parou para conversar com a lua. Revelou-lhe o medo que sentia de vê-lo partir um dia. Ninguém sabia ao certo, mas ela era insegura, pensava muito em várias possibilidades para cada situação, para saber como se comportar, justamente para esconder essa insegurança toda, para esconder a sua fragilidade. Às vezes, não raro, conseguia, mas por dentro ela tremia.
Lá no fundo de seu coração, olhando aquele corpo adormecido, ela sentia que o fim estava próximo, que aquela história tinha um prazo de validade.
No escuro ela se perguntava se de fato o amava. Apesar do tempo em que estavam juntos ela não sabia responder se era amor ou se era costume e começou a imaginar situações  para tentar entender o que se passava.
Aos poucos deixou de imaginar e se pôs a lembrar os momentos que passaram juntos, os sorrisos, as lágrimas e os abraços – ela adorava abraços!...
Voltou a olha-lo dormindo, relaxado, tranquilo, entregue aos sonhos, imerso nos lençóis e na noite que seguia lenta...
Num instante ela sorriu e percebeu que era mais um caso desses “amores passageiros”. Mais uma paixão que ela colecionaria. Olhou o rosto dele sereno na penumbra do quarto. Lentamente se vestiu, pegou a bolsa e foi para a porta. Antes de sair ela ainda escreveu um bilhete para ele: “mais um amor que virou bom dia...”. Deixou o papel sobre a mesa. Virou as costas e partiu, porque logo o sol romperia a barra da noite; porque algumas pessoas passam por nossas vidas só par deixarem uma saudade gostosa, para nos lembrarmos que existem momentos felizes. 
Partiu porque entendeu que a vida era curta demais para que ficasse ali, sem ser sinceramente feliz.
Ela saiu daquele quarto rumo à sua felicidade que só podia ser construída por ela mesma e que não seria ao lado dele.
             Ela partiu porque descobriu naquele momento que a felicidade é uma coisa na qual precisava correr atrás.
              

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre o amor e suas sutilezas



Comecei a organizar os textos que escrevo para não me perder no meio de tantas palavras.
Percebi que tenho temas bem próximos, alguns repetidos, mas o que mais me chamou a atenção foi a facilidade com a qual nomeei uma das séries: “sobre o amor e as suas sutilezas”… lindo! Delicado e tão próximo do que é mesmo o amor: uma variação de sutilezas!
Decidi escrever um texto específico com esse título, pensando nessas sutilezas e só consegui pensar em uma pessoa: minha mãe. Então, para ela, um texto simples, cheio de sutilezas e amor!

Sobre o Amor e suas Sutilezas

(Para ler e depois ouvir Linha do Horizonte – Azymute, uma das músicas preferidas de minha mãe e minha por herança…)

Então lá na década de 80, precisamente em 1984, ela, um moça com seus 19 anos tem um bebê e se torna a minha mãe. Ela não sabia mas naquele dia 20 de novembro ela tinha perdido o seu nome (Edna) para ser chamada pra sempre de “mãe”.
E assim se fez. Virou mãe e cumpriu com louvor a sua tarefa de educar uma menina meio quietinha, meio voltada para seus livros, que crescia e queria mudar o mundo, que achava muita coisa estranha e falava tudo o que pensava.
Hoje, olhando para essa estrada que dura 26 anos percebo o quanto minha mãe, Edna, soube me mostrar todas as sutilezas que podem envolver o amor.
É nessa madrugada quente, insone e ainda com o cheiro da chuva que caiu sobre as terras cariocas por todo o dia que os meus olhos se enchem d’água quando percebo que se hoje eu sei o que é o amor é por conta dela, que todos os dias demonstrava como a vida era, com suas dificuldades, mas sem desanimar e mostrando que quando se ama tudo fica mais fácil.
Para além de eu amar minha mãe só porque ela é minha mãe – e disso ninguém escapa – eu a amo por tudo o que ela é, e experimento nela as várias formas de amor.
Aprendi com ela que o amor é incondicional, que é forte, que supera desafios, que consegue romper as dificuldades.
Muitos anos depois entendi que o amor é sacrifício. É abrir mão de um ou dois ou muitos sonhos para ver o sonho do outro realizado. E eu que pensava que isso fosse uma espécie de autonegação, entendo que é amor: porque às vezes amamos tanto que só queremos o bem e a felicidade de quem amamos.
Vi que o amor é apoiar projetos malucos de uma filha que de repente cisma que vai estudar numa escola que nem sabe onde é; que é achar esquisito alguém que se forme em História, mas apoiar cada etapa de um vestibular.
É ir no quarto de madrugada levar um chá e recomendar um cochilo quando vê a filha se matando de estudar, imersa numa insônia que dura semanas.
É ir no quarto, mesmo quando o seu bebê tem mais de 20 anos pra cobri-lo em noite de inverno.
O amor é dizer não na hora certa. Vai ouvir uns resmungos, umas birras, tolerar uma tromba maior que a de um elefante, mas vai ver que lá na frente o não valeu a pena e trouxe mais valores do que ela imaginava.
Amar é cantar MPB para as crianças. É colocar bandinhas dos anos 70 pra tocar nas festinhas de aniversário dos filhos, ver que eles se divertem e gostam daquilo e que os coleguinhas fazem cara de paisagem… e… é ver que dias depois todo mundo sabe quem é Beatles, The Zombies, Abba.
Uma sutileza do amor é assistir filme de romance enrolada nas cobertas com a filha e chorar litros.
Um presente é poder levar a filha para a maternidade e ganhar um neto no dia do aniversário!
O amor é escrever uma carta de despedida para ir morar em outro estado… é usar Djavan para explicar o que se sente, para mostrar que “amar é um deserto e seus temores”, mas que tudo na vida só faz sentido porque só se sabe “viver se for por você”.
Aprendi com minha mãe que se ama os amigos como irmãos que não se tem, e muito mais, porque esses são escolhidos por nós: fazem parte de nossas vidas, de nossas histórias porque permitimos, porque, de fato, os aceitamos como são e isso é amar!
Por fim, aprendi com minha mãe que amar é assumir muitas responsabilidades, mas é ter o coração pequenininho e mesmo assim fazer de conta que está tudo bem. É não mostrar o medo, porque alguém tem que ser forte nessa casa! É só contar que teve medo depois que tudo já passou…
Amar é deixar voar. É ter olhos saudosos por antecipação frente ao vôo dos filhos, que exploram outros céus, mas sempre voltam pro ninho…
Se tem alguma coisa sutil e intensa é o amor de minha mãe, que recebi, que sinto e que espero, de verdade, saber mostrar para o meu filho.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Solidão, poeira leve


De repente cá estou eu novamente com muitas coisas na vida encaminhadas, com trezentos e cinquenta e sete bons motivos pra me alegrar, cercada de pessoas boas, que fazem os meus dias menos cinzentos e alguma coisa ainda me faz falta.
Ainda me sinto como se fosse de outro planeta.
Ainda me sinto sozinha numa cidade com milhões de pessoas. Será que essa sensação nunca vai passar? O que eu tenho que fazer pra que ela vá embora de vez?
Já tentei a velha tática de quando era criança e os monstros noturnos vinham me assombrar: “efiava” a mão dentro da minha cabeça e rasgava aquele pensamento como se ele fosse uma folha de um grande caderno no qual eu podia escrever o que quisesse. Era uma coisa do tipo de um diário de pensamentos ou de um livro dos dias. Automaticamente jogava a folha embolada numa lixeira e pronto! O monstrinho ia embora. Só a solidão não vai…
Tento entender o porquê de achar que o mundo é grande demais, que sempre estou mais só do que mereço, de que esse sentimento não vai passar.
A solidão é poeira leve que cobre os meus dias. É véu antigo que pousa sobre uma tela, sem deixar que a veja em suas cores originais, e o pior é que esse véu da solidão só sai a quatro mãos: solidão só desfaz quando o coração está acompanhado.
E enquanto o coração não se aquece, enquanto os dias demoram a passar e continuo a me sentir sozinha, acostumo-me a ve-lo encoberto, de leve, por um véu, que não vê a hora de cair no chão.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia de chuva


        
           Nos dias chuvosos fico sempre mais pensativa. Gosto de ficar na janela vendo as gotas de chuva caírem no chão, lavando as calçadas, lavando que passa desavisado nas ruas, lavando meus pensamentos que não me deixam desligar um segundo sequer.
Quando chove penso que o céu está se livrando de tudo aquilo que mandamos a ele todos os dias: as preces, os desejos de que as coisas melhorem, os sonhos que queremos ver realizados, os agouros que sofremos e jogamos nos outros.
Se a gente não agüenta, por que o céu agüentaria? Se nós choramos, por que o céu não choraria? A chuva, na verdade não passa das lágrimas do céu escorrendo pelo infinito que ele circunda...
E por ser lágrima, vem de um choro natural, de desabafo, e nos ajuda desabafar também.
Às vezes durmo com o barulhinho da chuva. Durmo envolta nos pensamentos que vã se lavando, se tornando mais límpidos e leves à medida que a chuva cai.
Às vezes choro com a chuva. Aproveito a carona e deixo as minhas lágrimas caírem, que é pra ficar com a alma lavada.
Às vezes tomo banho de chuva: e como é bom ter a água escorrendo pelos cabelos, molhando o rosto, os olhos, os lábios... molha as palavras que tive que engolir a seco em alguns momentos, molham os olhos e ajudam a lava-los para que eu possa ver o que realmente está por trás de determinadas situações, lava os cabelos que quando estão ao vento desejam ser acariciados.
Gosto da chuva. O cinza dos dias que ela cai nos dá a exata medida de nostalgia necessária para entendermos que ninguém é feliz a todo o tempo, mas que ninguém é triste a vida toda.
Gosto das gotas de chuva escorrendo pelo vidro da janela. Elas me fazem perceber que acreditei a vida inteira que tudo passa, mas na verdade isso é uma falácia. Assim como as gotas d’água que escorrem pela janela e que só completam um ciclo, a vida é assim: as coisas não passam. Só ficam guardadas no sótão da nossa alma, empoeirando-se, esperando alguém entrar lá e revira-las e traze-las à tona. Tudo está envolvido num grande ciclo.
Em dias de chuva penso muito. Em dias de chuva sou menos alegre, mas não muito triste. Em dias de chuva fico na linha tênue de sentimentos: nem lá, nem cá, no meio. Um pouco mais perdida, um pouco mais sentimental, um pouco mais sem rumo...


domingo, 16 de outubro de 2011

Rio que caminha pro mar


Porque não há nada melhor que um banho de mar para lavar a alma, para lavar o rosto e misturar o sal das lágrimas ao sal natural.
Porque o mar me renova preciso ve-lo de quando em vez… preciso ter a exata noção de como é ser água, porque me sinto rio e me sinto mar.
Sinto-me rio de interior, calmaria aparente, sossego, destino certo: sair das montanhas, desaguar no mar. Sou esse rio que transcorre as montanhas, desce a serra e busca desaguar num braço de mar… sou rio que sabe desviar das pedras ou que passa por cima delas. Só depende do momento, da necesidade. Sou rio de coragem que se joga sem medo no abismo e se torna cachoeira, bonita de se ver, perigosa de se arriscar.
Sinto-me mar. Salgada. Às vezes por muitos observada, mas por muito poucos compreendida. Sou mar em dia de domingo ensolarado, cheio de alegria, de pessoas que o aproveitam e se divertem. Posso levar a caminhos desconhecidos, a terras distantes, trazer alegrias que deixam os olhos faiscantes. Posso ser tranquila ou violenta. Maré que sobe devagar ou ressaca de sexta-feira 13.
Sou rio e sou mar. Atravesso serras e planícies sem rumo certo, sem direção apontada, mas o destino desse rio é sempre o mar e aqui está o espetáculo de ser água, de ser eu, rio que desagua em mim mesma, o mar.


Era um assalto?



Hoje cedo sai de casa para fazer uma prova de concurso. Manhã cinzenta, dia friozinho, eu com fome e atrasada.
Acabei de atravessar a rua, ainda em frente ao prédio onde moro e uma moça maltrapilha me parou e perguntou se eu tinha um real. Dei bom dia e disse que não tinha o tal um real – e não tinha mesmo, nessa manhã eu literalmente contei moedinhas pra sair de casa.
A moça disse que estava com pressa e fome e que precisava do meu celular. Meu coração, aos pulos parecia me sacudir. Sorri e disse para a moça que não tinha celular.
Ai, meu Deus… ia eu ser assaltada em frente à minha casa, com só 10 reais em moedas na bolsa, um livro na mão, uma caneta e um pacote de 500g de macarrão jogados no fundo da bolsa.
A moça perguntou de novo se eu tinha um real e voltei a dizer que não. Ela perguntou, então, se eu não ia correr, não ia gritar, não ia chamar a polícia. Calmamente – não sei de onde saiu a calma – eu respondi: porque deveria fazer isso? Você me parou pra fazer uma pergunta, queria saber se eu tinha um real, eu disse que não e pronto. Vou chamar a polícia por isso?
Ai, como eu tremia por dentro.
De repente a moça olhou pro chão e voltou a olhar pra mim: obrigada, moça. Você não tem dinheiro, mas é legal. Vai com Deus e bom dia.
Ufa! Dei um sorriso, soltei um aliviado “amém”, desses que as pessoas devem dizer quando realmente aceditam que “assim seja”, e sai andando meio devagar, meio rápido, meio com medo, meio feliz por nada ter acontecido, mas ainda estou pensando: era um assalto ou m motivo pra me fazer pensar na vida?


Ser Professor...



Por mais que possamos caminhar, por mais longe que nossos pés possam nos levar e a vida tome rumos diferentes, uma coisa é certa: só viveremos plenamente cada momento porque já aprendemos muito antes de chegarmos até aqui.
E se aprendemos tanto outra certeza existe: alguém nos ensinou… nos ensinou a falar, a andar, a sermos gentis, amáveis, a sentar na mesa, dar “bom dia“, a não pegar nada sem pedir, a pedir desculpas, por favor e a dizer muito obrigado. Esses aprendizados nos são dados, em geral, por nossos pais, nossos primeiros professores.
Depois que estamos crescidinhos vamos para um mundo novo, cheio de outras crianças, que sabem tanto quanto nós e que estão ali justamente pelo mesmo motivo: aprender mais. Esse mundo mágico se chama escola. E quem nos recebe lá amorosamente se chama professor, e é dele que quero falar.
Lembro-me de como eu quis ser professora: foi durante uma aula, aos 10 anos de idade, na quinta série, quando assistia uma aula sobre a Idade Média. Minha professora de História era uma das mais inteligentes: dava aula sem olhar no livro, sem lê-lo nas aulas. Falava muito e bem e me fazia viajar. Naquele dia viajei por castelos de pedras de verdade, sem dragões, mas com explorações, sem princesas, mas com mulheres que amavam de verdade, com cavaleiros, espadas, religiosidade, precariedade, sonhos, mitos, bruxas – que nem eram bruxas más e feias – que eram queimadas vivas, com livros proibidos, amores arranjados, terras a serem conquistadas e uma relação de lealdade que jamais havia visto igual. Naquele dia eu quis ser professora.
Minha mãe se espantava quando eu dizia que quando crescesse ia ser professora. Todas as meninas queriam ser bailarinas, menos eu que não sabia dançar. Todas as meninas queriam ser atrizes, menos eu que às vezes me cansava de ser eu e até interpretava na escola, mas que sabia não ser talentosa. Algumas queriam ser médicas, outras ricas, outras dentistas e eu queria ser professora!
Aos 19 prestei vestibular e com a nota alcançada poderia escolher qualquer curso da unversidade: História, claro! Queria ser professora! Dias depois assumia algumas turmas de um curso pré-vestibular: havia me tornado professora!
E o que é ser professor?
É a coisa mais maravilhosa de todo o mundo! Mas também é a coisa que mais me amedronta no mundo…
Ser professor é ser um ilustre deconhecido conhecido pelas ruas, a ser tomado como referência, é se expor sem querer, porque é tomado como modelo, ainda que não queira.
É ser entrega… é ganhar pouco, mas é também lutar para que isso mude. É ter um coração vermelho, marcado pela vontade de mudar. Ninguém se torna professor pra ficar de braços cruzados. Todos que eu conheço querem fazer do seu espaço um lugar melhor seja através de boas aulas, seja encarando uma passeata grevista pelo centro da cidade, seja escrevendo panfletos.
Ser professor é um pouco de sacrifício: levamos o trabalho pra casa. Dormimos com ele. Aprendemos a nos dividir entre casa, família, amores, diversão e o trabalho, que parece nunca ter fim. Parece um esforço sísifo. Quanto mais provas tem para se corrigir mais aparecem! Quanto mais aula monta, mais o conteúdo se expande! E o número de aulas? Esse diminiu como que num passe de mágica! Acabo achando que ser professor  é também ser um aprendiz na arte de fazer milagres!
Ser professor é ser parecido com as Casas Bahia: “Dedicação total à você”, aluno! Razão de nossa existência. Filhos que adotamos, amigos que conquistamos,colegas de profissão que encontramos na próxima esquina, na próxima escola e percebemos como o tempo passa e nós ficamos velhos…
Ser professor é ter a consciência de que o mundo está indo de mal a pior, mas que nós somos capazes de muda-lo. Não com nossas próprias mãos, pelas muitas mãos – e cabeças – que passam por nossas mãos.
Temos a certeza de que nosso papel social é importante, que somos nós os responsáveis pelos futuros pensadores que estão em formação, que cabe a nós apresenta-los a beleza da razão, as maravilhas da ciência, mas principalmente de mostra-los a grandiosidade da crítica, da análise, da vontade de ser melhor e da consciência de que eles podem ser os agentes responsáveis pelas mudanças almejadas, já que são seres criadores, pensantes, conscientes. Ser professor é a cada dia contribuir com a formação de cidadãos que se entendem como tal e que por isso podem mudar o mundo começando por mudar a si mesmos, sendo mais autênticos.
Ser professor é ter a certeza de que os anos nos bancos da faculdade foram necessários, mas que aprendemos infinitamente mais com nossos alunos, pessoas que são amadas antes mesmo de serem conhecidas.
Ser professor é saber que o sucesso não é ter um nome famoso, sair nos jornais e revistas ou ser foco de vários flashs. É fazer o que se gosta, o que ama e ver que os outros lhe reconhecem em seu esforço, em sua simplicidade e raridade. É saber que estará pra sempre na memória de alguém sabendo que foi importante para a sua formação. Que será lembrado com carinho.
Em alguns anos de magistério aprendi que não há nada melhor que se chegar na sala de aula depois de ter tomado um banho de chuva, estar com o cabelo pingando, a maquiagem escorrida e um aluno te oferecer uma toalhinha como conforto.
Nunca ganhei tantos sorrisos sinceros como quando explicava uma “coisa difícil” e eles entendiam.
Nunca fui tão feliz como quando alguém disse que iria se tornar professor porque percebeu que era uma atividade de amor e que foram o brilho dos meus olhos ali, misturados com o giz e as palavras que o mostraram isso.
Poucas vezes chorei tanto como quando entrei para dar aulas e ganhei festas surpresas de aniversário, quando ganhei cartões de alunos que retomaram o estudos depois de 20 anos longe da escola.
Jamais esquecerei como foi ver uma aluna ir ao cinema pela primeira vez na minha aula, aos 67 anos…
É… acho que ser professor é mostrar ao mundo todos os dias que é possível se amar incondicionalmente. Que acredito nas pessoas, que acredito que posso e devo ajuda-las na busca e na realização de seus sonhos.
Ser professor é se doar e não esperar mais do que um sorriso de agradecimento. Acho que é por isso que amo tanto a profissão que escolhi!

Aos meus amigos professores, aos meus professores que se tornaram amigos e que me influenciaram, aos meus alunos que se tornaram professores, que se mantenham firmes no propósito de construir um mundo melhor. Que tenham coragem de seguir sempre em frente, que não desistam, que contem comigo, que mesmo frente ao medo de não conseguir, que mesmo com a insegurança que nos dá quando assumimos uma turma nova, ou quando enchemos os olhos d’água na despedida de um ano letivo tenham a certeza de que sim, nosso esforço vale e valerá sempre a pena.

Feliz dia dos professores para nós que temos a melhor de todoas as profissões do mundo, afinal, todos, um dia, já passaram pelas salas de aula!


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Filosofia da Moral ou Quem se Importa com as Convenções Sociais?



Aula de filosofia da educação. Posso simplesmente ignorar o “da educação” e ficar só com a primeira parte: aula de filosofia. Gosto mais.
Nietzsche! O que isso quer dizer? Que vou surtar,oras! É sempre assim!
A discussão se dá sobre sujeito e identidade… 
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…
Que sono!
De repente, eu que estava “off” da sala, nem aí, com um aparelho em “stand by”, que fica ligado, mas não dá a mínima pra nada, me desperto no meio de uma discussão interessantíssima: a pauta é a moral.
Eu que não li o texto – como estratégia de evitar um surto antecipado – começo a costurar as coisas de uma maneira mais clara.
É inegável que entre os filósofos contemporâneos que acho mais interessantes o Nietzsche faz parte da listinha. Li pouca coisa dele, mas gosto das visões diferenciadas que ele tem do mundo e especialmente na questão da moral.
Ele a coloca no patamar de uma “mentira sem a qual não podemos viver, mas cujo caráter de mentira é esquecido”. Que brilhantismo! Temos aqui um convite à reflexão e à mudança de postura frente aos nossos desafios, aos nossos desejos, nossas ações, nossa vida.
Quem nunca quis algo proibido? A maça do quintal do vizinho, a caneta  perfumada da colega de classe, o vinil perfeito do Cartola que o outro encontrou numa feirinha de raridades…? Sempre tem uma coisa que queremos e “não podemos”.
Ao entendermos que o homem é um ser coletivo e que precisa se identificar com esse coletivo, fica ácil entender que ele, enquanto membro desejoso de ser aceito se valha de diversas armas, diversas máscaras, como um exercício de adaptação.
Rá! Descobri a lógica que move os nossos dias! As nossas mentirinhas cotidianas se transformam em “verdades” na medida em que percebemos que isso é necessário para sermos aceitos no grupo.
Isso é a moral! No fundo temos uma série de valores sendo atribuídos aos nossos sentimentos e à forma de como são vistos, aceitos, comentados, negados, classificados. Vale a pena se lançar nesse jogo de rotulações?
Aceitar que somos naturalmente mentirosos para o filósofo seria um bom começo, pois eu digo que temos é que nos desfazer dessas máscaras.
Compreendendo que a moral que nos tolhe de desejos que poderiam ser tão docemente apreciados é mera invenção, mera convenção social para a manutenção de um grupo social, o que ainda nos segura? Vamos eternamente nos martirizar e nos podar porque estamos preocupados com o que o vizinho vai dizer?
Acho que vale mais a minha cosnciência. Estando bem com ela, ótimo. Mas é pra estar bem comigo mesma. Nada de consciência pesada porque alguém disse que é errado. Se me faz bem não pode ser de tudo tão mal…
O surto da noite foi produtivo. Seguiu a linha de conselhos que recebi de minha mãe há alguns dias. Ajudou-me a entender uma ou outra situação e a seguir firme na ideia de sempre: vou ali ser feliz e não volto nunca mais!

P.S.: É dando asas para você mesmo que poderá alçar vôos mais altos e mais bonitos. E daí que alguém disse que o céu é o limite? Pra mim ele é apenas o começo. Quem liga para as convenções sociais??


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cálculo Matemático



A mocinha “apaixonadamente apaixonada e apaxonante”. Era assim que um professor, um senhor de mais de sessenta anos a chamava no início da faculdade. Ele sabia que ela era diferente. Sabia que só fazia o que queria. Só se mantinha numa situação se estivesse feliz. Ele sabia que ela era de extremos e de intensidades.
Ela queria mudar o mundo.
Ouvia rock e mpb, uma doçura meio rebelde, uma mistura indecifrável de timidez e euforia, de querer manter tudo nos conformes e no próximo minuto mudar tudo, era um “decifra ou te devoro” que pedia por favor.
Apaixonava-se por tudo. Todos os dias. O mundo só tinha graça se ela se levantasse da cama e se apaixonasse por alguma coisa. Isso explica a música do seu despertador, as cores das unhas, as frases da agenda.
Vivia sem planos. De certo esse era o plano: não ter planos.
Apesar de achar que a vida era um palco pronto para as grandes mudanças, de enfrentar policiais e participar de passeatas e achar, de verdade, que ia mudar o mundo, a mocinha queria mesmo era se apaixonar pra valer. Não. Ela queria amar. “Amar só por amar” – essa frase de Florbela Espanca era uma de suas favoritas. Amar alguém pra chamar de seu, amar alguém que soubesse ser seu. Amar alguém com quem pudesse contar.
Aos poucos foi parando de fazer as suas revoluções e entendendo que o mundo não queria necessariamente ser mudado, que as pessoas precisam se organizar primeiro pra depois começarem a mudar o espaço que habitam.
Mudar é coisa complicada. Precisa ser de dentro pra fora e isso não é pra qualquer um. É pra quem não teme correr riscos e pra quem não teme se chocar com seus próprios medos, questões e tocar na própria ferida, porque de vez em quando pode-se perceber que muitas das coisas que condenava acabaram por ser feitas por você ao longo do caminho.
Ela foi tentando só se mudar, e a partir de seu mundo (nada) organizado, aos poucos, ia conseguir cativar as pessoas, sem força-las a mudar, sem necessariamente desejar isso. Não criar expectativas foi a estratégia.
Ela queira amar e amou e viu o amor virar bom dia.
Viu outro amor passar pela janela, como quem olha a banda. Viu outras promessas de amores no jardim, misturadas às flores, mas eram promessas e de promessas ela não gostava…
Ela queria amar alguém que soubesse ser seu. E amou, e ama. Incondicioalmente. Fez-se dois. Repartiu-se. Seus olhos castanhos viram também olhos azuis-esverdeados ou seriam verdes-azulados?
Queria amar alguém com quem pudesse contar. E encontrou o conforto dos amigos.
Assim descobriu que amar só por amar é fácil: é acordar todos os dias com sua música preferida, é dar bom dia ao dia, é vestir-se e sentir-se bem, é perfurmar-se para ela mesma. É distribuir sorrisos.
Ainda assim ela pensava que  amor seria uma fórmula, um cálculo matemático, onde “ele + eu = nós”.
Não aprendeu nada pelos caminhos que trilhou.
Não sabia que para esses cálculos só resta a frieza e que amor é calor. Que a exatidão não é boa, é limitadora demais.
Não aprendeu que o amor é bicho de asas, que mora no coração, que não tem porta, porque precisa ser livre pra voar e crescer.
A mocinha sonhava encontrar a fórmula certa. O que não aprendeu nesses anos todos é que as coisas não acontecem assim, de uma hora pra outra. Que em se tratando de coração “1 + 1 = infinitas possibilidades de alegrias, de momentos, de sonhos”. As coisas acontecem devagar… aos poucos… em cada detalhe… E, talvez, ela não percebesse os detalhes porque era cismada com a ciência. Era passional com mania de ser racional. Não sabia que a vida toda havia andado no caminho certo, agindo em busca de sua felicidade e que agora, desejando ser diferente se colocava num caminho oposto ao que a levaria a chegar ao amor.
Mas ele vem. Um dia vem. Mesmo que seja na contramão. Ainda que de longe… ele voa ao por-do-sol!