Visitas da Dy

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Lenços


Fez frio lá fora...
O vento não soprou, cortou...
O pensamento voou...
Nem todos os casacos do mundo aqueceriam aquele dia...
Faltava cor, sobrava melancolia.
Nem todos os lenços do mundo amariam os pensamentos:
Esses, voaram todos com o vento,
Deixando a cabeça vazia,
Enquanto a viagem seguia.
A distância era vau,
A vontade perdida em uma nau.
Por entre estradas e caminhos,
Teimoso, ia o coração em desalinho.



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Albergue


Meus passos são firmes
E não sei para onde vou:
Eu me perco.
Minhas mãos são seguras
E buscam pelas suas:
Eu desatino.
Meus olhos brilham
E vejo o futuro:
Eu me entonteço.
Minha boca sonha com a sua,
Declama o seu nome:
Eu rogo.
Meus dedos tateiam no escuro,
Contorno a sua foto:
Eu choro.
Meus versos teimam em sair,
Despedaçam-se em mim:

Sou albergue de sentimentos.

sábado, 19 de outubro de 2013

Estejas longe de mim


Há uma hora escura em que perdemos as rédeas de nós mesmos. Sei que essa hora chegará para mim e para você e para todos que temos à nossa volta. Essa hora negra nos tira do sério. Afasta-nos de nós mesmos. Afugenta nossa lucidez e nos deixa à beira de nossos próprios abismos, sem eira para segurar. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.
Quando as palavras me faltarem, sei que estarei perdida em silêncios, não saberei nada do léxico, direi frases que se distanciam do menor nexo. Nesse momento gritarei calada e ninguém ouvirá meu grito. Minha prece não será repetida e nem tão pouco a minha oração será atendida. Terei me esquecido de como se abre a boca. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.
Nos dias em que me castigar com a tua presença silenciosa, recolherei as minhas gotas de brilhante nascidas de meus lagos rasos de tristeza, choradas das profundezas de minhas entranhas, trazendo à tona a minha dor. Sentirei na carne a navalha afiada de teu descaso e verterei sal em honra às palavras doces que já ouvi de ti. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.
Será naquele dia em que puderes me estender a mão e nada fizer que sentirei a punhalada do teu não-querer em face a todo o meu bem-querer devotado e febril. Lançarei teu nome em um livro de esquecimento e lamentarei o dia de folia em que meus olhos juraram fidelidade e lealdade aos teus, assumindo toda a minha ingenuidade. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.

Chegando o dia em que eu precise levantar um brinde à tua felicidade em detrimento da minha, erguerei meu cálice de vinho tinto, do qual farei tinta rubra para escrever-te versos. Desejarei que me leias, mas temerei as minhas entrelinhas. Mostrarei a ti a nobreza de minh’alma que mesmo em frangalhos, louva por sua existência. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.

Próximos Capítulos


Pelos corredores da faculdade agora ela caminhava tranquila. Já olhava com saudade para cada ladrilho do chão, cada descascado da tinta na parede, típico de espaços públicos onde circulam muitas pessoas e há certo descaso com a conservação.
Lembrava com saudade de seus primeiros dias naquele lugar quando se perdia de um andar para o outro, quando os rostos eram todos desconhecidos e só havia dois tipos: os assustadores veteranos e os assustados calouros.
Hoje ela não era nem um nem outro tipo. Hoje ela era só saudade. Hoje ela tinha só um desafio: entender como tinha chegado até ali. Como tinha se tornado uma pessoa que dominava tão bem as palavras. Ao final de seu curso ela entendia muito bem de construções textuais, de literatura, de formação de palavras. Em alguns dias contados teria o título de professora. Dominava a sua língua. Conhecia vocábulos simples, mas sabia alguns complexos, desses que deixam uma frase simples com ares de coisas do outro mundo. Hoje ela se sentia dona. Dona das palavras. Dona da vez. Dona do jogo, da banca, dos livros, do caderno e da caneta.
***
Com ares despreocupados ele caminhava por um prédio qualquer. O fato de já ter extrapolado o seu prazo de formatura não o incomodava. Gostava de estar rodeado por seus livros. Andava sozinho na maioria das vezes, prendendo seus sonhos atrás de lentes finas, antirreflexo, anti espiões e curiosos. A camisa branca já sem alinhamento e puída combinava com o ambiente universitário.
Estava absorto em pensamentos que teimavam a trazer à tona uma certa interferência em uma aula de literatura inglesa do último semestre. Uma moça bancou a especialista em Plath. Ele achou graça na hora. Era uma jovem de ar petulante. Convicta do que gostava e parecia que os poemas de Sylvia Plath estavam na lista top-10.
Poderia descrever os detalhes daquela aula. Descreveria a participação da moça como se fosse um quadro. Conseguiria dar as nuances das cores e sensações com as palavras que conhecia. Tarefa muito difícil para ele, que julgava as palavras poucas para sentimentos humanos. Em sua caminhada ele desejou encontra-la, mas logo riu-se de si mesmo, balançou a cabeça, e espalhou a imagem morena de seus pensamentos desfazendo-a como nuvem.
***
Quiseram as linhas do destino, realizar os caprichos do rapaz e o poema moreno de seus pensamentos ganhou vida no final do corredor que ele percorria. O coque atrapalhado que ela trazia preso com um lápis a deixava deslumbrantemente informal. Ele ensaiou um cumprimento consigo mesmo. Um sorriso.  
A dona das palavras passava pelo corredor como quem anda em um parque, sem compromissos. Avistou o rapaz que há tempos pareceu se incomodar com a ideia de ela gostar de poemas ingleses. Ela reparou em como ele caminhava despreocupado e tranquilo e desejou ser como ele. Ser com ele. O coração atrapalhou-se. Ela ensaiou um cumprimento consigo mesma. Um sorriso. 
***
Em um tempo que parecia sem tempo, jovens se cruzaram em um corredor de um prédio qualquer. Se pudessem se traduzir em palavras ele seria o despojado, ela a dona.
Por dentro eles desejavam se falar. Se olhar, se aproximar. Por dentro eles sabiam o que havia de ser feito, mas por fora, tremiam e deixaram-se passar um pelo outro, sem aproveitarem a sutil oportunidade que tiveram de mudar o rumo de seus caminhos.
Os jovens ainda eram muito jovens para saber que estavam segurando as rédeas de suas vidas em uma encruzilhada que não permitiria retorno. Ainda não sabiam perceber os sinais sutis que a vida usa para indicar os caminhos que podemos seguir.
Ele, despreocupado, imaginou que a encontraria novamente e que poderia se valer de Plath para começar a meada de fios que ele desejava unir. Ela, dona de si, não soube ser dona da situação e o viu passar como página de um livro que se folheia na biblioteca para pegar depois e nunca mais o encontra.
Passou-se ali o tempo, a chance, as páginas, os pensamentos, as futuras intenções e tantas histórias que poderiam ter sido vividas e escritas. Ficaram pelo corredor dois personagens que combinariam seus enredos, não fosse a desatenção que os guiou pela mão por atalhos distintos. Passaram-se ali cenas dos próximos capítulos que jamais seriam exibidos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cotidiano



Pelas barras de seu vestido, os passos.
Passante, não olha para os lados.
Observador, sou só olhos
E sonho.
E olho para você, só para você.
Parado exatamente aqui,
No mesmo lugar,
Estátua de bronze com olhos de lente.
E a moça que passa olha e não vê.
Vê e não enxerga.
Passa... desliza... quase voa.
Voa e cai em meus devaneios.
Fico pronto para despertar ao seu passar.
Fico pronto a explodir ao seu sorrir.
Desejo que se vá só para vê-la voltar.
Desejo acordar para não perdê-la de vista.
Entonteço ao meio-dia,
Desespero-me à meia-noite.
Do céu baixo as nuvens
Tapetes para seus pés que logo vêm.
Por essa leveza seria alcatifa,
Para seus deleites seria fonte cristalina.
E ela vem e passa e vai.
E eu observo e olho e não sou visto.
E faço parte de seu cotidiano de sorrisos,
De tantos “bom dia”, de ais e suspiros,
Mas assim como não sei como o sol se vai,
Aqueles olhos de ares sutis,
Passam por mim e não me veem,
Presos em seu cotidiano.


Primaveril



Enluarou. Estrelou. O lábaro cravejou-se.
Lá do alto eu olha para mim mesmo
Raízes fixas na terra, cabeça no espaço.
Pensava na amada, pés bailarinos,
Que afagavam meu coração com a ponta de seus dedos.
Pisava tão leve que parecia carícia.
Dançava nos meus sonhos.
Raiou o sol. Amanheceu. Venceu aurora.
Primaveril me sorria e abriam-se flores
Ao meio-dia, à meia-noite.
Em meus braços ela faltava,
Mas por dentro eu era cheio.
O vazio se completava com a cor dos seus cabelos.
Eu era oco e pleno.
A brisa era fresca e ardia.
Balbuciei seu nome, canção muda.
Era feliz em minha tristeza,
Era presente em sua ausência.
Era a princesa sem castelo
Eu, o príncipe sem cavalo.
Eu a sonhava jardineira,
Ela zombava de meus planos.
Eu a descobria, novidade.
Ela me reencontrava, sonho delirante.
Parecia noite de verão,

Era entardecer de primavera.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Silente


Em seu silêncio, calmaria.
Em meu silêncio, tempestade.
Ou seríamos dois turbilhões disfarçados?
Nossos olhos, caravelas em mares distantes,
Se buscam, se encontram e se perdem.
Ou fugimos das bordas desse Mar Tenebroso,
Medrosos de um abismo inevitável?
Deixamos nossas mãos perdidas, naus à deriva.
Deixamos nossas palavras silentes,
Estrelas cadentes no céu de nossas bocas caladas,
Correndo o risco de engasgarmos com as letras mortas,
Não ditas, inaudíveis, impronunciáveis.
Não há bússola que nos guie,
Nem carta náutica que nos dê uma rota.
Não precisamos sequer de um astrolábio,

Mas do encontro de nossos lábios.

Professorando



Escolheu os livros, renunciando a outras tantas opções.
Decidiu ter os pés no presente,
Nos dias que correm,
Mas sem deixar de olhar para trás,
Sem deixar de sonhar com o futuro.
Escolheu sujar a mão de giz,
Transitar entre linhas:
Escritas, do tempo, da vida.
Fez do seu tempo, doação.
Fez do seu sonho, multiplicação.
Dividiu-se e cresceu cada vez mais.
Quando podia ter escolhido o mundo,
Escolheu quatro paredes.
Quando podia ter se acomodado,
Escolheu a luta.
Entre tantas cores, escolheu canetas:
Gosta de azul, mas precisa do vermelho.
Faz do silêncio seu eco do passado,
Pede olhos atentos e ganha sorrisos.
Faz pensar, escrever e crescer.
Faz falar, se expressar e aprender.
Dedicou-se à profissão com amor:
Enquanto todos estão trabalhando,

Ela está professorando.

Sussurro



Das conchas de suas mãos,
As palavras.
Não saiam da boca,
Mas dos olhos.
Atravessavam-me como o trem na estação.
Seu sussurro era tranquilo,
Doces notas harmoniosas.
Que os meus ouvidos invadiram.
Eco surdo em campo aberto.
Vento que causa arrepio.
Seus olhos de entardecer,
Minhas pernas de ventania.
Segui seus ditos como fiel em romaria.
Do leve som que ouvi,
Lembro bem das cores que sorri:
Era um sem fim de lilases,
Azuis e transparências.
Eram águas claras correndo,
Que eu seguia bebendo.

Eram seus desejos me ardendo.

Calendário


Vivo os dias como criança:
Começo em um novembro aniversariante.
Em dezembro recebo encomendas
Que são abertas em um janeiro
De calores e águas,
De ventos e mares,
De férias e esperas de folias.
Foliã de meus fevereiros,
Danço pelos meus dias,
E descanso no Equador de março,
Equinócio de meu outono,
Quando me mudo, me podo, me renovo.
E me abro em abril em prosa,
Em verso, em rima.
Permito-me uma ou outra mentirinha,
Que vai embora como a moça de maiô
No mar frio de quase inverno,
Dedilhando flores de maio,
Junho ou julho e suas fogueiras
De santos e padroeiros,
De milhos e pipocas, pescarias e quentões,
Quentura de corações.
Agosto de Deus sigo meu caminho.
Compro tinta e pinto a casa,
Pinto o dia, pinto flores, pinto o sete,
Setembreando os ares primaveris.
Que seja agora outubro ou nada!
Porque o ciclo se fecha

E o calendário não para.

Tela



Porque sempre tenho tinta à mão
Pintarei os melhores quadros para seus olhos,
Como promessa que nunca termina de ser cumprida.
Nesses quadros nem sempre haverá beleza,
Mas haverá o verde, a esperança,
Minha assinatura e o compromisso
De não deixar nada passar em branco,
De colorir seus dias,
De encher sua monotonia.
Farei da sua tela meu brinquedo,

Dias quentes de folguedos.

Miudeza


Sou miudeza. Minúscula. Poeira. Grão de pólen dourado que só brilha no sol. Brevidade. Tenho mãos pequenas e pés que se perdem. Tenho dedos curtos, finos, delicados, desses que tremem ao segurar um cristal. Tenho olhos brilhantes e curiosos. Sou pequena luz inquieta que busca acender olhos que vagam por breus.
Por ser pequena, não tenho muito. Tenho quase nada. O que tenho me basta. Bastaria se fosse seu. Se eu fosse sua. Bastaria se não fosse de silêncio, do seu silêncio atordoantemente agudo aos meus ouvidos.
Sou minúscula e seus olhos não me veem. Espero à sombra de mim mesma que me veja. Que olhe para mim e perceba que sigo seus rastros. Como a delicada joaninha ao pé da flor que tem sua beleza anulada, quase imperceptível porque só os aromas interessam a quem visita o campo.
Sou poeira levada pelo vento. Arrastada pelos passos de um caminhante qualquer que ousa em becos e vielas. Sou poeira repousada nas curvas de um ponto de interrogação que ecoa pelos vãos do tempo. Em galhos secos de frases podadas da boca seca de palavras certas.
Sou grão de pólen de versos desalinhados que provocam reboliços turbilhantes em minha própria mente. Contiguidade em meus descontínuos temas paralelos que se encontram em meu infinito de ideias, prantos, lamentos, desabafos e alegrias, rompendo a lógica euclidiana.
Sou brevidade, tempo determinado. Sou hora marcada para o fim. Tenho pouco tempo no relógio, pouca areia na ampulheta, pouco sol nas pedras angulares. Sou folhas contadas na agenda, dias esgotados do calendário, mas ainda assim lhe espero.
Pelas minhas mãos pequenas a caneta lhe escreve, lhe descreve, conjuga suas ações com as minhas. Salvam-me do limite da eira, tiram-me da beira, evitam a vertigem.

Pelos meus dedos pequenos toco canções ininteligíveis, com palavras nunca antes pronunciadas por nossas bocas. E já são tão poucas que pago pelo preço do que não vejo e já nem sinto tanto. Será que ainda há o encanto? Vago. Silêncio. Silencio. Não ouço resposta ou assobio. Suplico, conjuro, adormeço em minha miudeza de ser e grandeza de sentir, em minha pequenez de alma e imensidão de amar.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Luar de Festa


Talvez fosse agosto, setembro ou se anunciasse outubro. Sabia-se apenas da lua cheia. Àquela hora a lua ia alta. Parecia bem maior que o de costume.
Sob o céu ela caminhava e embalava-se entre seus amores pueris e seus sonhos juvenis por não saber bem onde se encontrava. Ainda conservava seus tons de menina que ria alto, que batia palmas de alegria, que roubava doces em festa, que espiava por trás de portas. Ganhara, porém, traços novos, mais juvenis, quase adultos. Acostumara-se a ter segredos, até para si mesma. Estava aprendendo a usar os seus olhares, equilibrava-se em saltos altos e suspirava diante da lua cheia, como naquela noite.
Era um baile. Ela, uma das convidadas de honra. Para compor-se adequadamente usava um vestido pré-determinado pela dona da festa e isso a desagradava. Os sapatos a desagradavam mais: eram altos e meio apertados. Ter os cabelos semipresos a deixava mais bonita. Uma franja caia-lhe muito bem sobre os olhos. Ajudava a criar um ar de mistério em seus olhares emoldurados por um combinado de sombras que ia do prata ao preto, em degrade, além do contorno fino e forte cuidadosamente traçado por um delineador.
A ideia do tal baile não a apetecia nem por um minuto. Achava tudo muito lugar-comum. Via as pessoas com uma monotonia que a enjoava. Não percebia sorrisos sinceros, ao contrário, plásticos.
Entre as mesas circulavam garçons, recepcionistas, seguranças e todo o tipo de prestadores de serviços que esses bailes chatíssimos e tradicionalíssimos exigiam. Ela achava tudo chato. Nada prendia a sua atenção. Nem os amigos, nem as conversas, nem as expectativas. Só a lua. Alta. Cheia. Mais próxima da Terra, talvez.
Habilidosamente se desprendeu das teias das conversas das quais não havia pegado nenhuma meada e deslizou para fora do salão, desatenta, rumando para o jardim também preparado para a festa. Lanternas coloridas se espalhavam entre as árvores que não eram tão frondosas e nem tinham frutos. Talvez fosse o fim do inverno ou já estavam na primavera, por isso algumas flores pendiam.
Procurou uma árvore mais afastada, ainda na área da festa e se jogou ao seu pé. Recostou-se no tronco duro, olhando sempre para a única coisa que prendia a sua atenção naquela noite.
Não pensava em nada. Desliza os dedos pelo bordado de seu vestido. Agora já familiarizada com ele. As flores brancas até caiam bem naquele tom de azul profundo... O azul a fez pensar no mar, no céu, naquela noite. Fechou os olhos e cantou para a lua, como se pudesse ser ouvida. Era qualquer canção de amor. Dessas que tem como nome o de uma mulher: Cecília, Luíza, Carolina, Beatriz.  A musa da canção era exaltada. Despertava tremores, chegava a impedir a respiração do admirador. Ela invejava essa musa e pensava se sua existência era real e possível. Em seu íntimo desejava encontrar um sorriso qualquer que a fizesse sentir aqueles mesmos tremores cantados.
Teve sede. Era uma noite quente. O vestido parecia lhe aprisionar naquela cor. Pensou-o branco, limitador, angustiante. Saiu à procura de algo para beber. No caminho encontrou com um par de óculos que emolduravam castanho-escuros brilhantes e aparentemente perdidos que eram completados por um marfim polido e largo, que era chamado de sorriso. Era um riso gentil, apesar de parecer acanhado e incerto de onde estava. Ela pairou sobre os saltos. Parou por três segundos. Lembrou-se de respirar. Desviou-se dos óculos e entrou em busca de algo que a refrescasse.
“Está na hora, vamos!” – foi despertada por uma voz conhecida. Seja lá que hora fosse aquela, ela precisava ir. Foi resgatada de onde estava imersa sem que se desse conta. Sorriu, levantou-se e seguiu o fluxo dos acontecimentos. Perdeu-se nas horas, nas brincadeiras, nas danças ensaiadas e nas improvisadas e buscava a lua pelas grandes vidraças do salão de vez em quando.
Libertou-se dos sapatos, o penteado desarmou e cercou-lhe o rosto, enfatizando seu castanho-avelã curioso e atento na lua que ela buscava, já a caminho da árvore para se jogar, exausta, de novo, aos seus pés.
Decidiu pegar uma taça de qualquer coisa que estava sendo servida. Tocou de leve e sorridente o ombro do jovem garçom: o dono dos olhos que a deixaram entorpecida no inicio da noite. Quedou-se paralisada. Mergulhou naqueles olhos como se fossem um mar negro, mas lembrou-se de respirar antes que se afogasse. Sorriu na esperança de rever aquele riso de pérolas que não demorou. Balançou a cabeça agradecida, tímida, corada.
Chegou ao jardim, olhou a lua. Cantou mais duas ou três músicas e riu: teria se apaixonado pelo garçom mais bonito da festa? Teria ela entrado no labirinto das paixões, que é o destino de todo coração humano? Poderia isso acontecer assim, entre luas, taças, pretos, brancos, azuis profundos, músicas, castanhos e fugas do que é entediante? Seria possível que experimentasse assim a sensação cantada por ela há poucas horas em músicas que a agradavam pela melodia e poesia?

Para encontrar a resposta ela precisaria refazer o caminho. Analisar cada passo dado. Observar-se a si mesma, mas agora a lua tão branca a mastigava como se fossem aqueles dentes. Suspirou. Achou graça de sua sorte. Calçou os sapatos e pôs-se a caminho de casa, tentando desfazer em si mesma aquelas sensações que lhe correram pela espinha. Haveria de ser mais uma dessas coisas que acontecem com os corações que ainda oscilam entre o pueril e o juvenil.

Vontades-incompletas


Naquele dia ela percebeu o quanto se pode existir distâncias entre as pessoas que estão tão próximas. E percebeu o perigo que há nos abismos que podem se formar entre as pessoas que se querem bem e se deixam perder pelo caminho.
Sem querer enxergou um pouco além do que estava acostumada e notou que as pessoas possuem cortinas ao redor de si mesmas. Essas cortinas escondem os quereres, os medos, algumas alegrias, aquilo que as deixam vulneráveis. Talvez fosse só proteção, mas ela preferiu chamar de vontade-incompleta.
Para ela, naquele dia, ficou claro que todos temos vontades-incompletas. E elas mostram muito de nós. Mostram aquela coisa que não queremos que ninguém veja, já que podem refletir a nossa inquietude, a falta de coragem, a falha, a insegurança ou os excessos, as extravagâncias e viver nesses limites é arriscado. De súbito ela lembrou da busca do equilíbrio que todos tentamos fazer, inclusive ela mesma.
Refletiu sobre esse manto que nos cobre, que usamos para disfarças as nossas torturas interiores, os nossos planos não acabados ou as nossas vontades-incompletas, que não tiveram tanta força para serem realizadas ou tiveram força demais e perderam a medida.
Era fácil agora enxergar os farrapos de seus próprios planos. As leves insinuações do que era-pra-ter-sido-e-não-foi. Conseguia ver até onde estendera o seu braço e espichara os dedos para alcançar coisas que não lhe cabiam nas mãos e que caíram. E outras tantas coisas que sequer ousou tocar pela distância.
E se há a distância entre as pessoas e seus sonhos e elas se valem de coberturas mais ou menos finas para se protegerem, essas mesmas pessoas se distanciam. Privam o outro de conhecerem-nas melhor, de poder compartilhar as situações, de contribuir para que a vida seja mais leve, de ser mais uma mão a reger os dias.
Teimamos em ser sós, só pó, nó. Teimamos em dar braçadas num infinito que nos cansa. Parece que no fim, gostamos mesmo é de remar contra a corrente sozinhos. De dar murros em ponta de faca para colhermos nossas gotas de sangue nas taças de nossa egocentricidade. Gostamos de dar passos ciganos, sem rumo, perder o tino, flertar com a nostalgia, com a dúvida, com a angústia. Gostamos de ter vontades-incompletas andarilhas em nosso peito e de tentar ocultá-las com cortinas que tecemos com sorrisos amarelos, cumprimentos protocolares e uma vidinha comum, dessas de ver a banda passar.

Aquele era um dia onde ela percebeu-se mais incompleta do que todos os outros dias. Mais oca do que antes. Com o peito pronto a ser escancarado a qualquer parte. Aquele era o dia em que ela percebeu as suas cortinas e desejou rasgá-las. Aquele era um dia no qual ela desejou construir pontes para unir os abismos criados, solidificar sonhos líquidos e vontades etéreas. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Existencial

Presente do meu querido amigo Ubirajara Sá




Estou contigo, sem nada dizer,
Sem nada querer, sem nada implorar

Estou por estar,
Fazendo presença silenciosa
Nas maiores declarações de amor.

Estou contigo,
Deixando-me preencher
Do Amor sem palavras
Mas pleno de vida.

O tudo e o nada somos nos
Entrelaçados existêncialmente,
Um dando ao outro
O próprio sentido essencial.

Tu e Eu sou em Ti...

Dos temas que ela não temeu

Um mimo que ganhei da minha aluna Yngrid!







Ela gosta Da hora do dia
Em que o silêncio é tanto "Que, mesmo em face do maior encanto" Tudo parece calar Fala do café e dos sabores Da saudade que é imensa Dos amigos e amores E de tudo o que pensa Em varias línguas, plural Suas palavras são distantes Mais bonitas que o normal Palavras e canções que com ele Aprendeu a gostar Intenções e fatos que sempre nele Vão terminar Ela namora seus retratos Como se nunca o tivesse visto, Demora em seus tratos Como se sempre vivesse disso. Mas ela tem sorte: Sabe o quando ele é querido E ela não tem mais medo que ele a veja Assim como ela é Confusa e amando-o "Como ninguém jamais o amou" Um amor irrestrito Que os cure E que seja mais bonito Transfigure "Que seja eterno (Infinito) Enquanto dure" Todo mundo sabe Que o amor é infinito Enquanto dura O poema acaba aqui, Mas o amor... Ah! O amor... Eles continuam à sua procura...