Visitas da Dy

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Feitiços



Invoco através de meus versos
Ausências doloridas,
Amores incompatíveis,
Saudades insaciáveis.
Faço dos corpos campo de batalha,
Margem alcançada,
Selva desbravada.
Em meu corpo já morou o amor,
Já dormiu a saudade,
Já tatuou-se a ausência,
Hoje é meu caldeirão de magia,
Meu vulcão, minha fonte de energia.
Faço das palavras os ingredientes necessários
Para os conjuros lendários:
Feitiços-poesia,
Versos-magia,
Toque de cetim na pele,
Calor do sol do meio-dia,
Arco-Iris que divide a tarde,
Sua chegada no meio da noite.
Sou a feiticeira obstinada
Em busca de sua boca,
Sedenta de suas palavras,
Carente de sua presença.





segunda-feira, 15 de julho de 2019

Reverso





Das tristezas que conheço,
Faço verso.
Outras tantas que invento,
Reverso.
Não que eu seja triste.
Não que eu beba tristeza.
É que, às vezes, me faz bem
Escrever sobre as agonias que desconheço.
E se tão bem escrevo de amor,
Deve ter um pouco de espaço 
Para tudo o que for dissabor,
Afinal, pouco sei desse 
Daquele, raridade.
Estou no reverso das coisas
Escrevo o que me vem com o Tempo.
Ele, senhor dos meus ais, me sabe,
Cabe, invade...
Ele me leva.
Todo o resto se vai.

domingo, 14 de julho de 2019

Maya



Nada adiantou seus olhos de noite,
Seus ares de feiticeira.
Pouca coisa valeu tecer versos,
Traçar histórias.
Não eram as Moiras que lhe regiam, mas Maya.
E embora ele fosse só miragem,
Já era seu labirinto favorito
E dele não podia sair.
Não podia esquecer
Aquele que era ausência de caminhos
E, por isso, era presença.
Ela não podia esquecer
E, por isso, desejava perder-se 
Porque era o próprio inferno
Ter história não vividas
Guardadas em sua memória tão viva.
Ela não podia esquecer
Mas era tudo ilusão
Como se proteger daquilo que brilha e existe
Mesmo se ela estiver de olhos fechados na escuridão?

sábado, 13 de julho de 2019

Éris




Invejo seus olhos que pousam e dormem.
Aí, ao lado de Morpheus, deve rir de mim
Pares de olhos atentos
Que se não lhe veem, imaginam
Que escorregam por suas roupas,
Que as jogam ao chão.
São olhos tão famintos quanto a boca vazia.
São olhos que lhe engolem,
Que lhe percorrem o corpo,
Que lhe pensam absurdos
E provocam a mim,
Em mim, um furor estrondoso.
Ainda lhe invado o sono.
Ainda lhe tiro o sossego.
Ainda lhe devolvo ao sono,
Típico dos cansaços de um dia inteiro.
Ainda lhe tomo esse corpo, meu desejo.
Por enquanto, só lhe vejo.
E meus olhos invejam quaisquer mãos que lhe tocam.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Enya



Eu usava armaduras, ele as descobriu. Foi chegando em minhas branduras, amanhecendo minhas madrugadas, mas eu não cedi.
Insistências, indulgências, e, sob aqueles olhares, me desfiz. Por alguma fresta o riso entrou, ganhou-me, mas resisti.
Fala cadenciada, cores vibrantes, segredos noturnos, ardências de verão, medo do inverno. Fiz-me primavera e já era um entardecer alaranjado de alegrias todas aquelas chegadas.
Eu o esperava feito o cão fiel, pronto para festejar o encontro, ganhar o afago, lamber as feridas, dormir observando seu sono.
Perdi o sono. Tantas vezes que não podia contar. Perdeu-se o encanto, tanto que eu já não reconhecia o seu falar.
E houve choro e desalento. E houve a dúvida se meu peito se esvaziara ou nunca enchera. E houve o medo, o pavor, a boca ausente de beijos, cheia de dor.
O chão cheio de cacos, sonhos ao relento, livro repetido, história de terror. Era um labirinto de quês sem sentido, lanterna sem pilha, arrependimento. Cadeado. Armadura. Semente de flor no deserto. Frangalhos de sentimentos. Pontadas no vazio do coração. Promessa de nunca mais. Esperança verde, escondida, que anseia brotar com um sorriso, mas se trava, faz de forte e teme que o mal retorne.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Oceânides



Se o sei, desajuízo-me
Reinvento palavras,
Desconjugo verbos.
O respiro completamente,
Absorvendo-o como meu.
Navego em águas profundas
Sou o mistério salgado
Na ponta de seus dedos,
E desfaço-me em doçuras
No céu de sua boca.
Toma-me como seu gole mais viciante
Com a sede da saideira
E descanse em mim
Seus sonhos, desejos.
Queime em mim seus desânimos.
Sou a fogueira que o aquece
E encanta.


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Corpo-nau



Teu corpo, nau,
Eu à deriva,
Perdida nas descobertas
Entre lençóis.
Naveguei pelo céu,
Apaguei fronteiras.
Desbravando o mar,
Observo a noite pelos seus olhos.
Conto estrelas que quase posso tocar.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Ondulações



Emergia do azul sua luminosidade vermelha
Seria tão quente quanto o sol?
Seria aquele corpo o pouso para o dourado?
Seriam aquelas curvas que receberiam toques?
Emergia do azul, em direção ao azul.
Era de um vermelho ofuscante
E, pelos castanhos de meus olhos,
Escuros como a noite de lua,
Eu desejava o eclipse:
Encontro de corpos celestes.
Acordado, sonhei maciezes
Úmidas ondulações de verão
Miragem febril à beira do mar,
Quando o calor me invadiu, 
Se expandiu
E nos consumiu.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Colombina



Junte todos os papéis,
planos, ideias, sonhos.
A cara quebrada, o coração partido.
Esqueça o Arlequim,
E  também o Pierrô.
Colombina não chora, ria.
Pinte a boca e os olhos
Vista a saia colorida.
Junte seus papéis picados às purpurinas.
Aproveite a quarta-feira, 
Faça uma fogueira,
Aumente as cinzas
E lembre-se: é chama!
É o que queima!
É o que arde.
Incendeie!
Se esse Carnaval passou, faça outra folia.
E desfile pela passarela nos outros tantos dias.
Esteja atenta: há outro samba só seu
Há outro bloco ali na frente
O amor nunca desiste de tocar
E nesse coração vai ser baile toda noite,
Todo toque,
Todo beijo.


domingo, 7 de julho de 2019

Na estante



De repente você chega. Parece um poema, um livro:  capa bonita, prende meus olhos e  diz seu título.
E seu cheiro me entorpece. Páginas novas me atraem.
Passo correndo, cotidianamente. Agitada, quase distraída, mas observo de soslaio.
Finalmente consigo começar a ler o livro, pouco a pouco, cada palavra em sua vez e lembro do poeta: um bom livro lê o leitor.
Você me lê. Chega a doer. Fico impressionada com os poemas de madrugada, em vermelhos, em paisagens que outrora conheci ou não.
E você começa a me ler. E não sou um livro. Sou anotações desorganizadas, caóticas, críticas, lamentos, rimas pobres, rimas, linhas. Um emaranhado confuso.
Não sei se caibo em sua estante muito menos na sua cama confortável onde gosta de ler antes de dormir. Eu me fecho. Eu me julgo pela capa. Eu me escondo em  meu conteúdo. É tudo um turbilhão. Eu queria ser um romance, um poema quente. Talvez seja só um hai-kai. E sem sentido. Melhor não ler. Volto para minha estante.

sábado, 6 de julho de 2019

Sombra lunar



Doeu-me o sentir,
As mãos desgarradas,
O abraço pouco apertado 
As vontades desalinhadas.
Doeu-me até o ar que respiro,
Os planos de papéis amassados,
Mais papéis pelo chão...
As horas sendo contadas.
Doeu-me não ser sua,
Nunca tocar seu coração,
Não experimentar sua pele,
Reconhecer-lhe como miragem.
Doeu-me até os ossos aquele Inverno.
Mas tudo se partiu num Verão
Enquanto eu sonhava em Primaveras
Aprendi a ser Outono: não mais me entregar, ser comedimento.

O amor é um ciclo completo de estações.
Rotacionou em mim.
Estacionei num eclipse
Descanso na sombra lunar
Mas ainda tenho chamas solares

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Abantiades



Pousam sobre mim o peso maior que o de uma borboleta,
Mas causam os mesmos tremores.
São duas mãos invadindo limites,
Erguendo-me às proximidades do sol:
Estou ardendo.
Circundam minha cintura,
Bamboleio, sem deixa-las cair,
Mantenho o ritmo para que não se afastem de mim.
Sou o corpo da bailarina no ar:
Fortemente segura, delicadamente vista.
Duas mãos escorregam em meu ventre,
Seguem as rotas de minhas pernas.
Como as cachoeiras, correm num único sentido.
Perco meus sentidos. 
Sou a fonte de águas cristalinas.
Duas mãos amparam minhas águas
E me colhem e me bebem e me saciam.
Descubro que a doação é plenitude.
Sou, antes de qualquer coisa, sua.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Afogamentos



A neblina não me deixava voar. Os olhos não enxergaram o destino, mas a sua voz, as suas palavras que haviam dormido comigo, despertaram também na madrugada, companhia minha. Acalmava-me o espírito da insegurança, estando, ao mesmo tempo, imerso nela própria e em medo.
Eu não bebia de sua mentira, mas de sua omissão (tola sensação de proteção ou excesso de discrição). E temia só pelos meus pés que saiam do chão.
No pouso, a queda em meio ao céu quente e quase estrelado. 
A água fria do chuveiro enchendo a banheira, contraste com as lágrimas quentes que me abandonavam e pousavam no jeans molhado de um não sei o quê que me cortava ao meio.
A angústia do desconhecido.
A raiva do ter me doado.
As lágrimas de tanto sal...
Os sonhos de papel.
Tudo foi pelo ralo, misturado: lágrimas, sonho, decepção, vontades.
Sobrou a mim algumas dores, um tanto de cicatrizes, um vazio no peito e um caminho inteiro pela frente.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Onde dorme o amor?







No meu peito fiz acolhida, preparei seu ninho, mas a cama ainda está vazia. 
O vento frio quase congela os sentimentos... nada os aquece a não ser (seus) sorrisos.
Choro saudades antigas, desde mil quinhentos e tal... desde terras distantes... desde sonhos surreais e coloridamente confusos. Só você vinha em preto e branco. Pele e manto. Sons desconhecidos, lábios que cantavam.
Onde dorme o amor por esses caminhos, que não comigo? Na beira de outra cama ou na margem da minha poesia? 
Onde dorme o amor? Quem o nina? Quem canta versos d'O Profeta em seus ouvidos, relembrando suas asas e doçuras?
Onde dorme o amor? Consegue fechar seus olhos e se entregar ao vagaroso passo da noite ou, como eu, é insone e busca respostas?
Já que não o encontrei nas camas que preparei, nos braços que cedi, no peito que escancarei os sentimentos, faço-me espera, mas sempre pergunto: onde dorme o amor?

terça-feira, 2 de julho de 2019

Memórias de minha terra




(Dy Eiterer para Tufic Nabak, Dezembro 2018)

O ritmo da chuva embala meu sono,
Meu sonho...
O ritmo da dança guia meus pés...
O café, a conversa, o
s planos...
Família reunida, afeto...
São os sons que me despertam:
Sou sonhador de olhos abertos.
E os cheiros aguçam minhas memória
A terra querida, distante, presente diário no espelho
Em meus traços, meus sorrisos, no que eu sou
Das memórias de minha terra faço prece:
Escutem, irmãos, a chuva é bênção,
Meu canto é oração,
Minha dança, o céu.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Dama da Noite




Exalava o cheiro do amor.
A pele macia e de veludo.
O sangue quente e fluido.
Era desesperada espera.
Eram incontáveis desejos.
A todo momento parecia ouvir a voz dele:
O amado ausente,
O bem querer distante.
E guardava para si aquele som
(Que mal sabia ser real)
Porque, chama, não conseguia mais se conter.
Porque, ausência prolongada, era inquietação.
Porque, dama da noite, perfumava e entristecia.
Ouvia o chamado, rumor distante,
E não se movia: esperava.
Sabia que o seu canto o traria.
Sabia que sua voz bastaria
Para vencer as distâncias que os separavam.
Estava certa que a noite escura e silenciosa chegaria ao fim.
Estava certa, em seu íntimo, do ritmo do tempo
E esperar não era dor.
Era preparação
Pra esta vida ou outra,
Para o mesmo amor de sempre
Ainda que os tempos fossem outros,
Porque as almas eram as mesmas.

domingo, 30 de junho de 2019

Aconchego e luta


Eu queria suas mãos em mim
Fazer-me caminho de seus sonhos.
Eu queria deitar em seu colo
E imaginar um futuro.
Eu queria construir planos fora do papel,
Acordar sua, nua, invadida de amor.
Eu queria que a noite fosse o que ela é:
Lua, estrelas, segredos, desvarios.
Mas, agora, a noite é metáfora sombria.
Caio em seus braços aflita.
Sua mão cala minha boca.
Temos medo dos dias sem luz.
Seu ombro é meu porto de lágrimas
Desfaço-me ali aconchegada:
Desterro minha subversão,
Não nego a luta,
Sofro por antecipação.
Eu queria acordar e ser diferente,
Mas diante das sombras bebo o temor.
Segure-me até quando der
Escorregue seus dedos em meus lábios
Colha meu silêncio abafado:
Ele será minha semente de flor.
Que, como meu amor, a existência ousou.

domingo, 23 de junho de 2019

Pretérito perfeito




Abandonei minhas tempestades
Quando encontrei seus sorrisos-sóis
Desde então, bebo a brisa de sua presença
Sofro angústias de sua ausência:
É quando sou levada por um delicado furacão 
De arrebatamento e saudades
De lembranças quentes, arrepios tórridos.
Fecho os olhos e recorro às noites
Nelas transito entre os tempos
E salto para o passado em que sou mais que perfeita:
Tenho montanhas escaladas por sua língua
Cavernas que lhe abrigam sob estrelas
E de sua boca recebo sensações que mordem, 
Que invadem meus limites de dor e prazer
Que inflamam meus desejos 
E os misturam com bem-querer.
Se abro os olhos, volto a viver:
Despeço-me de você
Convivo com a falta.
Deixo, então, os olhos fechados, 
Relembrando, revivendo, regozijando 
Os momentos que tive de puro renascer.

Poíesis





Alimento-me de suas palavras
Que me causam arrepios e sensações.
Preenchem-me de amor e desejo,
Invadem meu peito e fazem morada.
Respiro sua poesia.
Ela adocica minha voz.
Ouço sua poesia.
Ela passa a fazer parte de meus poros.
Vejo sua poesia.
Ela alarga a beleza dos meus horizontes.
Bebo de suas palavras.
E imagino que é de sua boca que elas saem
E imagino que é pelo seu corpo que elas correm
E imagino que mesmo diante dessa fonte
Eu jamais me saciaria
Mas passaria a viver de poesia.

*Do grego “poíesis”, gerou a palavra portuguesapoesia. Na e pela “poíesis” o próprioreal se destina no homem para que este o realize numaplenitude que o próprio real por si não realiza. Na e pela “poíesis”, o próprio real se constitui como linguagem, mundo, verdade, sentido, tempo e história, em qualquer cultura" 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Teimosias




Aos avisos que me foram dados,
Dei de ombros,
Larguei pelos caminhos,
Ignorados.
Se não era pra seguir, 
Por que havia estrada ali? 
Fiz ouvidos de mercador,
Não ouvi as conversas bizantinas,
E cá estou: caminhante-teimosia.
Se o precipício é sem fundo
Talvez eu aprenda a voar.
Se não, terei cacos pra ajuntar.
O que não posso é recuar.
Tenho ainda sonhos embalados por um realejo
Tenho o arrepio na pele (dos desejos)
E salto-alto-vermelho...
Dizem que amor é queda-livre...
Eu me jogo.
Segura?!