Visitas da Dy

domingo, 22 de janeiro de 2012

Quando canso de ser eu



Quando me canso de ser eu, passo a mão na caneta e começo a escrever. Isso tem acontecido com bastante freqüência nos últimos meses.
Canso de ser eu em vários momentos e a lista se transforma em situações das mais comuns. Só pra que possam dar uma espiada, seguem alguns dos momentos em que fico cansada de mim mesma:
Canso-me de ser eu...
... quando me pego lendo um livro que não faz parte da enorme lista de livros de auto-ajuda que se tornaram sucesso de venda nos últimos anos. Quando esse livro é considerado um clássico da literatura e quase ninguém fala mais nele.
... quando digo que parei de beber porque não acho mais graça nenhuma em ir para um bar e pedir um MilkMocha ou uma Piña Colada ou um Mojito, claro, sem esquecer da minha ex-preferida: a caipiríssima, com uma boa vodka. Agora peço coisas mais saudáveis e bem mais saborosas: suco de morango com laranja, suco de cacau – esse é para o desespero de qualquer garçom!
... quando penso coisas que a maioria não entende como no caso de eu achar que sair pra dançar, pra ir numa roda de samba ou numa festa qualquer, não necessariamente queira dizer que eu tenha que encontrar um mané e beijá-lo. Sair pra dançar pode sim ser só sair pra dançar.
Canso de ser eu quando à noite a minha própria companhia no quarto fica insuportável. Quando penso e repenso nas decisões que preciso tomar e sempre privilegio o outro.
Canso de ser eu quando percebo que valorizo sentimentos que não estão mais na ordem do dia como a lealdade, a amizade, o respeito, a companhia e os abraços.
Também canso de ser eu quando me pego com essa carência danada que me consome e me faz só pensar em ganhar abraços, os melhores do mundo, que param o tempo, que acolhem a gente.
Desses meus momentos, de quando não dou mais conta de ser eu saem uma série de anotações, de apontamentos, de confissões, que aos poucos vão se tornando públicas na medida em que me permito revelar aos que me conhecem, aos que sabem o quanto eu sou de beijos e abraços e música.  Aos que permito que leiam as minhas palavras, aos que tenho o enorme prazer de chamar de amigos.
Hoje estou cansada de ser eu: estou cansada de não saber qual é o meu lugar nesse mundo: se estou no Rio sinta falta das Minas Gerais, se estou nas Minas Gerais sinto falta do Rio, do mar...
Acho que o jeito é me animar com um caderno novo, uma caneta e por o pé na estrada. Descobri que é o fato de subir e descer essa serra que mais me alegra, me faz pensar, me admirar pela natureza e saber que seja subindo ou descendo terei abraços deliciosos me esperando!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Duas Faces




Não se deixe levar pelo meu sorriso. Parece bonito, parece leve, mas não o é.

É disfarce que uso sem cuidados, que não consigo sustentar.

É uma das minhas duas faces: enquanto uma ri, a outra chora, se afoga, só doi.

Felicidade não é condição, É estado. Ninguém é feliz o tempo todo, mas ficamos felizes. Até eu fico. Já são poucos esses momentos, sim! Mas ainda existem.

Quem vê meu sorriso dirá: “É mentira! Ela é feliz!” Coitados... Ainda não aprenderam a ler os olhares.Não entendem que a boca cala aquilo que o olho fala.

Para quem sabe me ler, não só “um pingo é letra”, mas também “um risco é Francisco”: o sorriso de bom dia pode esconder uma noite mal dormida que só quem entende meus olhos vai perceber.

Não, não é autopiedade ou momento de lamentações. É autoconhecimento.

Sei exatamente onde começa minha alegria e onde ela vira tristeza. Sei que cantar espanta os males, que o sol vai brilhar mais uma vez, que a lua some pra se refazer, que o mar nunca está satisfeito e por isso insiste em jogar suas ondas na areia.

Talvez esse seja o motivo para eu ainda sorrir: saber que novos dias estão por vir. Que os olhos falarão tudo o que guarda o coração, que a alma se deixará livre, que o amor vai extrapolar meus sentidos e que passarei mais tempo sendo feliz, porque as lágrimas contidas, e as roladas, servem para alimentar as belas flores de um futuro risonho.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Livro em Branco



É quando eu paro pra pensar em nós que vejo:

Somos um livro!

De páginas em branco, sim!

Páginas amareladas, amassadas, envelhecidas.

Nós que nos prometemos mil histórias,

Que jamais prevíamos um fim,

Não fomos capazes de escrever

Sequer uma linha.

Na ampulheta a areia escorre,

Parece mais rápida a cada grão.

Não é que nos tenha faltado tempo,

Esse foi nosso amigo:

Passou ligeiro em nossa distância,

Foi lento em nossos encontros.

O que faltou não foi papel,

Não foi a tinta,

Muito menos inspiração:

Já que fazia de seus risos os meus

E fazia dos meus abraços o seu sossego.

O que faltou, meu amor,

Foi entendermos o que dizia

O som de cada coração.

Faltou percebermos que o fim chega

Ainda que não comecemos nenhuma história.

Não escrevemos nossos nomes juntos

Por medo de um dia ve-los separados

E agora somos sombras de sonhos,

Poeira sobre a escrivaninha,

Tinteiro vazio.

Folhas ao vento que vai nos levando...

(para cada vez mais longe)

Naufrágio



Cheguei nesse cais com meu navio em chamas

Aportei e o vi queimar lentamente, até naufragar.

Agora não há mais como voltar,

Como atravessar todos os mares que cruzei.

Não pegarei mais as mesmas correntes

Já nem sei quais foram as rotas.

No fundo, acho que elas nem existiam...

Viajei à deriva pro muitas luas,

Encantei pelas estrelas e seu brilho distante

Senti o vento frio a cortar meu rosto.

Passei por terras desconhecidas,

Experimentei sabores exóticos,

Entorpeci-me com sons maravilhosos.

Aqui nessa terra onde ancorei,

Onde tudo parece-me estranho,

Acabei por estabelecer meu porto,

Pra onde volto todos os dias,

De onde vejo o por do sol,

De onde tenho a certeza de que não há volta,

De que não poderei mais partir,

Porque o navio que afundou

Pode até ser substituído,

Mas ele levou meus sonhos, esperanças, tesouros, amor.

Porque outros navios virão e atracarão,

Mas em nenhum deles encontrarei

Aquele que um dia perdi:

minha ilusão!

Asas




Meu coração não tem dono

Tem asas.

Às vezes ele pousa em algum lugar,

Às vezes ele se permite não voar,

Se permite ter um ninho,

Traçar planos,

Olhar na mesma direção.

Ser tarde de domingo

Num eterno verão.

Mas tenha cuidado!

Esse coração é um ser alado

E por isso não gosta de amarras.

Ao menor sinal de nós muito apertados

Ele voa

Deixa tudo para trás

Ruma para o desconhecido

Porque pousar na linha do horizonte

Para ele é mais do que preciso.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Inspiração






Se eu contar que escrevo para você,

O que vai fazer?

Vai ler?

Passará a prestar mais atenção?

Perceberá as sutilezas de cada confissão escondida nas entrelinhas?

Ah, como eu invejava as musas dos poetas!

Ah, como eu inveja os próprios poetas!

Já sonhei em ser musa...

Já sonhei em escrever...

Mas não tenho e nem quero mais esses sonhos!

São doloridos demais:

Uns causam a dor,

Outros a sentem...

Pergunto-me então:

Será possível que só se escreve sob forte emoção?

Sim! É possível!

É por isso que as musas são necessárias!

Para causar o encantamento

Embriagar o seu observador

Entorpece-lo!

(ainda que pela dor)

Porque são os sentimentos

Que nos mostram que estamos vivos

A dor corroi, mas ensina

O coração sofre, mas aprende

E dessa dança infinita

Saem os poemas mais lindos que já li

De amores não vividos,

De sonhos perdidos,

De tempos antigos...

Súplica



Não, não precisa se revelar por completo!

O passado não importa

E agora pode ser o que quiser:

Insensata, fiel, confusa ou serena,

Mas seja LIVRE!

Flor que desabrocha em beleza,

Onda que sempre quer mais,

Que vem à praia e volta ao mar

E parece que nunca se satisfaz...
 

Seja lua, branca, nua,

Amante solitária,

Brilho vazio que acompanha passos boêmios.

Destino de olhares perdidos,

De sonhos enlouquecidos...
 

Seja noite deslumbrante,

Breu inebriante,

Desfile de estrelas.

Silêncio que corrói a alma.

Lembranças de beijos não dados,

De amores negados.


Seja qualquer coisa

Seja o que quiser!

Que me venha intensa, alegre, inteira

Mas que me venha!

Que preencha meus braços

Que me prenda a você com invisíveis laços.

Aconchego



É pela luz dos seus olhos que me guio

É com suas pegadas que faço meu caminho

Em suas mãos depositei meus sonhos

Sob seus pés estendi meus planos

Seja cuidadoso com sua vida:

Dela depende também a minha.

Se fechar seus olhos me perco;

Se parar de andar, fico em desalinho;

Não feche suas mãos para não esmagar meus sonhos;

Pisa de leve nos planos que tracei:

São uma rara tapeçaria e te desenham em seus fios.

Cuida de você,

Cuida de mim com carinho,

Já que dividimos, todos os dias,

O mesmo ninho.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Noite Longa



Esperei o dia todo que meu telefone tocasse, mas naquele dia não recebi se quer uma ligação por engano.

Passei horas a fio olhando para o aparelho enquanto fumava meus cigarros baratos, afundada na velha poltrona verde que fica no canto esquerdo da sala. Acendia um cigarro no outro. E esse era p meu vício que mais lhe incomodava: lembro bem de como balançava a cabeça e dizia para eu parar de fumar.

O relógio marcava 3:37 da manhã. Da poltrona eu via a cortina balançar do outro lado da sala. Ventava pouco naquela noite quente e abafada de verão.

No som eu ouvia uma canção qualquer, em língua estrangeira, para não me dar ao trabalho de tentar entender. Preferi as canções contemporâneas às clássicas porque enganava-me que as vozes eram minhas companhias.

Lá em baixo, no térreo, a rua estava quase deserta a não ser por um gato que displicentemente passeava pelo breu noturno.

Aqui em cima, no décimo terceiro andar eu ainda estava à espera de sua ligação. Conferi o aparelho celular, podia ser falta de bateria! Não, não era. Resolvi eu mesma ligar para minha casa, podia ser problema na linha... não, não era.

No cinzeiro de cristal as cinzas brigavam por um lugar e algumas já se esparramavam pelo chão. Resolvi tomar uma dose de rum. E como você gostava de rum! Brindávamos à nós todas as vezes que nos atrevíamos a bebericar.

A hora não passava. Você não ligava. A agonia seguia lenta, asfixiante. Abri um livro. Olhava as letras como se fossem meros desenhos, sem lê-las. A luz do abajur deixava a sala com uma aparência de ser um ambiente enorme, ou seria eu que estava encolhendo?

O sono não vinha... você não ligava... Não dormi. E essa havia sido só uma noite. A primeira de muitas.

Vieram os primeiros raios de sol e logo ele apareceu majestoso, com sua cabeleira loura, iluminou o dia, as vidas e escondi meus olhos por trás de um par de óculos escuros. Escondia assim o inchaço e as olheiras.

Exausta da longa noite insone fui trabalhar, vagando pelas ruas, deixando o chão passar sob meus pés. Exausta voltei para casa no fim do dia e você mais uma vez não ligou. Exausta joguei-me na cama e perdi-me entre lençois e um sono de pedra, maciço, sem sonhos.

Essa dinâmica cansativa se estendeu por muitos e muitos dias. Parei com os cigarros e o rum acabou... Você não ligou.

Meses se foram. Eu ainda me lembrava de você todos os dias, especialmente no escuro. Imersa nas sombras eu pensava se você poderia ver as estrelas de onde estava; se tinha companhia naquela noite; se alguém ia segurar sua mão pra dormir; se estava bem; se se sentia em casa onde quer que pudesse estar.

Sempre que me lembrava de você – e isso acontecia todos os dias – eu fechava meus olhos e sorria e sussurrava ao vento um recado, com a esperança de que ele chegasse até você e lhe disse cada palavra, com cada sutileza, como eu dizia a ele. O vento sabia que eu me colocava à sua disposição sempre, que torcia para que encontrasse o seu caminho de volta para minha casa, para minha vida.

Um dia sem que eu menos esperasse o telefone tocou. Reconheci sua voz na primeira palavra. Sua respiração mantinha o mesmo ritmo. O mundo e seu movimento havia feito você voltar? Sorri. Cheguei a perder a voz. O ar faltou. Era incrível que depois de tanto tempo você estivesse ali, sendo canção para meus ouvidos.

Com sua volta enchi a casa de flores, corri na direção do mar, enfeitei os cabelos, organizei festa no meu coração. Um jantar para celebrar como nos velhos tempos... que sonho...

Eu tinha muitas coisas pra contar: a lista era enorme! Tinha parado de beber, largado o cigarro, comprado livros novos, começado a fazer aulas de pintura. O melhor eram os cursos: comprei um violão e não sabia fazer um acorde; a bicicleta estava na garagem desde o primeiro dia, depois do primeiro tombo, mas a ideia era resgatar tudo isso.

Ah, que emoção foi abrir a porta naquela noite! Você me trouxe flores, as minhas preferidas! E percebeu que eu havia me desfeito da poltrona verde!

Depois do jantar dançamos e brindamos e contamos as estrelas da janela, olhamos os casais abraçados andando pela rua. Sorrimos para a lua. Arrepiei-me com o vento e me emprestou seu casaco.

Em certa hora o silêncio tomou conta da sala. Nossos olhos que haviam se perdido se encontraram e foi o suficiente para que reencontrássemos o amor, o nosso amor.

Uma noite, alguns meses depois de uma outra longa e angustiante noite, bastou para que a única certeza que tivéssemos fosse a de que nosso amor era o mesmo, de que o tempo não o havia desbotado e que por mais que possamos ter ficado separados, ele não fora abandonado um minuto.

Um olhar e soubemos pra sempre que outros mil viriam e nos fariam felizes, que perdoaríamos nossas falhas e que novos caminhos se descortinariam. O céu colocou-se diante de nós. Você tinha reaparecido a tempo de mostrar isso, de reviver meus sonhos, de reconstruir meus planos, nossos caminhos, trilhas que nos levariam rumo ao horizonte e à felicidade.

Aprendi que todo o tempo em que passei pensando nos seus olhos e na falta que eles me faziam eu estava alimentando um amor, que passou a não caber mais em mim de tão grande.

Aprendi que as noites longas podem ser tortuosas, mas trazem em si ensinamentos e que há dias ensolarados e radiantes tão longos quanto as noites, a diferença é que nele, claros como o cristal, vemos nossa felicidade brilhar.

Abismo





Entre duas montanhas, o vazio,

Espaço onde o vento brinca,

Onde os olhos se deliciam,

Onde os sonhos se jogam para voar.

Entre minhas pernas, as suas.

Entre nossas bocas, o mel.

Entre nossas palavras, o silêncio.

Ao meu alcance, a tua mão.

Sob meus pés, nossos caminhos.

Em minha cama, seu sono,

Conforto, seus sonhos.

Na minha pele, seu cheiro,

Desejos satisfeitos.

Entre nós e o mundo lá fora, um abismo.

Mentiras





Não preciso que me desfaça em elogios

Suas palavras só me soam doces em certos momentos.

Depois, o que fica é um gosto amargo.

Se era pra não escrever mais, porque a promessa?

Por que a pena e o papel sobre a mesa?

Não, não faz sentido.

Não é justo, nem tão pouco honesto.

Se era pra ter partido por que a dúvida?

Por que deixou que eu tivesse a sensação de que ficaria?

Em algum momento, o que penso chegou a importar?

Se era pra não ligar por que anotou o telefone?

Gastei meu batom e os números se perderam no guardanapo...

Ah, e ainda perdi meu tempo sonhando...

Achando que seria possível,

Imaginando como seria o nosso amanhã.

Que seja! Os dias passam...

Dizem por aí que o tempo cura tudo.

Há de curar minha decepção,

Minha saudade,

Apagar meus versos,

Silenciar nossa canção, que um dia ousamos dançar juntos.

Que seja! Que caiam raios, que chovam litros!

Pouco importa agora.

Vejo a areia escorrer pela ampulheta

E só o que penso é que ninguém pode traduzir o que sinto,

Nem eu mesma!

É coração que sangra, é alma que se encolhe.

São olhos que se perdem e dias que se esvaem.

Se era pra dizer só mentiras

Podia ter-me dado só o seu silêncio...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Silêncio



Silêncio



O quarto estava imerso em uma quase escuridão, sendo iluminado pela luz de um poste que ficava não muito próximo à janela.

Ela estava deitada no tapete, bem no meio do quarto, olhando para o teto, para as estrelas em neon que ela mesma havia colado lá. Para ela era uma tentativa de diminuir o branco entediante dos tetos. Achava os tetos brancos algo chato. Para ela os tetos deveriam ter pinturas, como nas igrejas renascentistas, nos grandes teatros que conhecia ou, pelo menos, com estrelinhas que brilhava no escuro, como o seu. Acreditava que o teto era um ponto importante do quarto: seu centro de pensamentos! Sempre que precisava pensar ela se deitava e o encarava fixamente. Dali as ideias partiam. Ganhavam vida. Brincavam entre as estrelinhas.

Era uma noite como todas as outras, depois de um dia como todos os outros, em que ela chegou em casa, jogou os sapatos de salto alto pra cima e descansou os pés no chão gelado da sala. Jogou-se no sofá enquanto ouvia um blues no som. Preguiçosamente tirou a blusa e foi à cozinha buscar uma taça de vinho. Bebeu. Resolveu tomar um banho longo, colocou o pijama e foi para a cama dormir. Para quem não gostava de rotina, a sua era a mesma a exatamente uma semana: parecia que esses passos haviam se transformado num ritual.

Foi para a cama mais cedo que o normal. Precisa descansar. Talvez fosse mesmo era o efeito do vinho...

No meio da madrugada o seu telefone tocou. Sonolenta ela atendeu sem olhar quem era, de olhos fechados mesmo. A ligação caiu. O número não havia sido identificado.

Com o susto ela se despertou e trocou o conforto da cama pelo tapete, menos confortável, com certeza, mas bem mais convidativo aos pensamentos.

Aos poucos ela foi mergulhando no silêncio que ocupava todo o ambiente e foi sentindo-se agoniada. Ela não gostava de silêncio, gostava de blues. O silêncio a incomodava tanta que ela teve a sensação de estar sendo sufocada por ele e começou a cantarolar, mas perdeu-se entre o silêncio e o som que fazia para perceber outro silêncio: o de uma pessoa muito querida que a dias não dava notícias. Esse era o silêncio mais perturbador que ela já fora obrigada a conviver.

Puxou em sua memória quando tinha sido a última vez que se falaram por telefone e não conseguia lembrar em nada mais próximo do que um mês e meio. O último e-mail era mais recente, uns 20 dias talvez, mas com uma certa frieza e distanciamento que ela desconhecia, mas que não havia notado naquele momento. Talvez fosse falta de tempo, a correria do dia a dia, o trabalho, a carreira, qualquer coisa, menos o distanciamento de pessoas que declaradamente se gostavam e se importavam uma com a outra.

Pensou em ligar, mas era muito tarde. Quis escrever e começou a pensar no texto. Ela sempre pensava no texto todo antes de digitá-lo. Desenhou cada detalhe, pensou cuidadosamente em cada palavra. A mensagem estava enorme, mostrava toda a  sua preocupação, toda sua saudade, seu apreço, seu desespero pela falta de notícias e pela falta daquele “bom dia” que a fazia tanto bem.

Respirou fundo e quando ia se levantar para escrever se distraiu com as estrelinhas de seu teto e novamente notou o silêncio: de tão concentrada na ausência que sentia acabou por esquecer que estava sem música no quarto. O silêncio. Voltou a se angustiar com ele. Agora mais do que antes. Agora ela acabara de traçar um paralelo entre o silêncio que invadia teimoso o seu quarto e o que lhe era dispensado pela pessoa tão querida.

E se fosse mesmo um afastamento? E se fosse proposital? E se na verdade o outro nunca tivesse se importado com ela? Se fosse tudo uma série de meras atitudes corriqueiras de pessoas que convivem  e que acabam se distanciando na medida em que as vidas vão tomando rumos diferentes? Pensou tão seriamente nisso que acabou por ter uma lágrima escapulindo dos olhos. Ela não podia suportar que toda amizade e dedicação nunca haviam sido recíprocas. E os abraços carinhosos? E os cafés com bate papo que duravam horas?

A madrugada ia se estendendo, a noite desfilava seu manto breu pelas ruas e ela não conseguia pensar em outra coisa se não naquele silêncio, tão profundo, tão duro, tão doloroso.

Cantarolou a música que havia sido eleita como trilha sonora da amizade e sentiu que o silêncio doía ainda mais se ela tentasse dissipa-lo. Deixou-se perder entre as estrelas mais uma vez. Deixou-se perder em boas lembranças de seus amigos e lembrou-se que já havia passado por dois momentos iguais a esse.

Há muitos anos ela tinha um amigo que simplesmente se afastou. E o silêncio durou longos quatro anos. No começo ela chorou muito. Se perguntava todos os dias o que teria acontecido, até o dia em que o reencontrou e descobriu que ele não passava por bons momentos, que precisava se colocar nos eixos e que o silêncio foi necessário, uma forma de ele se resguardar e também de protege-la de aborrecimentos ou desentendimentos que pudessem surgir. Ela havia sofrido com a distância, mas valeu a pena, porque o reencontro foi mágico, foi um resgate de anos de amizade que continuou firme.

O outro caso de silêncio se deu com outro amigo que a vida tratou de afastar de seus olhos, de seus caminhos. Foram seis anos sem notícias. Seis anos que ela se perguntava todos os dias onde ele poderia estar, o que estaria fazendo, como estaria. Chegou a chorar algumas vezes em que percebeu que talvez o perdera pra sempre pelos trilhos do destino, mas esses trilhos, em meio a tantos descaminhos se encarregou de reaproxima-los. Se encarregou de coloca-los novamente em caminhos próximos, lado a lado, resgatando o tempo perdido e fortalecendo ainda mais a amizade.

Ela relembrou esses dois casos e olhou para seu mural de fotos na parede do quarto. Não podia ver bem as fotos, mas ali estavam os dois em sorrisos ao lado dela, de onde não os permitiria sair mais.

Voltando para o vazio que um dia sentiu pela ausência de seus amigos, percebeu que isso poderia ser uma forma de egoísmo seu, afinal, as pessoas precisam de espaço, cada um tem seu próprio tempo e meio de enxergar a vida. Sentiu-se aliviada por um lado, envergonhada por outro, mas decidida a não escrever o tal e-mail que havia pensado.

Às vezes esse seria mais um momento de respeitar o silêncio do outro, de só se lembrar dos bons momentos e das canções que já cantaram juntos, dos abraços, dos sorrisos. Esse era só mais um momento de reflexão e todos nós precisamos deles. Uns preferem dividir seus pensamentos, outros o guarda para si.

Olhou para as fotos, sentou-se e abraçou os joelhos, enxugou uma lágrima que rolou e no lugar de escrever um longo texto mandou uma mensagem curta: que o seu silêncio me fale sempre de você, porque será nele que terei esperanças de que volte, de que se entenda, se renove, se refaça e que volte a ser canção para meus ouvidos, porque velhos amigos, por mais que os caminhos se afastem, voltam a se ver um dia, e terei sempre os braços abertos, um sorriso largo e um café quentinho lhe esperando.

Daquela noite em diante ela passou a gostar do silêncio, passou a usa-lo como aliado para entender a vida, passou a usa-lo como ferramenta em suas reflexões. O silêncio passou a ser a sua companhia noturna, no lugar de um blues.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Entrelinhas II



De que me adianta o papel
Sem a caneta?
De me adianta escrever
Se minhas idéias parecem sem sentido?
Alguém as lê?
Às vezes trilho as linhas de um caderno
Marcando-as com meus pensamentos,
Para quê?
Quem liga se estão ou não inundados de sentimento?
Alguém me entende?
Ah, quisera eu ser como os poetas
Que mesmo sem nos conhecer
Nos descrevem a alma,
Alentam nossa agonia,
Nos trazem paz e calma...
Ah, quisera eu, um dia,
Encontrar pelos caminhos que faço
Um ser que entendesse
Que entre essas linhas
Há as minhas entrelinhas
Que por trás das palavras
Há um coração
Que bate,
Que pula,
Que se perde,
Que se acha.

Sempre e por todo lugar




O mundo é pequeno,
Mas pode ser que nossos caminhos teimem em se afastar.
Ainda assim, teremos atalhos,
Abriremos trilhas
E voltaremos a nos encontrar.
O tempo não para
E escorre pelos nossos dedos:
É nosso limite inventado,
Nossa prisão sem paredes,
Estreita os laços e distancia o que se desfez...
Quando eu me perder no tempo,
Quando eu não reconhecer esse mundo
Vou correndo por mar
Vou subir na pedra mais linda, mais alta
Vou gritar para o vento.
Acolherá meus resquícios de solidão
Porque ele é meu velho amigo
Mais velho que os séculos
E velhos amigos
Nunca se perdem no tempo
Velhos amigos
Foram feitos para se encontrar
Sempre e por todo lugar.