Visitas da Dy

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Meu Nome






Que rompa, a sua boca, o silêncio.
Que declame meu nome, sua poesia.
Sílaba a sílaba,
Como prece que precisa ser ouvida,
Como segredo recém revelado.
Conte ao vento seu medo do escuro
Que lhe ofereço minhas tranças
Para emaranhar seus dedos
– tramas suaves dos meus cabelos –
Onde anelo fogo, sonho e desejo.
Cresça em mim, que me faço abrigo
Sinta-se em mim, pertencimento.
E se há algum lugar para onde ir
Conduzirei nossos contornos
Até a beira do fim do mundo.
Lá onde o lume de seus olhos faz clarão,
Lá onde a linha do horizonte deita no chão,
Porque serei eu também luz
Inquieta em gestos e cores
À procura da porta de entrada para o seu interior
Onde paro de contar o tempo,
Onde as fortalezas escuras da noite
Convertem-se em abraços
E não já não haverá a falta.
Rompe, por seu querer os avessos
Abandona o ontem e o amanhã
E seja urgentemente presente
Nos meus dias, entre minhas mãos.
Rompe o silêncio, e pronuncia o meu nome:
Nada mais será estranho ou oco
Preencheremos nossos vazios.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Enquanto Meu Filho Dorme







Enquanto meu filho dorme, eu o observo.
Enquanto meu filho dorme, eu reparo cada centímetro que cresce diante de meus olhos sem que eu, de fato, perceba.
Enquanto meu filho dorme, meus olhos ficam rasos d’água e transbordo amor.
Enquanto ele dorme, planejo seus dias cheio de amor. Sonho em tirar-lhe a dor (vindoura) e a prolongar-lhe as alegrias.
Enquanto meu filho dorme eu ajunto seus brinquedos espalhados pela casa que passei o dia arrumando e ele, agitação, bagunçou. E o faço com alegria. E brinco com sua espada, golpeando o ar. E empurro seus carrinhos pelas estradas imaginárias que cortam nossos quartos.
Enquanto meu filho dorme, ouço uma música de amor que não consegue traduzir o que sinto por ele.
Enquanto ele dorme, o tempo desconhece as medidas que lhe damos e meu pequeno é, mais do que nunca, livre de toda prisão temporal que assola o mundo dos adultos.
Enquanto ele dorme, faço um afago nos cabelos e sou lançada no tempo, para o momento em que nossos olhos se encontraram pela primeira vez e eu soube que o amor habitava a Terra.
Enquanto meu filho dorme, ouço sua respiração e fico aliviada e grata pela sua vida. E já não tenho dúvidas de que o ritmo de seu coração é o melhor que eu poderei ouvir enquanto tiver forças.
Enquanto meu filho dorme, faço preces sinceras. Renovo a esperança. Desisto de desistir.
Enquanto meu filho dorme, choro de alegria, de medo, de insegurança, de amor e já não sei viver longe da aventura que é descobrirmos um ao outro e equilibrar nossos mundos.
Enquanto meu filho dorme, duvido se sou boa mãe e lhe beijo a testa. Sussurro que o amo, ajeito o travesseiro e o lençol. Sopro coisas lindas em sua fronte, para povoar seus sonhos.
Enquanto meu filho dorme, não tenho certeza se o mundo é bom ou se o final será feliz, mas trilhar os caminhos com ele é a garantia de que preciso para acordar com o sol mais um dia.
Enquanto meu filho dorme, faço poesia. Escrevo coisas que um dia ele vai ler. Escrevo nossos nomes no ar e sei que o amor brinca de dia e repousa à noite nos meus braços, no meu colo e que enche de alegria, tanta que dói.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Espaço






Quero ter-lhe no vão de minhas mãos,
Preenchendo todos os meus espaços.
Quero ter-lhe como o livro que completa minha estante,
O texto favorito, que leio ao cair da noite.
Quero aprender-lhe em cada gesto,
Quero decorar-lhe a cada linha,
Compreendendo cada letra,
Cada ponto, aumentando o número de contos
Em que felizes são os dias que não conhecem finais.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Passatempo





Talvez não caiba ao poeta viver,
Apenas sobreviver
De versos, em versos.
Sendo manso ou controverso,
Arder sentimentos,
Colorir dias cinzentos.
Destilar fantasia,
Disfarçar dores e agonias
Chover sóis,
Chorar debaixo de lençóis,
E ver passar o tempo
Escrevendo, seu passatempo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Reservas



 Jardim Público de Évora, Portugal, entardecer do dia 29 de Janeiro de 2016


Reservo-me ao direito de escrever

Puramente para não enlouquecer.

Reservo-me ao direto de gritar

Porque sufocaria-me o ato de calar.

Reservo-me ao direito de nem sei o quê

(é possível?)

Na vã tentativa de me responder.

Eu sou o eco de mim

E aqui dentro as perguntas não têm fim.