Visitas da Dy

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Leia-me




Repara naquilo que não digo
E, por ser assim, grito!
Acolhe-me em meus vãos,
Toma-me em silêncio
E entenda o que calo,
Porque o corpo queima
Sob a lua cheia
Mais do que no sol de verão.
Aceita o que lhe entrego:
É tudo o que tenho.
Sensibilidade e vontade,
Metade rumo ao fim.
Alivia-me do medo
Dessa expectativa, filha de dragão.
Pois sou chama mais violenta que a de sua garganta
Sou brasa de festival pagão
Sou bicho acuado, tentado,
Semi entregue.
Colha-me se tiver mãos.
Toma-me.
Se puder, cale-se!
E não conte esses segredos
De noite enluarada, de tons de confissão
De ventos medievos
Que anunciam nova estação.
Vela-me, navega-me,
Sou um uni-verso:
Leia-me!



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Linha a Linha



Eu era sua poesia, assim como você era a minha inspiração. Respiração cadenciada, calma, cheirosa como a terra molhada, onde sua semente de beleza era espalhada a cada passo seu, flor de lis que desabrocha o ano todo.
Contemplava seus passos de bailarina do vento, leve, solta, livre como asas sobre o mar tão azul que se confundia com o céu dos sonhos de Ícaro, tão desesperador quanto as agonias de Dédalo, tão necessários quanto o toque suave da seda sobre a pele nua, se é que a nudez necessita ser coberta.
Ouvia atento suas histórias, sabidas de cor por nós dois, mas incrivelmente inéditas aos meus ouvidos a cada nova contação. Seus lamentos não caberiam em nenhum muro, não porque fossem muitos, mas porque eram mudos, breves, quase indignos de serem chamados de sofrimento. Seu choro era quase como o canto da avezinha noturna: piado tímido e baixo, calado com beijos que eu trazia nas conchas das mãos.
Pequenina, conservava o tamanho dos gigantes dos tempos idos: de força e beleza incontáveis aos meus olhos. Fantasticamente condensando todos os tamanhos do mundo em sua altura mediana. Incrivelmente comum e bela, como os milagres cotidianos que não notamos.
Sufocava-me com abraços inesperados e beijos jogados ao léu que eu me esticava para pegar. Dona de si e de mim. Dona da minha respiração, dos meus suspiros, de minha devoção, mas sufocava-me mais quando se fazia ausente de meus dias, entristecendo os meus eternos domingos ensolarados ao seu lado.
De suas mãos eu sentia-me prisioneiro, curiosamente livre e cativo, paradoxos de quem vive as delícias de um amor indizível, que não tem pátria porque não cabe no mundo, que não anda porque as pernas seriam poucas, então, voa. E provoca-me vertigens em seus volteios. E sacia-me com seus ares novos a cada amanhecer.
Eu, que era sua poesia, descrevia-lhe poeta, dona das palavras que eu não saberia arquitetar. Dona de dons intangíveis por aqueles de pouca sensibilidade e apenas imaginada por quem se julga sensível. Eu, escrito por suas delicadezas, história de fazer felizes, sem necessariamente ter um final, de capa a capa intraduzível, a menos que o fosse por seus olhos, sua língua, sua versão.
Eu, contado de tantas maneiras diferentes, precisava despir-me diante de suas linhas para encontrar-me. Via-me tanto como em um espelho quanto em um caleidoscópio, com brilhos, cores e formas espetaculares, que só era inteligível pela amada.

Eu, tão comum, era raro para ela. E isso mudava o rumo dos capítulos da história que eu pensara em escrever, porque permitira, um dia, que ela assumisse a pena, sem penas, mas com toda leveza, para escrever cada um dos meus dias vindouros, linha a linha. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Explicações



Entre saltos altos e livros, sou fútil e sensível. Beijo a poesia e declamo a flor com o mesmo vermelho nos lábios. Quase vício. Quase rotina. Quase prece decorada.
De ventos e tempestades, calmarias e ímpetos, sou violentamente delicada, violetamente magoada pelas dores que nunca experimentei, como as florezinhas que tenho no vaso. Azuladamente tranquila nas ansiedades das flores de maio no mês de novembro.
Superficialmente absorvo os silêncios e os converto em lástimas de tudo o que se perdeu empurrando garganta abaixo, tudo o que foi bebido à seco, tudo o que de tão mal chegou a fazer bem: faz parte do processo esse exercício de conversão.
Nobremente sufoco os sentimentos vis, metamorfoseio minhas sombras em tons iluminados, escondendo meus espinhos dentro de minha própria carne que sangra tons alaranjados de alegria gratuita a cada novo nascer do sol, à espera de que o verde das indecisões amadureça e floresçam jardins de sabedoria.
Ainda há canteiros de terras transparentes em mim, esperando os florescimentos multicoloridos das auroras boreais de bocas cujos céus esperam por eclipses de beijos.
Sou de emoções que nem sempre permanecem, entre a continuidade e a ruptura, sou passo dado no abismo, sou a busca pela explicação exata do que é a substância que compõe a alma. por mais que saiba que nem tudo se explica, que a interrogação nem sempre se refaz em exclamação.
Sou tendenciosa a seguir as pistas, acreditar no que está escrito ou no que foi dito, impaciência natural de água de rio que afoga as pedras do relevo e serpenteia como criança birrenta pelos vales e se joga, atrevida, de altos de morros, com cabeleira-queda-d’água ao vento.
Em noites de lua alta e muito calor, o desassossego deixa de ser livro de cabeceira e assume seu lugar cativo no peito, crescente como sonhos de Oriente, curioso na fronteira do que era o sim ou o não, escorregando nas curvas de toda interrogação.
Tudo me prende, nada me interessa e se interessa e sacia, é finito. E se é finito, desmancha e nada sobra. E os laços do novo são frágeis, quase transparentes a quem não os compreende, e os desamarro mais pelo prazer de desfazer o pacote do que pelo apreço de guardar o conteúdo.
Transbordo tudo o que vejo e esvazio-me do dom de errar: sejam pelos caminhos pelos quais tento me encontrar, sejam nas respostas que ouso dar. É quase como brincar de ser camaleão e camuflar-me nas curvas do caminho.
Fixamente observo o além-mar-montanha-horizonte, decorando as entonações que cada poente recita aos meus olhos e para todos aqueles que não entendem, recolho os fios das meadas emboladas, teço rede amarrada em nuvens de pensamento e repito os versos que nunca decorei: são os preferidos e por isso devem ser redescobertos. E poucos entendem essas explicações.
Descrevo os arabescos de meus sonhos com palavras entremeadas, paisagens fotográficas, arquiteturas mouras de meus devaneios desérticos que contemplo sem fronteiras entre o ouvir, o ver, e o falar, porque sou um completo descaminho de caravaneiros que não teme as tempestades de areia e nem a falta da lua, ao contrário, se rende a ela em cada uma de suas fases.
Repito-me sempre. Sou mais do mesmo, mas nem sempre a mesma, paradoxalmente. Há mudanças nos detalhes. Nos mínimos. Só olhos atentos percebem. Só a eles me revelo, se é que revelo.
Faço as mesmas perguntas várias vezes porque esqueço as respostas e divirto-me com as mesmas piadas. Essa é a leveza de dente de leão na imensidão azul que eu quero ter a partir dessa hora, que marca um novo início para todos os meus dias.
Gosto de sentir com os olhos, ver com os ouvidos e ser tocada pela língua, falada e quente. Gosto de ver as cores das pessoas. As cores que elas imprimem em si mesmas quando contam seus segredos, quando dão um bom dia, quando não sabem o que fazer ou quando estão perdidamente enroladas nos sabores de suas próprias histórias. Gosto de falar, mas também de observar e um tanto de ser observada, enigma decifrado.

Gosto, ainda de pensar que, no fundo, eu sou uma narrativa complexa, de palavras simples, delicadamente organizada por dedos caprichosos que esqueceram as notas de pé de página, que ajudariam qualquer leitor, muito mais pelo prazer de ver as caras e bocas de quem lê do que de ajudar o texto-eu a ser compreendido. Gosto de pensar que tenho momentos de prosa e verso, que tenho dias de rima e outros de falta de nexo, que às vezes sou abstrata e, em outras, concreta, sou idas e vindas e esperanças. Sou livro de cabeceira de escritor inquieto: nunca finalizado ou completo.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Olhos Morenos





Há uma verdade nos seus olhos morenos
De dias de não-quero-lembrar,
De madeiras de casco de navio
No qual embarquei meus sonhos
Em direção ao alto mar.
(O mar dos meus próprios olhos)
Ah, olhos amadeirados de cruz,
Que abandonaram toda verdade que expus,
Que tão doce alegria me deram
E que agora só as suas distâncias me couberam.
Olhos castanhos de madrugadas intensas
Que encerram-me na noite escura,
Permitam-me a fuga pelas suas íris.
Permitam-me o alívio da queda de suas lágrimas,
Cachoeira de sal e lamentação,
Asas d'água, pseudo libertação
Sina de quem se atreveu além do limite
Destino sólido que liquefaz
Sombras que me amedrontam
Mas que um dia me deram a paz.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Caixa de Bombons


(Minha singela e sincera homenagem aos alunos do Colégio de Aplicação João XXIII: ao Terceirão A e C, que me permitiram atravessar com eles o ano mais complicado de seus estudos, estando às vésperas de vestibulares, ENEM, PISM; Aos alunos do 9º Ano que fecharam mais um ciclo e agora entram com todo entusiasmo no Ensino Médio, e, claro, aos meus queridos alunos do 8ºC, Águias de Ouro, que me escolheram como madrinha, que permitiram que eu descobrisse como eles são capazes de amar, e como, juntos, construímos em ano de novidades e novos olhares sobre a História!)

Não se escolhe aluno. Ser professor, então, é antes de tudo uma aceitação: aceitamos os alunos como eles são. Um pacote fechado e sem devolução.
Em um único espaço somos trinta personalidades, cada qual com as suas vontades, com as suas manias, com as suas graças. Cada um diferente e, por isso, tão especial.
Entrar em uma sala de aula é quase como receber uma caixa de bombons sortidos: uns mais doces, outros nem tanto, mas todos deliciosamente recheados com as suas histórias e, como tudo aquilo que é para ser descoberto, passa a fazer parte da nossa vida.
Talvez, alunos sejam lápis de cor: tem dias que colorem as nossas vidas, em outros rabiscam nossos planos. Sonhamos para todos eles os tons de azul – azul céu: de voos altos, de imensidões para serem alcançadas e sonhos para serem realizados. Às vezes nos obrigam a nadar em um mar vermelho: e haja braçada para correr atrás do prejuízo! Atravessar o rio de notas baixas é cansativo, angustiante, mas conseguimos, porque temos o apoio um do outro.
Ao final de mais uma etapa, fica, de minha parte, uma vontade enorme de vê-los florescer na vida, de ter notícias boas de cada um daqui pra frente, de saber do sucesso de todos. E fica o meu amor pela História: a que aprendemos, a que construímos e aquela que pra sempre iremos lembrar.
Desejo, do fundo de meu coração, que a vida seja generosa com vocês. Que tenham gentilezas e sutilezas e saibam enxergar os detalhes, os encantos de todos os momentos.

Desejo que possam ver a História com olhares diferentes daquele com o qual os encontrei. Desejo que a apreciem como parte importante da formação de vocês enquanto pessoas, enquanto cidadãos, e que não se esqueçam de esquecer as datas! Não precisaremos saber todas!

Adiamento



Então vai lá. Adiei tudo. Tudo mesmo. E não deixe de fazer hoje o que se poderá repetir amanhã. Se é bom, faça, refaça, muitas vezes. adie tudo o que possa atrapalhar esse sorriso de iluminar o seu rosto.
Se a preguiça for maior do que a vontade, permita-se ser gato preguiçoso tomando sol na manhã de segunda-feira. Espreguice-se na cama como se estivesse sobre um colchão de nuvens e relaxe. Esticar todo o corpo é espichar, também, a alma.
A bem da verdade, poucas são as coisas realmente necessárias: permitir-se a atrasos, a furos, a descompromissos é fugir da rotina e ser mais autêntico, mais leve.
Não precisa traçar planos para tudo. Aquelas fugas repentinas e as mudanças de rota inesperadas levam a descobertas, a momentos leves e quase mágicos. É um desprendimento necessário.
Faça com a sua vida seja vivida, sentida, e não apenas mero acontecimento. Ela é um milagre e deve ser apreciada e experimentada como tal. O clichê de que só se vive uma vez nunca foi tão urgente: viva! Feche os olhos por um momento e concentre-se em sua respiração. Conscientize-se de que jamais sentirá os mesmo cheiros. O mesmo nunca mais entrará por suas narinas. Isso é um milagre e não se desperdiçam milagres assim.
Tenha uma vida real. Tudo bem, caberão os planos, eu aceito. Mas não faça deles seus limites. Eles são, sobretudo, pontos onde se deseja chegar, mas ir além é que é incrível.
E o vestibular? E a faculdade? E a profissão? E a família? Tudo virá! Quando a vida é viva, vivida, tudo acontece. A sua vida é sua, e deixe que inventem mundos paralelos em que não vive. Deixe que os vizinhos falem, que não acreditem. O que vale é a força que você sabe que tem, então, mãos à obra: adie tudo aquilo que lhe desanima, tudo aquilo que não é para agora, tudo aquilo que não causa emoção.
Abra mão de ser uma esfinge por todo o tempo. É ótimo que se tenha mistérios, que se desvendem os seus segredos, os seus enigmas, mas o simples é encantador. A objetividade é a chave de todos os problemas. E a poesia! Rime! Deixe-se levar pelo que é e pelo que busca, pelos sonhos!
Não acredite que os desafios são para sua derrota. Eles são para seu crescimento, seu aperfeiçoamento. Mas adie todos eles se preciso. E só volte a encara-los quando estiver cheio de si, de sua própria força vital, quando sentir que está firme como uma torre de marfim. Atravessará, assim, as tempestades, os caminhos estreitos, os desertos e solidões e saberá a hora certa de se abrir em festa.

Adie. Aprenda a adiar. A adiar tudo. Os conselhos, os não-me-toques, os desânimos. Só não adie os sorrisos e as vontades. Só não adie tudo aquilo que lhe faz bem e que pode e deve ser repetido todos os dias, mais e mais.

Gato Escaldado




Era gato escaldado. De tanto quebrar a cara, já diagnosticava tudo com antecedência. Pulava antes do tombo, caia de pé, mas sentia o baque. À noite não era pardo, mas negro. De sombras. De dia, preguiça, malandragem, ginga e observação.
Atrás do que desconhecia, atrevia-se até o limite de segurança, podendo ir mais além se fosse conveniente.
Há tempos não ia.
Divertia-se em fazer de ingênuo, em pôr-se em adoção e depois fugir do lar que lhe foi dado.
Não era questão de ingratidão. Era se-gu-ran-ça. As casas ofereciam segurança demais. E isso deixava qualquer gato cansado. Ainda mais se esse tivesse a liberdade como lema.
Para as suas vontades um ou outro pulo bem dado resolvia, entre muros e varandas, contemplava céus de brigadeiro, estrelas distantes ou se balançava calmo nos poentes. Na verdade mudava com o vento. Era folha solta seguindo seu rumo.
Não temia a água fria, dizia. Era precaução. Tampouco as novidades. Era só um resguardar-se. Era a vantagem de ser escaldado. Não perdia a elegância, não deixava transparecer os medos. Dizia, aliás, que eles haviam sido afogados.
Escondia-se atrás de suas sombras e as misturava muito bem às sombras noturnas, preferindo sempre madrugadas a dias de sol a pino.
Era gato escaldado e solitário. E dizia-se feliz assim. Não era. Quando via a sua silhueta imersa nas várias sombras experimentava a sensação de ser no outro e queria, no fundo, ter com quem misturar-se.

Era escaldado, tinha suas mágoas e criara um personagem que não servia mais. Não conseguia enganar-se, mas não desfazia-se da pose de que se bastava. Um dia, quem sabe, assumiria que mesmo um gato escaldado sonha sob as estrelas e que tem desejos de além.

domingo, 23 de novembro de 2014

Balada dos Trinta



O relógio marcaria três da manha, mas não faria a tão esperada passagem para a meia-noite. O calendário fugiria de todas as convenções e os anos todos se bagunçariam. Não haveria especialista capaz de decifrar o que acontecera: o dia 20 parecia não chegar, não existir.
Sim! Eu esperava os trinta anos com sede de quem vagueou pelos desertos desconhecidos de si mesma, encantada, existindo na paisagem e ávida por vivê-la. Eu esperava o dia vinte com a fome de quem foi convidado para o banquete celestial, onde se saciaria de sabores e cores e sons e cheiros e vida.
Ao bater a meia-noite, brindes! Abraços e beijos. E como eu gosto de abraços, repetia-os! Trintei.  Não havia saudades dos vinte e poucos, nem dos vinte e muitos. Muito menos dos quinze. O que paira agora é um sentimento de renovo, de alegria imensurável que ilumina meu sorriso e faz os olhos brilharem.
Esperava os trinta desde os quinze. Esperava com a ansiedade de uma criança diante do presente embrulhado, que não vê a hora de jogar o laço de fita no chão, rasgar o papel e se deliciar com a descoberta.
Cheguei aos trinta com os alguns sonhos dos 15, ainda guardados nas caixinhas de músicas, esperando para acontecer. Tenho a energia dos vinte, com a garra e a persistência que fazem o coração bater. Tenho fôlego. Um fôlego de vida, de vontade, de fé que os dias serão melhores a cada amanhecer.
Tenho um coração apaixonado, sobretudo, pela vida, pelo amor que conheço das linhas que escrevo e que guardo para os olhos que merecerão ler não só essas palavras, mas todas as minhas histórias, construindo-as também.
Tenho sede do novo, pés que desejam o mundo e olhos que buscam cada canto do horizonte, cada tom de cores novas, e que choram. Choram as dores todas, profundas, inconsoláveis, que chegam até o fim e acreditam que o pra sempre não existe, mas que o nunca mais é real. E que dissolve tudo isso em gotas de sal. E reconstrói novas versões de si mesmos. E me dão novos ares. Ah, esses olhos que poderiam ser de Capitu, que poderiam ser do Oriente, que poderiam ser de cortesãs ou damas dos séculos medievos, mas que nasceram de um castanho de mistério que nem o espelho revela.
Tenho palavras não ditas, outras tantas mal ditas, muitas escritas e tantas ainda por dizer. Tenho cartas endereçadas, outras extraviadas, umas de se ver o futuro, todas em uma caixa, uma caixa de sentimentos, nem sempre com sentido, mas com uma grande parte de mim em cada detalhe, como se fossem as minhas impressões digitais, as minhas impressões pessoais, as minhas impressões de alma.
Tenho hoje uma dimensão maior do tempo, do espaço, da grandeza do nascer do sol e da sua despedida ao final de cada dia e, embora eu me encante com esse espetáculo, ainda é ela, a lua, que me ganha, me envolve, me entende, me revela, me faz poesia, sem a qual não respiro.
Carrego uma alma secular, que equilibra-se nas muitas incertezas, avança nas poucas certezas e segue. E agora sente-se mais firme, mais disposta, mais atenta, mais viva.
Tenho em mim o fogo da juventude, a calmaria de um rio que serpenteia em vale, mas se lança das montanhas mineiras em quedas livres, e se busco o mar, não é por desamor ao berço, mas por identidade com as ondas que vem e vão e visitam os portos, guardam segredos e diminuem distâncias, são rasas e profundas, são leves, inconstantes, e são danças, movimentos.

Tenho em mim a vida como uma chama e um mar: uma me aquece o outro me renova. E tenho 30! Como sempre esperei. Como se sempre soubesse que daqui pra frente, tudo será diferente.

domingo, 16 de novembro de 2014

Maturação





Não fossem as palavras
Era só um papel
Não fosse a madrugada
Seriam apenas horas a correr.
Era tudo o que não era
E também o que queria
E padecia um pouco 
Todo dia
Ainda assim sabia esperar
Que o menos crescesse 

E virasse mais
E transbordasse
Até que o tanto 
Bastasse.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Linger



Somos prolongamentos. Do que desejamos, do que fazemos, do que deixamos de lado, mas muitas vezes tudo isso e inútil.
É inútil a nossa tentativa de prolongar as conversas silenciosas que adentram as noites quando estamos raivosos. De nada adianta acender o cigarro e ver as cinzas caírem. Estamos só nos perdendo. Estamos só desperdiçando os olhares. E fazendo um esforço enorme de contenção da vontade de falar. Mas não nos acostumamos a ceder.
As nossas pequenas guerras transformam-se em pesadelos, estendem-se para alem do que gostaríamos e nos resta a duvida: e se? E se? E se? As especulações, hipóteses, imaginações se lançam de nossos olhares e caem ao chão depois de baterem no campo de força de nosso silêncio.
Nesses momentos, deixamos de lado a velha amizade e soletramos o nome dela. Como pode um simples nome de mulher abalar as estruturas de uma amizade? Mas não é só o nome dela que eco pela sala, ampliada pela nossa situação de confronto. Ela entra pelas brechas da porta, das janelas, paira sobre os móveis. O perfume ainda embriaga os dois. E nos perguntamos em nosso íntimo, cada um a seu modo, qual dos dois ela ama.
Na falta de resposta clara ou mesmo de um sinal que declare qual de nós ela chamaria de seu, nos olhamos e não falamos. Não ousamos extrapolar nossos espaços já tão ocupados por ela.
O silêncio desfez-se em cacos com a batida na porta, rápida, ritmada, de outra mulher, dessa vez a amiga, que, deixada à margem da situação ainda sem saber, sentiria-se traída se soubesse que partilhamos o mesmo segredo e não a confidenciamos.
Sua alegria de sexta-feira, por mais que fosse segunda, era quase insuportável. Seu equilíbrio de saltos altos que batiam no chão e preenchia o oco de nossas cabeças empurrando o nome da outra para fora chegava a dar alívio.
E ela, a amiga, sem saber que podava nosso prolongamento de uma situação imaginária, ao levar entradas para um cinema, estava prestes a destruir nossa inércia e nossas dúvidas.
Entre os expectadores o nome que nos assombrava a pouco em nossa sala desfilava nos braços de um terceiro personagem. E se? E era. Era quem ela escolhera. Nem eu, nem meu amigo. E nossos silêncios foram em vão. E nossas horas desperdiçadas.
Desiludidos, despedaçados, arrependidos pelo silêncio prolongado, ficou-nos a companhia da amiga, ao mesmo tempo nossa algoz e salvadora, quase um anjo que carrega em si o bem e o mal e uma alegria ensurdecedora que curava a rápida dor e varria os cacos do silêncio quebrado, transbordando palavras pela noite adentro, em um prolongamento de tranquilidade e quase felicidade.

Há prolongamentos que valem mais a pena que outros. É questão de escolha.

domingo, 9 de novembro de 2014

Canção Silenciosa



Conheço o silêncio. Já o toquei a ponta dos dedos. Já vesti-me com seus sons mudos. Fiz dele meu lençol para envolver os soluços que bebi em noites que foram mais escuras do que deveriam ser.
Entendo o seu silêncio. Cada palavra não dita. Cada coisa que seus olhos deixaram escapar em uma lágrima teimosa ou que fugiram pelas molduras dos óculos.
Entendo os seus silêncios porque já experimentei sabores semelhantes. Não que todos sejam iguais. O silêncio e a dor do outro é sempre só uma estampa de camisa: vestimos a camisa, não sentimos o desenho. O silêncio e a dor da gente é tatuagem, que marca, que acompanha, que revela, mesmo sem palavra dita.
Compreendo o blues triste que toca lá fora e se diverte com o olhar perdido de quem o ouve. Que parece ter sido escrito para ser ouvido assim, em silêncio, vagamente, dolorido, uma paixão quase tranquila de quem clama por um socorro que nem sabe se existe.
Compreendo o meu silêncio feito das sombras que escolho para guarda-me dos olhares curiosos, das sombras de tudo aquilo que faz parte de meu mundo, mas que fora dele não são conhecidas.
Em alguns dias o silêncio é mais do que necessário. É o elixir sagrado da paz. É a saída do caos. É o afago na alma. O cuidado mais efetivo que podemos ter.  É o cuidado de si precioso.
Tantos são os dias em que o silêncio é o companheiro de luas, estrelas sem cintilantes, de vãos que não se ocupam a não ser por ele, que tudo invade, que tudo completa, que tudo abranda.
Eu conheço os seus silêncios porque tenho os meus e não cobrarei palavra alguma das horas que se perderam. Todo o tempo – perdido ou não – é construção, por mais que castelos caiam e pontes desabem, o tempo constrói até as ruínas.

O não dito, às vezes, revela mais do que o que foi dito. E é preciso atenção. É preciso ter um ouvido atento para que escute os gritos que lanço em meus silêncios, porque é através deles que me revelo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Pedacinho de Amor




Naquela manhã o coração estava mais agitado que o de costume.
Poderia ser dia de rock, de pop, de jazz, mas era só um dia de aeroporto, passaporte e avião. Um dia de viagem quase comum, quase igual a todos. Quase. Não fosse a mudança de ares, de fuso, de continentes.
Era o dia em que toda bagagem experimentava três pesos e duas medidas: o seu peso comum, de objetos simples amontoados organizadamente, contabilizados em lista e em ordem de importância, resumindo na mala tudo o que não poderia faltar. O peso da espera, de areia de praia engarrafada em ampulheta, de sonhos antigos e guardados, cuidadosamente alimentados, aguardando o momento de tomarem corpo. O peso da ausência da pessoa-felicidade-que-completa, que não faz mais parte dos planos, embora tenha sido parte fundamental de outras tantas alegrias, que embalou esse momento, ajudando a embrulha-lo e que não estará lá nem para o embarque nem para o adeus (que já foi dado precocemente). Pesos justos, injustos, reais.
As medidas eram igualmente complexas e se misturavam. Um tanto já era saudade. Uma saudade companheira, de onde se vai. Outra saudade antecipada, de onde se sai, das histórias construídas, do lugar do qual se passou a fazer parte. Um verso e reverso doido, que só quem sente sabe. A outra era a esperança, essa penetra, que enche os espaços mesmo sem ser convidada, e fica, mesmo sem ser notada. Ela pouco se importa com convites. Ela pouco se importa com o que queremos. Simplesmente existe. E ponto.
Assim, marcadas pelas lembranças, de malas prontas, pegou o seu pedacinho de amor pela mão, entrou no táxi e foi para o aeroporto.

A criança se divertia com o passeio, olhando a paisagem pela janela do banco de trás do carro, enquanto a mãe tentava, firme, equilibrar-se entre os pesos e medidas de sua bagagem.

Moral da História





Busco, logo me canso. Penso, logo crio asas. Não sei ser ou se sou e tampouco se quero ou não quero, mas busco. E essa é a chave. Não sei se blues, balada ou jazz, mas ouço. E tento só fazer o bem, evitar o mal, mas perco-me entre os parâmetros de bem e mal e engatinho entre os sentidos que pouco se completam.
Vivo pacificamente, hasteio bandeiras brancas ou coloridas, evito os conflitos e a moral de minha história é simples: reconheço os mesmos direitos para todos e não extrapolos os limites. Mas não gosto de limites. E volto a me prender neles, por eles e fico exausta, como pássaro em gaiola.
Se sou embarcação que abandonou o porto e há muito não sonha em ancorar em cais, como posso desejar abrir minha coleção de cartas náuticas? Como posso olhar para as estrelas e não em orientar por elas? Ah, eu que sou um constante abandono de bússolas e de astrolábios, tento guiar-me pelo som de seus lábios. Chama-me o nome e eu vou.
Ah, vento que dá em minhas velas, em meu vestido, que levanta a barra de minhas saias e me induz pelo caminho. Sopre as pétalas das flores. Sopres os tantos nomes que lhe confidenciei. Sopre todos os bem-me-queres para perto de mim e afasta todos os males.
Ah, vento que embala as manhãs e as balanças. Que deixa amena a gangorra vazia onde me sento pra ver findar mais um dia, seja meu companheiro, meu escudeiro, meu narrador de sonhos, cancioneiro das poesias.
Que eu não me contente com seus alísios e que saiba ser furacão, mas que a maioria dos meus dias seja de brisa, de calma, de frescor. Que esse sopro-vendaval-ventania me venha afastar as dúvidas e as abstenções, porque carrego a flâmula da opinião, da postura, do agir.
Seja a bondade uma constante distante dos meus humores e temperamentos. Que eu não seja vítima do bem que faço e nem sufoque-me com as possibilidades que não puder alcançar. E se sufocar-me que encontre abrigo, o alívio. O mesmo que ofereço, por mais que não o espere. Por mais que não o julgue necessário, porque todo mundo precisa de um travesseiro à noite e de um colo de vez em quando.
Que meus espinhos não sejam fatais e nem meu veneno sem antídoto. Porque lamberei minhas feridas e não quero padecer do meu próprio mal, o que busco é alívio.
Que não me fujam as palavras que se fecharão em desejos e planos e que elas me ajudem a formar a moral da história que escrevo. Uma história de quem busca, inconstante, incansável, uma trajetória a projetar-se.
Seja a minha parte que me cabe aquela de carinhos e sociabilidades que tenho com as flores, mas muito mais com as folhas outonais, conscientes de que fizeram seus papeis e agora lançam-se em espetáculos lépidos dos galhos.

Seja a minha parte da moral dessa história aquela que cabe a um transeunte de si mesmo: que nunca se acha, por mais que busque, mas que não abre mão das belezas de cada passo dado e de cada sabor experimentado seja doce ou amargo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Ego quos amo




Seja lá qual for o fim,
Seja lá qual for o enredo,
O que temos aqui é a metafísica.
É onde haveríamos de chegar,
E chegamos.
É o que tínhamos de experimentar,
E negamos.
E, insaciáveis, tateamos
Todas as nossas dúvidas.
Fugimos das dívidas mais altas,
Mas pagamos preços imensuráveis:
Qual a moral da história?
Fazemos perguntas sem respostas.
Tentamos proteger a nós e aos outros
Em vão.
Castigamos. Amamos.
Filosofamos em vãs,
Nossas vãs construções.
Oscilamos entre bem e mal
E sequer sabemos o que é um ou outro ou todos.
Somos navios à deriva em mar de desconhecido.
Somos abstenções em plebiscitos
E citamos um discurso branco
E gritamos o vazio
E calamos o silêncio
Meta-fí-si-cos...
Sedentos de um sentido
Sedentos de uma história
Que além de uma moral
Tenha lembranças boas
Que resulte em afagos da memória
Que responda, ao menos uma vez,
Quem somos
Para onde vamos
Onde estamos
E qual o passo que teremos que dar.
O resto... imaginamos que sabemos
E nos embriagamos em nossas próprias histórias
Em nossos próprios mundos
Em nossos egos
E sabemos:
Ego quos amo

Arguo et castigo

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Definição



Ser poeta é beber verso
É desprender-se de si e ser o poema
E o poema se assume e se nega.
O poema sufoca aliviando.
É um não caber-se em si 
E não poder abandonar-se.
É uma exaustão que precisa ser prolongada.
É um descanso que não renova.
É tocar levemente o que não existe,
Se não aqui dentro
E, quando muito, se aproxima do outro.
É sobrevida para quem quase agoniza
É um suspiro sem ar
É silêncio que grita desesperos e desabafos
É uma beleza violenta
Que bate e choca e por isso encanta.
Poesia é um lar sem paredes,
Meu castelo de espumas e nuvens e ventos e asas
É onde me perco, me acho, me entrego, me sou.


Avanços




Ninguém sabe onde está o erro. Nem se anda só em linha errata.
Todo mundo perde a hora uma vez na vida ou todo dia. Nem sempre saltamos onde gostaríamos de chegar.
As placas de sinalização, por vezes, não existem. Em outras estão quase invisíveis. Nem sempre eu quero ir pra lá. Na maioria das vezes eu nem sei para que lado olhar.
Ah, já perdi as contas de quantas vezes me desfiz. Quantas vezes virei pó de mim mesma, pó de poesia, catando no chão algumas sílabas métricas para me recompor em novo poema.
Um sem número de vezes viajei sentada no mesmo lugar ou adormeci no ônibus em um trajeto de vinte minutos e pensei ter dormido por mais de quarenta. E perdi planos. E remarquei voos. E não compreendi espaços. E redesenhei a geografia tentando reescrever a História.
Já tentei domar o tempo. Usei chicote e banquinho. Roupa colorida de circo, mas dispensei plateia. (Em certos vexames só me arrisco sozinha.) E foi um fiasco. O tempo riu. Rui. Passou mais rápido, me deixou na mão, acenando para mim, como quem se despede na estação.
Já tentei esticar a linha da vida e caminhar sobre ela, em linha reta, sem erros ou desvio, mas linha era bamba demais e eu sem sombrinha cai. E o fio emaranhou. E a história se misturou.
Tive que separar os personagens, devolver os roteiros e recontar cada caso, percebendo que o inevitável acontece: muitos seguem, outros se perdem e a estrada em linha reta é ilusão. É um estado febril de insolação. É busca que não finda. É atoleiro de barro em terra seca, que o pé preso não se solta de jeito nenhum.
Ninguém anda só em linha reta. Ninguém avança sem medos ou controla a vida. Esse controle não é remoto e pilha nenhuma consegue fazê-lo funcionar. Não se trocam os canais da vida real e há de se beber um pouco de aceitação. Há de se entender que nem tudo é cognoscível. Há o insondável, o extraordinário. O divino.
Há de se entender que nenhuma história será completa e vivida em sua amplitude. As retas paralelas não irão se cruzar. As perpendiculares só se tocam em um ponto e sua união é frágil, mas temos que avançar.
Ninguém consegue esticar as curvas e endireitar o que foi escrito torto, então, que a caligrafia seja decifrada, que o recado seja lido, entendendo-se ou não o que foi deixado em entrelinhas. Se o principal foi dito e compreendido, que fiquemos satisfeitos.
Deixemos de lado as expectativas dos enigmas, dos véus. Esse privilégio de ir além é para poucos. E para raros. A maioria se entrega ao que há de mais comum e óbvio. E segue.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Delivery



Entregamos tudo. Esse era o anúncio que li estampado em um baú de motoboy. Como pensamento não faz curva e nem mede seu tamanho, logo estava pensando nos pedidos simples, nos mais complexos (um sorvete de cacau, por favor. Na casquinha e com cobertura de chocolate amargo.) e, claro, nos absurdos bons que poderiam ser entregues pelo rapaz.
Tudo. T-u-d-o. Uma das simplificações mais amplas que já vi, comparada até com gente. Pus-me a pensar, também, no monte de gente que passa por mim todos os dias. E que estavam passando agora.
E se cada uma daquelas pessoas pegasse o telefone e começasse a pedir as suas entregas de absurdos bons? E entendo os absurdos como bons, porque são agradáveis para os seus desejosos.
O baú do motoboy, de repente, se desenhou para mim como a lâmpada de Aladdin. O curioso é que imagina as ruas cheias deles. E as entregas variadas: de coleções de selo e papeis de carta até àquela pessoa amada que por promessa em outra propaganda chegaria em três dias. E sem devolução.
Comecei a fazer uma lista de coisas que eu pediria: chá de menta geladinho, estante que brota livro novo, inspiração que não se amedronta na frente do  papel, abraço e beijo de filho mesmo quando ele já cansou de brincar disso – lá pelo décimo beijo seguido.
E se cada um de nós começasse a fazer as suas listas? E os motoboys fieis à propaganda, atendessem? E se eu tivesse que conviver com os absurdos bons dos outros?
E se esses desejos absurdos não fossem bons? E, filosoficamente, comecei a pensar que o que é bom para mim, não o é para o outro. Se eu desejo ouvir música clássica com toque árabe em pleno centro da cidade, como fica  aquela pessoa que detesta o som do Derbak?
E o senso de limite? E o de espaço? E como ficam todos os outros incomodados? Diante de tamanha confusão, o caos, comecei a pensar na necessidade de se limitar aquele serviço de delivery apenas ao que pudesse caber dentro de um baú de uma moto, restringidos pela boa e velha convenção social ou o tal bom senso.
Como eu posso ser tão conservadora? Simples demais! Conviver com a diversidade do outro pode ser mais difícil do que se pensa e, particularmente, imaginei entregar de toda a sorte de coisas, inclusive um camelo de estimação, o que desagradaria meus vizinhos, caso meu animalzinho chegasse.
A diversidade humana é muito mais complexa do que a caixa de Pandora. É muito mais difícil do que só se imaginar os absurdos de um delivery encantado. Exige de mim um exercício diário. E ele não é entregue por um motoboy. É coisa minha. Só minha. E preciso aprender mais. Todos os dias.