Visitas da Dy

quinta-feira, 4 de março de 2021

Sóis e Cores

 




Até ontem, inverno.

Anoitecida, apenumbrada.

Um tanto de ventania.

Outro tanto de agonia.

Amanhecendo, despertei.

Uma gelereira inteira

Derretendo sob teus olhos.

Aprimaverando, colorindo.

Um tanto de flores.

Outro tanto de céus abertos.

Bendito o calor de tuas mãos

Que derreteu-me e tirou meu chão.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Bruxa do Espelho

 




Chamaram-me bruxa.

Desejaram-me a forca, o fogo, o ordálio.

Tempos outros, assustadores, severos.

Não lembro quantas vidas tive

Tampouco em quantas queimei,

Mas, entre os escombros dos séculos sobrevivi.

Chamaram-me louca.

Prenderam-me. Esconderam-me

Enclausurada cantei para as sombras.

Fui livre dentro de mim.

Mulher! 

Concebida tantas vezes com o mesmo sexo

A sina. A raiz. A força de (r)existir.

Dizem ser azar

Ter tantas vidas femininas,

Mas atravessam-me tantas sortes

Que os azares pouco importam.

E se o espelho quebrar?

Ganho novos reflexos.




terça-feira, 2 de março de 2021

Paradoxo da Criação

 





Eis que já havia um pouco de tudo.

De caminho, conto, ponto de encontro.

De espera, cansaço, beleza.

Eis que era como se o mundo pedisse pra ser escrito.

Ser transformado no medo que antecede a gênese:

No espanto da criação.

A boca aberta, surpresa que antecede o ato.

E antes da escrita, a cegueira infinita

De quem desconhece tudo.

Paradoxo do artesão:

Querer fazer sem saber começar.

A explosão do início.

A invenção.

Não é pela luz que se enxerga

É pelo poder da imaginação.




segunda-feira, 1 de março de 2021

Perigos

 



São muitos os perigos

Quando se deseja mais que um instante.

Quando deseja vestir-se de céu.

Quando descobre-se o que pode ser.

Quando a vida inteira cabe num poema.


A velocidade do pensamento,

A queda iminente, o querer-ter

E saber o risco do ter,

Do verbo doído que lembra:

Nada se possui.


Experimento uma eternidade sazonal

Que habita em meus braços

Que deseja seus espaços

Que se perde em casa

E se acha em um acaso qualquer.


E, se for de acasos, que seja:

Os caminhos se cruzam

As histórias se tecem

As mãos se entrelaçam

O risco se esquece.


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Invernos e verões

 



Já era entardecida quando chegou,

Na lua minguante da vida,

Quando as horas se preenchem em si.

(Quando as noites são todas iguais.)

Já era antiga no tempo em que nasci:

Amarelada folha de verso longínquo,

Esquecida em berma de Caminho Novo.

Um ente pairando nos dias

Como quem espera sem saber.

Era preciso ser mais para que me alcançasse:

Ser pouco mais que a vertigem dos inícios.

Ter a coragem de encarar um incêndio

E partilhar das chamas  (despertas).

Já era brasa recolhida em inverno

Mas, soube-me (ver) bem além:  

Tinha vocações de verão.

Da vida pouco se sabe.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Brechas e Ruídos

 




Brechas se abrem em meus ouvidos

E ruídos passageiros entram.

Ocupam as vias de meus pensamentos.

Onde o futuro lateja, o passado ainda uiva.

São nas madrugadas longas e frias 

Que eles habitam e se mostram,

Agora, acordados pelos ruídos roucos.

Sob efeito da imaginação caço a todos.

Calo as memórias ansiosas: é fogo cruzado

E vou deixar o mundo todo queimar.

Serei o raio e o trovão que arde e assombra.

Primeiro em mim, espantado os ruídos,

Contemplando os silêncios,

Fechando as brechas.

Depois, pelo lado de fora

Onde ninguém percebe o caos.

A poeta esconde bem os restos turbulentos 

Do que foi seu medo real.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

(In) consciente Movimento

 



Quantas vezes eu a quis matar?

Sufoca-la em minha garganta,

Ver suas migalhas pelo chão...

Não é de hoje que a poesia me cansa

Com sua beleza que me dói,

Com seus sentimentos que desconheço.

Corro de suas palavras, 

Mas suas vozes não me abandonam

E, por mais que eu desista, ela me habita

E tudo o que ela me pede é vida.

É que eu me permita parir seus amores.

Que me talhem as veias:

Preciso ser escrita pela poesia.

Essa que me grita aos ouvidos.

Essa que me consome e alimenta.

Essa que me traz alento e faz seguir.

Essa a quem já quis matar e acolho

Porque é tudo o que sou:

(In)consciente movimento.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Porquês

 



Por que escrevo?

Porque as palavras me assombram.

Porque me espantam sua capacidade de traduzirem sentimentos.

Em mim cabem todas as palavras do mundo.

E todas são tão parte de mim quanto o que desconheço.

E, entre todas, o amor.

Esse que me soa como uma fratura,

Algo que temo pela dor que pode vir.

Mas, que não busco bem evito: espero.

Posto que é chama 

E gosto de incêndios.

E quando ele, o amor, chegar...

Oxalá, soe-me como liberdade:

Da entrega ao caminhar.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Tempo-mar

 



Não se tratam dos tempos dos relógios,

Dos calendários desfolhados,

De quantas voltas deu ao mundo.

As idades sempre mentem em si mesmas:

Nunca revelam as almas,

Nem as esperas, nem os desejos.

Tratam-se dos céus que observou,

Das luas que lhe inspiraram

E de quão acordados seus olhos estavam

No instante exato da chegada do sonho.

Trata-se do momento em que se transborda

E toda margem é pouca

Porque o rio da vida desperta

E segue pelo tempo-mar:

Navegar... 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O que não digo

 




Talvez eu lhe escreva um tanto de coisas

Ou deixe as palavras por dizer.

Afinal, dia desses, de soslaio

Ouvi que o meu silêncio também fala.

Talvez eu cante ao seu ouvido

Qualquer coisa entre Belchior,

Vinícius, Caetano, Chico.

Talvez você entenda o que quiser,

Linhas, entrelinhas, revelações.

Eu, por aqui, ainda meço os passos,

As horas e as saudades

E as sussurro nas madrugadas.

Quando me ouvir, venha.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Rotina

 



É curioso como mas madrugadas,

De olhos fechados,

Só duas coisas me vêm aos ouvidos:

Seu nome e Poesias.


Escrevo todos os dias

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Animais

 





Somos dois animais

Dóceis à luz do dia,

Amansados pela palavra,

Com as almas dormentes,

Preguiçosas, estiradas sob o sol.

Mas, a transformação é púrpura

E ocorre em nosso entardecer.

Somos dois animais

Selvagens e noturnos,

Insaciáveis no encontro,

Sedentos de lua e suor.

Qual de nós consumirá o outro?


sábado, 20 de fevereiro de 2021

So(m)bras

 




Ensinou-me, sobretudo, profundidades:

Do riso ao abismo.

Mesmo quando hasteei a bandeira da paz

Mordia-me os sonhos

E os atirou aos meus pés.

Reduziu à loucura o que era amor.

Meu peito-manicômio se (de)bateu

E de tanto chorar adormeceu.

Ainda lhe vejo, mas, agora

É só a so(m)bra do que amei.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Ao Senhor das Estradas

 




Era um dia comprido e cansado

Desses de véspera.

De tanto caminhar,

Sentei à beira, na poeira, 

Com pés a desenhar mais que nadas.

E era a beira de sua estrada.

E eu era agora um tanto tímida,

Um tanto espera:

Não que seja habituada a invasões de terras,

Mas, às sombras de um pé-de-verso,

Árvore frondosa como no paraíso,

Encontrei uma  semente querendo florescer

Escrevo-lhe, senhor da estrada,

Com muita vontade  e pouca fé:

Deixa-me aqui a colher sua poesia

Desfolhada no outono alaranjado

Por elas sorrio e amanheço 

As noites que tenho em mim.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Versos de Presente

 





Na falta do presente

Que se abre pela ponta dos dedos

Desfazendo embrulhos de seda e fitas,

Cabe-lhe um sobressalto de empréstimo:

Pego, aqui e ali, palavras bobas,

Outras tontas de vinho,

E organizo com dedicada ordem.

Mentira! Eu sou uma desordem!

Que seja!

Pois, que pego palavras que não são minhas,

E juro que agora são suas.

Presente tolo de quem passa horas entre margens

E não sabe o que poderia ser de valor

Eis que oferto desejos:

De luzes e festas, saúdes e sonhos,

E tudo o mais que puder chamar de seu

Para que os novos dias valham a pena

Para que tenha força, coragem 

E conquiste um pedaço de céu.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Sobre o verso




As nuvens rasgadas anunciavam,

Inclementes, o dia vindouro:

Entre azuis e castanhos.

O café e o céu.

Contrastes.

Um tanto de verde, janela, livro.

Outro tanto de cheiro, preguiça, folia.

Lá fora, a rotina, o tempo, o ritmo 

Aqui dentro descompasso e harmonia:

Não há outro recurso para a escrita.

Desde o início dos tempos,

Desde que a tinta se fez compreendida,

Só os absurdos dão sentido à poesia.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Sobretudo e café

 





Os olhos embaçados

A boca quase seca

O corpo curvado

Calo tudo o que eu gostaria de ouvir

E como resposta demorada

Engulo seus silêncios

Com café preto e forte

Dentro de um sobretudo.

Nada temos

Nada nos falta

Mas é esse silêncio

Sobre tudo e nada

Que arrasta as horas da saudade

E eu me pergunto:

Como é possível isso existir?

E adomeço inquieta

Ainda sem saber se o tenho

Ou se o invento.



sábado, 2 de janeiro de 2021

Arranhões

 





Noite a dentro,

O que tenho são miragens.

Escrevo pelas paredes,

Rabisco os papéis:

Arranho minha existência

Na casca dos dias.

Deixo pelo ar a minha poesia.

Arranhões no tempo.

Cicatrizes minhas.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Ontens

 



Num desses ontens descontentes,

Que sequer marquei no calendário,

Houve um tanto de você 

Espalhado pelos cantos

Dos meus olhos cansados.

Eu não sei bem se adormeci 

No embalo da noite

Ou embrulhada em suas lembranças.

Num desses ontens eu quis te escrever

Mas não tinha palavras suficientes

Às vezes, por alguns dias a gente seca

E, em outros, a gente só chove.

Hoje o dia está nublado.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Cão Fugidio

 



Alimenta-me com o que me agrada.

Oferece-me sua sombra fresca,

Seu colo em dias de agitação,

Sua voz chamando meu nome.

Sabe bem ao que me rendo,

A recompensa que espero,

A lealdade que disponho.

Mas, paradoxo destino,

É entre suas frestas que corro,

Cão fugidio entre suas pernas.

 Um misto dócil e selvagem,

De quem quer ficar e partir.

Não me venha com afagos

Nem duras penas.

Venha com liberdade:

Posso não querer mais fugir.

Um dia.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Looping

 



Domino o caos dos meus pensamentos,

Organizo todas as ideias,

Aquieto meu coração

E sigo até o próximo sinal.

Até que me venhas quase inocente,

Até que me jogues em um turbilhão.

Então, respiro fundo e mergulho

Nesse mar abissal,

Provo do meu próprio sal.

Visito novamente o meu próprio caos.

E recomeço, e reconstruo, e reorganizo. 


sábado, 21 de novembro de 2020

Em minhas mãos

 



Sonhei que (re)pousava em seu peito

E, assustada, duvidava da sorte.

Sim, sorte. Das grandes:

Café, livro, seu cheiro,

Um bocado de conversa,

Outro tanto de atenção

E muitas horas passadas

Até eu quase me cansar.

E duvidei da existência desse dia.

Talvez eu não saiba amar

Porque ainda me pergunto

Se ali era mesmo pra eu estar.

Acordei com a agonia dos poetas

Que traduzem-se em versos

E escrevi você entre meus dedos

Pra ver se deixava de duvidar.

Por um momento você estava em minhas mãos.

domingo, 15 de novembro de 2020

Portais

 



(Poema premiado em segundo lugar no I Concurso de Poesia do Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora, novembro de 2020)


Eis que portais se abrem.

Paredes sustentam o passado,

Acolhem o presente, 

Como fiandeiras incansáveis

Que falam ao futuro.

As memórias ecoam vivas,

Coloridas, em formas e traços

E fazem a magia do encanto,

Do espanto, do saber:

A História desce sobre nós,

Faz do museu o seu templo,

Faz dos homens um novelo

E os amarra em narrativas,

Tão próximas que quase tocamos.

Tão nossas e deles e dos que virão

Como se pudesse não existir o tempo.

Eis que portais se abrem 

Em mostra ou exposição,

Memórias. Construção.

Pedra. Cal. Tinta. Som. Arte.

O fio segue pelo tempo. 

Além do tempo.

Ignora os séculos.

Tudo é saber.



sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Dúvidas






Eu queria ler todos os seus livros

E caber em cada um de seus poemas.

Morar na sua estante como traça devoradora

E não como um sorriso estanque.

Eu queria saber fazer pausas e respirar.

Queria saber bons modos,

Usar cor de rosa e evitar discussões.

Queria ser aquela obediência morna.

Mas, é que eu gosto muito de abrir cervejas,

Afogar-me no vinho

E, quando dá, acordar ao meio-dia.

E eu não sei se isso combina com sua poesia.

E eu não sei se isso o assusta ou fascina.

Mas, é que eu bebi liberdade

E tomei um porre de ventania.

É que eu gosto de vestidos 

Tão curtos quanto minha paciência

E não me demoro onde não caibo.

Então, me diz onde é que eu fico.

Onde é que eu fico nessa história?

Por ora, estou suspensa.

Nem sei ao certo se existo.



sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Galhos Secos

 







A noite estava pálida.

Cortada por ventos que prometiam chuva.

A silhueta da velha árvore

Diminuía a cidade e suas luzes:

O choque entre luz e sombra,

Entre o infinito prateado lunar

E a vida que teima em durar.

Galhos secos de histórias,

Meus olhos cheios de saudade.

Escrevi pensando em você.

Não há instante maior que esse:

A repentina lembrança,

O bem-querer-te-ver e seguir

Como quem só admira a paisagem.

Fingi estar bem, mas, aqui dentro,

Mil sons te chamavam. 

Eu estava em silêncio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Tiro à queima-roupa

 



Você matou à queima roupa

Um tanto de amor-menino.

Que começava a tatear suspiros.

Que já tinha lugar cativo.

Que reluziu seu peito aberto,

Cabelo ao vento,

Desfeito de armadura.

E você armado, preparado...

Pronto para atacar

A qualquer movimento subversivo de carinho.

E você atirou, silencioso, certeiro,

Quase injusto.

E há um tanto de amor falecido,

Outro tanto resistente, contido,

Em frangalhos, se reconstruindo.

E a armadura vai voltar ao seu lugar

Pra esconder cicatrizes e dores

Que parte do amor ainda vive?

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Angelus

 



Já era tarde,

Escuro.

Quase dia.

E tinha seu dedos,

Sua poesia.

Eu não sabia escrever 

Tampouco rimar.

Mas, era você e eu.

E uma luz explodia:

Fazíamos o amanhecer.


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Lavínia

 



Dorme sonhos cor de rosa,

Tão puros quanto seu nome.

Reaviva esperanças em meio ao caos.

Era essa a hora de sua chegada?

Sim! Era esse o plano do destino:

Encerrar o inverno,

Florescer com a estação,

Ser, mais que tudo, amada

E por extensão pulsar:

Por a vida em movimento.

Bendito o mundo que a recebe:

Agora está mais doce,

Mais leve, mais risonho e puro.


sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Ao menino que voa

 




(Para Rafael Drumond, em 18/09/2020, como forma de não o esquecer)



Talvez um sopro,

Um salto, uma aventura,

Uma paisagem na janela,

Mas, ainda assim e sempre,

A música mais bela:

Uma canção de amor.

E isso é vida. A vida.

De tudo o que vivemos,

Lágrimas e sorrisos,

Mas, o amor, só ele cura

E da asas ao anjo

Que quando cumpre sua missão, voa.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Tu vens?


(Foto: Saulo Otoni - quase primavera)
 


Quase findo o dia

E a explosão solar acontece

Em alaranjados desejos

Incandescentes,

Como o calor que entra pela janela

E me faz querer tirar o vestido.

Não para o sol, claro!

Mas para o que se deita

No ventre ardente, sedento, 

Pronto para se queimar.

Em tons avermelhados, 

Como em mediana 

Entre meu olhar e a paisagem, o sol,

Tão inalcançável quanto teu corpo.

Não sei qual dos dois me causa mais febre.

A ele, cederia a pele para dourar,

A ti, o corpo a explorar.

Ai, de mim perdida nas montanhas:

Observo de longe tudo o que quero.

Douro pílulas e vontades

E a cada pôr do Sol bebo quereres

E um misto de saudades.

Ainda estamos no fim da tarde...

(Vens à noite?)