Visitas da Dy

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Netuno

 




Distante e azul e frio

Rege meus abstratos sentimentos

De tristezas e agonias.

Entrego-me inerte e lenta:

Cai noite dessas, só.

Só entre desejos e planos

E agora temo azuis

Como se fossem monstros no armário

E busco suas mãos para a salvação

E busco suas mãos para agitar meu corpo:

Netuno sabe movimentar as ondas

E eu sei lidar com arrepios

Só isso deveria bastar

A despeito do sistema solar.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Sonho-turbilhão

 





Encruzilhadas, caminhos,

Beijos, pensamentos, olhares.

Estou deitada sobre meus cacos:

Tudo dói, nada é real.

Perdi o momento em que perdi seus olhos.

Perdi meus olhos sonhando você.

Estava acordada e imensa,

Intensa e profunda.

Desejo o desapego

(Ansiosa, bebo desespero)

Quero-o tudo e não consigo dizer nada

É um turbilhão:

Tenho medo de acordar 

Mas, não estou dormindo.

Quero-o entre minhas mãos,

Mas receio que pretenda voar.

Estou deitada sobre meus cacos:

E, por isso, tenho ganas de chorar.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Fins de tardes

 





Não tenho as cores de um verso.

Por vezes, aproximo-me das cores do céu:

Laranja-avermelhado de paixões

Que invadem meu corpo-substantivo

Permeando-me de adjetivos.

Palavras tantas que me perco:

Derramo sussurros intensos

Com poucos significados literais,

Mas profundamente sinceros

Porque traduzem lampejos de vida,

Lampejos de luzes,

Entregas de prazer e poesia.

A arte colore céus em fins de tarde

E eu sofro de aquarelas em suas mãos.

domingo, 22 de maio de 2022

Véu de nuvens

 






Habitam os céus, os sonhos de toda gente,

As preces feitas em prantos,

As vozes em glórias e festas.

Habitam os céus, os sussurros dos que amam

E sob os olhos dos que ousam,

Rasgam-se as nuvens em rara beleza:

Selam-se destinos, lábios e corpos

Escrevem nas peles seus segredos

Só o luar prateado entende os olhos noturnos

Pois é neles a sua morada

E só deles nascem desafios e promessas.

Habitam os céus, os suspiros dos poetas

E rasgam-se na terra o ventre-verso,

Verbo apaixonado por ela,

A lua cintilante

Que hoje se esconde sob seu véu de nuvens,

Mas povoa pensamentos.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Fugas

 



Foges de mim

Quando a data é marcada.

Foges de mim 

Se o encontro é inesperado.

Foges de mim 

Esquivando-se em versos.

Foges de mim

Em letras de canções.

Aqui sou eu e meu quarto 

E as horas passam

E as sombras ficam

Cada vez mais escuras 

E longas pelo chão

Nesse jogo de luzes 

Que entra pela janelas e pelas frestas

E foges de mim 

Pois não sabes o que fazer

Com o tanto de ventania que eu sou 

Foges de mim

Porque teme os incêndios

Que tu mesmo provocaste

Foges porque antes caçava

Agora, temes que a presa seja caçadora

Foges porque sabes que o limite é pouco

Que a noite não basta

E que não sabes se aguenta

Atravessar tanta estrada

Que leva ao que queres

E evitas. És um filhote

Mas ruges como leão

Não o temo. Enfrento.

E tu foges...

quarta-feira, 9 de março de 2022

Justa posição

 





Quanto a mim, tomo decisões sensatas.

Atendo ligações, respondo cartas,

Adio meus medos e bebo coragem.

É preciso estar atenta ao tempo,

Aos sinais: sei que não é a hora.

Talvez eu saiba que a hora nunca vai chegar

Mas isso é outra história.

Estou tranquila e um pouco daquilo:

Resiliente ...

Palavra bonita, calada, pensativa...

Tanto que me incomoda.

Mas, estou tranquila e um bocado inquieta

Folheando livros e cadernos,

Escrevendo cartas ou poemas

É que me perco nas palavras

E não sei se estou lhe respondendo

Ou me expondo.

Escrevo.

Leia e decida: carta ou poema?

Estou tranquila.

terça-feira, 8 de março de 2022

Noites




Dentro de mim é noite
(E você faz morada).
É que o imagino noturno,
Escuro, pouca voz, muita imensidão.
Há também uma mansidão selvagem
De fera que caça, mas se entrega
E eis que ouço o mar
(Mesmo habitando montanhas).
É que o imagino profundo,
Salgado, pouca calmaria, muita intensidade.
Há aqui fora uma noite
E ela é maior que a minha 
E as duas se encaram
E desistem da luta: coexistem
Porque sabem que também sou noite
E eu as pertenço e as engulo
E as aceito e reinvento
É que me imagino sua
E embora seus olhos sejam sois,
É nas noites que cabemos mais.

segunda-feira, 7 de março de 2022

O som do sorriso

 





Qual o som da sua voz?

Nos recônditos de minha memória,

Entre ruínas e escombros 

Não o encontro.

Sequer em altares ou cofres

Está guardada a sua voz.

Por que não me recita um verso?

Por que não me canta uma canção?

Ainda ontem, vi seu sorriso manso,

De canto, quase tímido, lindo!

E ouvi o seu som que me chamava

Ouvi seu sorriso brando 

Como o sol de outono

E ele me conduzia

Obedeci

E sonhei com nossos dias 

domingo, 6 de março de 2022

Mergulho

 



 


Penso alto. 

Os pensamentos soam como palavras.

Não sei se alguém escuta.

Planejo alto. Vôos de papel.

Barcos de papel: viagens breves.

Dessas que faço embaixo do chuveiro,

Dessas que guardo dentro do travesseiro.

Mas tenho medo.

Medo de ser um barco à deriva

E esse rio parece tão selvagem...

Como a moça que parece cavalgar com o vento.

Eu tenho medo do Rio...

Da impetuosidade da correnteza

E, então, as invento calmaria.

Calculo estrelas e rotas

E falho. Miseravelmente.

Eram os planos.

Eu já sabia dos erros!

Mas não planejar me paralisa

E eu preciso seguir o curso do Rio.

Ele me convida ao movimento.

Planejo o mergulho



 

sábado, 5 de março de 2022

Sabor das palavras

 








Cada vez mais gosto do sabor das palavras.

De como posso articula-las e desnortear os seus sentidos

Ou de como posso açucarar meus pedidos

Ou apimentar seus desejos.

Tudo depende, claro, de minhas escolhas,

De meus pesos e medidas

E de como vou servi-las aos seus ouvidos

E, a essa altura, minha dúvida é:

Sussurros ou gemidos?

Por aqui, entendo de temperos

E cada vez mais apuro o paladar

E extraio nuaces diferentes 

De cada sabor, de cada palavra

sexta-feira, 4 de março de 2022

Ousadias

 






Em verdes manhãs, colhi amoras

E com elas pintei meus lábios

Para dizer seu nome ao vento

(Parte do que sou).

Contei as horas do verão

Espreguiçando no tempo

Enquanto corria feito tempestade

(Outra parte do que sou).

Adormeci como quem tem paz.

E sonhei com seus olhos,

Suas mãos e seus cheiros

(Aquilo do que desejo fazer parte).

Não o alcancei nem o tive nas mãos.

Não me disse palavra nem verso.

Deixou-me ali: com seus castanhos.

Olhos fixos, macios, profundos.

Um convite ao mergulho.

Acordei como musa sendo observada:

Em despertar leve e cintilante

E quis ventar meus sonhos até você

Para que colha ardentes desejos

No lugar que semeou vontades



quinta-feira, 3 de março de 2022

Exercício de Abandono

 





Aos poucos vou guardando (quase) tudo.

Criando caixas de memórias.

Há as promessas não cumpridas,

Os desejos que me confessou

(E que permanecem distantes),

E as distâncias - nunca encurtadas.

Vou guardando tudo o que me disse

Os vinhos ainda fechados

E as noites que não acendemos

(É que sempre imaginei noites-fogueiras ao seu lado).

Vou guardando saudades do cheiro que inventei,

A voz pouco ouvida,

A vida desistida.

Porque embora eu seja feita de tempos,

Às vezes, também sou abandonos

E guardar tudo isso é um exercício:

Um abandono de esperanças



quarta-feira, 2 de março de 2022

Margens

 





Há entre nós um rio

De águas correntes,

De um asfalto quente,

De distâncias imensas

E somos as margens.

Há o céu de me cobrir de azuis

Para que eu me esqueça da espera, 

Para que eu me desfaça em tempestade,

Para que seus lábios me alcancem.

Quero, nesse rio, ultrapassar a beira,

Navegar seus braços e pernas,

Mergulhar segredos e cantos

Quero, nesse rio, descobrir-me mar

Dar-lhe um búzio para se guardar

E fazer de nós um talismã.

Quero a delicadeza das chegadas 

 Vagarosas correntezas,

Preguiçosas manhãs

Tempo parado no ar.



 


terça-feira, 1 de março de 2022

Antes da Vida







Ela vai se extinguir 
Como a chama da vela.
E assim como o ar me encheu dela,
Será com a entrega do suspiro
O último, derradeiro, que serei o nada.
Ela vai findar
Como um livro lido
Alguns grifos, dobras, nomes
Um tanto de histórias
E talvez fique na estante:
Fotografia-memória.
Mas eu não tenho medo do fim da vida.
Não receio falar o nome da morte.
Mas, aqui no fundo, tenho medo
Medo de morrer antes da vida acabar
Antes de eu fechar os olhos, sem ar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Fotografia do silêncio

 


(Foto: Rafael Bouças)



Fotografaram seu silêncio

Sua concentração

Sua entrega

Sua imersão

O que tinha nas mãos não aparece

Só seu olhar vago

Sua falta de palavras

Sua imensidão diante do tempo

E eu queria ser a dona daquelas lentes

Queria ter captado aquele momento,

Aquele instante em que, no mundo,

Só havia você, seu silêncio, sua luz.

E olho daqui, da janela, admirada

Imaginando o que seu silêncio dizia

domingo, 16 de janeiro de 2022

O tempo e a hora

 




Aceita que o tempo lhe atravessa

E arranca de suas entranhas

Sentimentos, afetos e lembranças.

Aceita que o tempo é vento gelado

E corta seu rosto e sulca rugas.

Aceita que o tempo é brando e morno

E aquece seu peito cheio de saudades.

Aceita que o tempo passa em seu ritmo

Que ele é seu fiel amigo

Que só ele embala seu ser.

Aceita que o tempo te deu a vida

E que ele também a levará

Não importam os caminhos que andar.

O tempo, só ele, cura e acalma,

Aquieta e serena.

Só o tempo lhe sabe e lhe cabe

O resto é ilusão

sábado, 15 de janeiro de 2022

Das longas horas

 


 

Às vezes, o tempo parece suspenso.

E parecem suspensas minhas alegrias,

Contando horas, engolindo rotinas.

Bebendo lentamente o vinho bom

Que em outras horas bebemos juntos.

É um afogar de saudades

Enquanto elas não morrem em abraços.

É um suspiro, uma música,

Mais uma poesia...

E a semana se arrasta...

Sigo à sua espera.

 

 

 



sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Estação nova

 

 



Se aqui dentro é inverno,

Sua chegada faz verão.

E a cada novo gesto

Suas palavras dão bênçãos.

Escuta bem o que digo

E mais ainda o que emudeço:

Acolhe desejos e planos,

Ensina, educa e edifica

Quando o tudo parece perdido.

Enquanto sou rosa dos ventos

Girando, um pouco perdida,

Faz-se bússola de meu Norte

E aponta meus pés para os caminhos.

Logo ali, paralelas se cruzam.

Logo ali, as mãos seguirão juntas


 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

À guisa de presente

 

 



 

(Natal de 2021, para o poeta que me presenteia com seus versos quase todos os dias)

 

 

Na falta do que dizer, poema.

Na falta de presente, verso.

Poderia eu ser melhor com as palavras,

Encaixar rimas, conjurar encantamentos

Ou, a essa hora, ser passageira,

Mais uma dúzia de palavras

Entre as outras tantas centenas

Amontoadas no canto dos seus ouvidos.

Nesses dias de festa, muito barulho,

Pouca pausa, muito afeto.

Perco-me na breve reticência que sou.

Devia contentar-me a ser vírgula,

Um respiro ou outro,

Sem grandes extensões,

Quieta em minhas distâncias.

Mas meus vermelhos, inquietos,

Asseguram-me de não esquecer,

De inventar prosa sem motivo,

Só pra ver o poeta falar.

Acho que sou boa nisso:

Quebrar seus silêncios

E me deleitar

 

(O que seria de mim sem sua poesia?)