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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Aceite






Por quanto tempo viveste entre as brumas,
Sonhando estar entre rendas e plumas?
Tu que atravessaste penas, dura,
Na labuta diária de esconder-te
De outros, sim! Mas, antes de ti...
Tumultuados dias em teus próprios labirintos,
Penosos ritos de libertação e autocura.
E eis que o espelho encara-te
E afundas em tuas movediças areias
Atravessas teu íntimo e (quase) renasces:
Aceita-te e viverás de levezas.
Não sem dores, mas, com verdades.
Aceita-te e esqueça-te de quem foras
O que és é demasiado melhor.

terça-feira, 23 de junho de 2020

X - A Foice




É chegada a derradeira hora:
A dor, o pranto, o fim.
Não que colecione lágrimas,
Não que mereça as dores,
Mas, por lhe caber o novo,
Cresça através da poda.
Abra mão de seu lugar comum,
Aceite quebrantar-se
E receba um mosaico de novidades.
Expandir os olhares,
Acolher as mensagens,
Transformar-se.
A foice não é o fim.
É o processo.
Colha!

sábado, 20 de junho de 2020

VII - A Serpente




Palavras sutis e disfarces,
Mal-me-quer, mas, bem-me-engana.
Sussuros, segredos,
Entredentes, ardis.
O perigo espreita,
O bote se arma.
Quais segredos seu lado escuro guarda?
De quantas sombras é feita sua noite?
Afasta-se da língua que fere,
Do olho que cobiça,
Da mão que domina.
Recolha-se em si
E aprenda a renascer
Em um outro dia
Em solidão.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

V - A Árvore




Do teu passado, semente,
Firmam tuas ancestralidades, família.
Prende-me ao chão, raízes da razão,
Sem que eu me esqueça de outrora,
Sem que eu desonre a tradição,
Mas, que eu saiba crescer
Com as podas da vida,
Que os cortes doam, mas, libertem.
Que o novo (re)nasça em mim
Para a elevação,
Para a transformação,
A vitalidade do ser.

domingo, 19 de janeiro de 2020

A Catedral, a Força, o Tempo





Éramos, nessa vida, desconhecidas. De sua cidade-raiz eu ouvira o nome através de uma morna, de Cesária. Évora. Nenhuma relação entre as duas, além do nome, eu sei, mas era um eco antigo, guardado em algum canto de mim.
Évora. Florbela. Poesia. Uma relação mais estreita, de fato, mas, nada me levava a você diretamente até o momento em que subi aquela rua cheia de livrarias e cafés e artesanatos, fugindo de sensações tão intensas quanto diferentes sobre um passado que sempre estudei e que, em certa medida, agora era presente.
Eu jamais saberei descrever sua força, Sé Catedral de Évora.
Dentro de suas paredes grossas, suas artes tão antigas, seu jogo de luz e sombra, fazendo o tempo parar, esmagando toda e qualquer forma de se mensura-lo. Impondo sua existência. Arrancando lágrimas inexplicáveis e copiosas, como se fosse um reencontro com saudades ressentidas, mas com o mesmo orgulho explícito de ambos lados: forças diferentes, teimosas e resistentes, viscerais.
Da Catedral que me impactou, admiro sua força atemporal e tenho saudades de ver sua beleza nessa vida, tão grandiosa quanto em outras tantas.
Do tempo que para entre aquelas paredes, carrego ecos.
Da força que nos permeia, faço exercício de resistência.
De tudo isso sinto saudades, mas, não sei em que medidas.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Compasso



No passo do dia,
Sigo o compasso que posso
Ponta seca, fixa, em conhecidas paisagens e vias,
Pouco desafio distâncias, viajando apenas no que ouço.
Tenho pressa e conto as horas:
Diversão rotineira de quem desconhece o sono.
Sou paciente e coleciono suas auroras
Enfeito os dedos com os anéis de Cronos
E se me sobram esses círculos de Saturno
São suas mãos que desejo como órbitas.
A vida é pequeno sopro que parece diuturno,
Miragem de noites órficas?
Talvez sejamos apenas as nuvens que passam
Ou os vermelhos gritos inconformados.
Prefiro pensar que sou as escolhas que me extravasam
A fuga constante dos padrões formatados.
Mas, se rodei e não sai dos círculos, aproximação do que é perfeito
Se, caminhante ou navegante, experimento o vão e o são
Volto ao compasso que me leva e desenha a rota no peito:

É tudo aquilo que é concêntrico que me fortalece e expande a paixão.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Caminhada


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Descaminhos




E em meio àquela estrada não nos reconhecemos
Nos perdemos
E naqueles caminhos nossos pés se separaram
Se afastaram

Os pés caminhantes chegaram à encruzilhada
As dúvidas dilacerantes tomaram conta dos seres
E só serviram para complicar a caminhada
Embolar todos os saberes

Qual seria o próximo passo?
Voltar, chamar, gritar, pensar?
Amar… e deixar ir, deixar voar…

Quem tem asas e aprendeu a usa-las nunca mais quer saber de chão
E o melhor jeito de mostrar que ama é deixar livre o coração
Voa passarinho, descobre o céu, mas seu serei repouso se quiser voltar.