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domingo, 1 de dezembro de 2019

Escalada



À quantas anda tua loucura, 
Tua vontade escancarada,
Convertida em atos de paixão?
Ontem ela escalou paredes
Só pensando "ses" e "senões"
E trocaria tudo pela única certeza:
Aquela que mora nos corpos que se amam.
À quantas andam teus passos
No rumo do concreto,
Esforça-te e faz ou espera absorto?
Ontem à noite ela fez poesia,
Cantou e dançou à sua espera
E, de novo, escalou... pensamentos.
As vontades dela são explícitas:
Penduradas nas paredes,
Quadros de aquarela
E as suas, onde estão?

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Compasso



No passo do dia,
Sigo o compasso que posso
Ponta seca, fixa, em conhecidas paisagens e vias,
Pouco desafio distâncias, viajando apenas no que ouço.
Tenho pressa e conto as horas:
Diversão rotineira de quem desconhece o sono.
Sou paciente e coleciono suas auroras
Enfeito os dedos com os anéis de Cronos
E se me sobram esses círculos de Saturno
São suas mãos que desejo como órbitas.
A vida é pequeno sopro que parece diuturno,
Miragem de noites órficas?
Talvez sejamos apenas as nuvens que passam
Ou os vermelhos gritos inconformados.
Prefiro pensar que sou as escolhas que me extravasam
A fuga constante dos padrões formatados.
Mas, se rodei e não sai dos círculos, aproximação do que é perfeito
Se, caminhante ou navegante, experimento o vão e o são
Volto ao compasso que me leva e desenha a rota no peito:

É tudo aquilo que é concêntrico que me fortalece e expande a paixão.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Serpente



Era uma serpente, cheia de curvas,
Dona de veneno que entorpece, deixa a vista turva.
Deslizando sobre a cama,
Mais parecia lenha a alimentar uma chama.
Ornada com prata e batom,
Realizar desejos era seu dom.
Por entre travesseiros e sonhos pairava
Ignorando por completo que juízos desvaira.
E eu quando arrasto correntes, ela é cada um dos elos,
E se me atrevo poeta, ela está nos versos mais belos.
Ela é uma serpente e me tira o ar
É ímã que prende meu olhar.
Sou o alvo no qual a flecha de seus olhos crava,
Mas não me enxerga, a parva!
Não sabe a força que tem dentro de si
E repousa ali, mansa, delicada colibri.
Parece flor em manhã, orvalhada
Parece inocente, assim, deitada.
Talvez a seja, escultura branca, serva de Vestal
E seja apenas minha essa versão do pecado original.
Mas eu beijaria aqueles lábios vermelhos de maçã madura
E nenhuma pena (de Títio, Tântalo ou Sísifo) me seria dura,
Pois as dores sumiriam na lembrança pouca
Do dia em que experimentei aquela boca.


sábado, 9 de julho de 2016

Ameninou-se






Ameninou-se em plena flor da idade. De repente, era menina de pés descalços andando pelo jardim e prestes a fazer uma descoberta. E fez... Colheu a flor-sorriso que lhe foi dada naquele fim de primavera.
Era, na verdade, o fim de duas primaveras: a sua mesma e a daquela porção de terra entre os trópicos.
Fincava de vez o pé na adultice, raízes necessária (?), naquele mundo cercado por filas e bancos e contas a pagar e relógios desesperados pelo tempo a passar. E já não tinha esperança alguma de remoçar, embora fosse muito jovem. Conservava uma alma antiga. De muitos séculos passados, talvez.
Fincava o pé no tempo e no espaço que queria, que acreditava que seria o melhor, mais maduro e saboroso como fruta no pé.
Fixava-se ao chão, abandonando o mundo da lua, as poeiras de astros que colecionava e os sonhos (de princesa) que pareciam simples e bobos.
A adultice exige abandonos que nem sempre gostaríamos de fazer, mas quase sem opções, ela os fez.
Tentava não pensar em nada que não fosse prático e funcional. Era adulta. Muito mais que antes, até. Mas quis o destino, com seus atalhos e desvios, ensinar que os planos são como aviões de papel, sem rota, e, por capricho, ao fim do dia, o sagrado momento do inesperado diante dos olhos aconteceu.
Ameninou-se!
Diante do sorriso nunca visto senão em sonhos, ela teve as pernas encolhidas, as certezas diminuídas e voltou a morar na lua, rodopiando na ponta dos pés.
Ameninou-se e voltou a girar com o vento, a gostar das andanças sem rumo, a ser leve. Ameninou-se como se jamais tivera passado para o mundo dos adultos e deixado sua criança interior dormir. Ameninou-se e voltou a ter seu riso de menina, os olhos brilhantes.
Creu em promessas, escreveu histórias. Amou inocentemente. Era, de novo, menina. A partir daquele momento nunca mais voltaria a ser gente grande. Quando se amenina, não há volta. É Terra do Nunca para sempre!