À quantas anda tua loucura, Tua vontade escancarada, Convertida em atos de paixão? Ontem ela escalou paredes Só pensando "ses" e "senões" E trocaria tudo pela única certeza: Aquela que mora nos corpos que se amam. À quantas andam teus passos No rumo do concreto, Esforça-te e faz ou espera absorto? Ontem à noite ela fez poesia, Cantou e dançou à sua espera E, de novo, escalou... pensamentos. As vontades dela são explícitas: Penduradas nas paredes, Quadros de aquarela E as suas, onde estão?
Na tarde
quente de segunda-feira ele estava ali parado, assustado, tremendo, coração
acelerado e, nos olhos, um quase terror, especialmente por me ver tão perto.
O pequeno
beija-flor conseguia ser menor que minha mão e não ofereceu resistência aos
meus dedos que o envolveram sutilmente, esperançosos de que o cuidado lhe caísse
bem.
Ao segurar o
filhote, que ainda não descobriu o poder de suas asas e a grandeza de sua existência,
embora aparentemente pequena se considerada apenas suas dimensões, lembrei-me
do título de um filme francês: A Delicadeza do Amor.
Como era
delicado aquele pedaço de amor da natureza que eu segurava na palma da mão... e
como era frágil e exigia cuidado. Um cuidado tão especial e, ao mesmo tempo,
simples, que eu não sabia se poderia dar.
E, olhando de
perto, toda aquela fragilidade em vida parecia um espelho: ali, com o coração
aos pulos, assustado diante do inesperado desconhecido que poderia cuidar ou encerrar
aquele sopro. Era como se eu estivesse me vendo: com todos os medos, com todos
os telhados de vidro, com todas as chances de abrir as asas e saltar pelos
precipícios, mas sem saber, ao certo, como fazê-lo.
No meio da tarde
segurei um fio de vida que sempre admirei em beleza e vitalidade e, no meio da
tarde, percebi que sou, na verdade, tal qual o passarinho: um ser alado, que
precisa de pausas. Um ser leve que pousa, mas que tem no peito inquietações tão
vitais quanto o ar. Tenho um coração de todo o mundo, como todo mundo.
Ameninou-se em
plena flor da idade. De repente, era menina de pés descalços andando pelo
jardim e prestes a fazer uma descoberta. E fez... Colheu a flor-sorriso que lhe
foi dada naquele fim de primavera.
Era, na
verdade, o fim de duas primaveras: a sua mesma e a daquela porção de terra
entre os trópicos.
Fincava de vez
o pé na adultice, raízes necessária (?), naquele mundo cercado por filas e
bancos e contas a pagar e relógios desesperados pelo tempo a passar. E já não
tinha esperança alguma de remoçar, embora fosse muito jovem. Conservava uma alma
antiga. De muitos séculos passados, talvez.
Fincava o pé
no tempo e no espaço que queria, que acreditava que seria o melhor, mais maduro
e saboroso como fruta no pé.
Fixava-se ao
chão, abandonando o mundo da lua, as poeiras de astros que colecionava e os
sonhos (de princesa) que pareciam simples e bobos.
A adultice
exige abandonos que nem sempre gostaríamos de fazer, mas quase sem opções, ela
os fez.
Tentava não
pensar em nada que não fosse prático e funcional. Era adulta. Muito mais que
antes, até. Mas quis o destino, com seus atalhos e desvios, ensinar que os
planos são como aviões de papel, sem rota, e, por capricho, ao fim do dia, o
sagrado momento do inesperado diante dos olhos aconteceu.
Ameninou-se!
Diante do
sorriso nunca visto senão em sonhos, ela teve as pernas encolhidas, as certezas
diminuídas e voltou a morar na lua, rodopiando na ponta dos pés.
Ameninou-se e
voltou a girar com o vento, a gostar das andanças sem rumo, a ser leve. Ameninou-se
como se jamais tivera passado para o mundo dos adultos e deixado sua criança
interior dormir. Ameninou-se e voltou a ter seu riso de menina, os olhos
brilhantes.
Creu em
promessas, escreveu histórias. Amou inocentemente. Era, de novo, menina. A partir
daquele momento nunca mais voltaria a ser gente grande. Quando se amenina, não
há volta. É Terra do Nunca para sempre!
Comecei a organizar os
textos que escrevo para não me perder no meio de tantas palavras.
Percebi que tenho temas bem
próximos, alguns repetidos, mas o que mais me chamou a atenção foi a facilidade
com a qual nomeei uma das séries: “sobre o amor e as suas sutilezas”… lindo! Delicado
e tão próximo do que é mesmo o amor: uma variação de sutilezas!
Decidi escrever um texto
específico com esse título, pensando nessas sutilezas e só consegui pensar em
uma pessoa: minha mãe. Então, para ela, um texto simples, cheio de sutilezas e
amor!
Sobre o Amor e suas Sutilezas
(Para ler e depois ouvir
Linha do Horizonte – Azymute, uma das músicas preferidas de minha mãe e minha
por herança…)
Então lá na década de 80,
precisamente em 1984, ela, um moça com seus 19 anos tem um bebê e se torna a minha
mãe. Ela não sabia mas naquele dia 20 de novembro ela tinha perdido o seu nome
(Edna) para ser chamada pra sempre de “mãe”.
E assim se fez. Virou mãe e
cumpriu com louvor a sua tarefa de educar uma menina meio quietinha, meio
voltada para seus livros, que crescia e queria mudar o mundo, que achava muita
coisa estranha e falava tudo o que pensava.
Hoje, olhando para essa
estrada que dura 26 anos percebo o quanto minha mãe, Edna, soube me mostrar
todas as sutilezas que podem envolver o amor.
É nessa madrugada quente,
insone e ainda com o cheiro da chuva que caiu sobre as terras cariocas por todo
o dia que os meus olhos se enchem d’água quando percebo que se hoje eu sei o que
é o amor é por conta dela, que todos os dias demonstrava como a vida era, com
suas dificuldades, mas sem desanimar e mostrando que quando se ama tudo fica
mais fácil.
Para além de eu amar minha mãe
só porque ela é minha mãe – e disso ninguém escapa – eu a amo por tudo o que ela
é, e experimento nela as várias formas de amor.
Aprendi com ela que o amor é
incondicional, que é forte, que supera desafios, que consegue romper as
dificuldades.
Muitos anos depois entendi que
o amor é sacrifício. É abrir mão de um ou dois ou muitos sonhos para ver o
sonho do outro realizado. E eu que pensava que isso fosse uma espécie de
autonegação, entendo que é amor: porque às vezes amamos tanto que só queremos o
bem e a felicidade de quem amamos.
Vi que o amor é apoiar
projetos malucos de uma filha que de repente cisma que vai estudar numa escola que
nem sabe onde é; que é achar esquisito alguém que se forme em História, mas
apoiar cada etapa de um vestibular.
É ir no quarto de madrugada
levar um chá e recomendar um cochilo quando vê a filha se matando de estudar,
imersa numa insônia que dura semanas.
É ir no quarto, mesmo quando
o seu bebê tem mais de 20 anos pra cobri-lo em noite de inverno.
O amor é dizer não na hora
certa. Vai ouvir uns resmungos, umas birras, tolerar uma tromba maior que a de
um elefante, mas vai ver que lá na frente o não valeu a pena e trouxe mais
valores do que ela imaginava.
Amar é cantar MPB para as
crianças. É colocar bandinhas dos anos 70 pra tocar nas festinhas de aniversário
dos filhos, ver que eles se divertem e gostam daquilo e que os coleguinhas
fazem cara de paisagem… e… é ver que dias depois todo mundo sabe quem é Beatles,
The Zombies, Abba.
Uma sutileza do amor é
assistir filme de romance enrolada nas cobertas com a filha e chorar litros.
Um presente é poder levar a
filha para a maternidade e ganhar um neto no dia do aniversário!
O amor é escrever uma carta
de despedida para ir morar em outro estado… é usar Djavan para explicar o que
se sente, para mostrar que “amar é um deserto e seus temores”, mas que tudo na
vida só faz sentido porque só se sabe “viver se for por você”.
Aprendi com minha mãe que se
ama os amigos como irmãos que não se tem, e muito mais, porque esses são
escolhidos por nós: fazem parte de nossas vidas, de nossas histórias porque
permitimos, porque, de fato, os aceitamos como são e isso é amar!
Por fim, aprendi com minha mãe
que amar é assumir muitas responsabilidades, mas é ter o coração pequenininho e
mesmo assim fazer de conta que está tudo bem. É não mostrar o medo, porque alguém
tem que ser forte nessa casa! É só contar que teve medo depois que tudo já
passou…
Amar é deixar voar. É ter
olhos saudosos por antecipação frente ao vôo dos filhos, que exploram outros céus,
mas sempre voltam pro ninho…
Se tem alguma coisa sutil e
intensa é o amor de minha mãe, que recebi, que sinto e que espero, de verdade,
saber mostrar para o meu filho.
...um espaço onde sem nenhum compromisso com nada além dos meus sentimentos e impressões vou colocando as palavras ordenadamente no papel... Quando começo não sei onde vou parar. Escrevo a primeira palavra e as outras vêm na sequência, como se tivessem vida própria!
Edylane é Edylane (ou Dy) desde 20 de novembro de 1984. Mineira, de Juiz de Fora, historiadora (UFJF), especialista em gestão de Patrimônio Cultural (Instituto Metodista Granbery), mestra em Educação (UFF), consultora em Patrimônio Cultural e pesquisas de campo sobre impactos culturais, ganhadora do Prêmio Amigo do Patrimônio (FUNALFA/2016), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora (IHG/JF), poeta, bailarina e mãe de Heitor. No caminho das palavras desde 2011, já escreveu para a Revista Biografia (2011-2017), Revista Replicante (México), site Ser ou Não Sei. Publica em vários zines do Rio de Janeiro e Minas. Venceu o I e II Concurso Nacional de Literatura de Belford Roxo (2018 e 2019).