quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Grão de Amor
Às vezes o amor pode ser comparado a uma ampulheta, especialmente se não ousamos. Somos capazes de ver os grãos de amor se esvaindo lentamente na ampulheta de nossa vida, atônitos, covardes, temerosos. Às vezes, o amor que era grande vai diminuindo, primeiro devagar, depois a queda aumenta a velocidade. Se conseguirmos notar isso antes que os grãos acabem, podemos tentar virar a ampulheta e ver o amor grande outra vez. Com sorte separaremos todas as nossas forças e nos esforçaremos para que ele não se esvaia mais. O problema está em só vê-lo cair. Em adotar a postura de simplesmente ver a banda passar. Aí, meu caro, não vai ter jeito. Terá pra sempre a certeza de que alguns amores são lindos, mas nunca vividos. Terá pra sempre que conviver com o 'era uma vez' que não foi.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Braços de Rio
Fiz de meus
versos barcos
Que navegam firmes em teus braços:
Esses braços de rios,
Águas serenas que me circundam como uma ilha,
Águas claras que me mostram tua transparência,
Águas abundantes que nunca hão de secar.
Agora sei o que é a tua companhia.
Agora sei o que é beber em ti, de ti,
Minha fonte de delícias,
De leite, mel e sonhos de tantas luas.
Agora sei que pela firmeza de meu barco,
Pela coragem de minhas palavras,
Pela liberdade de rumo que elas tomam em teus braços,
Nunca saberei o que é a solidão,
Porque és a minha fonte transbordante.
Que navegam firmes em teus braços:
Esses braços de rios,
Águas serenas que me circundam como uma ilha,
Águas claras que me mostram tua transparência,
Águas abundantes que nunca hão de secar.
Agora sei o que é a tua companhia.
Agora sei o que é beber em ti, de ti,
Minha fonte de delícias,
De leite, mel e sonhos de tantas luas.
Agora sei que pela firmeza de meu barco,
Pela coragem de minhas palavras,
Pela liberdade de rumo que elas tomam em teus braços,
Nunca saberei o que é a solidão,
Porque és a minha fonte transbordante.
sábado, 28 de setembro de 2013
Inconformada
Como quem nunca se acostuma com o que vê, ela
não se acostumava em ver as pessoas dizerem que sentiam saudades de quem estava
longe. Essa era uma lógica que não fazia o menor sentido para ela.
E também não achava a saudade triste, como
alguns diziam. Para ela, a saudade era coisa boa. Na verdade era uma “dorzinha
gostosa” que apertava o peito de vez em quando.
Sobre a saudade dizia-se ser uma inconformada
e, de tanto ouvir que a saudade era tristeza, um dia ousou dizer aos quatro
ventos o quanto a sua saudade era diferente das dos outros:
– Nunca senti saudade de quem estivesse longe
de mim, de quem, por algum motivo, tenha simplesmente passado por minha vida.
Só senti, e sinto, saudade de quem está perto, tão perto que chega a ser dentro
de mim, dentro do meu coração. Daí a minha lógica irracional: sinto saudade de
quem já passou por mim e agora não fica mais longe, mas que mora dentro. E isso
enche a minha alma e me faz sorrir em meio às lágrimas de cristal-saudoso.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Lapso de Tempo
Foi um lapso do tempo,
Um piscar de olhos
Um vento brando:
A solidão desfez-se em espuma,
Voou na luz da tarde quente de quase primavera.
A conta-gotas, contando passos, ele veio.
O sentimento não mediu espaços,
Não mediu o tempo,
Não desfez os laços
E nem os fez.
Caiu como areia na ampulheta.
Rasgou o corpo, serpentou por toda veia
Desembocou no coração.
Jogou pela janela a razão.
Tremeu terras, coloriu os céus.
Deu asas para os sorrisos,
Fez verão na contramão.
Perde-se o rumo, perde-se o prumo,
Perde-se a noção.
Acelera o relógio e para o tempo:
Faz da eternidade um suspiro,
Mora na alma e muda-se para perto de um rio.
Leva a alma, salva, calma,
Ainda que cause arrepio.
Vaga no ar, na noite, no dia,
Pisca o olho e encerra a monocromia.
Concentra-se nas cores,
Nos sons do dia.
Acorda do sonho e a cabeça rodopia:
Tudo aconteceu num bater de ponteiros,
Num passar de segundo,
Na rota entre eu e a gota de orvalho que caia.
Tudo passou em breve tempo,
Breve espaço,
Breve raiar de euforia.
Era o lapso do tempo que já se despedia.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Positividade
Na flor da idade, a vida em flor, olhando as
flores pelos jardins que se espalhavam pela cidade, aos vinte e poucos anos
vivia em plena primavera.
Experimentava as delícias dessa estação como se
jamais fosse chegar ao outono ou ao inverno.
Planejava, no máximo, seus verões, tão quentes
quanto a temperatura em meios aos seus lençóis cúmplices. Quentes como os seus
sonhos de muitas noites de verão. Quentes como versos de Hilda Hilst, lidos na
companhia de vinhos e carícias de igual teor de força, de calor, uma equidade
rara, muitas vezes incompreendida por quem apenas olhava pela janela. Uma
homogeneidade que por ser incompleta, se completava.
Caminhava assim em sua primavera. Ah, a flor da
idade... era um poema de Drummond, era um quadro de Van Gogh. Era vida, viva,
plena. Uma vida repleta de desejos cintilantes que lhe pulsavam na carne. Possuía
olhos descobridores. Entregava-se com uma nau à deriva pelos mares de
surpresas, vagando pelas ilhas de novos sentimentos e sensações, transformando-se
em terras nunca desbravadas só pelo prazer de sentir-se (re)descobrindo-se a
si.
Tinha o privilégio de caminhar sob um céu tão
azul que chegava a enjoar. E sob ele sonhava sonhos de outros céus. Outros
caminhos, outras portas. Dessas portas que se encolhem, como se fosse possível
experimentar o líquido mágico de Alice e encolher. Desejava ficar do tamanho
microscópico. Desejava ser minúsculo em carne e osso, mas grande em essência,
conhecimento. Diminuir para aumentar de tamanho deveria ser uma boa teoria:
pelo menos não era a mesma usada por
todos os outros.
Mas em toda primavera, há tardes chuvosas. As flores
precisam de água. A água salva. A água lava. Água límpida e transparente. De sal,
de suor, de lágrimas. E um céu nublado. Que parecia anunciar maus agouros. Parecia
fim. Parecia fim de estrada, fim de romance, fim de férias, fim de domingo. Um fim
desses dolorosos. Desesperançoso. Triste fim, quase como o de Policarpo, com
uma dose muito maior de drama. Era drama real, talvez. era um drama.
Era um fim. Mas os fins costumam ser anunciados
de modo triste, em aura carregada, num ar pesado como chumbo que não se adapta
bem nas narinas e esse fim vinha embrulhado. Era um papel tão branco. Podia ser
um evangelho qualquer. E era. Só não havia sido lido como deveria.
No meio da primavera, a chuva. Uma tempestade. Reviravoltas.
Cristais no chão. Diamantes perdidos no tempo e no espaço como se o final feliz
pra sempre terminasse ali, diante dos olhos embotados.
Pelos olhos transbordantes corriam cachoeiras
de revolta, medo, raiva, tristeza, desespero, insegurança e solidão. Fez um oco
no meio do peito. Arrancaram-lhe parte da seiva essencial para a vida. Ceifaram-lhe
a cor dos dias. E tudo passou a ser branco. Um branco quase fúnebre. Porque o
negro era denso demais pra ser sentido. O branco era tudo o que lhe caia bem: branco
do papel, da paz que perdera naquele momento, dos sonhos esmorecidos, das
desistências corajosamente tomadas em atos covardes. O branco que preencheu o
vão entre o que era e o que queria. O branco dos questionamentos, das
interrogações, das dúvidas e da eterna pergunta: e o amanhã, virá?
Como gigante fragilizado quedou-se de joelhos e
perdeu-se em pensamentos, orações – Deus há de ouvir a prece dos corações
partidos – e dormiu. Em seus sonhos tão reais quanto podiam parecer, fugiu. Foi
pairar debaixo de outro céu, mas da mesma cor de antes. Não adiantou. O branco
do papel sempre o perseguia, dessa vez, estampado nas nuvens do céu.
Restou-lhe só a redescoberta do branco: que
podia muito bem ser o início de vida nova, de nova estação. Uma pausa na
primavera, uma poda, uma reflexão um pouco mais severa do que para os outros
mortais, mas vestida da única certeza que temos nessa vida: o pra sempre,
sempre tem o seu fim. E colorir o caminho está nas suas mãos, sob o controle de
suas escolhas e cores. O branco do papel que antes era terror, fez-se tela
nova, para novas possibilidades e novos caminhos, novas intensidades e a
certeza de que revelações fortes só surgem diante dos olhos que são capazes de
ver a positividade como ela é: oportunidade de se viver mais e melhor,
consciente de sua busca.
Escolhas
Para Dante Scola e Alessandra Ferreira
Faço minhas escolhas todos os dias. (In)felizmente vai além do
vestido e do sapato e da bolsa. Vai além da fragrância do perfume e da cor do
batom.
São escolhas dessas que nos acompanham pelo resto da vida. Que trazem consigo a dúvida das outras tantas possibilidades do que poderia ter sido, mas eu as aceito.
São escolhas dessas que nos acompanham pelo resto da vida. Que trazem consigo a dúvida das outras tantas possibilidades do que poderia ter sido, mas eu as aceito.
Aceito as minhas escolhas e toda a carga que elas me trazem.
Aceito beber das poucas gotas do mel que escorre do canto de seus lábios.
Aceito fechar os olhos e me imaginar sorvendo-o direto da fonte. Aceito sem
reclamar as migalhas que me sobram, não porque me contento com pouco, mas
porque até os cães que se alimentam das migalhas de seus senhores lhes são
fieis. E eu, pelas escolhas que fiz, pelas escolhas que faço, escolhi ser fiel,
muito mais ao medo do que à coragem, confesso, mas escolhi. E carrego o peso
dessa escolha todos os dias. E acho o fardo leve. Principalmente quando ele se
reflete no seu riso tão branco, tão limpo, tão sincero, tão próximo e tão meu,
mesmo não o sendo tanto quanto eu gostaria.
Eu não posso escolher ser imune aos sofrimentos, ninguém pode. Mas
que esses sofrimentos me sejam doces é um esforço que preciso fazer tão certo
como respirar. Que o espinho que me crava a alma seja, pelo menos, banhado em
sândalo.
Eu aceito as escolhas e todos os seus doridos frutos. Eu aceito
as minhas escolhas e toda sorte de marcas que ela vai me deixar e as exibo com
certo orgulho, já que refletem a minha força em seguir adiante. Trago na pele
as letras de cada escolha que fiz como se eu mesma fosse uma folha de papel em
branco e as letras que me cobrem são escritas pelas minhas próprias mãos, por
minha própria vontade, porque fiz delas minhas criaturas. Criei cada vírgula do
texto que me recobre a pele. Eu sou as minhas escolhas, assim como as minhas
escolhas são partes inexoráveis de minha própria carne.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Ávida
Na ausência do rosto, o nome.
Na falta do nome, o sonho.
Queimando no sonho, o desejo.
Desejo da noite chegar,
De me perder pela lua,
De ter as estrelas nos olhos,
De ter o mar sob meus pés
E de não me conter.
De na me caber em mim,
De extrapolar, enfim,
O que carrego nas voltas do meu coração.
O que atrapalha e atropelo meus pensamentos.
Que me faz mais leve que o vento,
Que me dá mais voltas que um labirinto,
O que me faz cada vez mais, mais...
Ávida.
Ávida pelo fio-condutor
Ávida pela ciência de ser-te,
Saber-te, conhecer-te
Aqui e a sós,
Desembolar teus nós, em nós, nos lençóis.
Ávida por ter-te.
Tu que és sem ser.
sábado, 14 de setembro de 2013
Trem
Com o embalo do trem ela
havia pegado no sono. Sua figura apresentava uma beleza quase marmórea não
fossem tantas cores, não fossem os leves solavancos que dava, acompanhando o
movimento férreo.
O pescoço esguio,
longilíneo, ficava todo à mostra quando o lenço de seda que ela usava
esvoaçava, bailando com o vento quase úmido. As linhas retas de seu pescoço e
ombro faziam um leve ângulo, sustentando a cabeça, cachoeira da qual escorriam
madeixas castanhas, levemente onduladas nas pontas. Era um ângulo convidativo
aos beijos de minha boca de expectador.
Imersa em seu sono
apoiava-se na janela. Eu, do outro lado do corredor, a observava atento, quase
encantado. Ameacei atravessar o vagão e sentar-me ao seu lado, só para saciar a
minha curiosidade de ares pueris: ela passava-me a impressão de exalar perfume
de fruta fresca ou de rosas. Eu quase podia sentir aquele frescor que saia de
minha imaginação.
No meio da tarde o trem
estava sendo tocado pelo sol que a iluminava e a deixava especialmente atraente
aos meus olhos. O contraste entre o amarelo-pálido-brilhante dos raios macios
que atravessavam a janela com os seus cabelos era fascinante.
Os lábios tinham a cor de
um Carménère, vermelho-rubi, cuidadosamente pintados, aflorando desejos de se
experimentar o sabor intenso e equilibrado de frutas vermelhas e café. Desejei aquela
boca como a uma taça de vinho, com vontades loucas de sorver cada gota que ela
derramaria.
Entreabertos como um
relicário, os lábios deixavam à mostra dentes tão brancos quanto pérolas recém recolhidas
de um mar de segredos. Eram marfins muito firmes, enfileirados como teclas de
um piano que mesmo em silêncio soavam uma toada leve aos meus ouvidos e eu me
entontecia.
Abandonei meu lugar. Na iminência
de ter alguém ao lado dela, voei baixo e pousei no assento vago à sua esquerda.
Hipnotizado, não ousei desviar os olhos daquela
quase-Vênus-de-carne-e-osso-e-charme.
Ela dormia profundamente e
suspirava. Não podia imaginar que eu a admirava, observando-a a tanto tempo.
Minha estação se
aproximava. Ela não acordava. Mas e se acordasse, o que eu faria? Desviaria o
olhar e só. Busquei encher-me daquela presença e mergulhar em minhas fantasias
contemplativas antes que a perdesse de vista para um nunca mais qualquer.
Subitamente ela acordou e
olhou-me, atravessando com seus olhos de seta. Soltou um cumprimento meio
tímido, mas polido, embrulhado ricamente em um tom de voz que aveludava aquele
boa tarde. Tremi mesmo sabendo que aquela cordialidade era plástica, uma praxe
social.
Com ares tocados pela
distração e um leve não-saber-onde-se-estava ela olhou pela vidraça. Aquele par
de olhos da mesma cor que seus cabelos eram úmidos como uva fresca. E atentos. Logo
capturaram a localização e minha musa levantou em um passo ligeiro, mas quase
flutuante. Deu-me um sorriso liso e desceu na estação que havíamos acabado de
chegar.
Deslizando entre os tantos
passantes ela sumiu na multidão, levando consigo parte dos meus sonhos
ensolarados daquela tarde. Depois dela vieram as nuvens e o céu nunca mais foi
o mesmo.
Faxina
Entre salas e quartos,
Cozinhas, varadas,
Pratos, copos,
Roupas e poeiras,
Vassouras e pás,
Passou-se o dia:
Haja faxina!
Mas para toda rotina,
Para todo cotidiano,
Há a possibilidade de uma parada.
Entre as vagas do relógio,
Parava por dois minutos para sonhar:
O sábado morria preguiço.
O sol se escondia entre laranjas e lilases.
Na taça bebeu seus amores,
Brindou a noite que caia.
Respirou fundo...
E em meio a tantos afazeres,
Houve um tempo para se sentir alegria!
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Caos
Domino o caos dos meus pensamentos,
Organizo todas as ideias,
Aquieto meu coração
E sigo até o próximo sinal.
Até que me venhas quase inocente,
Até que me jogues em um turbilhão.
Então, respiro fundo e mergulho
Nesse mar abissal,
Provo do meu próprio sal.
Visito novamente o meu próprio caos.
E recomeço, e reconstruo, e reorganizo.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Poema do Amor sem Fim
No inverno seus olhos verdes
Vieram ao mundo.
Começava a estação fria mais quente de minha vida.
(O verde de seus olhos anteciparam a primavera)
Ah, olhos verdes, de ver-de-perto o meu amor!
Menino curioso, nasceu de olhos abertos
E assistiu a tudo:
Chegou no mundo para desbravá-lo.
Da boca aberta ouviu o choro,
Estreia triunfal de voz que mal canta,
Mas a todos ao redor encanta.
Aos pés pequeninos, sonhamos o melhor destino.
Para as mãos perdidas, meus dedos:
Segurança, proteção.
Do meu peito que parecia vazio, abrigo,
Alimento, acalanto, doação.
Da minha boca aos teus ouvidos, oração e canção:
O amor existe e se multiplica quando a gente se divide.
Em meus olhos castanhos, verão.
E eles verão os teus verdes
Verem de perto o verão que nos aquece.
Serão dias mais dourados pelos teus cabelos que pelo sol.
Mais ardentes por sua presença,
Mais quentes em seus abraços,
Mais infinitos pelo som de
tua voz.
domingo, 8 de setembro de 2013
Lonjuras
Entre você e eu, o mar
A ponte, o leme, o mapa.
Entre meu coração e o seu,
Dúvidas latitudinais me partem ao meio.
Não separo mais o perto e o longe.
Tornaram-se duas incógnitas:
Estar perto quando longe
E longe quando perto.
Entre você e eu, um mundo de inquietações.
Encolho-me entre minhas reticências,
Dobro todas as exclamações em questões,
Aprendi a gostar das curvas das interrogações.
Por trás de minhas lentes, escondo-me.
Mostro-me em linhas longitudinais:
Desfaço-me em versos lisos, soltos, debruçados
no papel.
Estendo-me remotamente pelos dias.
Entre você e eu, miragens.
Rumo em busca de um norte,
Tateando os pontos cardeais
De uma rosa que desabrocha no vento.
Não vejo sequer sombras.
E como se definhasse de sede,
Vejo em você um oásis,
Refúgio para meu peito aberto e cansado.
Entre você e eu, um presente.
Um equilibrista teimoso que nasceu do ontem,
Que é fruto de um passado lácteo, como a Via,
Com suas estrelas e nebulosas
(São todas distâncias férreas, anos-luz)
Somos igualmente distantes entre os que passam
E entre nós que trocamos passos.
Somos ao mesmo tempo contiguidade e solidão.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Invasor
Invade-me como a um país.
Acerta-me com seus olhares,
Como a seta chega ao alvo.
Toma-me como a terras
desconhecidas.
Habita-me.
Espalha-se por todos os cantos:
Da casa, da rua, do corpo.
Sorriso na estante, pôr do sol,
beijos.
Invade-me petulante.
Acampa em meus sonhos,
Rouba-me o sossego.
Coloniza-me com seus planos.
Ergue-se Babel e sugere me
levar ao céu.
Rasga-me ao meio e mais:
Abandona-me à própria sorte
E diz que voltará logo.
E volta. E recomeça.
E invade-me novamente.
E não resisto.
Entrego-me como o cordeiro ao
holocausto.
Como a virgem no altar.
Abro-me como semente na terra.
Rendo-me como prisioneira de
guerra.
Aceito o invasor como meu senhor.
domingo, 1 de setembro de 2013
Céu da Boca
Quero perder-me em seus braços,
abismada,
Buscando sair de mim.
Que saia de si!
Que se perca no balançar da
minha saia.
Quero ziguezaguear pelo espaço,
Correr pela lua,
Conhecer seus planetas,
Tirar-lhe da órbita.
Quero ser estrela.
Que habita o céu de sua boca.
sábado, 31 de agosto de 2013
Check-in como Autora
Desde que
eu me entendo por gente que gosto de livros. Desde que me entendi como
compradora de livros, eu tinha um sonho: ir à Bienal do Livro.
Morando
em Juiz de Fora, sendo professora e tendo medo de andar sozinha pelo Rio de
Janeiro, nunca tinha me aventurado pela feira. Em 2011 isso mudou.
Eu me
mudei para o Rio e meu primeiro compromisso fixado na agenda com grande
expectativa foi a Bienal. Em 2011 lá estava eu: ansiosa, feliz, cheia de gás! Visitei
a minha primeira Bienal!
Em 2013
eu realizei outro sonho: escrever um livro! Junto com meus companheiros de
mestrado entrei na seara dos escritores. Juntos construímos um livro sobre
políticas públicas em educação. Conseguimos unir nossas pesquisas e sonhos que
se materializou em uma capa lilás linda.
Não era
tudo. Nosso lançamento oficial foi marcado para a XVI Bienal do Livro do Rio!
30 de agosto de 2013! Uau! Sexta-feira à tarde. Quem estaria lá? Todos os
pobres mortais costumam trabalhar nesse dia e horário, inclusive os
pobres-mortais-autores! Tudo bem. Sonho é sonho. Vamos lá!
Fiz,
emocionada, meu check-in como autora. Sem filas. Recebi um aceno de cabeça da
recepcionista que me disse “bem-vinda-autora”, como um robô. Agradeci, sai
orgulhosa com o meu crachá – também lilás – pendurado no pescoço.
Andar
pelas ruas da Bienal rumo ao stand de
lançamento foi incrível. A cada passo eu sentia o sonho se concretizando até
que cheguei e peguei, pela primeira vez o MEU LIVRO!
Que
cheiro de livro novo é tudo-de-bom eu já sei faz tempo. A novidade é que o
cheiro do livro da gente é melhor: parece que gruda, que enche os olhos de
lágrimas, que te faz maior, a gente sai um pouco de si mesma.
Minha capa
era lilás, meu crachá, lilás, a flor que recebi era lilás. Nesse dia 30 de
agosto, lilás foi a cor do meu sonho realizado.
Rotina
Ultrapassei todos os horários.
Atrasada, não fui trabalhar.
Àquela hora e com o trânsito,
Melhor nem arriscar.
Voltei a dormir.
A cidade acordou cedo:
Trouxe-me cheiro de café.
Eu ali na cama...
A cidade berrava lá fora:
Buzinas, construções, gritaria.
Levantei abandonando os sonhos.
O sono ficou comigo o dia todo,
Entre bocejos e gracejos.
Findei o dia.
Calaram-se as buzinas,
As construções, a gritaria.
Calaram-se meus planos.
Vague pelo final da luz do dia.
Cansada dormi cedo.
Era a falta da rotina.
Ou o excesso dela
Embriagando minhas horas,
Convencendo-me a sentir falta
De toda a minha correria.














