Visitas da Dy

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Esferas da Vida






Ainda ontem, na madrugada,
Julguei-me só, em isolamento.
Ainda ontem, em desalento,
Tinha certeza de ser apenas fragmentos.
Mãos trêmulas, sem forças,
Sem saber como escrever
As linhas da vida.
Mas, as linhas da vida, magníficas,
Estão em minhas mãos!
Cabe a mim, então, compreender ciclos,
A esfera do viver.
E saber-me parte desse ritmo:
Sou cada gota desse universo
Que habita meu peito.
Sou cada vibração dessa magia
Que é o despertar de si para o mundo.
Se recolho-me agora em outono
É para desabrochar em primaveras.
Tudo é um ciclo.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Cou-de-pied







(*Cou-de-pied, francês, peito do pé, terminologia usada no ballet)

Tenho o peito nos pés:
Vivo amores de bailarina.
Se me doem os caminhos tortos,
Em leveza os transformo.
Meu coração pulsa em passos,
Sofre com seus calos,
Molda-se aos cetins e fitas.
O belo que se vê
Nem sempre é o que é:
Mente a dor, esconde a cicatriz
Reverbera exuberância
E o esplendor de viver.
Tenho a magia da bailarina.
Tenho no peito do pé
O amor traduzido:
Dança e movimento,
Expansão da alma desmedida.



terça-feira, 5 de maio de 2020

Travesseiro




O corpo cansado da lida.
A alma quase cansada da vida.
Um suspiro mais fundo que o oceano
E doce como vinho alentejano.
Despi-me do vestido de estampa florida
E fiquei de minha forma preferida:
Cedendo ao convite baconiano,
Sem compromissos ou planos.
Pele quente e aveludada,
Levemente de vermelho rendada.
Contraste e complemento da lua:
Sou toda minha e empresto-me sua.
E num descompasso rítmico
Rompo a cadência anunciada
Jogo-me na magia de seu beijo alquímico
E declaro-me entregue, captulada:
Queria nessa noite de cansaço
Fazer um travesseiro  em seu braço.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Metamorfoses




Dentro de cada um, um universo
Com constelações nos olhos,
Que brilham ao ver o amor chegar.
Se em tempos de não te ver
A alegria se encolhe
É para que possa crescer
E expandir nos céus de nossas bocas,
Misturando estrelas e sonhos
Quando o tempo voltar a correr.
Não apresse o relógio.
Não pule pela janela.
Acalme-se e amadureça:
Em tempos difíceis 
Aprendemos a enxergar a beleza.
É a metamorfose da vida:
A dialética do ser.


domingo, 3 de maio de 2020

Quantas Luas?






Aconchego-me na curva da lua crescente,
Como é crescente o meu amor.
Escorro-me por todos os lados
Dessa fatia risonha de céu.
Balanço-me na preguiça de sua espera
Com pernas de bailarina inquieta
Ensaiando acrobacias no ar.
É um exercício de equilíbrio
E limites:
Se se demora a lua se enche
E caio. Não de amores,
Mas, de angústias
Por não saber os porquês,
Por não conhecer seus quereres.
Cuidado ao me deixar cair
Posso não saber voar
Ou posso voar para mais longe.

sábado, 2 de maio de 2020

Une étape à la fois...




Contei as luas:
Eram tantos desejos perdidos
Que elas se desafaziam.
Cantei cantigas de terras distantes,
De uma vida antiga,
Mas ainda pulsante
E senti saudades de morar no silêncio,
De a voz do vento,
De viajar os céus em raios secos,
Sem tempestades, só energia.
Uma energia tão grande
Que se joga do céu à terra
E brilha.
Meus cantares são louvores às horas, 
Essas medidas desamparadas
Que nos encolhem e acolhem
Porque elas nos ensinam
Que é preciso um ritmo,
Um passo de cada vez...

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Ratos





Ratos abandonam o barco.
Esbravejam cobras e lagartos
E esquecem-se que não sabem nadar.
Atearam fogo em suas tocas,
E não sabem lidar com as explosões.
São o mal. Fazem o mal.
Cairão, mas, não todos.
Seu fedor ainda ficará impregnado
Nas madeiras da embarcação
Tão jovem e tão carcomida.
Ah, minha nau preferida,
Em pouco mais de 500 anos
Acabaram com você...
Mas, juntos, curaremos suas feridas
Ou, pelo menos, tentaremos.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Caçada




Selvagem, forte, arredia.
Livre, vigorosa, bravia.
Em noites de lua cheia, uivo,
Corro, afio minhas unhas em suas costas,
Unhas negras de caçadora.

Mas, quando a lua diminui,
Às vezes, encolho, choro e quero canto
De solidão, de ninar, de seu leito.
Queria ser a caça que levou pra casa
E fartou-se a noite inteira.

Queria, em todas as luas, 
Seu cheiro, seu corpo, suas histórias
Deitar meu caos ao pé de seu ouvido
Adormecer de um cansaço lento
Que mescla sua presença real e em sonho
E só se diferencia pelo gosto de seus lábios
Que mora nos meus à noite 
E se renova nas manhãs 
Com bons dias de lírio e verbena
Ao redor de minha cintura.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Recriações




Claro, como algo intangível,
Penso que te amo.
E faz parte do enigma da vida
Não saber como e quando chegaste,
Tampouco a que vieste.
De certo, não chorei por ti,
Talvez, de emoção, pela lua, pela voz,
Pelas minhas flores que colheste 
Tão delicadamente entre os dedos.
E, nos meus sonhos, tu me amas
E és meu no intervalo de tempo
Preciso em que pousas em meu ventre.
Mas, a noite está febril e não durmo
E não sonho e hoje não tive seu amor,
Então, crio modos de tê-lo:
Fecho os olhos para vê-lo
E encontro-o dentro de mim
Como se por magia pudesse ter entrado.
Como se meus arrepios por ti
Tivessem sido causados.

domingo, 26 de abril de 2020

Do Mistério de Amanhecer





E, seja qual for o tempo
Quantas batidas o relógio der,
Quantas saudades o peito guardar,
Tens o dom do mistério de amanhecer:
Basta que chegues e o sol brilha,
A névoa se dissipa
E os olhos se enchem de alegria.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Sofá Amarelo




Da fresta da porta do quarto
Entrevejo o sofá amarelo,
Almofadas vermelhas, vinho.
Minhas penas cruzadas sobre o veludo
A vitrola sem data com música antiga
E seu tapete me convidando à entrega.
Ainda nem saiu do trabalho
E já estou à sua espera.
Vou bagunçar a sua estante
E debruçar em sua janela
Gosto de ver as estrelas
Que me traz na ponta de seus dedos.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Chuva de Verão




No encontro definitivo dos corpos
Entremeados de mãos e carícias,
Beijos e lampejos completam-se em si.
Pouco importa a estação.
Pouco importa o tempo.
Entre amores e aromas
Chove pelo corpo inteiro.
Chove uma chuva de Verão
Quente, repentina, intensa
Que passa e marca
Deixa saudade com gosto de desejo.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Renascer




Ao acordar você renasce:
É a possibilidade de ser melhor,
Maior e mais humano.
É a possibilidade de transformar,
De amar, de contagiar
A todos com positividade.
A decisão é sua:
Repetir ou renascer de verdade?
Eis a questão.

domingo, 22 de março de 2020

Olho Mágico



O destino foi traçado
Nas linhas, nas palmas das mãos.
Vem de berço, do passado,
Do ventre ancestral sagrado,
Mas, pouco sabe do ser vivente:
O que importa não é o que se carrega,
É o saber tocar.
É ter tato. 
É ter a sensibilidade
De quem tem um olho mágico
Na palma da mão.
E olhos mágicos nunca se fecham:
São oniscientes.
Tudo sabem, tudo sentem.
Expressão máxima da arte: amor.

sábado, 21 de março de 2020

Porto






Ali, deitada, sou ilha
Guardiã de afluentes
Que deságuam em mares sem nomes,
Que desperdiçam-se enquanto não matam sedes.
Ali, deitada, sou ilha
No meio que caminho 
Que julgou conhecer,
Mas, perdido, não sabe se vai ou fica,
Se adentra ou volta.
O que o impede de enveredar-se?
Ali, deitada, sou ilha
Deixe de ser barco à deriva
Aporte-se.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Violetas e Céus

(Foto de Saulo Otoni, gentilmente cedida.
Juiz de Fora, quase tempestade, em 05/02/2020)

Quando me chamas de calmaria e me vestes de azul,
Oscilo entre o que tens e o que desejas.
Tens a mim como uma paisagem na janela:
Linda e limitada, mas, sabes ser um engano.
E, hoje, lhe ensino a liberdade:
Mudo minhas cores, risco teus céus:
De cima a baixo cravo minhas unhas reluzentes
Marco tua carne com os vermelhos que me apetecem.
Nos céus de tua boca, deixo meu sabor.
Nos céus diante de teus olhos,
Violetamente lhe causo espanto:
Minhas tempestades encantam e desesperam
Chegam fortes e imponentes 
Como a mulher que cavalga as noites.
E se dissipam como a culpa dos penitentes
E é lá, ladeira abaixo, 
Que seus pecados ficam
Ou moram: fixados na cruz
(A que carregas ou a que adoras, 
A mim não importa)
Porque entre o teu e o meu ser
Tudo cabe e tem sentido.
Por isso tens-me calmaria, mas,
Admiras mesmo o brilho de meus olhos
Refletindo tempestades.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Emancipação




Eu sei que parecia que havia me domesticado,
Limitado a paisagem à sua janela.
Mas, tenho pensamentos de furacão,
E de meus olhos saem faíscas reluzentes,
Que fulminam seus pensamentos à meia-noite.
Mas, ainda é dia e precisa se acostumar
Com a cor violeta que o céu vestiu:
Hoje desconheço limites.
Hoje não lamento o que você perde,
Não ouço mais o que diz em prece.
Mas, lá no fundo, sou o que deseja:
Liberdade, passageiro noturno, sem pudores,
Sem rancores, sem planos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Pernas e lençois



Eu bem sei das curvas em que derrapas,
Das estradas que percorres
Todas as vezes que buscas o céu.
Porque é aqui, no meu canto noite,
Que gostas de deitar
Que permites a embriaguez
E fazes sóis nascerem entre pernas e lençóis.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Raiz




Eu sei das lonjuras todas:
As das estradas e as do tempo.
Eu sei dos entraves todos:
A falta de impulso,
O pseudo-excesso de querência.
E, à essa altura de sua existência,
Permita-se fechar os meus olhos,
(Com a ponta de seus dedos 
Ou embrulhando-os em um beijo) 
E ver-se como eu o vejo.
Já estamos muito longe e é tão tarde!
Quanta vida ainda demora
Para chegar cantando versos de outrora?
Permita-me que me canse da espera
Que eu emudeça só por um instante,
que me conforme com a sorte
De não recebe-lo no portão.
Há um leve amargo iluminado de poesia  no silêncio,
E sua raiz é divina.
Permita-me confessar medos
Que tornam as lonjuras maiores
E, se puder, acaricia-me a face
Deixando-me desfeita em seu encanto.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Semeadura na Crescente



Marca o céu negro
Como se fosse um sorriso.
Como meus dentes brancos
Mordendo uma carne preta:
Contrastes e saciedades,
Cada um da maneira como pode.
E é tudo silencioso
Como essa crescente 
E como tudo o que cresce,
Sem alardes, sem pressa,
Só aumentando.
Gastando as palavras que eram poucas
E que se expandem com os dias,
Como se expande meu peito
Quando respira o seu cheiro.
Palavras poucas e setas
No alvo desesperado que é meu coração
Que repica ao som de sua voz
Que estremece ao toque sutil
Das pontas que me reserva:
Dos dedos, da língua, do Arpoador.
E arrasto madrugadas e horas
À espera do algoz e salvador
De quem vai ao mesmo tempo
Ser luz dos olhos
E ofuscar sentidos.
E eu preciso que venha.
E eu preciso que chegue logo
Validando o jogo de cartas da semana passada,
Dando razão ao oráculo,
Suplantando minha pouca fé
Matando-me vontades,
Semeando-me desejos.