Visitas da Dy

terça-feira, 28 de abril de 2020

Caçada




Selvagem, forte, arredia.
Livre, vigorosa, bravia.
Em noites de lua cheia, uivo,
Corro, afio minhas unhas em suas costas,
Unhas negras de caçadora.

Mas, quando a lua diminui,
Às vezes, encolho, choro e quero canto
De solidão, de ninar, de seu leito.
Queria ser a caça que levou pra casa
E fartou-se a noite inteira.

Queria, em todas as luas, 
Seu cheiro, seu corpo, suas histórias
Deitar meu caos ao pé de seu ouvido
Adormecer de um cansaço lento
Que mescla sua presença real e em sonho
E só se diferencia pelo gosto de seus lábios
Que mora nos meus à noite 
E se renova nas manhãs 
Com bons dias de lírio e verbena
Ao redor de minha cintura.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Recriações




Claro, como algo intangível,
Penso que te amo.
E faz parte do enigma da vida
Não saber como e quando chegaste,
Tampouco a que vieste.
De certo, não chorei por ti,
Talvez, de emoção, pela lua, pela voz,
Pelas minhas flores que colheste 
Tão delicadamente entre os dedos.
E, nos meus sonhos, tu me amas
E és meu no intervalo de tempo
Preciso em que pousas em meu ventre.
Mas, a noite está febril e não durmo
E não sonho e hoje não tive seu amor,
Então, crio modos de tê-lo:
Fecho os olhos para vê-lo
E encontro-o dentro de mim
Como se por magia pudesse ter entrado.
Como se meus arrepios por ti
Tivessem sido causados.

domingo, 26 de abril de 2020

Do Mistério de Amanhecer





E, seja qual for o tempo
Quantas batidas o relógio der,
Quantas saudades o peito guardar,
Tens o dom do mistério de amanhecer:
Basta que chegues e o sol brilha,
A névoa se dissipa
E os olhos se enchem de alegria.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Sofá Amarelo




Da fresta da porta do quarto
Entrevejo o sofá amarelo,
Almofadas vermelhas, vinho.
Minhas penas cruzadas sobre o veludo
A vitrola sem data com música antiga
E seu tapete me convidando à entrega.
Ainda nem saiu do trabalho
E já estou à sua espera.
Vou bagunçar a sua estante
E debruçar em sua janela
Gosto de ver as estrelas
Que me traz na ponta de seus dedos.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Chuva de Verão




No encontro definitivo dos corpos
Entremeados de mãos e carícias,
Beijos e lampejos completam-se em si.
Pouco importa a estação.
Pouco importa o tempo.
Entre amores e aromas
Chove pelo corpo inteiro.
Chove uma chuva de Verão
Quente, repentina, intensa
Que passa e marca
Deixa saudade com gosto de desejo.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Renascer




Ao acordar você renasce:
É a possibilidade de ser melhor,
Maior e mais humano.
É a possibilidade de transformar,
De amar, de contagiar
A todos com positividade.
A decisão é sua:
Repetir ou renascer de verdade?
Eis a questão.

domingo, 22 de março de 2020

Olho Mágico



O destino foi traçado
Nas linhas, nas palmas das mãos.
Vem de berço, do passado,
Do ventre ancestral sagrado,
Mas, pouco sabe do ser vivente:
O que importa não é o que se carrega,
É o saber tocar.
É ter tato. 
É ter a sensibilidade
De quem tem um olho mágico
Na palma da mão.
E olhos mágicos nunca se fecham:
São oniscientes.
Tudo sabem, tudo sentem.
Expressão máxima da arte: amor.

sábado, 21 de março de 2020

Porto






Ali, deitada, sou ilha
Guardiã de afluentes
Que deságuam em mares sem nomes,
Que desperdiçam-se enquanto não matam sedes.
Ali, deitada, sou ilha
No meio que caminho 
Que julgou conhecer,
Mas, perdido, não sabe se vai ou fica,
Se adentra ou volta.
O que o impede de enveredar-se?
Ali, deitada, sou ilha
Deixe de ser barco à deriva
Aporte-se.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Violetas e Céus

(Foto de Saulo Otoni, gentilmente cedida.
Juiz de Fora, quase tempestade, em 05/02/2020)

Quando me chamas de calmaria e me vestes de azul,
Oscilo entre o que tens e o que desejas.
Tens a mim como uma paisagem na janela:
Linda e limitada, mas, sabes ser um engano.
E, hoje, lhe ensino a liberdade:
Mudo minhas cores, risco teus céus:
De cima a baixo cravo minhas unhas reluzentes
Marco tua carne com os vermelhos que me apetecem.
Nos céus de tua boca, deixo meu sabor.
Nos céus diante de teus olhos,
Violetamente lhe causo espanto:
Minhas tempestades encantam e desesperam
Chegam fortes e imponentes 
Como a mulher que cavalga as noites.
E se dissipam como a culpa dos penitentes
E é lá, ladeira abaixo, 
Que seus pecados ficam
Ou moram: fixados na cruz
(A que carregas ou a que adoras, 
A mim não importa)
Porque entre o teu e o meu ser
Tudo cabe e tem sentido.
Por isso tens-me calmaria, mas,
Admiras mesmo o brilho de meus olhos
Refletindo tempestades.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Emancipação




Eu sei que parecia que havia me domesticado,
Limitado a paisagem à sua janela.
Mas, tenho pensamentos de furacão,
E de meus olhos saem faíscas reluzentes,
Que fulminam seus pensamentos à meia-noite.
Mas, ainda é dia e precisa se acostumar
Com a cor violeta que o céu vestiu:
Hoje desconheço limites.
Hoje não lamento o que você perde,
Não ouço mais o que diz em prece.
Mas, lá no fundo, sou o que deseja:
Liberdade, passageiro noturno, sem pudores,
Sem rancores, sem planos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Pernas e lençois



Eu bem sei das curvas em que derrapas,
Das estradas que percorres
Todas as vezes que buscas o céu.
Porque é aqui, no meu canto noite,
Que gostas de deitar
Que permites a embriaguez
E fazes sóis nascerem entre pernas e lençóis.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Raiz




Eu sei das lonjuras todas:
As das estradas e as do tempo.
Eu sei dos entraves todos:
A falta de impulso,
O pseudo-excesso de querência.
E, à essa altura de sua existência,
Permita-se fechar os meus olhos,
(Com a ponta de seus dedos 
Ou embrulhando-os em um beijo) 
E ver-se como eu o vejo.
Já estamos muito longe e é tão tarde!
Quanta vida ainda demora
Para chegar cantando versos de outrora?
Permita-me que me canse da espera
Que eu emudeça só por um instante,
que me conforme com a sorte
De não recebe-lo no portão.
Há um leve amargo iluminado de poesia  no silêncio,
E sua raiz é divina.
Permita-me confessar medos
Que tornam as lonjuras maiores
E, se puder, acaricia-me a face
Deixando-me desfeita em seu encanto.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Semeadura na Crescente



Marca o céu negro
Como se fosse um sorriso.
Como meus dentes brancos
Mordendo uma carne preta:
Contrastes e saciedades,
Cada um da maneira como pode.
E é tudo silencioso
Como essa crescente 
E como tudo o que cresce,
Sem alardes, sem pressa,
Só aumentando.
Gastando as palavras que eram poucas
E que se expandem com os dias,
Como se expande meu peito
Quando respira o seu cheiro.
Palavras poucas e setas
No alvo desesperado que é meu coração
Que repica ao som de sua voz
Que estremece ao toque sutil
Das pontas que me reserva:
Dos dedos, da língua, do Arpoador.
E arrasto madrugadas e horas
À espera do algoz e salvador
De quem vai ao mesmo tempo
Ser luz dos olhos
E ofuscar sentidos.
E eu preciso que venha.
E eu preciso que chegue logo
Validando o jogo de cartas da semana passada,
Dando razão ao oráculo,
Suplantando minha pouca fé
Matando-me vontades,
Semeando-me desejos.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Breu




O breu, o preto, a noite,
A sombra, os olhos fechados,
A escuridão, a saudade,
O perfume distante, a memória ausente.
O eu sozinho no meio de si
Procurando por festa, procurando você,
Traçando estradas de concreto
E asfalto frio: a distância.
O exercício de não esquecer,
Abrir a caixinha das lembranças.
Iluminar a esperança sonolenta
Que lhe busca de rabo de olho
Espreitando o vazio da noite.
Será que do meu nome ainda se lembra?
Será que seus lábios o sabem?
Parece tudo normal. Menos a saudade.
S-a-u-d-a-d-e
Essa vizinha espaçosa que meu peito assola
Mas, no fundo se pergunta o porquê.
Nem ela sabe porque me escolheu por morada
Deve ser por gostar de seus olhos
Assim como eu. Assim, castanhos-breu.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O Tribunal e a Praça



Fotos: Detalhes do prédio do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Évora e Igreja de Santo Antão, na Praça do Giraldo


Sob o signo da cruz, o fogo, a dor, a língua afiada, o ranger de dentes,  tudo no meio do mundo, no meio da praça.
As paredes tão brancas de hoje não deixam vestígios do passado, mas os gritos ainda ecoam.
A pesada madeira do teto ainda é imponente e esmaga pensamentos e sufoca mesmo as celas sendo, agora, arejadas e livres de portas.
Mas, é na porta do gabinete-mor que a fechadura mais cruel ainda sobrevive e, olhar pra ela causa arrepios.
Da porta do antigo tribubal, o largo se abre e escorre pela rua na qual, ao final, a praça se estende. A igreja se lança rumo aos céus.
A fonte mais recente me acalma e sua água molha meu rosto com as lágrimas tão antigas quanto os desesperados infames ali acesos há séculos.
A praça é calmaria, mas, olhando bem, o silêncio nunca é pleno. Ele sussurra choros, preces, pragas e tem um estalar de brasas.
O gato preto me encara na quase meia-noite. O vinho me acompanha. É uma solidão ancestral de quem sabe que o destino está em uma poesia lá, do outro lado do oceano, próximo das raízes dessa vida, mas, que ainda não chegou.
O peso das paredes daquele tribunal ainda está sobre meus ombros. Encarar essa praça ainda dói, mas há um perdão no ar: a história me dá um respiro e uma coragem. Atravessei mares por ela. É preciso compreender o tempo.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Longanimidade



Tic... tac...
Badaladas. Doze. Zero. Tudo novo.
Dia novo. Hora nova.
Acabou o sonho que não veio?
Acabou o tempo da construção?
Quem é que sabe?
O bom deus de barbas brancas
Ou os bons deuses de peles negras?
Quem é o senhor do tempo?
Será ele de uma senhora?
Jamais saberemos.
E, por aqui, tudo é vento,
Tudo é lavado pela tempestade:
Meu corpo, meu rosto,
Meu pensamento,
Meu sentimento.
Enquanto isso
Silêncio
Chuva
Vinho
(Um pouco de)
Fé.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Boa Esperança




Meu sonho é o vinho prometido em sua taça.
Sou como bichinho sedento
E persistente
Se é findo o ano, dobro:
Faço a curva do Boa Esperança,
Visto-me de ouro, canela e marfim,
Café, cardamomo e flor de jasmim.
Não adianta adiar a música,
Mesmo em seu silêncio sou passo de dança:
Menina Colombina e você meu Arlequim,
Não importa se é fim de dezembro
Ou promessa de Janeiro
Espero. Conto o tempo. Paro o tempo,
Paro-raios, paro na lua e verso:
É a sua superfície que desejo o contorno
Com meus dedos e mãos e pernas,
Com todo meu breve tempo-eterno.





sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Caminhos II



Quero, dos teus braços,
O enlace perpétuo do amor.
De teu peito, o conforto noturno.
De tua boca, cantigas de bons dias.
Quero, da vida, o caminho único
Que cruza muitas histórias
E, entre elas, a tua e a minha.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Dove sei?



A julgar pelas vezes que, de súbito,
Em suspenso, surge em meus sonhos,
Já dispensa convites
E adentra-me os pensamentos.
Torna-te parte das noites,
Chave do cadeado de meus secretos.
E, em desperto, olho ao redor
Para ver se chegaste mesmo,
Mas, sempre estou a sonhar.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Alfama



Amanheci saudades
Da Alfama que caminhei,
Das horas antepassadas que respirei.
Das estreitas ruas de largas histórias,
De meus olhos imersos no tempo,
Um tempo que me envolvia.
Saudades da Alfama e seus caminhos,
Das distrações solares nas luminárias,
Do vento úmido do Tejo,
De cada descoberta e reviver
Como se já tivesse ouvido seus lamentos,
Como se o fado soasse ao meio-dia,
Como se fosse minha, toda minha aquela luz de melancolia,
Aqueles passos ecoantes no silêncio. 
Alfama, um dia ainda choro de alegria
Ao te reencontrar.