Visitas da Dy

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Asas






O que mais posso fazer eu com o papel,
Branca possibilidade soturna,
Quando encontro-me só, envolta em breu?
Não atrevi-me às preces noturnas
Fiz silêncio: asas dos sentimentos
E aqueci-me com meu próprio fogo.
Ainda assim, faltaram-me acalentos.
Parte de mim fazia um rogo:
Compreender o todo, redesenhar o infinito
Aceitar a fortuna, a escolha, a sorte.
Lembrar-me do pedido há muito escrito:
Haveria de ser de ternuras e forte
De ações rápidas e aconchego
Haveria de ser real e em tempo certo
De semear o caos e trazer sossego,
De ser como é o oásis para o deserto.
E eis que me encontro em paz e atordoada.
Eis que quero e não sei o atalho...
Sinto-me livre e acossada,
Com arrepios de orvalho.
Sinto que sou um terremoto.
Sinto que me perco em paradoxos.
Convém abandonar o silêncio devoto?

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Astronauta




 
Há um quê de espanto
Que salta de seus olhos
E semeiam em mim interrogações tantas
Que desassossegam o espírito.
Os traços de tua beleza
Riscam meu céu de certezas,
Causam parada brusca
E a luminosidade de teus olhos entontece,
De modo que me ofuscas.
Não há uma medida:
Se te olho ou te sinto,
O que és expande
(Para dentro e para fora)
Como uma galáxia luminosa,
Um universo inteiro,
Que eu gostaria de desbravar.

domingo, 6 de outubro de 2019

Assombros




Assombra-me a paisagem.
A falta que algo me faz,
Ainda que não saiba o quê,
Ainda que nunca o tenha tido.

Assombram-me as fendas que se abrem
Em meu peito fecundo
E pouco ou nada brota
Porque essa falta não deixa.

Assombram-me os arroios
Que me escorrem pelo rosto
E molham seu nome em meus lábios
Porque o quero sem saber como.

Assombra-me esse desejo
Que vem não sei de onde
E faz em mim morada
E toma-me de assalto e desnorteia.

Assombra-me a falta do saber,
A ave vespertina do querer-bem,
Meu passo dado em sua direção,
O não saber se me acolherá entre suas mãos.

sábado, 5 de outubro de 2019

Repentare*





*Repentare, do latim repente, "de súbito".

Isso que habita em mim,
Que preenche meu peito,
Está longe de ser calmaria.
É um sentimento marulhoso,
Que vem de longe e rebenta
Às margens de mim, entre as mãos,
Como se, de fato, eu pudesse tocar
O som, o gosto, a respiração, a sede.
É como dançar uma novidade,
Escrever poema antigo,
Gerado na ancestralidade.
É como se tudo fosse um repente:
O espanto, prender o ar, entontecer,
Entrar no mar escuro da noite,
Não ter frio e ainda assim tremer.
Isso que me habita é feroz
Como raios partindo o céu,
Como a bagunça de uma tempestade,
E meus olhos brilham
Como se refletidos em lâmina de espada
E meus lábios clamam
Como se ecoassem palavra encantada
E não há chegada que me contente
Nem partida que não me desconsole
Porque, de súbito, existo 
E todo o resto me toca e me comove.



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Adelantado




Abre-se um portal
E tu és desbravador:
Adentras!
Tens ares de euforia,
Tens o tato cuidadoso,
Tens a curiosidade adolescente,
Mas já és experiente:
Segue teus passos.
Embrenha-te em estreitos,
Cansa-te e bebes de fonte desconhecida,
Mas, fresca e abundante
E segue teus caminhos:
Por trás da fenda, um mundo.
Sinuosas curvas,
Vales de vegetação suave,
Montanhas para recostar
Até livrar-te de tua fadiga.
O caminho é longo
A jornada impõe seu ritmo
Tu, caminhante obediente,
Aceitas os desafios.
Vences ao final.
E o gozo é tanto
Que só quem ultrapassa limites conhece
É como o primeiro beijo
Roubado displicente:
Sacia e dá sede.
E, mesmo tendo cumprido teu caminho,
Retornas a andar:
Há sempre mais a descobrir.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Alice





Alice acreditava em impossíveis.
Eu acredito em poesia
E, em dias como hoje,
Que tenho um poema como despertador
Tudo o mais fica leve,
Tudo o mais me toca com suavidade
Tudo o mais ganha cor.
Não tem nenhuma Alice em meu espelho,
Mas uma mulher
De cabelos e batom vermelhos
Envolta em poesia de bons dias
E, por isso, hoje ela pode tudo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Tormenta



Versos riscam o papel,
Abandonam a caneta, insolentes,
Como os raios descem do céu,
Como se me partissem ao meio,
Como se fossem meus próprios fragmentos.
Mergulho em uma tormenta
(Como se fosse possível)
De uma forma tão suave quanto violenta
E lá estou às voltas com minhas questões
Com meus eus, meus ais, meus vãos
E cá estou, entrementes, um tanto perdida,
Um tanto envolvida, um tanto estremecia.
Há o direito de se perder em sentimentos?
Há o direito de se sentir?
Há o direito à dúvida e ao porvir?
Há um silêncio, um suspiro,
Uma morosidade dos sentidos.
Há uma vontade inquietante 
(de tormenta) 
Que me alimenta e mima
E eu sei dos perigos do abismo
E ainda assim ouso querer me jogar.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Do que nos é permitido



Foi, então, entre margens avermelhadas que me perdi em tantas questões quanto sonhos, vagando em círculos. Círculos! Onde toda potência está contida, onde habita toda força, toda energia, todo princípio de movimento.
Mas, ainda que imersa em um círculo de pensamentos eu estava estanque, refletida em algumas daquelas entrelinhas. Desejando algumas das linhas.
E ainda me era permitido sentir? Depois de tantos ecos, espelhos, vãos, versos soltos, planos de papel, muros intransponíveis, desistências, murros em ponta de faca, saudades infinitas afogadas em travesseiros, silêncios ou lágrimas, o cansaço me abate só porque me acostumei à morosidade do não-agir, num desperdício de vida.
Fiz-me, ousada, parte do que li, parte da coragem e muito da transgressão: se me cabem as rédeas e regras do que chamo de vida, cabe a mim também o querer, o mudar, o arriscar, o viver.
Talvez, foram necessárias margens vermelhas e quentes que me queimaram e inquietaram por algumas horas para que eu bebesse do entendimento: a liberdade do ser consiste em saber que tudo nos é permitido, só basta coragem e entrega.


sábado, 7 de setembro de 2019

Tempestade




Meu corpo se agita,
Estremece ao trovão que é sua voz.
Ela é o chamado,
A anunciação.
Fecho os olhos diante de sua claridade,
Tem um brilho próprio
Que me atormenta 
E acalma.
Diante desse paradoxo, precipito:
Sou, de corpo inteiro, uma tempestade
E molho seu corpo noite adentro
E causo arrepios
E lhe sacio quando está sedento.
Ainda assim, não me demoro.
Adormeço.
Tento ser calmaria em seu leito.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Existência



A poesia existe
E envolveu-me em seus braços.
Abrigou todo meu corpo
Num apertado abraço,
Segurando-me (forte) pela cintura
E tirando meus pés do chão.
A poesia foi-me sussurrada
Ao pé do ouvido
Como prece,
Como sentença
De atear fogo
E incendiou-me.
E queimei 
Mais do que todas as fogueiras
Porque meu fogo interior,
Minhas próprias chamas,
Eram muito maiores.
A poesia existe e tocou-me
A pele, os sentidos,
Como se fossem pontas dos dedos
Desbravadores de entrefolhas
De poesias outras, suaves,
Constantes, cadentes,
Mas, dessa vez, era mais rompante,
Era num repente,
Era mais necessária e visceral
Era a poesia reclamada
Como alívio
Como repouso
Como desejo
Como única e primeira saída
De alma humana em queda:
Era a salvação do corpo que queima
Ao mesmo tempo em que era brasa
Que o aquece e mantém vivo.
A poesia sufoca para dar ar.
A poesia existe
E desde que me tocou
Habita em mim.
Ouso dizer:
A poesia é vida.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Mordidas



Eu não sei de onde vens
Nem os caminhos que percorres
Tampouco imagino onde está a planta dos teus pés
E se teus sonhos se movem
Mas é aqui, sob os meus olhos
Que teus olhos se fecham
E teu corpo é entregue ao cansaço rotineiro
É aqui, semeado em mim,
Em cada canto-breu desse quarto
Que tua sombra se perde
Se mistura à pele, à roupa largada,
À madrugada, à quietude da alma.
É aqui dentro de mim que fazes tua morada
E se te quero mais junto, minha prenda,
É porque o silêncio é demais
E só o teu nome rompe essa urgência
De sussurrar absurdos e desvarios 
Como se fossem gritos,
Como cristais quebrando entre os dedos.
Eu não sei se vens ou se vais,
Mas, reviro as horas 
E vejo a noite a morder o dia
E são teus dentes a morder-me o juízo
Menos reais do que gostaria


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Corpo-texto





Tenho um corpo-poesia
Marcado por história,
Cicatrizes, estrias.
São as letras do tempo.
São os pontos finais que vivi.
As reticências dos abandonos
(Que cometi e sofri)
São os dois pontos que anunciam:
O novo, o porvir, o leitor.
Todo texto tem sua língua,
Sua trajetória, mística, encanto.
A todo texto cabe uma tradução,
Uma interpretação,
Uma aceitação.
Aceito-me corpo-texto
Lido, relido, marcado.
Aceito-me corpo-poema
Com muita rima,
Pouco assunto,
Inconsistências,
Intensidades.
Sem compromisso de forma,
Com o compromisso do verbo:
Ser
Fazer
Deixar-se ler.
Tenho um corpo-livro
E, às vezes, posso ficar em sua estante,
Mas, meu lugar favorito é entre suas mãos
E, depois de folheado,
Pousado em sua cabeceira,
Habitando sonhos,
Inspirando desejos.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Inspirações Ardentes





Tomar um vinho, 
morder uma maçã. 
Buscar o calor do corpo do outro, 
Exalando prazer, exercitando o amor.
À primeira vista, a primeira festa:
Embriaguez de fluídos.
Perder os sentidos,
Perder os vestidos,
Abandonar os pudores e os senhores,
Os vestígios de castidade:
Capitular ao gozo,
Ao deleite, ao insano mar de odores,
De gostos, do banquete canal,
Do ato de entrega primordial.
Erguer-se em delírios,
Afogar-se em desatinos.
Traduzir em palavras o instante sagrado
Em que os corpos desafiam a física:
Dois se tornam um (êxtase)
Para se abandonar e se reencontrar
Na cama ou nas lembranças,
No ato ou na poesia.
Eis aqui uma coleção de fogueiras,
Incêndios gramaticais
Que se desfilam ante os olhos
Mas é no íntimo que queimam,
Que ardem e traz à tona o rosto de quem nos satisfaz.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Mezza




Estou aqui
Simples silêncios
Olhos atentos
Palavras guardadas.
Estou aqui
Expectadora
Expectativas
Esperanças vencidas.
Estou aqui
Contando adeuses
Soletrando talvezes
Escorrendo pela ampulheta.
Estou aqui
Engolindo distâncias
Remoendo lembranças
Colecionando desalentos.
Estou aqui
Efêmera
Mezza


domingo, 1 de setembro de 2019

Outra via



Não sou sua ferida,
Mas sou de carne, viva.
Com o calor do sangue,
Com a cor dos desejos
E entre suas mãos,
Sou outra via,
Outra poesia.
Aquela que já recebeu escrita,
Mas que lê como lhe convém.
Entrelaçar de caminhos,
De mãos, de pernas, de sonhos
Cabe seu nome em meus lábios
Cabe seu verso em meu compasso,
Mas eu, que sou de impulsos,
Saberei ser seu ninho?
Saberá ser meu, passarinho?
Por sorte, o céu nos cabe em seu azul
Abriga-nos em seus entardeceres alaranjados
Seremos vagalumes.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Flor



Pousam em mim, os beijos, como borboletas:
Leves, coloridos, em buscas mais profundas.
Tocam-me os lábios e bebem minha sorte do dia:
Às vezes, auspícios, noutras, hospícios.
É que gosto de loucuras.
É que quebro certas regras.
É que meus versos são mais doces que os beijos,
Mais alados que as borboletas
E chegam onde quer que estejam
Seus ouvidos atentos.
Pousam-me, assim, outros versos
Muito além dos que invento.
Alguns me cabem
Parecem feitos pra mim.
Outros tantos me comovem,
Moram em mim com suas sensações matinais
E enchem-me de sorrisos e inspirações
De vermelhos em brancos lençóis
Ou de cores flutuantes no céu.
O fato é que me posam beijos e versos
E, às vezes, sinto-me flor.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Fio



O fio condutor
O fio da meada
O fio da navalha
O fio de sua língua
(A que escreve e a que fala)
Passando pelo meu corpo
Tirando a dúvida
Tirando o medo
Tirando o sangue
Tirando o desejo
(Os ocultos e os revelados)
E tudo isso banhado em suor e palavras
Explorando o léxico
Buscando nexo
Desvendando complexos
Um quase sexo
(Dos pensamentos e versos)
Eis que surge a salvação
O extravasar da inspiração
O escrever a emoção
O verbo com precisão
(Nasce o poema e o poeta)
E a carne sangra
O olho chora
A alma vibra
A vaidade evapora
(O desespero de quem escreve
É a calmaria de quem lê)
 fio condutor
O fio da meada
O fio da navalha
O fio de sua língua
(A que escreve e a que fala)
Passando pelo meu corpo
Tirando a dúvida
Tirando o medo
Tirando o sangue
Tirando o desejo
(Os ocultos e os revelados)
E tudo isso banhado em suor e palavras
Explorando o léxico
Buscando nexo
Desvendando complexos
Um quase sexo
(Dos pensamentos e versos)
Eis que surge a salvação
O extravasar da inspiração
O escrever a emoção
O verbo com precisão
(Nasce o poema e o poeta)
E a carne sangra
O olho chora
A alma vibra
A vaidade evapora
(O desespero de quem escreve
É a calmaria de quem lê)

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Grande encontro



Tocou-me o amor,
Desfiz-me em sinais.
Eis meus olhos, portas da alma, perdidos,
Sonhando acordados.
Ávidos na busca do ente amado,
Devassando meus segredos,
Devastando meu juízo.
Percorro cada canto do mundo,
E só encontro sossego
À sombra de sua presença.
É com o peito acelerado que percebo a vida,
Que bebo as cores do dia,
Que insisto em viver o amanhã:
Quiçá, será nele o grande encontro de nossos lábios.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Equinócio






Inebriada no meio da noite,
Com pensamentos noturnos
Tão impublicáveis quanto um Marquês de Sade,
Tão ardente quanto a fogueira de Ostara,
À espera da semeadura,
No exato instante da equidade do tempo,
Quando dia e noite não disputam,
Se entregam.
Inebriada em seus planos,
Buscando palavras,
Versando desejos,
Adormece donzela,
Mas tem sonhos de colheita,
De fruto maduro,
Mordida e sabor.
É o portal sagrado que atravessa e duvida:
Sonha seus desejos ou inventa histórias?
Aguarda a fogueira
E se queima quantas vezes for preciso
O que não pode é calar sua vontade
Capitula aos quereres

sábado, 24 de agosto de 2019

Xícara




Seja meu café nessa manhã
Assim, com todos os vapores,
Assim, com seus aromas e sabores,
Com esse castanho todo
Que quase ferve o corpo
Que aquece pensamentos
Sem adoçar
Trazendo doses de realidade
Mas com a energia vital
Que me percorre 
Que me habita
Que me inspira
Que me acalma
Que toca minha boca
Invade minhas narinas
E dá a certeza de um bom dia
Forte, intenso, encorpado
Necessário como um verso ao poeta
Preenchendo-me, xícara, por completo.