terça-feira, 14 de agosto de 2018
Transgressão
Foi assim. Quando menos esperei ele chegou e me fez parar. Não por ação. Não houve movimento. Só a existência. Só a presença.
Estanquei. Parei de respirar. Só o coração pulsava, descaradamente confuso, trocando o sangue nas veias, embaralhando os pensamentos. Acho que me perdi ao ser encontrada.
O fato é que, por ora, no trânsito da vida, aquele instante pareceu um engarrafamento: uma vontade de avançar com impedimentos. Quando o fluxo se restabeleceu, alguma coisa havia mudado. O rumo, a direção, o sentido.
Eu me sinto ainda perdida naquela tarde que parecia outono e sou esmagada pela vontade - que tive! - que ainda tenho, de transgredir a ordem do dia, de saltar na direção do meu descontrole, de dizer que eu sempre fui espera, mesmo quando nem sabia.
sábado, 9 de junho de 2018
Lirismo
Ao esforço da
literatura recaem meus lamentos e amores. Não os sonho muito mais do que um
piscar de olhos e um “só por hoje”. Aprendi que essa, quiçá, seja a breve
fórmula da felicidade: viver o hoje.
É um
exercício, de fato, que as horas não sejam contadas a longo prazo, apenas como
brevidades. Ora, vistas de olhos bem fechados, despertando sensações. Ora,
sonhadas de olhos bem abertos, atentos aos milagres da existência.
Aprendi que a
descrição, via poesia, torna tudo mais leve, mais completo. O viço de seu
sorriso só perde para o frescor de sua chegada. Assim como beber o castanho de
seus olhos me desperta bem mais do que qualquer café que eu coloque na xícara.
Não se tratam
de loucuras ou delírios febris. São apenas as formas poéticas de descrição
daquilo que coleciono nos dias: meus sonhos e quereres.
De certo,
faltam-me palavras às vezes. Faltam-me línguas escorregando por troncos
diferentes, em sentidos mais amplos do que posso compreender, para (d)escrever as sutilezas que me saltam ao
coração.
Percebo-me,
então, na condição eterna de aprendiz: por vezes alegre com as conquistas, mas
infeliz alma que nunca se sacia, porque o que se almeja nunca chegará à
completude.
Oh, sísifo
esforço! Nenhuma medieval dedicação lhe será suficiente aos sentidos tão seus e
próprios dos desejos que brotam à alma. Não há descanso nem durante as longas
noites em que mergulha nos véus de Salomé (se é que essa um dia os ostentou).
Não se
revelarão os segredos mais tolos, porque deles é o reino da imaginação, onde,
além de suas nuances, habitam os léxicos tantos que só arrisco na borda
transparente que contorna um sumo tinto e inebriante.
Não se
responderão minhas perguntas filosóficas, minhas expectativas ou conjecturas dignas
de uma Babel, porque não se traduz o que se sente senão por exageros e lirismo
e, uma vez tocado por esse encantamento, não poderão se descolorir em
realidade.
Contento-me no
esforço diário da escrita: cartas, versos, poesia e entrelinhas que, para além
de uma organização de palavras, são, sobretudo, uma tentativa de compreensão do
mundo e de sua existência longe da minha.
sexta-feira, 8 de junho de 2018
Estação Espera
Conto o tempo pela lua. Ela já virou desde a última
vez que lhe vi.
Era cheia de brilho, do meu afeto, do seu cheiro,
de minutos de nós, passageiros como a fase da lua, mas nossos.
Agora ela míngua. Definha suas saudades que eu coo
com um café. Filtro de vontades quentes, que me queimam a língua e repetem à
boca: não existem essas miragens minhas.
Fomos roubados pelo Tempo... Há um vau entre nossas
histórias que os pés não cruzam, não se deixam molhar pelo desconhecido.
Nunca estivemos tão empenhados em planos de papel,
sutilmente próximos-distantes,
estranhamente colocados em cenas que não nos cabem, se não, exercendo outros
papéis, mas a presença ainda é uma energia translúcida que me invade, alegra e
não aquece...
Sinto frio. Pouco respiro. Nunca tivemos tanto a
perder: o rumo, o tempo, a chance, o que poderia ser, o raio caindo na terra,
partindo (des)entendimentos, mas evita minhas tempestades (de areia, em copo
d'água, de verão) e desvia seu caminho, seu olhar, adia a-próxima-ção.
Fiz-me estação, espera. Estávamos nós caídos sob
nossos sonhos antigos? Estávamos incontestes
entre sorrisos não dados e vazios na estação à espera de que o medo dissipasse?
Ele não vai passar. Ele é o fixo desafio vital.
Acomodados, aguardamos que tudo nos viesse ao
próprio tempo, lento, como-deveria-ser e nos esquecemos de nós. Esqueci-me de
mim. Estanquei contando luas, como as nuvens que ardem até se precipitarem em
nossos olhos.
Sou a tempestade. A água escorre pelos meus olhos.
Rogo que alivie a seca de meu coração deserto de suas chegadas.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
O Sagrado e o Profano
Eu não mentiria se dissesse que gosto do momento em
que sou o alvo de seus olhos. Mesmo de relance, quando os pego em flagrante.
Mesmo sendo fato anunciado, presença que deflagra.
Porém, mais sagrado é o instante que precede a
ação. Espontâneo. Intrépido. Que bagunça seu meio-dia desenhando, de alguma
forma, minha presença em seu pensamento.
Esse indomável momento descuidado em que apareço e
alegro. Avivo. Será que chego a roubar um sorriso?
Esse é, de fato, o encanto, o sacro: quando, sem
que possa controlar, reino nos desertos pensamentos e, se não pareço dançar,
sou a música, o vento, a poesia e a pausa em que se lança sem preocupação.
Alheio tempo. Estanque hora.
Nesse instante em que não controla, sou mais livre
do que nunca. E existo só pelo seu bem querer. Só porque me pensa. Só porque me
credita um fio de seu dia.
Claro, se vem me ver, serei feliz, mas também
saberei de todas essas coisas: os passos são todos derivados do sagrado. Do
sagrado momento que invado seus pensamentos.
Mas que fique claro: quando me olha, minha pele tem
sensações profanas.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
Sempre posso parar
Eu sempre posso parar, afirmo diante das lembranças
que me fazem perder a hora em algum momento entre o despertador tocar, a
consciência se ativar e, de fato, desandar o dia em correrias.
É sempre a mesma coisa: só mais cinco minutos. Sob
os lençóis mornos fecho os olhos, lembro dos seus olhos e boca e hálito e tudo
o mais o que lhe compõem e me transfere energia e imagino o que não é, mas que
eu gostaria.
Eu sempre posso parar, mas pela janela do ônibus,
combinando com essa música, invento algumas histórias que deveriam virar um
livro. E encontro seus contornos em uma ou duas frases. Não tem jeito. Eu lhe
uso como inspiração.
Eu sempre posso parar, repito quando estou em um
dia conturbado e gostaria de ligar pra alguém e ouvir só a sua voz. Não é por
nada demais, só que ela se transformou no meu som preferido desde mil novecentos
e tanto. Desde que respirou pela primeira vez. Desde que eu nem sabia de sua
existência.
Eu sempre posso parar tudo, menos a paisagem que se
agita com o vento. Com os passos de dança do relógio certeiro, mas que atrasa
nosso encontro.
Eu sempre posso parar, mas sua miragem é o que me
dá contentamento em dias cinzas e prefiro continuar. Mas que fique claro: estou
me convencendo de que eu sempre posso parar.
terça-feira, 5 de junho de 2018
Deserto do meio-dia
Há estações que são minhas preferidas. Caberia aqui
citar cidades, trens, concreto, ferro e pó. Mas me falam mais alto a cor das
flores, o cheiro do sol da manhã, as voltas dessa Terra na imensidão.
Por ser assim, sempre que posso relembro a estação
na qual parei, desembarquei alguns sonhos e não tenho certeza se já parti ou
faço dela minha morada: aquela na qual experimentei seus olhos sobre mim, um
quase frio, ameno, um quase dia ensolarado, brando, um prelúdio de noite calma,
meu antônimo.
Escrevo nessa noite de outono e pouco importa seu
número no calendário. Pouco importa se lhe experimentei ontem ou na semana que
vem. O tempo passa e caber-me nessa ou naquela noite da semana não faz
sentido... A ampulheta doa-se a cada um dos lados e sou parte do pó. Escorro
por uma fresta. Sou o tempo que está (se) perdendo (?).
Conto os meses só pra saber se estou, de fato, na
mesma estação.
Deve ser o quarto: mês. Também é o local. Minha
pouca atenção recai sobre o nada. Não interessa-me a racionalidade matemática
ou a precisão do tempo numérico. Sou regida pela lua. Sei em que ciclo estamos:
ela e eu. Estamos minguantes. Nosso inverno não tarda. Ele se anuncia pelo
cinzento que margeia o castanho de meus olhos.
Estamos à míngua daquilo que já foi desejado.
Acostumamo-nos com o jogo complicado do ser-não-ser: o possível depende da
ação.
A palavra que precede a ação a deseja, mas é
incapaz. Abstrata. Inerte. Vaga. Vazia. Eu que já quis tanto, tenho dúvidas ou
é só cansaço?
Sou espera na estação, mas não sei até quando.
Minguo. E comigo vai a espera, o desejo, sua imagem, quase vulto.
Sinto o frio de um vento lunar tão deslocado quanto
eu nesse momento e, embora cansada, sou capaz de suplicar: deixe-me. Ou deixe que me aqueça sob a luz do
seu olhar.
E, entre as artes que domino, deixe-me lhe pedir
que me ilumine enquanto a luz de seus olhos pousa sobre mim enquanto passo um
café, paixão minha, calor meu. (Desas)sossego meu, quente na ponta dos dedos,
perfeito na ponta da língua, fogo que me arde mais nos véus noturnos que nos
desertos do meio-dia.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
Até que meu amor dure
Eu vou esperar por você até o último minuto. Até o
momento em que a porta quase se fecha e, de repente, uma mão se atreve pela
fresta e realiza o milagre da esperança.
Vou esperar por você sob essa nuvem densa, prestes
a precipitar porque sei como é o seu rosto em um banho de chuva inesperada e
ainda desejo colher algumas gotas à margem de sua boca.
Ficarei à sua espera de olhos bem fechados porque
não quero perder seus detalhes e porque já era sonho meu antes do tempo começar
a ser contado.
Serei esse mundo envolto em ansiedade e vultos até
que se canse de correr por aí, mantendo essa distância segura de meus lábios e
perceba que sua sede é provocada pela estiagem que me causa.
Talvez, nessa hora de sua consciência vívida, eu
seja o seio de calmarias e a fonte de sua morada, inebriada por minhas
histórias, cheia de meu próprio veneno-antídoto, que chamam amor, que me matou
um pouco a cada dia, mas diante de sua presença me curou.
Não serei mais aquela que espera, mas a que
acompanha: sua lua da sorte, amuleto sagrado, bênção diária de Sol poente.
Serei aquela que deita em sua linha do horizonte
próximo, borda dos olhos, margem de sua cama.
Serei aquela que sempre desejei ser: completamente
minha, mas, por escolha, temporariamente sua. Até que os dias permitam. Até que
meu amor dure.
domingo, 3 de junho de 2018
Morada
Qual foi o tempo de minha morada em seu pensamento
hoje?
Quanto de mim povoou seu sorriso?
Em que hora do dia sua desatenção foi por minha
existência?
Houve um tempo em que o brilho dos seus olhos
refletia a minha luz e suas mãos desejaram minha silhueta?
Rogo aos deuses que sim, porque aqui dentro, na
minha desorganização cotidiana, a única coisa que parece no lugar é o seu olhar
sobre mim.
Aqui nesse emaranhado de saberes e incertezas que
coleciono, só o seu ser é pleno e me ordena, orquestra, pacifica.
Sou explosões confusas de sentimentos que só são
contidas por saber que, em algum lugar, de certa forma, sua energia me rege.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Curvas
Não
foi à toa que dobramos aquela esquina.
Entre
as nossas curvas, tagenciamos desejos.
E,
na distância de um ponto e outro,
Encurtei
os vãos.
Presentes.
Surpresa boba no canto da boca.
Sons
tantos e palavras várias,
Onde
estavam os sentidos?
Engolidos.
Saltaram
da borda do copo.
Bebidos.
Quase
embriagados.
E cruzaram-se
os dedos.
(A
fé infantil, crença na torcida sincera)
E cruzaram-se
os destinos.
(Teriam
culpas as pernas?
Foram
elas que as chaves giraram?
Foram elas que os caminhos encurtaram?
Foram elas que os caminhos encurtaram?
Foram
elas que se embolara!)
E,
ao sol da meia-noite, queimamos.
E,
apenumbrados, só os olhos brilharam.
Mais
do que palavras, toques.
Cruzaram-se
os destinos
E nenhuma
margem nos coube.
Nenhum
sono decretou-se.
Acordamos
o dia à meia-noite
Porque
a madrugada não nos cabia
E aceitou
o seu fim resiliente:
Nenhum
deserto é imune às caravanas.
Nenhum
oásis míngua sem visitante.
Nenhum
sol desperta sem razão,
Há
de se saber apenas domar o tempo perdido,
Rejeitar
os nãos.
domingo, 11 de fevereiro de 2018
Vela acesa
Meu
universo, infinito, se divide, simples:
Parte
é o amor que sinto,
Outra,
é o amor que crio.
Os
dois nasceram em mim.
De
mim.
Consomem-me
como chama.
O
amor é vela acesa:
Aquece
e ilumina e,
No
tempo de uma vida,
quase
finda, sabe-se eterno.
domingo, 4 de fevereiro de 2018
A Casa
Faltava a casa. Não uma construção, paredes, quadros, mobílias,
fotografias. Isso existia. Faltava o sentimento de autenticidade, o
reconhecer-se parte de tudo aquilo. Faltava a integração. Faltava um calor,
acolhimento, fortaleza.
Faltava tanto que a boca chegava a amargar memórias inventadas
de um além-limites no qual, agora, estava em imersão.
Em certa medida, queria voltar ao passado, mas esse, só era
conhecido de maneira muito vaga, pelo inconsciente, através de seus efeitos de
torpor, nos minutos antecedentes ao sono, tangentes ao delírio, à invenção e
aos desejos mais puros (originais, não virginais).
Buscava um refúgio na linguagem, em símbolos e códigos que
pudesse usar para transportar-se para um lugar seu, de fato e de direito. E essas
construções nada tinham de magníficas. Não chegavam a ser castelos, nem
paisagens elaboradas. Reinava a simplicidade. A insustentável beleza do vento. A
paz carregada na asa de uma borboleta. O som do amado-passarinho em cantos de
entardecer.
(D)escrevia, de certo modo, uma floresta de significados
próprios, cruzamentos de vontades, esquadrinhamentos das constelações que eram
seus pensamentos e, como navegante interestelar, sentia-se finalmente em casa.
Não dominava um estilo. Não dominava a si. Não tinha intenções
tão grandiosas. Apenas buscava o movimento de existir junto a algo mais, algo
no qual pudesse ser parte e isso estava além da casa, além do tempo. Estava, em
verdade, atrelado à busca. E era isso: a casa só passava a existir pelo único
propósito da procura. No mais, tudo era espera. Tudo era um eterno pairar sobe
o tempo, enquanto esse passava ligeiro como um rio, rumando para as outras
tantas casas que também só existiam para seus donos enquanto uma viagem em um
contexto quase filosófico da escrita, uma poesia desprendida de sentido,
apegada apenas à leveza do bem-querer.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Sem conta
Amanheceu em
mim um tanto de pedaços.
Eu que não sou
dada às contas,
Não farei
conta se algo me faltar.
O meu coração
parece ter sido feito em cacos,
Cintilantes brilhos
vistos de meu olho.
Planetário,
observatório:
Contemplando estrelas
distantes:
Gotas de meu
amor derramado pelo chão.
Não, não há
nada de todo o mal.
Não há nada de
todo sério.
É só mais um
passo.
Trôpego, eu
sei, mas o destino é esse:
Um toque de “não
me leve a mal,
Não me leve a
sério”,
Por mais que,
no fundo, eu só pensasse em dizer “me leve”.
E fui leve na
passagem do tempo.
Fui o que
podia ser,
Alegre verão,
mesmo preferindo outono.
Fui passarinho,
Aprendi com o
poeta que os problemas passarão.
E meu coração,
atropelado,
Na contra mão,
em desvantagem,
Sem passe
livre, foi deixado ao chão,
Pobre vítima
da queda livre da paixão.
Afogado num
copo qualquer
Jogado da
borda de uma taça,
Misturado ao
vinho-sangue que bebi.
Machuquei-me
de leve
E não faço
conta da cota que paguei:
Valeu o sabor
da bebida.
De resto, a
vida me apanha ali na estrada,
Em seguida.
Como quem não
quer nada,
Como quem me
quer bem.
Como quem me
sabe companhia
E vai me levar
por aí,
Sem me exigir
pouco mais que atenção.
domingo, 14 de janeiro de 2018
Tradução
Não era muito
de conversas, assim como também não era tanto de silêncios. Era uma espécie de
entardecer, com cores palidamente cintilantes e um ar contemplativo que permite
um ou outro som sem que se quebre o encanto. Tinha um tanto de alegrias
represadas pelos seus olhos escuros de noite e emoldurada por um castanho que
lhe escorria do alto aos ombros.
Conheceu a
aurora nas folhas mais brancas que poderia, manchadas por linhas azuis. Céu às
avessas ao qual também, ao contrário do que deveriam, suas palavras passaram a
pousar e não a voar. Na pouca idade, escrever era algo que oscilava entre
treinos de caligrafia e um esforço de manter-se acordada naquele mormaço que a
vida lhe parecia. Nem alegre nem triste. Uma vida.
Ainda não se
sabia poeta. Essas descobertas demoram. São frutas que amadurecem em tempo
certo. Em dores certas. Em risos certos. Em encantamentos adequados. Pensava-se
só solitária, ainda que os cômodos estivessem cheios.
Respirava livre
quando estava em fuga: ultrapassando as fronteiras de uma dimensão além,
alcançada dentro de capas, de tamanho tão bom que cabia nas mãos. Portais mágicos,
à toda época, passaram a se chamar livros.
Custou a
colher-se poesia, a escrever os frutos maduros, abandonar seus verdes. A traduzir-se
em vermelhas expressões, com sabores ora adocicados de sonhos, ora doloridos em
construções gris como prédios de cidades grandes. Demorou a dar-se aos furtos
dos sentimentos alheios para lhes doar finais ou rimas. Foi tudo muito devagar,
tartarugas no pensamento. Foi reticências, margeando suas dúvidas tontas sem
tanger, um minuto sequer, a certeza de ser.
No fundo,
gostava mesmo da inconstância do estar ou não estar e,por isso, preferia apenas
dizer que fazia reuniões nas madrugadas: reunia as palavras, os sentimentos, os
esboços, os afetos e domava todos na arena do caderno de anotações para que,
ali, decidissem seus destinos: declamações, exposições ou silêncios.
Venceram os
gritos, as grafias fortes, riscadas em papeis receptivos: os versos soa vivos,
alados, clamam por sua liberdade e pedem para serem lidos, ouvidos. E ela descobriu-se
quase como que a libertadora. Chave mestra das gaiolas que os continham.
Quase perdia,
já vencida, aceitou seu papel definitivo: transcrever os versos que lhe eram
como açoites e se sussurravam aos ouvidos.
Ainda flerta
pouco com as conversas e com os silêncios, mas agora sabe-se não mais sozinha,
não mais deslocada. Encontrou seu lugar entre-linhas.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
De Borboletas e Mar
Eu sei o que é
segurar, na ponta os dedos, luzes. Sei o que é espalha-las com um sopro nos
lábios como se fossem orações em línguas que não domino, porque sou versada
apenas em silêncios e sussurros.
Sei o que é
sentir-me sob olhos-holofotes, ser o centro das atenções de um mundo inteiro e
único e desejar não sair dali, por mais que tremesse, por mais que perdesse o
rumo, porque a consciência insistia em dizer que tudo é breve.
Sei o que são
os quereres, as coragens dos abandonos e desistências, as delícias de sair sem
mapa, sem destino e fazer histórias lindas com grãos de areia que voarão e
levarão um pouco de mim onde não posso chegar.
Eu sei
onde errei e cada tentativa que chamaram de acerto, embora eu mesma não esteja
certa se, de fato, há essa certeza, esse ponto exato de se ser e estar.
Eu sei que às
vezes é preciso o grito, mas tenho preferido os silêncios companheiros das
canções gravadas ao longe e que me invadem, porque elas me acolhem como abraço
amoroso quantas vezes eu quiser, sem que haja a necessidade da explicação.
Eu sei que o
descanso é necessário, o pouso, a entrega, a doação, mas, por ora, estou bem
sendo passageira, nuvem, vento, desequilíbrios, partidas e vôos cegos.
No fundo,
experimentei certezas que nasceram em meus sonhos, bateram à minha porta e explodiram-se
incertezas como as luzes que um dia segurei nas mãos, mas espalhei por aí com
um sopro, entre sorrisos, fazendo valer a máxima de que a liberdade aproxima e,
de fato, foi assim que aproximei-me de mim e cresci e reconheci o rosto no
espelho... aqueles olhos... aquele brilho no fundo dos olhos.
Só quando
soube que as asas das borboletas não devem ser tomadas entre os dedos e que
elas, as lepidópteras, pousam em minha mão quando se sentem seguramente livres
é que percebi que não nasci para as raízes, mas para as navegações azuis em
céus dourados de por de sol.
Não desejo um
cais para atracar, mas depois do caos de todo o mar, gosto de descer à praia e
saltar ondas, voar nas espumas, dormir na areia e (re)partir meu fôlego de vida
e aprendizados. Gosto do vai-e-vem, do inesperado.
sábado, 6 de janeiro de 2018
Retina
Pelas lentes
do fotógrafo, o tempo para. Congelam-se a felicidade, os sorrisos, os abraços,
as emoções.
Cabe à
fotografia a função de ser a chave da caixinha de memórias. Dispositivo mágico,
de teletransporte, que me leva ao passado num fechar de olhos. Que me faz
reviver o toque. Que me invade com o perfume daquele abraço, que morou por
tantos dias na camiseta que eu relutei em lavar.
Quando abro um
álbum de fotografias, é como se eu abrisse uma parte de meu coração. Tenho acesso
livre àquele dia de sol, ao banho de chuva, ao café que queimou a língua, à
música que eu dancei e nunca aprendi a letra.
Quando não
posso contar com os artifícios de uma mágica captura fotográfica, uso minhas
retinas, torcendo para que elas não me abandonem, não falhem. Torcendo para que
elas imprimam em mim aquelas emoções cotidianas tão fortes que eu possa
lembrar-me delas quando fechar os olhos.
É por isso
que, quando tenho saudades, gosto de ficar no escuro, como se ele fosse uma
tela de cinema na qual desfilarei meus momentos acumulados ao longo das
experiências.
É no escuro
que acesso meus cantos empoeirados, minhas represas de lágrimas contidas, minha
coleção de gargalhadas bobas. E é ali, no escuro, sozinha, que eu rio, choro,
gargalho, me abraço, me acolho, me nino, me cresço.
Fotografo e
tatuo em mim, com minhas retinas, tudo o que me afeta para que eu não me
esqueça que, embora os dias possam parecer áridos e cansativos, é à noite que
entro num oásis de embalos emocionais que valem a pena e me revigoram e me
renovam as esperanças.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Oferta
Eu não lhe
ofereci amor.
Aliás, nem
gosto quando usam essa palavra para essas relações impessoais.
Acho
cansativo. Eu lhe ofereci corpo, suor, meus fluidos escorrendo no canto de sua
boca.
Ofereci minha
energia. Uma troca. Agora, nada de ligar, de abraços ou sentimentalismos. Pegue
sua camisa e saia.
Saia antes que
eu desista. Antes que eu queria ficar com ela, a camisa, pra lembrar de seu
cheiro, de seu toque. Pra lembrar que eu já coube no seu peito. Pra deixar mais
forte as marcas invisíveis que ficaram em minha pele.
Saia antes que
eu me descubra um ser apaixonado.
Nunca prometi
amor. Nem o neguei.
Bata a porta. Adeus.
E não me esqueça.
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Romã
Os azuis
enchem os olhos
Tal qual suas
formas enchem meus pensamentos
Desliza a
folha com o vento
Como minha
mão por sua cintura
Eis que
perco-me em sua curva
E nenhuma
paisagem tem mais importância.
Estamos como
que perdidos em vontades,
Labirintos de
desejos, sem Ariadne.
O que falta
para que pouse em meu braço?
Há romãs
frescas sobre a mesa,
Seus encantos
vermelhos invadem a casa
Seus aromas
quentes passeiam ao pé do ouvido
Estendo a
mão, convite para dança...
Ouça o qanum
e se desfaça em transparências
Eu lhe
espero, telúrica visão.
Quando
romperá os limites do tempo?
Eu lhe quero
no desafio de equilíbrios,
Em pontas de
pés e rodopios
Eu lhe quero
moldura em meu pescoço
Porque o
mundo lá fora me cansa
E penso que
só você, personificação do novo,
Trará o cansaço morno e manso
De quem venceu mais um dia.
E eu desenho cenários lindos,
Mas se você não vem,
Nada disso importa aos olhos que miram além
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Amar o próximo
Ouviu cada
palavra saída daquela voz pouco cadenciada e preguiçosa. Fez de seu colo o
divã.
Era atenta aos
sinais mais sutis e, no fundo, só estava confirmando o que já sentira: não era
pra ser.
A cada volta,
a cada lamento, a cada desejo veementemente declarado, ao mesmo tempo em que se
lisonjeava, se entediava.
Desde que o
beijara sob aquele sol quente sabia que não tinha se apaixonado. Eram tonturas
causadas pelo calor, naquela quase insolação amenizada pela
cerveja-gelada-amém.
Ela queria
experimentar todas as nuances que fossem possíveis, mas sabia que tudo não
passaria de chuva de verão. Talvez momentos caldalosos, mas breves. Talvez
sentimentos tórridos, mas insipiente.
Dito e feito,
ali estava ela diante de um amontoado de "e agora?", de "não sei
o quê", de "não é agora". Tornara-se paciente. Ouvia. Em seu
íntimo até lamentava: poderiam ter se divertido. Se desbravado. De certa forma,
até se amado, mas, uma vez que seu corpo havia se transformado em divã, nunca
mais seria cama ardente.
Ouviu tudo o
que podia. Sorriu. Guardou-se na bolsa junto com seu orgulho, seu bem-querer e
suas vontades de dezembro. Seguiu pela porta. Ignorou os telefonemas. Abriu uma
cerveja e resolveu seguir um mandamento sagrado: amar o próximo.


















