Visitas da Dy

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Naturais




Relâmpagos cortaram os céus.
Pisquei os olhos rápido demais.
Um trovão rasgou meus ouvidos
E na velocidade do som tive arrepios.
De repente tudo era um breu,
Meus olhos fechados.
De repente a água jorrava
De repente o vapor subia
Tudo isso me tomava
Eram ares de frio e calor
Eram confusões solúveis em saliva
Eram poucas explicações em nenhuma palavra
Por sorte eu tinha suas mãos:
Contornos nos quais eu me sentia amparada.
O relógio estava abandonado na sala
Precipitamos como as nuvens
Desejosas de um desfazer-se
Reinventamos verbos e fenômenos                                         

Fomos naturais.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Semente




(Poema para o querido Mário Brasil)

É que hoje eu cansei de ser árvore
Cansei de parar os raios
Cansei de envergar com furacões em copos d'água
Cansei da imagem imaculada de força
Cansei até de ter coragem.
Hoje cansei de ser grande.
Árvore frondosa que lhe cedeu abrigo,
Canto de conforto, tempo-espaço-amigo.
Hoje quero me apequenar:
Vou semente virar.
Vou me regar com o sal necessário e útil:
Um tanto de dor, lágrimas incontinentes,
Outro tanto de labor, o suor de minhas (próprias) construções.
Hoje serei a vontade de brotar.
Nada continuidades
Tudo (re)novo,
Tentar (de)novo.              
Tenho o poder da leveza:
Alimento-me de poesia!



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ser Novo




Hoje, ele bebeu o medo.
Alegou que foi direto de meus lábios.
Hoje, ele tocou o medo.
Segundo ele, estava bem na ponta de meus dedos.
Eu, ao contrário, não senti nenhum gosto amargo
Não experimentei sensações frias.
Não tremi com o vento da noite
Nem lamentei o lado da cama esvaziado
Porque ainda me lembrava dele preenchido.
Hoje, ele não soube o que fazer.
Não sabia sequer o que havia provado:
Não era medo o que invadia sua alma
Era a liberdade de suas asas.
Elas não estão mais presas!
E tudo o que bebeu e tocou e provou
Resumem-se a uma palavra: novo!

Então, que aceite seu ser novo, de novo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Batom vermelho


         Onde estão os beijos? Ficaram tão desbotados desde a última vez...
          Eu me lembro do vivo do batom vermelho, marcando sua pele, morrendo nos lábios, saciando vontades, uma sede que vinha de longe.
          Eu me lembro do gosto das palavras impressas no meu corpo pelo seu corpo. Da leitura em braile feita pela ponta da língua, de onde suas palavras moravam e, ao conhecer meu corpo, lhe abandonaram, adotando meu seio como morada.
          Eu me lembro de ser pouco mais que raios ou sóis, lampejos nos seus olhos breus. Rebrilhavam cores. E eu me desfazia com os beijos, como um suspiro no céu da boca.
         Eu me lembro de estar perdida entre o céu e a terra, de ser algo como a água, queda livre, tempestades, pouca paz, muito querer. Mas passou.
          Pousou um mim o lânguido esquecimento, secou-se a alegria de recebê-lo em meu ventre...
         E onde estão os beijos que choviam gratuitos? Guardados em poças mudas? No canto de sua boca que não sorri ou estacionaram em guarda-chuvas que me cobrem e impedem que eu me banhe de amor?

         Onde estão os beijos? Ainda estou perdida a procurá-los. Ainda tenho batom vermelho e o desejo de usá-lo.

domingo, 10 de setembro de 2017

Meu Mundo



         
          Meu mundo são quatro paredes, pelas quais desenhei cometas e estrelas cadentes, pelas quais escrevi bilhetes e poemas. Pelas quais pendurei molduras vazias, buscando um rosto diferente de cada vez.
          Minhas quatro paredes... eis aí a definição de mundo. Nada de grandes espaços, uma fronteira para o mundo, porta sem chave, para quem quiser ficar, entrar, uma janela para o infinito, para que os versos criem asas e as músicas pousem na soleira.
          Eu que não gosto da primavera, hoje recebo flores e pássaros para o café da manhã. Recebo luzes ofuscantes e quentes e vivas e alegres, como aquilo que me move nesse momento. Toco cintilâncias contentes quando me espreguiço nesse domingo.
Eu que pouco me arrisco para fora desse quarto, que o chamo de mundo, que o decoro com toques do mundo: corujas, elefantes, arabescos de mil e uma noites e cores de van Gogh, tudo se harmoniza nesse mundo que eu criei e que, às vezes está aberto à visitação. Hoje, talvez.
          Eu que carrego um colar de prata, um símbolo da chama inquieta que sou, também cedo às pedras da Lua e aos olhos de tigre. Retiro deles energias e aprendizados: a rigidez não exclui a beleza.
          Eu que sou de outonos e invernos, pintei paredes ensolaradas no meu mundo: gosto dos contornos luminosos das tardes findando. Gosto dos alaranjados esperançosos de sabores noturnos que não se podem conter.
          Eu que gosto de cores e sons, de entrelinhas e manhas, serpenteio pela casa como a bailarina se move na música, com certa leveza e confiança: conheço meu espaço, conheço meu mundo.

          Eu que flerto com as tristezas alheias, hoje serei só novidades, serei mais amplitude, serei mais amor que posso ser: entram flores e borboletas pela minha janela. Contaminaram-me com suas asas. Agora só desejo voar pelo dia que me invade, mas pousar, com calma, mais tarde, nesse meu mundo, nas quatro paredes que me cercam e me guardam preciosa.

sábado, 9 de setembro de 2017

Seus Olhos



          Agora, tendo o direito à palavra, de maneira mais clara, mais livre, não sei bem o que fazer. Sou como os pés do caminhante: sei que preciso ir, mas pouco importa o caminho. Em nosso caso, sei o que devo dizer, mas já pouco importa.
          Em verdade, foi em um dia como esse que eu saltei seu olhar a dentro e percebi que havia inventado o amor. Não no meu tempo. Bem antes. Não para mim, para alguém que se foi. Não com as letras de meu nome, mas com sons emudecidos.
           Eu era um lapso no espaço-tempo de seu coração. Se é que cheguei a tocá-lo. Fui uma tentativa de se convencer que tudo passa, mas, na borda de seus olhos, isso não estava escrito e eu pulei. Se soubesse que a mim só caberiam as margens, sequer teria molhado meus lábios. Se soubesse que depois do mergulho só viriam as sombras, eu não teria lhe doado tanta luz.
           Não é um arrependimento que me corre, mas uma vontade de interromper os questionamentos. Uma vontade de acolher essas mágoas nos braços, de transforma-las em novidades, de ouvir suas dores pela última vez, calando-as com meu sorriso, mordendo-as para que deixassem de existir.
            Agora que desprendi-me de toda chama que aquecia meu peito quando ouvia seu nome, posso dizê-lo sem que me corram vontades incompletas pelo rosto. Posso até dizer o quanto é lindo ver seu reflexo atrás de um copo, meio disforme, mas completo, de um modo que eu não percebia, embora tivesse me esforçado.
            Em verdade, o que mais gosto em seus olhos é o fato de ter inventado o amor. De tê-lo vivido a seu modo, a seu tempo, ao seu ritmo e de, ainda que dormente, não tê-lo abandonado. Ele está aí, eu sei. Vestiu-se de medo, mas ainda respira.

            Agora que visitei seus espaços mais humanos, olho pra mim. Questiono se conheço o que chamam de amor. E lamento o meu desconhecimento de causa. Talvez, em todos os meus passos eu só tenha conhecido desenganos, só tenha experimentado os contos encantados, mas, em verdade, nunca tenha me deixado encantar. Faltam-me olhos como os seus.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Coleção




Experimentada a crueza do mundo, as crueldades vãs, sem vantagens ou ganhos, era para o coração cansar de apanhar, parar de sangrar, estancar, se acostumar. Ainda conservaria as dores, as lembranças. Ainda empalideceria ao ouvir passos, ainda tremeria com aquela voz, mas, aos poucos, secaria a fonte.
O cansaço deveria fazer algum efeito, anestesiar, desmoronar os castelos de sonhos, das cartas não escritas, das não respondidas. As pedras dos caminhos deveriam quebrar o restante dos sentimentos, juntar-se aos pedaços de mim no chão, misturar as peças do quebra-cabeça da vida e me fazer parar.
Depois da badalada do relógio na madruga fria e insone eu deveria só dormir. Deveria desistir das camuflagens noturnas, mas ainda sinto que as tristezas não se encerram e que eu não sei para onde irão, mas me abandonarão.
Eu sei que deveria deixar tudo voando, tudo sair pela janela, tudo explodir em migalhas, mas, diante dos quadros estáticos, eu passo, pinto a vida, sou tinta e mesmo sabendo que as palavras não pousarão em seus ouvidos, que as saudades vãs não lhe tocarão a pele, resistirei.
Eu sei que deveria apagar tantas coisas entre nomes e telefones, mas as lembranças não irão junto, então, as faço coleção e as deixo aqui, se (de)morando em mim, partes minhas, histórias minhas, lamentos meus, chuva de verão na vidraça de meus olhos-paisagem.
Eu sei que deveria cessar o canto-pranto-grito, mas ainda sobra fôlego para chegar até o fim do caminho, onde os ecos do passado se calam e o oco do peito se preenche com a esperança madura de quem soube engolir o azedo-verde.

Deveria ser tudo pluma, mas o ar é denso quando não se aprende a respirar e só agora, sem ter as mãos atadas às suas é que toco o chão quando salto do céu, quando meu vestido paraquedas estaciona no chão do quarto.

sábado, 2 de setembro de 2017

Infindável




Olhava o relógio tão fixa quanto uma estrela na imensidão. Sentia e não sabia explicar. Era longa como as voltas dos ponteiros. Era curto o tempo diante de tudo o que sentia.
Imensurável tempo. Imensurável sentimento. Parecia dor de si mesma. Parecia prisão, aquele corpo que a obrigava ser entre linhas bem determinadas: retas paralelas, alongadas pernas e braços. Algumas curvas, convite para mãos e toques aveludados. Era, assim, uma prisão comum como todos os outros corpos que conhecia. Mas tinha, em si mesma, ganas de liberdade.
Diante do relógio, sabia que tudo era eterno porque se estendia além do instante marcado pelos ponteiros e sabia que sentia muito mais do que podia pontuar.
Sorvia da noite os afagos que desconhecia em realidade. Imaginava-se entre braços, dedos tocando seus pensamentos enquanto pairava na imensidão da cama envolta de breu. Imaginava-se alada, acolhida, amada e na melhor de todas as noites, embriagada de um amor que lhe sobressaía ao peito, selvagem, como seu coração indomável e, por isso, solitário.            

Sentia pena de si mesma por experimentar a solidão. Amava-se ainda mais por saber-se livre. Orgulhava-se por conseguir equilibrar-se na valsa que a vida era, com suas voltas e caprichos e ela ali, ritmada pelos ponteiros marcando um tempo (in)findo.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Poço sem Fundo



Estou num poço sem fundo chamado noite. A luz foi aprisionada em algum lugar desse poço.
À sua beira, tento, em vão, salvar os resquícios de luz que me acalmam. Não toco a água nem vejo o fundo.
Ao longe há uma moeda disforme, agitada como meus pensamentos. É uma projeção ilusória, mas me encanta. No fundo do poço mora a lua ou é lá que eu, por engano, descobrirei que a vida é um sopro?
Estou à beira do poço que engoliu a luz e a aprisionou. À beira da noite que me enfeitiçou. Que faço eu, Moura sem encantos, para dissipar o breu?
Sou parte do vazio que ecoa nesse poço: os luzeiros do céu embelezam, mas também se apagam. É a certeza de que há um ciclo prefeito em todas as coisas e que a função do homem é nascer-buscar-morrer como o dia. Como a noite.
Estou à beira dos limites de água e céu, despedindo-me da terra. E eu tenho fome. E eu tenho sede. Quero engolir metade do mundo de uma vez só e devolver a luz ao céu...
Quero beber toda essa água que teima em afogar as mágoas e sufocar-me só daquilo que é bom.                       

Estou à beira da noite, mas já ouço o dia. Encontrei a palidez da primeira Estrela despertar e estendi-lhe a mão. Vamos juntas rasgar o céu e viver de luminosidades quase sonoras.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Carta de amor



Sempre quis escrever uma carta de amor. Cometer sinceridades tamanhas, que não se pudesse medir ou contar.      
Sempre quis escolher o papel mais bonito, a cor da caneta, borrifar o perfume favorito e sorrir leve, como quem só fica presa ao chão pela simples obrigação de existir, já que o ato de viver mesmo ocorre entre uma e outra constelação.
Sempre quis ter o cuidado de não precisar escolher tanto as palavras, não me preocupar com métricas e rimas e pontuação... É que, penso eu, as cartas de amor fazem sentido por si só. Por sua existência, fazem-se perfeitas, (in)coerentemente bem colocadas sobre a mesa ou entre flores. Mas a minha carta se negaria aos clichês...
Nela não teria uma afirmação se quer sobre o amor. Não haveria uma promessa, uma gota de nada além de honestidade. Uma honestidade crua, tão transparente que chegaria a doer.
Nada de "eu te amo" ou "pra sempre". Tudo de "te compreendo", "estou tentando" e "por favor, me ajude". É que eu defino o amor como uma tentativa de entrega que depende essencialmente do outro. Da disposição. Do cuidado. Da atenção. Não cabem as fórmulas, as projeções, os planos todos. Cabem esperas e uma luta constante contra essa minha ansiedade sobre o bom dia de amanhã.

Eu escreveria minha carta sem maiores pretensões a não ser de que fosse lida. Com sorte, respondida, mas isso, é via de mão única: ela vai, se volta, ninguém sabe... Escreveria. Como faço agora: confissão aberta de quem não teme despedaçar o peito e entregaria num dia de feira, comum. Sem data especial ou festa, porque eu ainda acredito que todo dia é dia amor.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As Faces de Janus: Entre o início e o fim, resisto





Cá estamos nós a experimentar o difícil passo sobre o fio da navalha afiada que é o momento em que se golpeia o encantamento e se vislumbra o real esgotamento. Cá estou eu, encarando o papel, transferindo para ele minhas reflexões, como se ele fosse meu espelho.
Não sei bem se cabe afirmar que amor e ódio são faces da mesma moeda, mas asseguro: o encantamento é face gêmea, siamesa, do desolamento. Já adianto que a mim isso pressupõe um crescimento.
Como o deus romano Janus e suas duas faces, contemplamos o início e o fim e já não sabemos se estar no meio disso tudo é benefício, aprendizado ou mera formalidade.
Há em todo início verde, encantamentos de madrugadas tantas, contos de fios de miçanga, tão bem feitos que nem se percebem as teias. Há aquele momento perfeito, os olhares desejosos de futuros, descobrindo-se seres diferentemente próximos e belos e livres e intensos.
Há um quase endeusamento. Todo degrau de escada é altar. Todo riso é cântico sagrado. Toda fala, poesia. E, faz-se do outro um ídolo, um amuleto bom, a boa sorte de todo o dia.
E vislumbra-se a juventude estampada e feliz de quem ainda crê no benefício da dúvida. De quem ainda ouve a tempestade como sinfonia e faz das gotas de chuva elixir divino escorrendo no canto da boca molhada pelo beijo.
Mas a tempestade segue seu caminho e despeja sobre nós bem mais que água transparente. Derrama inquietudes. Derrama sombras. Esconde o nosso sol e a voz do trovão encobre a melodiosa rima que ouvíamos um da boca do outro.
Não que isso seja ruim. Não que isso seja o fim. Não que seja a tragédia anunciada, mas é a outra face de Janus a nos sorrir ou a nos mordiscar os sentidos.
Caem sobre nós cântaros de realidades, lavam-se as maquiagens, emudecem-se os sons. Somos confrontados com a humanidade (a nossa, a do outro, a do mundo). E essa humanidade pode ser cruel, por excesso ou escassez, porque não obedece aos parâmetros que sonhamos.
O ídolo se desfaz. Herói vira vilão. O amor se esquece que era poesia, estaciona no bom dia, agoniza na frustração nossa de todo-o-dia. Mas não é o fim. É a transmutação da projeção ao real. É a solidificação das essências.
Se somos seres apaixonados, flertamos com Janus e beijamos suas faces: do amor extremo ao desprezo, precisamos do equilíbrio.

Ao encarar Janus experimento o déjà-vu, de minhas tantas histórias e entre o início e o fim, padeço, cresço, resisto e busco o tal equilíbrio. A esse, longe de ser apenas sonhos, longe de ser apenas dureza, sou salva. Somos todos salvos pela coerência e a dádiva de sermos humanos e poder, sobretudo, refletirmos e (re)construirmos de novo e de novo. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Cetim



Salto do céu e toco o chão.
Meu vestido paraquedas estaciona no assoalho.
Estou entre o cansaço e o desafio,
Entre o que imagina e o que deixo descobrir.
Se me cabem suas interrogações,
Faço minhas as exclamações.
Desmorono pensamentos quebrados
Desses que pareciam perdidos ao meio-dia,
Encontrados no meio do dia, se (de)morando nos olhos.
Sou brincadeira de quente e frio,
Verão-inverno, estações desnorteadas.
Se o coração precisava sangrar,
Desfez-se a necessidade última de gritar.
Entrego sorrisos bordados em tecidos leves
E junto ao chão, ao vestido e ao tecido sou canção.
O ritmo de um grito oco, passado, não me assusta mais.
Aprendi a domar as dobras do tempo pra lá de onde enxergo
E é aqui, nesse instante-espaço que salto do céu e toco o chão,
Que sou mais eu do que nunca: liberdades em cetim,

Algo entre o brilho e os olhos fechados.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Geografia




Quando foi que nos importamos com distâncias?
Quando foi que entre nós se fizeram essas distâncias?
Ainda me lembro de contar as luas do calendário,
De contar os dias pelo som de sua voz em meus ouvidos.
Lembro-me de ser a gargalhada que você jurava linda
E que nascia só pra lhe ver feliz.
Ainda lembro da luz de meus olhos no espelho,
Do beijo marcado no queixo,
Da mão segurando meu medo,
Seu dedo contornando meu rosto, organizando meu cabelo.
Lembro de lhe contar meus planos,
De sonhar absurdos, de me assustar com sombras e barulhos,
Mas ter sua proteção.
Lembro de termos o mesmo passo
Lembro que distâncias eram sempre poucas
Lembro até de saltar abismos,
Mas agora não há salto alto possível
Nem a meus pés, nem a esse precipício.
Agora é tudo vago, largo, vazio
Agora é tudo frio e a distância cresce.                        

Parece que vamos ter que reaprender a geografia.

domingo, 27 de agosto de 2017

Entendimentos



Não. Você não entende nada. Não entende porque eu não expliquei. Nem tive tempo. Faltou vontade. Em meus dias de transparências (as que vesti pra você) e as que fui, achei que bulas e manuais fossem dispensáveis.
Não, você não entende nada porque era alheio a todo sentimento. Pouco sabia das dores ou dos amores, mesmo eu tendo tentado traduzí-los a você. O mundo gira e tudo, hora ou outra, volta ao seu lugar. E todos, hora ou outra conhecerão tudo o que há. 
Só agora conhece essa sensação de vazio? Ela raramente me abandona... Só agora experimentou os abandonos e as sombras que corações selvagens têm como rotina e companhia? Eis aí o que vivo, indomável coração pulsante, que não corre pelas veias porque sabe que não voltaria ao seu lugar, mas que me empurra rumo ao que (nem sempre sei que) anseio. 
Talvez agora você compreenda porque o som da luz do dia me incomoda tanto: ele não me deixa pairar sobre o cotidiano. Ele me força em espaços formatados e não caibo nesses lugares. Nasci alada, expansão, sou tanto dos silêncios noturnos que me sobram estrelas.
Não, você não entende nada porque não dá corda ao dia. Não sabe ouvir o ritmo que me move e nem compreenderia a dança leve de meus olhos sobre seu contorno enquanto dormia longe de mim. Assim, do meu jeito sufocado e quase calado eu o tocava à distância, sentindo sem, de fato, possuir. 
Sou de serenas alucinações poéticas. Um quê de praticidade e impulso bem calculados de nada: avanço suicida do que se sente. E ninguém entende... 
Não, você não entende a dor que agora bebe afogada no copo. Eu já a conheci. Já a destilei pra você, já tirei o extrato mais amargo e converti em minhas poucas doçuras, mas pouco importa o esforço... o descarte nunca tem valor posto à mesa.

Não, você não vai entender que me fiz seu espelho e lhe devolvo a paisagem que me mostra. Seus olhos se fecharam para o que eu ainda nem havia dito e, agora, ao som de seu próprio eco, são surdos os meus ouvidos.
Não, você não entende porque, no fundo, acha que é melhor a estagnação do que se debater em tentativas e, por gostar tanto do que sempre é, preferiu fincar raízes, enquanto eu me podei para criar asas. Sobrevoarei você, estático querer.

sábado, 26 de agosto de 2017

Balada do Sono Tranquilo




Segura minha mão até eu dormir nesse quase escuro que é meu quarto, nesse quase reino que é minha cama.
Segura minha mão pra eu não ter medo do escuro, não saber que já fui sozinha, não me render à tristeza.                     
Segura minha mão e conta uma história de como foi seu dia, pra eu dormir embalada em sua voz macia, seu aconchego de palavras, meu ninho aveludado.
Segura minha mão pra eu não lhe perder entre os dedos, pra eu saber que é meu por agora, pra eu não pensar no correr das horas.
Segura minha mão, que eu ainda sou pequena, que eu ainda sou menina, que tenho sonhos de algodão, mas gosto daqueles que se vendem nas padarias.
Segura minha mão enquanto caio, apagando, nessa noite longa, enquanto me desligo da agitação do dia, enquanto me desnudo de um pedaço de vida...

Segura minha mão até eu me entregar nesse sono tranquilo, até eu esquecer que queria ser sua bailarina, até que eu possa acordar como pássaro-menina pousada no seu braço-ninho e seja, de novo, inspirada pelo novo dia.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Pólvora


Não sei mais o que sou quando lhe vejo:
Se a pólvora consumida por seus olhos quentes,
Se o fogo que se alastra pelo meu corpo.
Sou um incêndio iniciado por sua boca.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Desordem



Era pra ser um poema, mas é uma desordem.
Sei o que me inspira, mas não o que me traduz.
Como, então, fazer-me clara?
Como, então, desnudar a alma?
Como, então, ser mais do que essa superfície?
Não foi só a pele que me tocou,
Mas minhas profundidades
E não tenho mais palavras.
Não foi só aos meus olhos que alegrou,
Mas minhas intensidades
E agora só uso a linha d'água para transbordo.
Não foi só um hoje que vivi, um breve instante,
Mas longas jornadas que se findaram ali.
Eu era uma busca desesperada por não sei o quê        
Tornei-me o grande encontro de nada que de repente era tudo
Era pra ser um poema, ter rima, não faltar tinta,
Mas é só uma desordem limitada pelas margens que nem são minhas.
Agora volto a ser aprendiz, dominar encantos, medir prantos
Volto a não saber mais nada e a aceitar isso como dádiva.
Agora não sei onde estou e rasguei todos os mapas.
Agora larguei-me à deriva nessa larga avenida.
Agora escrevo em guardanapos e paredes,
Povôo tetos com estrelas que saem das pontas de meus dedos.
Agora salto as horas das noites como dragões sobre as casas:
Tenho asas que me levam a qualquer canto,
Tenho um fogo que carrego e me inflama.                           
Tenho pouco mais que uma bagunça cotidiana.

Era pra ser um poema, mas sinto que sou uma desordem.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Chama Viva



Carrego seu afeto em meu coração,                             
Mas o que me fascina é o calor de suas mãos.
É o deslizar que elas dançam
De meus ombros a meus quadris.
É da força pouca que me imprimem
Enquanto me morde a boca             
E sou toda arrepios,
E sou toda entrega
E sou toda sentidos.
Extrapolam-me a boca todos os meus desejos
Faltam-me as palavras, os ares, os ais
Sou indefinidas sensações
Confusas certezas de que quero mais
Sou a moura encantada da fonte refrescante
Deixando que beba da água que sou guardiã
Sou moça, bela, mulher-madura, anciã
Sou a que se estende sob seus olhos, delicada cortesã
Sou fogo que queima agora
Chama viva, chama meu nome

E serei bem mais do que pode esperar...

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Peleja



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Eu vi a Estrela da Manhã rasgando o céu.
Eu estava lá, bem perto dela, voando.
Eu a vi em luta contra a escuridão,
Rasgando o véu da noite,
Parindo o dia e sua claridade.
Eu vi a derradeira hora,
O último suspiro noturno,
Que era também o choro primeiro do que é novo.
Eu vi a terra quase estremecer diante da beleza.
Vi seus olhos castanhos nas sombras
Que escorriam pelas areias do deserto.
Vi sua força de beduíno em cada curva do vento
E me fiz silenciosa em encanto e contentamento.  
Vi a dança de meus sonhos despertos,
Minhas loucuras sãs e verdades vãs
Vi a cidade despertar para sua rotina
E ninguém perceber que céu e terra lutam...
Ninguém perceber que a Estrela da Manhã peleja por nós,
Que ela se doa e abre caminho para o Sol,
Que ela é resiliente e deixa de brilhar
Quando o primeiro homem sai da cama.
Eu vi os homens esquecendo o brilho nos olhos,
Esquecendo palavras sutis.
Vi o apagamento da chama do amor,
Mas sei que ele é como a Estrela da Manhã:
Ofusca o brilho e não deixa de existir,
Finge esquecimentos, mas sempre está ali,
Vigilante, pelejando por nós,
Rasgando os céus e as tempestades