Sarau feito no Colégio de Aplicação João XXIII, em 2015.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Guia
Depois do
vinho o mundo cabe em um gole. Torna-se exatamente do tamanho da borda da taça,
preso ali pelas beiras (que quase ninguém consegue se equilibrar). Fluido como
o sangue que acalma-se.
Depois do
vinho o mundo cabe em uma folha de papel e é delineado pelos contornos sutis da
palavra escolhida entre tantas daquele turbilhão que a cabeça se transforma
todos os dias.
Depois do
vinho acabo sofrendo de certezas. E uma delas é a de que todo poeta é eterno,
sejam seus versos lidos ou não, porque antes de tudo é um libertador. E a rima
alforriada voa e a sorte é mesmo de quem ela escolhe pra pousar e fazer seu
ninho.
Depois do
vinho a noite não é mais tão escura. O silêncio não é mais tão assustador ou
escandaloso ou ensurdecedor. Nenhuma melodia fica muda porque até as paredes se
transformam em ouvintes e confidentes.
Depois
do vinho, asas. E cabem nas palmas de minhas mãos tantas histórias quanto posso
contar. Quantos poemas quanto posso recitar. Quantos sonhos quanto posso sonhar
de olhos abertos. E, para que nada se perca, durmo. Porque é no reino noturno,
em sono profundo, que guardo esses e outros segredos, bem atrás da porta
secreta, da passagem mágica que, por vezes, chamo taça. O vinho, meu guia.
sábado, 9 de julho de 2016
Ameninou-se
Ameninou-se em
plena flor da idade. De repente, era menina de pés descalços andando pelo
jardim e prestes a fazer uma descoberta. E fez... Colheu a flor-sorriso que lhe
foi dada naquele fim de primavera.
Era, na
verdade, o fim de duas primaveras: a sua mesma e a daquela porção de terra
entre os trópicos.
Fincava de vez
o pé na adultice, raízes necessária (?), naquele mundo cercado por filas e
bancos e contas a pagar e relógios desesperados pelo tempo a passar. E já não
tinha esperança alguma de remoçar, embora fosse muito jovem. Conservava uma alma
antiga. De muitos séculos passados, talvez.
Fincava o pé
no tempo e no espaço que queria, que acreditava que seria o melhor, mais maduro
e saboroso como fruta no pé.
Fixava-se ao
chão, abandonando o mundo da lua, as poeiras de astros que colecionava e os
sonhos (de princesa) que pareciam simples e bobos.
A adultice
exige abandonos que nem sempre gostaríamos de fazer, mas quase sem opções, ela
os fez.
Tentava não
pensar em nada que não fosse prático e funcional. Era adulta. Muito mais que
antes, até. Mas quis o destino, com seus atalhos e desvios, ensinar que os
planos são como aviões de papel, sem rota, e, por capricho, ao fim do dia, o
sagrado momento do inesperado diante dos olhos aconteceu.
Ameninou-se!
Diante do
sorriso nunca visto senão em sonhos, ela teve as pernas encolhidas, as certezas
diminuídas e voltou a morar na lua, rodopiando na ponta dos pés.
Ameninou-se e
voltou a girar com o vento, a gostar das andanças sem rumo, a ser leve. Ameninou-se
como se jamais tivera passado para o mundo dos adultos e deixado sua criança
interior dormir. Ameninou-se e voltou a ter seu riso de menina, os olhos
brilhantes.
Creu em
promessas, escreveu histórias. Amou inocentemente. Era, de novo, menina. A partir
daquele momento nunca mais voltaria a ser gente grande. Quando se amenina, não
há volta. É Terra do Nunca para sempre!
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sexta-feira, 8 de julho de 2016
Cisma
Eu aprendo com
vento,
Danço com as
folhas,
Grito meu
silêncio.
Há muito no
que calo:
Meu amor por
você,
Meus segredos
pueris,
Meus versos
inacabados,
Minhas histórias
de fins de tarde.
Todas essas
riquezas, preservo.
Deixo-as
guardadas em um relicário.
Mas é sobre o
seu amor que me deito.
E, enquanto
dorme, o contemplo.
Não faço
alarde pra não despertar meu sonho.
Vai que você
acorda...
Vai que cisma
de ir embora...
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quinta-feira, 7 de julho de 2016
Sob o Céu
Talvez seja o
tempo um quebra-cabeças. Um caos que espera alguma mão que seja capaz de colocá-lo
em ordem.
Talvez a ordem
do tempo fuja ao claro entendimento, atenta apenas às lembranças e suas fomes. E
as lembranças são famintas demais. Devoradoras. Até ladras.
Quando muito
fortes, roubam o tal tempo-presente, prendendo um desavisado qualquer naquela
impressão de felicidade eterna.
Quando já são
só sombras, as lembranças penumbradas roubam mais que o presente aberto no
hoje. Roubam o que ainda está pra ser aberto, porque prendem as horas no
amanhecer que nunca vem, junto com as prometidas passagens de ida para o tempo-que-já-foi-bom.
E o tempo
continua ali, em constante movimento, em constante ida, sendo cores muito
vivas, aclaradas, ou já desbotadas, só fazendo sentido para quem já sofreu de
sonhos e não desistiu.
O tempo segue
seu caminho, desordem anunciada, enfeitada de lógica, mas eu sei bem: ele não
faz esforço para ficar. Escorre livre pelos dedos.
E distraio-me
colecionando seus feitos. Essas pequenas peças-momento que chamo de vida. Minha
vida, meu tempo sob o céu.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Desventuras
Morri várias vezes:
na borda de seu olhar,
no seu silêncio lento,
naquele beijo não dado,
no despertar de seu sorriso.
Morri todas as vezes que me teve em suas mãos
e deixou-me escapar.
Morri todas as vezes que tentei escapar
e você me segurou.
E em todas as vezes que morri,
me perdi, me abandonei
para me reencontrar
e, de novo, me apaixonar.
Ah, esse coração...
deveria só bater,
mas parece gostar mesmo de apanhar.
terça-feira, 28 de junho de 2016
A Dança
Ela
dança.
Os olhares se
prendem nela. Sua alma empresta a leveza para o corpo e ela flutua.
Ela poderia,
assim, escolher quem ela quisesse, se soubesse o tamanho de sua energia.
Poderia morder os sentidos de qualquer um.
Ela poderia ser de quem lhe entendesse a mão. De qualquer um que já lhe ofereceu uma bebida ou tirou pra dançar, mas não. Ela escolheu você.
Ela poderia ser de quem lhe entendesse a mão. De qualquer um que já lhe ofereceu uma bebida ou tirou pra dançar, mas não. Ela escolheu você.
Ela se desvia
de todos os olhares para cair no seu. E, acredite, dá pra sentir daqui o toque
dos olhos dela sobre sua pele, naqueles instantes em que, distraída, ela se
prende em sua imagem.
Dá pra ver o brilho
dos olhos dela quando as luzes se apagam e o pensamento visita seu nome.
Dá pra saber
que hoje ela tem certeza de que encontrou alguém a quem seguiria até os
confins.
Ela sabe que
atravessou seus desertos só para ver você, mas o medo de ser uma miragem faz
com que ela se paralise.
Ela dança.
Dança e sonha
com os olhares que se cruzaram e pede aos céus que, um dia, os ventos a
acalmem. Que lhe concedam a paz e o sono tranquilo. Que seu corpo seja o último
lugar que os olhos dela pousem à noite e a primeira aparição de beleza pelas
manhãs.
Ela sonha. E à
sua espera, ela dança.






