Visitas da Dy

domingo, 10 de maio de 2015

Parir-se



Quando não coube mais em si,
O amor extrapolou o corpo.
Quando o riso já parecia gasto,
Quando os braços pareciam vazios,
Quando o colo pedia mais,
O ventre foi abrigo,
Explosão de amor maior.
Ao dar à luz, ao dar a vida,
A mulher paria-se:
Nascia, no mesmo instante,
Um filho e uma mãe.
Conhecia-se, naquele instante, o indefinível.
Tateava-se o divino,
Passou a ser mulher-mãe,
Fonte de força, de carinho, se segurança.
Passou a entender o sentido da vida.



Arma-Dura



Fez planos de papel. Desses que já nascem sabidos de seus destinos: o fim prematuro. A não realização. O canto da página. O esquecimento breve, apesar da euforia passageira.
Recortou a folha de papel como se fosse uma máscara e a colocou. Era quase uma arma-dura com a qual enfrentaria o mundo a partir daquele momento.
Tinha os passos exaustos de lutas encampadas quase em vão, daqueles dias em que tudo o que via era o concreto, também armado, em curvas, que feriam as retas paralelas dos tais planos rabiscados nos papeis.
Frente às vitrines espelhadas observava como a tal arma-dura lhe caia bem e já não sabia mais, ao longo dos dias atravancados pelos vaivens cotidianos, se a máscara lhe cobria o rosto ou se revelava quem ela era de fato.
Explicava-se a si mesma que a máscara seria a sua arma mais dura frente aos outros. Com ela manteria distâncias seguras, pouparia todo o desgaste do desconhecido. Mostraria-se forte o bastante para não terem penas de suas feridas e suficientemente preparada para aguentar todas as adversidades.
Avançava, ora acreditando na nova face, ora aceitando que sempre fora a mesma. Escorregando pelos cantos das ruas, passava em brancas nuvens, desejando deitar-se sob o azul do céu, sobre o verde da grama e perde-se nas chuvas multicoloridas de esperanças abandonadas.
Desligava-se, aos poucos, de quem era e fixava-se em seus reflexos. Esquecia-se que usava a arma-dura. Esquecia-se que convocara há tempos uma guarda fiel para si e que se escondia. Esquecia-se, aos poucos, das flores, dos bilhetes, das bolhas de sabão, das vontades de ficar.
Acreditava-se mais forte por conta da máscara, sem perceber que a força era dela desde o início e que só precisava de seus sorrisos para compor e recompor tudo o que estava por vir.
Depois de um banho de chuva, desses comuns no outono, desceram-lhe as gotas d’água e os pedaços da máscara, desfazendo sua armação. Despida de suas armas, de sua máscara, maquiagem bem feita, agora estava diante de si mesma e, percebeu que todas as pedras no caminho foram vencidas por ela mesma.

A máscara não era tão necessária. Desfez-se da fantasia e passou a encarar o mundo olho no olho, sem  correr, aceitando os desafios, como quem acorda para tudo o que virá.

sábado, 9 de maio de 2015

Ser ou Não Sei


Escrevo tudo o que sinto,
Mas nem sempre sinto o que escrevo.
Se cabe ao poeta encontrar-se,
A mim coube perder-me.
Não sei mais quais palavras são as minhas,
Quais delas nascem de minha língua
Ou quais me brotam poesia.
Não que eu não seja meus versos,
Não que eu não me encontre neles
Sequer os desprezo.
São filhos noturnos,
Paridos pelos traçados cuidadosos
De caligrafias cotidianas,
Adotados pela beleza ou pelo bem que trazem,
Sendo verdadeiros ou não.
São ninhos de tigres
Dóceis e selvagens
Indecifráveis.
São labirintos de solidão,
São destinos de mãos que obedecem

Ora à caneta, ora à inspiração. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Elementar




Tinha muito a dizer, mas calou.
Assumiu a profissão de detetive,
Tentando descobrir 
Onde foram parar todos aqueles silêncios
Impregnados de sentimentos.
É elementar, minha cara,
Que o coração é um sem fundo de (des)esperanças

E carregar esse abismo no peito não é negociável.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lâmpada Mágica




Se a lâmpada que tenho nas mãos além de luz, me desse desejos, eu pediria a extensão das horas. Das tímidas horas em que passamos juntos e que nos atropelam com os ponteiros do relógio (solavancos da realidade).
Faria de cada avançar dos ponteiros uma nota nova, consciente da impossibilidade de qualquer ré e evitando dó, mas sem economizar lá e sol (quanto maior melhor), para compor música nunca feita antes, que traduzisse todas as vivências.
Pediria que o sol do entardecer que emoldurou seu rosto, que intensificou seus olhos, ao mesmo tempo em que me despertava, fosse perpetuado (instante mágico do desabrochar de sentimentos).
Gosto de molduras. Gosto de pensar que esses momentos são telas cuidadosamente pintadas para a minha apreciação, para o meu encantamento, para que eu me convença cada vez mais que a contemplação é natural e que a beleza é digna de toda e qualquer homenagem.
Gosto de ver como todas essas sutilezas estão à minha disposição, mas que nem para todos os mortais ela é evidente. E lamento, em prece, por aqueles que sabem entender as singelezas do afago do vento.
Coubesse a mim mais um desejo, ousaria deixar de lado essas belezas e me concentraria, de novo, em quem me despertou para elas. Voltaria-me a você e pediria as traduções de cada linha que seus olhos imprimiram sobre mim e de tudo o que leram enquanto me percorriam e me faziam sentir arrepios como se eu mesma fosse um texto em braile, sem sequer ter havido o toque. 
Algumas delicadezas, como esses olhares que tocam mais do que a ponta dos dedos, como essas do amor, nos escapam e perdemos oportunidades de felicidade. Para não desperdiçar essas oportunidades eu desejaria atenção, não dessas de quem vigia, mas a de quem sabe notar os detalhes.

Se coubessem a mim esses desejos, experimentaria as sensações que hoje são tão raras e colocaria-me  entre aqueles que alcançam os mais altos lugares dos altares: aqueles que reconhecem os momentos certos e não os perdem. Eu estaria, de bom grado, entre aqueles que aprenderam a viver.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Hayat






Hoje a insônia continua.
Ela tem nome, sobrenome
É sobre todo nome em minha lista.
Hoje, a insônia é só saudade:
A que me consome
E outra antecipada.
Hoje não descanso os pés que sonharam...
Eles não queriam ser de bailarina,
Mas de beduína, que baila nos desertos.
Hoje tenho saudades do tempo de menina.
Antecipo as saudades da mulher:
Hoje ela dança!
Gira e faz sonhar!
Não cruzou senão seus próprios desertos,
Mas aprendeu que seu peito é um oásis.
Que dentro dela habita um mundo.
Hoje a insônia tem um nome:
Sonho
E seu sobrenome é fé.
Quem a conhece chama de vida.
A menina-moça-mulher
Gosta de outra língua
E a diz: hayat! 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Estações



Tinha uma sede
Insaciável.
Tinha uma busca
Inalcançável.
Tinha dias de sóis
Admiráveis.
Desertos,
Intransponíveis.
Doçuras suficientes.
Amores intangíveis.
Tinha tanta coisa
E era tão pouco...
Achou-se, de verdade,
Em dia de outono,
Entre ventos gelados,
Folhas voando,
Cabelo desgrenhado,
Equilíbrios sobre paralelepípedos:
Na corda bamba da vida,
Cansou de só aplaudir.
Abriu uma sombrinha
E foi brincar de caminhar.
Fez-se o caminho.
Fez-se a vida.
Estações.
E o trem

Passa.

domingo, 3 de maio de 2015

Margens




Entre as minhas próprias margens,
Permito-me ser tudo.
Sou uma folha em branco
À espera de escritas
Que me tatuarão pra sempre.
Para tal, só me coloquei uma regra:
Não contentar-me em ser esboço.
             Nem meu nem de ninguém

sábado, 2 de maio de 2015

(Des)Confiança



Não foi feita para se quebrar. Era um cristal, desses que se deve ter cuidado, como herança de família.
Não foi feita para se rasgar. Muito mais valiosa que essas notas às quais atribuem valores e que perdemos a vida correndo atrás. Era para ser como carta última do grande amor, intocável.
Não foi feita para secar. A fonte deveria jorrar, ininterrupta. Deveria saciar a quem a buscasse. Devia ser descanso, pausa, dia de domingo.
Não era para se desfazer. Deveria ser uma espécie de fortaleza, altiva como castelo medievo, mas era tão frágil... tão fácil de se desmanchar que parecia uma miragem e as miragens deveriam ser limitadas aos desertos. Mas essas estavam por aí, crescendo e multiplicando-se à luz do dia, diante dos olhos.
Não era para ser faca de dois gumes. Sequer era para ser faca ou arma ou cortar, mas é que a fizeram de tal maneira que causava dores e ferimentos ao seu doador quando mal aproveitadas.
E se se quebrava, se se partia, restavam os cacos, muitos. Pedaços múltiplos, diversos em tamanhos e formas, aleijões.
Cacos. Acho que no fundo temos vocação para gostar de cacos, pedaços. Nascemos artesãos! Nosso talento esta aí! E, para valer nosso ofício, escolhemos uma especialidade e optamos pelos mosaicos (do que somos, do que gostaríamos de ser e do que jamais alcançaremos).
Aquela confiança era para ser o sentimento mais nobre. Era para ser o mais valorizado. Era para ser guardada a sete chaves. Milagre que não precisa ser contado, porque todo mundo um dia o vive. E mais de uma vez, fazendo-o perder o seu encanto, quiçá sua importância.
Era um dia de feira comum, nem feriado, nem dia santo. Só um dia. As mesmas vinte e quatro horas, o mesmo número da folhinha, do calendário, a mesma impressão de repetição, mas a confiança depositada com devoção, com desprendimento foi quebrada. Isso fez daquele dia um marco dorido.
Quem depositou a tal confiança era beduíno errante, dono de um tesouro embrulhado em tapetes raros, em busca de oásis para sua nobreza de caráter, para o seu voto (devoto) de esperança de que as pessoas merecem uma mão estendida, mas viu-se em tempestade de areia, que lhe encheu os olhos.
Dos olhos empoeirados, a descrença, o aprendizado que vem do quebrar-se em mil. O desapontamento. A impotência e o quase arrependimento, só não se arrependeu porque já havia aprendido a chorar e fazia dessa ação a sua virtude de renovação.
Dos olhos empoeirados brotavam cristais salgados que misturavam-se ao pó e davam a certeza de que as mãos que enxugariam a cachoeira do rosto, seriam, na verdade, mãos de oleiro, moldando a nova criatura, mais rica em aprendizado.
As mãos seriam de artesão, que com os cacos da confiança depositada, faria a sua arte: faria um mosaico. E, olhando de longe, se o resultado é bonito, ninguém se importa com os remendos. E, olhando de perto, ninguém se importa com os tamanhos dos cacos, porque quem confia um dia, por mais que doa, voltará a confiar, porque lhe é natural.
Confiança quebrada corta a carne, os dedos de quem ajunta seus pedaços, mas as cicatrizes não tardam e logo o caravaneiro parte e novo oásis se descortina.
Triste é saber que uma parte do que se quebra fica pelo caminho, mas é bonito ver a arte que se faz com o que sobra: reinventar-se é dádiva.
Nem todo mundo sabe chorar. Nem todo mundo sabe (re)construir-se a partir de escombros ou pedaços. Raridade é mostrar-se ao mundo como é, inteiro e aos pedaços, vivo, pulsante. Confiante de que há um novo dia, uma nova chance, e novos mosaicos serão feitos.
Não é questão de querer. É questão de respeitar o dom que se tem: o de ser. E a isso não se pode dar um fim ou um pronto e acabou. Só se pode ser.


Terra Prometida





Prometeram uma terra, uma paz, um lugar para descansar, para sonhar, para viver.
Inocente, acreditei.
Li em um livro alguns nomes e os escrevi em papel colorido, bonito, com destaque de honra: precisava não esquecer o seu nome, para ter certeza quando o encontrasse.
Ah, Canaã, Tel-Aviv, cortes transversos nos Orientes que já não orientam, ao contrário, me desorientam e deixam pra lá de Bagdá, acolá de Marrakesh, perdida nos desertos das solidões minhas e dos outros, imersa em meus infinitos diários de ponderações e reflexões.
E se há reflexos, os espelhos d’água em que me miro, giram, aqueles que vêm do sossego interior dos desertos, com suas belezas, sabem ser inquietantes. Turbilhões que engolem os restos de esperança que não usei ou porque caí em desespero ou porque embriaguei-me em ansiedades ou porque esqueci-me de usar seu verde.
E essa cor que me estimula, esse ver-de-perto as promessas ancestrais feitas nos livros sagrados... As terras prometidas... Verde... Ou de esperança ou de tempos de amadurecências... Verde das gramas que cobrem as terras, as que foram prometidas... As que não encontro e não me esqueço, por mais que hoje delas não tenha me lembrado.
Não cessam as buscas pelo chão em que pisarei menos firme do que agora, mas muito mais segura. Não cessam os desejos de ver o sol nascer na esquina de uma montanha, à beira de Shangri-la, próximo a Pasárgada, em um porto, em uma praia.
Não cessam os sonhos de paz... Essa paz que parece correr diante de quem a busca. Fico, daqui, à espera de que ela se canse e pare, para que eu a alcance à beira de um caminho, um Edelvais radiante.
Sigo à espera do momento em que chegarei às terras cuja felicidade fez morada, em que solidão alguma dure, àquelas que os mapas trazem marcadas com um xis, diferente das coordenadas que me deu. Diferentes das marcações de seus mapas.
Seus mapas que não levam a lugar algum. Suas coordenadas que voltam ao mesmo lugar e que abrigam só a sua arca que é oca, não carrega tesouros, se não o brilho falso de olhos que cruzaram esses caminhos.

Frágeis mapas. Frágeis coordenadas. Frágeis criaturas que buscam incessantes o seu lugar. Não há lugar certo. Não há um xis. Não há um porto. Só há a busca. A distância entre a água e a sede. Entre o fogo e o frio. Entre a paz e a bandeira que tremula no horizonte, nos orientes e ocidentes em que me divido. Sejam os próximos ou os extremos. Só há corações e a paz corre em nossas veias. Se ela parar, o sangue coalha. A paz é, na verdade, o descanso eterno. É o fim.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Imperialismos Sentimentais



A angústia toma conta de nós como as águas de uma represa, que parecem tranquilas, mas que romperão, em breve, com muito mais violência do que podemos imaginar.
Não é de todo uma culpa, mas não há como nos desvencilharmos da tal mea culpa: não sabemos lidar conosco, com os nossos sentimentos e por puro egoísmo, vaidade ou necessidade de autoafirmação nos lançamos para cima dos outros.
Praticamos um imperialismo sentimental no coração alheio sem sequer dominarmos o nosso próprio estado, não damos conta nem de saber quem somos, nem de saber onde é nossa casa e já partimos para o lado alheio. Invadimos.
Não necessariamente entramos chutando o balde. Às vezes é uma dominação silenciosa, quase pacífica com flores e cartões e músicas, como se fosse quermesse, como se fosse comemoração de feriado e então instalamos nossas bases.
Fixamo-nos ali, na terra coração dos outros, displicentes, quase covardes, supostamente sem intenções, mas plenamente conscientes de tudo o que queremos e não queremos. E fazemos o estrago. E não seguramos o rojão. O soltamos, julgando que os estilhaços não nos alcançarão, mas alcançam.
Somos incapazes de nos valer da sinceridade crua, ainda que pouco leve, que poupa sangramentos que podem ser estancados. Gostamos do sangue jorrando. Gostamos da hemorragia. E depois da verborragia que se segue. E das lágrimas escorrendo. E do sal engasgando e secando a boca, a voz, o resto de sentimento.
Somos cruéis com os outros e conosco. Sim! Conosco porque não saímos ilesos dessas pequenas invasões no mundo do outro. Respingam-nos um quê-de-tudo-um-pouco e já não sabemos o que éramos e o que nos transformamos.
Meu Deus, onde vamos parar? Se é que queremos parar... Se é que já não nos acostumamos com essas incursões desastrosas que promovemos em nome de bandeiras que nunca hasteamos verdadeiramente. Se é que temos conhecimento dos objetivos que elencamos. Se é que sabemos que somos de carne, osso, sentimento e poesia.

Por vezes acho que nos abandonamos. Acho que largamos a poesia no caminho e nos acostumamos só ao pó. À poeira do que gostaríamos e que se amontoa nos cantos dos planos amassados que jogamos no chão de nossas histórias não vividas.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Mosaico

 Hoje ganhei um poema de presente do escritor Lionel Mota. Em gratidão e carinho,  a fim de não me esquecer desse mimo e de poder revisitá-lo sempre, eis o poema:




(Lionel Mota)
                     
Partido, quebrado
Esmigalhado coração
Reduzido a cacos
Alguns grandes, outros pequenos
Mais alguns, quase pó

Quebrado, partido
Resolveu reconstrução
Catar os nacos
Pedacitos de tanta história
Refazer-se por si só

Dessa junção de remendos
Caquinhos, cacos, aleijões
Foi-se fazendo mosaico
Contando histórias, perdições
Virou vitral, virou arte
E ninguém mais sabe
Qual parte ainda dói
Nesse coração


Alcance



Tenho tudo ao alcance das mãos,
Mas o que mais valorizo
Sequer posso tocar,
Sequer posso guardar.
Esse conjunto precioso de luminosidades
De seu olhar e seu sorriso
Com o qual me presenteia.

Sinto-me tocada em delicadeza.

Isso faz a vida valer a pena. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Luzes Apagadas



Apago as luzes, acendo os sonhos.
Quem dera eu pudesse escolher
As paisagens oníricas em que vou me perder.
Quem estará me aguardando
Quando nos braços de Morpheu eu cair?
Cerro os olhos e não sou mais dona de mim.
Afundo nos lençóis e sou amparada pelos sonhos
Suas mãos se estendem e as recebo
Como quem ganha um presente noturno.
Bailo ao som de músicas ancestrais
Tão aparentemente conhecidas quanto seus olhos de outono,
Olhos de folhas secas,
Que escondem tantas pistas quanto eu poderia descobrir.
Olhos de labirintos,
Nos quais me perco e não quero sair.
Há em mim sua nítida feição
E ela me acompanhará ao raiar do dia.
Esperarei por ela a cada amanhecer.
Ansiosamente em meu entardecer.
Certa de que se não me chega até a meia-noite
Adentrará solene em meus sonhos
Seja errante em meus desertos
Órfãos de versos,
Seja turbulento como os mares
Que cerceio com a palma das mãos,
Seja firme como as árvores das florestas
Nas quais me embrenho distraída.
Espero que me venha como a melhor das ideias
A melhor das sensações,
A mais bela estrela de todas as constelações
Que quase toco com a ponta dos dedos
Depois que apago as luzes no fim do dia
E lanço-me no único lugar em que, de fato,
Posso lhe encontrar.
Que me venham os sonhos,
Onde é real o meu amor,
Onde danço pequenina em suas mãos
Onde estamos ao nosso alcance
E não há dúvidas em que irei pensar
Quando de novo a luz se apagar.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Superficialidades



Queria demais. Sonhava demais. Não se encaixava nas superficialidades diárias das pessoas e isso lhe esfriava a alma e lhe deixava exausta das tentativas de aquecer quem lhe rodeava com seus sorrisos. Estava aprendendo a desfazer-se. A não se importar. A abandonar-se. E o processo além de longo e solitário, era frio, era um chão de giz que ela só poderia atravessar por seus próprios pés. E tentava. Todas as manhãs.
Decidida, desfez-se de si mesma. Mais uma vez. Não sabia mais quantas tentativas havia feito só naquele mês, naquela semana.
Passarinho em época de muda.
Trocava suas dores lentamente por sorrisos. Aos poucos recoloriu tudo: as paredes da casa, as roupas, as unhas, o cabelo e a boca. Voltou a sorrir. Voltou a cantar.
Inventou novas histórias nos cadernos em branco que estavam ajuntando poeira em um canto da sala e tudo ficou bem como deveria ser. Café para começar o dia, manteiga manhosa derretendo no pão quente. Colher batendo na borda da xícara, a falta de paciência com o jornal.
Trilha sonora da década de 1970 no caminho para o trabalho. Desejos de um outono que durasse o ano inteiro. Caminhadas pelo centro da cidade tão descomprometidas com o horário quanto com os passos dados.
Aos poucos tudo entra nos eixos, tudo volta ao normal. O que era e havia deixado de ser se restabelece e tudo segue seu rumo. E as horas seguem. E o tempo voa. Parece muito mais veloz agora, mas o chá no meio da tarde acalma e dá a pausa necessária para um suspiro de fim de jornada, um suspiro de entrega aos descansos merecidos.
Parecia que tinha sido ontem, mas havia sido naquela manhã. E em todas as outras. Era igual todos os dias. Só que àquela hora, já não doía. Aprendera a lidar com a com como se fosse um parto á fórceps: quando algo natural precisa de um auxílio violento para se concretizar, mas sabe-se que tudo fica bem ao final. Não sabia lidar com as dores e todas elas lhe pareciam desnecessárias e feitas para um outro alguém que não ela.
Não aceitava as desordens que lhes eram causadas pelas transcorrências da vida, mas aprendeu a conviver com elas cotidianamente e agora não doía. Era só vazio. E nesse vazio, tentava semear algo de bom. Como se fossem vasinhos à espera de sementes de flores.

Com tantas mudanças, transformou os seus quereres e planos feitos papeis tão frágeis como se fossem areias à beira mar em simpatias e amabilidades sintéticas, mas sinceras, se é que isso é possível, e leva a vida à pratos rasos, quando, de fato, bem lá dentro, desejava pratos fundos de sentimento e atenção.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quem Dera




Feliz de quem soletra o seu bom dia,
Acordando o sol,
Recebendo ora a deliciosa sensação de ser lembrado,
Ora a certeza de ter tocado estrelas.
Feliz quem colhe seus sorrisos,
Quem tece com eles histórias.
Feliz quem ouve as batidas de seu coração
E com elas cadencia os dias.


domingo, 26 de abril de 2015

Serenidade




Quando pus-me a caminhar pelo mundo,
Pés descalços, alma desarmada,
Não esperava tantos espinhos.
Acreditava nas flores que via,
Nos tantos perfumes que inebriam
E que emolduravam os amanheceres.
Meus olhos ardiam com as quenturas do verão,
Entristeciam-se nas friezas invernais,
Mas, tocados pelas delicadezas dos entremeios
Fossem outonos ou primaveras,
Coloriam-se e ganhavam vida.
Dos tantos laços que teci,
Alguns me prenderam, ásperos, de modo que sofri.
Outros tantos, de tão frouxos, igualmente doeram.
Curiosa sensação de dor:
Pelo aperto ou pela folga.
Os extremos doem.
As doçuras de açúcares nem sempre verdadeiros
Tanto adoçam quanto amargam.
Amarguei as realidades que engoli à pão seco,
Com solavancos, trancos e barrancos.
Com dores certas que me acertaram no alvo, no âmago,
Alma nua, crua e alvejada.
Alma crescente, tornando-se experiente
Tocada por esperanças renovadas de felicidade
Desfazendo-se dos vazios que preenchiam seus interiores,
Expulsando tudo o que não fosse alegria.
É cansativo desfazer-se de si mesma.
É construção lenta de pontes de sentimentos,
É um aprendizado constante de equilíbrio,
É lidar com repousos inquietos
E inquietudes que acalmam.
É saber-se pouco e tanto que se baste
É saber que não se basta só por querer
É aprender a esperar
E esperar para aprender
É ser contrários em si
E respeitar-se
É ser:

Serenidade.