Visitas da Dy

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Construções




Cimentos e tijolos:
Formas concretas e firmes.
Nas mãos do pedreiro
O ar dá voltas.
É obrigado a fazer o contorno.
Cuidadoso, o construtor é agente de mudanças.
Muda a paisagem.
Muda o nada em tudo.
Transforma espaço em abrigo.

Papel e caneta:
Traços e rabiscos.
Nas mãos do poeta
As letras se agrupam.
Palavras soltas passam a fazer sentido.
Displicente, o poeta lê toda a gente.
Revela segredos das almas
Que sequer conhece.
Publica os sentimentos encabulados.

Construtores e poetas:
Erguem sonhos, consolidam planos.
Enxergam o fim no branco do papel,
Não sabem onde sua obra terminará,
Desconhecem seus observadores,
Habitam tudo o que constroem,
Sem de fato lá estar.
Cada um a seu modo, carregam nas mãos ferramentas,
Pensamentos, cimentos, moradias de desconhecidos

Que serão gratos pelas obras que lhes dão alento.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Firme


Fixei meus pés no chão. Fiquei firme. Firme para dar vazão ao pensamento. Para a cabeça que vive na lua, é preciso uma raiz bem forte para que o voo tenha fim e tudo volte a seu lugar.
Abri uma caixa que carrego no peito e deitei-me dentro dela, cobrindo-me com meus sentimentos, ofuscando-me com a luz de cada um deles, optando por segui-los cegamente.
Abandonei a razão em um canto. Deixei-a em companhia da lógica que a fantasia evita, que a vida dispensa. Esvaziei-me de toda consciência por alguns instantes, desfrutando apenas do sabor do vento, do toque macio da manhã, do som dos raios de sol desabrochando as flores teimosas no inverno.
Prometi não mais cruzar os braços. Diante de nada. A apatia, amarelada, não cai bem como aquarela para pintar as versões finais dos esboços de felicidade que tracei.
Comparei minha vida a uma bolha de sabão e descobri que a leveza e a brevidade caminham de mãos dadas e que cabe a mim permitir mais cores, mais voos, mais matizes.
Decidi romper a inércia. Andar com os cabelos ao vento. Assoviar a música preferida. Correr com o cachorro. Pular dentro da piscina. Rasgar o papel de figurante que aceitava com gratidão para escrever, eu mesma, os rumos da minha história.
Fiz uma lista de coisas que comecei e nunca terminei. Analisei cada uma delas e ficou patente que os planos mais bem sucedidos nem sempre foram cuidadosamente pensados desde o início, mas que eles precisaram ser finalizados. Talvez os resultados mais surpreendentes ainda estejam engavetados, à espera não de um milagre, mas de uma atitude. E darei o meu melhor a cada um desses planos estacionados no tempo.
Resolvi decorar. Comecei pela música favorita, depois pelo trecho de livro favorito, e, então, o poema. Há de se ter arte na vida! Há de se saber bem no coração aquilo que nos agrada, que nos faz bem. E assim, não só saberei de cor tudo aquilo que me encanta, mas decorarei minha vida com essas paisagens sutis de tons quentes. Guardarei, de cor, no coração todo o fascínio que o simples me desperta.
Recitei versos ao luar, ao meio-dia, ao meio da tarde, no meio da rua ou no quarto trancado. Rimas ricas ou pobres, autorais ou cópias fiéis, mas falei aos quatro ventos de amor e de paz. Recitei linhas de Neruda e Plath, de Quintana e Wilde e as confundi com as minhas linhas, aquelas que trago na palma das mãos, escritas com tinta, mas que respingam meu sangue.
Aprendi coisas coma minha xícara de café. Quente demais não dá pra tocar. Se esperar demais esfria. Meio cheia, meio vazia. Linha tênue de separações, sutilezas de humores e visões e um mundo entre o gosto e a língua até que se toquem e formem um outro mundo de sensações e sabores.
Tagarelei sandices conscientes e seriedades frívolas. Tateei o incompreensível em duetos sentimentalíssimos e em binômios de palavras antônimas que me cabiam perfeitamente, assumindo que minhas ideias equilibram-se à medida em que me desequilibro e consegui chegar perto do que chamam de paz.

Posicionei-me firme. E adotei essa como a mais nova e sólida palavra de meu castelo de ideias abstratas. Firme. Se algo pode significar as mudanças, que seja por sua maior característica, a firmeza, então... que seja firme.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Verbo



A vontade de acertar nos impulsiona a tantos caminhos, tantas veredas, e são todas tão revestidas de esperanças que nos lançamos na busca pela felicidade.
Com sorte nossos pés cruzarão a fronteira de nosso eldorado e teremos a certeza de que tudo deu certo. Com sorte esse momento virá logo. Caso contrário, teremos uma companhia na cama: a dúvida. Chega uma hora em que somos consumidos por ela. Chega uma hora que todas as nossas exclamações são envergadas e transformam-se em interrogações.
Faltam-nos palavras. Que verbo usar para afastar a dúvida? Como arrancar de nosso íntimo tudo o que nos amedronta?
Todas as promessas que ouvimos parecem ocas. E o vazio aumenta a cada vez que lembramos das tantas ultimas vezes declaradas, juradas e não cumpridas.
Chega uma hora que por mais seriedade que tenhamos, não saímos do lugar ou será que saímos e voltamos sempre ao ponto de partida sem perceber? Para todas essas voltas, o cansaço é a resposta. E quando ele chega, desaba sobre nós a vontade de fugir. De sumir. De evitar o mal que nos consome frente a toda impotência que sentimos.
É quando cansamos de lutar que entendemos o suplício de Tântalo. É quando o mundo, mudo, vasto mundo, não nos mostra mais do que rostos de Raimundos e Marias cujas bocas não falam, que percebemos que não nos saciamos. Que não alcançamos todas as certezas e que nos abandonamos aos poucos pelos caminhos.
Há um momento na vida que se repete de tempos em tempos em que as palavras ecoam em nós e reverberam seus sons por toda parte devolvendo-nos nossos questionamentos.
Frente a tantas dúvidas, nossa alegria se dissipa com o apagar das luzes e tudo perde parte do sentido. As palavras que deveriam ajudar nos levam para longe de nós mesmos e nos perdemos cada vez mais. O convívio com nossa própria sombra passa a ser insuportável.
Pular do trem! Abandonar o navio. Abandonarmo-nos de vez e irmos para outro mundo. Essas são as nossas vontades, mas somos presos a nós e a nossas escolhas. Somos presos às nossas histórias.
Qual é o verbo que nos cabe quando nenhuma palavra faz sentido?
Qual é o verbo que nos ajudar a reconstruir a sanidade quase perdida?
Qual é a saída para esse lugar escuro em que tateamos a decepção?
A saída é escondermos as tesouras de nossas mãos. É pararmos de despedaçar nossos corações com torturas desnecessárias. O segredo é aprendermos com tudo e enxergarmos as gotas de sabedoria que mesmo pequenas saciam nossa alma sedenta.
Se estamos na escuridão das dúvidas, que queimemos nossas inseguranças e que possamos ver as faíscas subindo, iluminando nossas novas possibilidades.
Espantar nossos fantasmas quebrando as suas correntes é dar a liberdade a nós e não apenas a eles. A fuga não resolve, adia. E o verbo certo é sempre o agir, o recomeçar, o mover.

Para os dias em que desejamos a fuga, que saibamos ficar e mudar o que nos incomoda, para que cresçamos e reconquistemos a alegria de viver.

Macaé


(Para Pércio Pedra)

Pra não dizer que não falei de maré
Que não soube lidar com o vai e vem
Das ondas sempre insatisfeitas,
Busco a praia e as vejo se jogar de volta ao mar.

Pra não dizer que não entendo de espumas,
Que não fiz planos que se desmancharam ao vento,
Escrevo nomes na areia com destinos certos:
O fundo do mar, naufragados, quase esquecidos.

Pra não dizer que não provei do sal,
Mergulhei de olhos abertos no mar.
Chorei as penas que tive e as que vou ter,
Bebi todos os mares e quase morri na areia.

Pra não dizer que não lutei,
Busquei refúgio em outros mares,
Longe dos morros das Minas.

Fui pra Macaé.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Balada do Companheirismo



Corda e caçamba. Espeto e brasa. Poesia e rima. Companheirismo.
Os duetos que se formam entre almas que parecem se reconhecer é sempre perfeito. As mãos que prometem ser apoio, os pés que traçam caminhos próximos. A voz conhecida que soa como música aos ouvidos. Para todo o mundo, créditos, para essas almas que se reconhecem, a entrega.
A certeza de que se pode contar sempre com alguém é como soneto pronto e acabado: forma simples, ritmada e sublime. A entrega vai desde o primeiro suspiro à última brasa que aquece o coração. Da primeira letra pronunciada ao último movimento do sangue nas veias.
As almas que se reconhecem ao longo da vida se desenham em duetos, tercetos, quartetos e fazem dos silêncios sinfonias. São raízes de árvores que ultrapassam os séculos e tocam os céus, onde a lua tonta com tanta devoção vê estrelas delirantes.
O equilíbrio das embarcações em tempestade, o reavivamento das memórias esquecidas, empoeiradas, que voltam a ter cor e cheiro e som. O reconhecimento de si e das histórias alicerçadas em nós, que é entendida como a pessoa perfeita de todos os tempos das conjugações.
As promessas que se transformam em baladas de um companheirismo jurado por todo o tempo que o relógio permitir e todos os sonhos que couberem num piscar de olhos ou na concha das mãos.
A prece que entoamos com a boca cheia do amargo pão adormecido nas tensões que se tem ao crescer, ao amadurecer, engolidas a seco paulatinamente com dúvidas e incertezas, às vezes intercaladas com os vinhos doces das conquistas e realizações.
A busca por tantos horizontes que derretem com os sóis implacáveis de nossas teimosias diárias. As penas que açoitam a carne e cegam os olhos com as pupilas voltadas para holofotes errados. Tudo é amenizado quando se houve a balada do companheirismo há muito escrita por tantas mãos que se reconheceram.
O limite tênue que separa o sentimento de vazio e o de plenitude, o riso escancarado do choro desconsolado. As tantas voltas que a vida dá e há de dar. Os desejos benfazejos que se sobressaem só porque se ouviu a canção conhecida quando as mãos pareciam sós e desatinadas.
Há em nós um amor maior que todo o sofrimento, que impulsiona para a luta e move-nos na direção de sermos pessoas melhores. Um amor que precisa ser reconhecido por almas semelhantes à nossa, que compreenda, que se encante com os pássaros frágeis e sábios, que distinguem as estações pelo nascer do sol e sussurre aos nosso ouvidos um “você não está só”.
Há em nós a necessidade de contar com quem quer que seja que conheça os abismos que nos amedrontam, que vaguem por cidades desertas nas madrugadas geladas, que celebrem nossos desamparos e nos ergam ao final do dia em brindes de vinho tinto encorajadores.
Há a necessidade de repartirmos nossa sede e nossa fome e aquilo que nos é indivisível: nossa essência. E é nesse momento que ousamos compor a música de nossas vidas. A balada do companheirismo que será cantada quando tudo for silenciado. E que nos dirá mais de nós do que toda boca possa ousar.
É porque dividimos o que nos é indivisível que saberemos nos encontrar. Saberemos como nos chamar. Saberemos ser presentes no presente, vindo de um passado ancestral, traçando futuros (im)previsíveis e esperançosos. Teremos, ao ouvir nossa música-promessa, a coragem para seguir.

Caminharemos lado a lado seja em labirintos ou vales, colheremos flores, descansaremos nas sombras. Reconheceremo-nos. E todas as respostas possíveis serão encontradas ou nem mais serão necessárias, porque pelo companheirismo saberemos que há com quem contar. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sob o Chuveiro, um Temporal



Há dias em que o silêncio é necessário. Tão preciso quanto precioso. Cúmplice eterno de nossos passos, de nossas sombras e das sobras de nós quando os dias se vão.
No vão de tudo o que deixamos de fazer, nas brechas que transformamos em abismos e nas pontes que fazemos questão de desconstruir, nos vemos cada vez mais distantes de tudo o que gostaríamos de ser.
Sonhos cedem espaços para necessidades. A urgência dita nosso ritmo e para que tudo o que é sólido se desmanche no ar é questão de tempo. Aos poucos somos reduzidos aos nossos esboços.
É nessa hora em que o silêncio precisa ser sentido, ser contemplado. É nessa hora que as vogais precisam ser surdas, todas as letras mudas, todos os pensamentos calados.
É nessa hora que só nos resta vislumbrar o som mudo e alto de nossos pensamentos que são torrentes a nos levar para longe de onde os pés estão, salvando-nos do chão.
Afogar as ideias é tudo o que desejamos. Na falta de um oceano, de um sal para bebermos, que venha o chuveiro e o doce de suas águas quentes. Que seja a fumaça que sai do Lorenzetti aquela que dissipará a nuvem negra que paira sobre nossas cabeças.
Mas pouco adianta a reza, se em nosso copo com água já mora a tempestade. Pouco adianta o esforço de conter o que não tem limites e é lá, no banho, que somos livres. Se fazemos desse momento o nosso palco e cantamos, se somos dançarinos e rodopiamos, é lá também que pensamos.
Sob o chuveiro, um temporal. Desabamos. E lavamos a alma. e a lágrima lava o corpo e rola intrépida, inconteste, desvairada e vai acalmando. E vai deixando para trás um sossego antes impossível. E cai sobre as falhas como se pudesse apagá-las.
Nossas nuvens negras só se misturam com a fumaça da água quente quando permitimos que nosso temporal se dissolva em parte de nós mesmos e escorra pelas nossas bordas. Trans-bordar. Transbordamos. Transformamos. Rebordamos nossos pontos-cruzes, refazemos nossos fardos e reaceitamos nossas cruzes. E nos recolhemos, de novo, ao silêncio. O nosso cúmplice. O címbalo que retine apenas ao nosso ouvido. As palavras compreendidas apenas por nosso coração.
Precisamos do silêncio. Eu preciso. Preciso sentir o leve desamparo das paredes que devolvem meus ecos mudos e impronunciáveis. Preciso sentir que é na ausência das palavras que encontro a cura que nunca foi necessária, porque dor não se cura. Se sente. Se aprende. Se convive.
Preciso ter a medida exata e consciente de que ao menor balbucio minha alma será feita em migalhas, como espelho quebrado no chão e seus sete anos de azar espalhados pelos cantos da vida e das folhas do calendário esperando a praga passar.
Preciso, muitas vezes, dentro de mim e para todos que me olham, calar. Saber que sou ao mesmo tempo um ser denso, tenso, imenso em meus limites e que se sobre-vivo aos obstáculos que surgem, agradeço aos temporais que faço nos dias de sol, sob meu chuveiro e aos meus silêncios gritantes e salvadores de toda agonia.

É quando calo que me aprendo. Que coexisto em mim e com meus eus. É quando me doo e amo. Cada vez mais.

Chuva II




Havia naquela tarde desejos de bem-querer e de chuvas. As narinas ansiavam pelo cheiro de terra molhada. Os pés pareciam sedentos de poças d’água cristalinas, de gotas celestiais.
Gostava de caminhar na chuva, sentir as gotas escorrendo pelo rosto e lavando a vida. Via nas gotas pequenos pedaços de espelhos que refletiam tantas possibilidades quanto podia imaginar.
Pensava que cada gota era, em sua pequenez, uma infinidade de histórias, vidas que se jogavam, que paravam, que seguiam seu curso, que voltavam ao ponto de partida de onde vieram.
Encontrava na chuva a metáfora perfeita para todas as pessoas. Encontrava na chuva um abrigo que lhe cabia muito bem. Trazia-lhe paz o tilintar das gotas. Embalava-lhe os sonhos aquele ritmo da chuva.
Gostava da chuva e, para além de crer que ela lavaria e levaria para longe as dores e as aflições, ainda gostava da certeza de que ela, a chuva, assim como amolece a terra e sacia as sementes que a esperam para brotar, amoleceria os corações duros e faria o amor nascer.

Embalava em seus dias mais secos o desejo pela chuva, que era um desejo de bem-querer, de dias melhores, de alívios, de renovo e de esperanças. Embalava sonhos de brincadeira de criança em ombros adultos que suportavam bem mais do que gostariam. Enchiam d’água os olhos cansados, vertendo a água que desejavam ver cair do céu. E sabia que viriam gotas de felicidade.

domingo, 13 de julho de 2014

Madrugada


A madrugada é a casa das almas insones
O refúgio dos pensamentos inquietos,
O oásis de desejos nômades,
Ressequidos com as areias da ampulheta
Que nunca cessam, que nunca esperam.


A madrugada é fruta orvalhada
Para bocas famintas
Liberdade para as loucuras,
Asas para pés enraizados,
Calmaria para corações acelerados

A madruga é casa de veraneio
De quem se cansa em lutas diárias
E não descansa enquanto os outros dormem.
É o abrigo de palavras que nascem com o sol
E vê nela, a madrugada, sua tábua de salvação.

A madrugada é onde me perco
E me perdendo, me acho.
É quando cansada, não durmo
E descanso a alma atarantada,
E sacrifico o corpo no raiar de um novo dia.

A madrugada é amparo de agonias,
É sinfonia de suspiros,
É colheita de lágrimas,
Segredos e gemidos.
É a liberdade que chega, ainda que tardia.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Leve Cansaço



Talvez no fim do dia só reste isso: um leve cansaço. Uma vontade enorme de fechar os olhos, desligar e, com sorte, acordar em outro século. Às vezes só alguns meses bastariam.
A vontade é dessas de se transportar para lugar-algum-em-tempo-desconhecido. E ela bate naquelas segundas-feiras que nos pegam em momentos imprevisíveis, até nas feiras, já que pode ser em pleno sábado, quinta, ou domingo, tanto faz o dia. A segundona vem. A segundona pesa. Ela parece saber o nosso calcanhar de Aquiles e mira bem no ponto fraco. E acerta. E derruba.
Pode ser por um motivo qualquer, mas pode ser – e na maioria das vezes é – pelas pessoas. Pela exaustão diária dos exercícios mirabolantes que são as relações.
Essa coisa de conhecer os conhecidos e os desconhecidos. De decifrar os enigmas, de matar os leões, de quebrar barreiras, construir pontes e não muros e nadar contra a corrente. É tudo tão cansativo. É tudo tão extenuante.
Em dias como o de hoje eu me sinto extremamente cansada. Olho com desconfiança para todos os lados e não encontro apoio em lugar algum.
Talvez seja só a busca pela paz que extrapola os seus limites e fica mais evidente, dando um baque, já que nos outros dias disfarçamos o insucesso em alegrias breves.
Deve ser a vontade de beber doses de tranquilidade que seca mais a boca e nos tira a capacidade de falar e quase de respirar.
É só uma vontade de encontrar sorrisos firmes e sinceros, daqueles que iluminam e que são bem diferentes daqueles que estampam as caixas de cremes dentais.
Deve ser mesmo uma vontade de sinceridade ou de verdades ou de tantas coisas que fazem falta e que parece que ninguém mais se dá conta. A vontade de sumir é isso: é solitária, mas é coletiva em dias como o de hoje. É uma vontade minha, mas que encontra guarida em outros corações.
Deve ser coisa de poeta querer ver rima em tudo. Não se conformar com as cores das ruas. Não ter vocação para viver com os sentimentos sufocados e não se sentir bem nesse aquário em que vivemos.
Deve ser coisa de gente que nasceu poesia e tem asas querer se desprender do chão e sair sem rumo, querer perder o norte voando pro sul, querer tocar a linha do Oriente dando a volta pelo Ocidente. Deve ser coisa de quem não se acostuma com nada, de quem nasceu pra questionar porque gosta de brincar de interrogações.
Deve ser só cansaço de mais um dia, daqueles que nos arrebata e nos faz querer ver no sono o alívio ou a salvação, um adiamento ou uma solução. Deve ser passageiro, como eu nessa terra em que tateio o céu e corro entre as estrelas porque as flores são poucas e prefiro o perfume estelares aos contornos primaveris de qualquer cor.

Deve ser a sensação de que o tempo não passa ou a de que ele não para. Deve ser só coisa da minha cabeça essa vontade de sumir. Mas ela passa. Ou some. Sei lá.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Desertos II



Por vezes os seus desertos só eram alcançados depois da meia-noite. Depois que não havia mais nenhuma chance do sol permanecer. Depois que o veludo mais escuro caia sobre o céu e escorria as suas franjas pela terra.
Seus desertos eram mais frios que os outros. E tão reais quanto todos aqueles que os beduínos cruzavam, com a vantagem de ser só seu. Habitado apenas por aquilo que ela permitia, mas era costume ser constituído só de ausências.
Essa sutil construção a ajuda a compreender-se cada vez mais, revisitando-se intimamente.
Faltava-lhe ali o calor das palavras. Ela gostava mesmo era de sentir os ventos causados pelos pensamentos voando. Faltava-lhe ecos. Mas tinha os ouvidos surdos naqueles momentos, concentrando-se só no ritmo da própria respiração.
Construía suas dunas de incertezas e caminhava por elas com os pés afundando na areia que refletia a leve claridade lunar de um crescente, acompanhado de uma única estrela, anunciando a proximidade de um novo mês.
A caminhada era conhecida. Fazia o mesmo caminho, insone, todas as noites. Enquanto todos à sua volta dormiam, ela vagava. As suas respostas também a esperavam pontualmente e previsivelmente no mesmo lugar, fixadas como tamareiras emoldurando seu oásis de satisfação ao encontrar as soluções que lhe fugiam ao longo do dia.
Em mais uma noite de lucidez desvairada pelos seus próprios desertos conseguiu chegar em seu oásis, com a paz de um por do sol. Olhando as pegadas que ficaram pelo caminho, admirou a delicadeza com a qual o vento as apagava e entendeu que a simplicidade é fundamental para se chegar a todos os lugares.
Percebeu que nada acontece sob o céu de Allah sem que ele determine e que todo o destino foi traçado cuidadosamente por ele. Não há dores maiores do que podemos suportar e nem sede maior do que a língua possa segurar.
Tudo já estava escrito e, se havia momentos tortuosos, se havia tanto deserto, logo o oásis viria. A alegria também está escrita. E por ser a vida um meandro divino, tudo é suportável porque as forças brotam no meio das dunas, caindo dos céus, das mãos cuidadosas que nos forjaram.

Todas as noites ela caminhava por seu deserto povoado apenas por ela mesma e era isso que lhe renovava as forças. Era dele que ela recebia as inspirações para avançar nas horas dos dias infindáveis que a aguardavam ao nascer do sol.

segunda-feira, 30 de junho de 2014



Lá fora as pessoas não tinham graça. Todas haviam perdido o viço, o brilho nos olhos, o frescor dos sorrisos.
Todos, sem nenhuma exceção pareciam figuras emolduras em peças largas de madeira envernizada. Mesmo transitando entre buzinas e engarrafamentos, pareciam engarrafadas, engessadas, imóveis.
Estranho ter essa sensação. Estranho olhar e não ver nada através dos olhares. Como se todos os globos oculares fossem de vidro, refletindo apenas a luz que recebiam. As almas estava fora dos olhos. Quiçá dos corações. Ainda que em festividades, a tristeza pairava.
Era uma sensação medonha. Dessas de tirar o sono. De espantar os sonhos. De ser malquista pelo mal que causa. Indesejável sensação de vazio que o enchia.
Rodeado por temas desinteressantes, só lhe restava retribuir com desinteresse. Nada chamava a atenção. Nada despertava a menor curiosidade. Nada fazia esboçar o menor sorriso. No peito só restava uma angústia.
Uma busca incansável por uma saída se instalava e atormentava-lhe o juízo, deixando dormentes os membros. Debatia-se nas curvas das paredes, dos móveis, das frases mal lapidadas e sentia-se como em um labirinto.
O som oco de vozes que pouco diziam aos ouvidos não cessavam e incomodavam, tirando o sossego. Diferentes de todos aqueles olhares perdidos ainda conservava um gosto pela vida, mas já não sabia como preservá-lo. Como encontrar a saída? Como escapar desse sótão empoeirado e ver a uz do sol?
Queria poder dormir por dias ininterruptos e acordar em outro mundo, outra realidade pelo menos, mas isso não poderia. Seria rapidamente acordado com os apelos roucos que nada diziam de concreto e que o despertariam só pelo prazer de interromper o sossego da alma.
Buscava a salvação. Desejava desatar o nó de sua garganta. Deixar vazar o grito espremido em seu peito, mordido junto com a língua, quase engolido com o sangue próprio e outras tantas palavras engasgadas.
Nem toda água do mundo desentalaria. Nem todo tempero faria o grito menos insosso. Buscava o ar fresco das manhãs e fazia manha para chegar a algum lugar.
Encontrou-se justamente com aquilo de que fugia: com as palavras. À medida em que aprendeu a se aliviar com os verbos inauditos, o nó ia diminuindo. As palavras começaram a atropelar-se e a salvar-se umas às outras e uma confusão de Babel era a solução almejada.
Nem sempre havia sentido nos arranjos de palavras, mas havia o alivia, a redenção dos pecados, a liberdade. E por ter asas leves, cada palavra alçava seus voos e deixava o peito mais leve, menos afogado.
Livres dos alçapões escuros que as prendiam, as palavras voaram e com elas, novas cores tingiram as paisagem das janelas e as molduras que cerceavam as pessoas foram caindo, libertando também a quem as ouvia.

Pelos sons coloridos e audaciosos de palavras antes mudas, fizeram as novas visões e os novos dias. Quebraram-se os grilhões e pensar e falar já não era mais uma tarefa angustiante, mas libertadora.

Dedo Verde


Olhando para o jardim das casas da vizinhança, como se fosse uma estátua que compunha a paisagem, ela refletia sobre o seu não dom de cultivar flores e outras coisas.
Não era a menina do dedo verde. Descobrira isso ainda na infância, mas aulas de ciências, nas quais o seu feijão era o único a não brotar no algodão molhado.
Talvez fosse falta de paciência. Falta de água não era. Incontáveis vezes a professora precisava salvar o pobre feijão do afogamento inevitavelmente provocado pela pressa em ver o broto surgir refletida nos quase dilúvios que caiam sobre o grão.
Outras vezes, diante do fracasso do excesso de água, deixava o feijão em total privação. Fazia do algodão uma sucursal do Saara: sequer uma gota d’água passava perto da experiência. E o broto não nascia. O grão permanecia dormente, como a princesa dos contos de fada à espera do beijo.
Anos mais tarde tentou a sorte com vasos de plantas: lindas violetas só ficavam lindas na floricultura. Na casa dela morriam todas. Até um cacto ela conseguiu matar... de sede!
Definitivamente, cultivar flores não era a sua especialidade. E, nos últimos tempos o cultivo de pessoas também não estava sendo.
Dispersa por sua própria natureza, voando no mundo da lua ou navegando pelos mares de seus pensamentos intempestivos, não era muito apegada aos contatos pessoais. Esquecera-se de que as pessoas – e as amizades – são como as plantas e precisam de doses diárias de cuidado, de atenção, de afeto.
Presa ao fantástico mundo de seus pensamentos organizava a vida como os capítulos dos livros que guardava na estante, sem achar isso algo ruim.
Já havia realizado boa parte de sua lista de desejos para a vida. Já havia plantado árvores. Já tinha brincado de ser poeta, já tinha viajado por terras desconhecidas, que sequer sonhara alcançar.
Empenhava-se em manter a ordem que havia criado e assim estava tudo como deveria, mas esquecera-se de cultivar... as pessoas. Estabelecia contatos curtos, com prazos de validade: não se apegava, não se deixava cativar e nem fazia muita questão de firmar nós. Os laços brandos que formava pareciam feitos de nuvens e logo se dissipavam.
 Aos poucos o seu jardim de pessoas estava perdendo os sorrisos. Aos poucos o seu dedo marrom distanciava os risos frouxos e uma paisagem ressequida se formava.
Em um outono desses, percebeu seu quase inverno e passou a se esforçar mais. Passou a refletir sobre as medidas que a vida solicita. Percebeu que para cada uma de suas sementes havia medidas d’água diferentes e, talvez por isso, por sempre usar a mesma medida, não conseguia ver flores desabrochando ao seu redor.

Diante das diversidades passou a ter novos olhares, novas medidas, novos tratos e já podia ver brotos, sinalizando a volta da primavera mesmo fora da estação.

domingo, 29 de junho de 2014

Iazul


Esquece, meu bom e dedicado amigo, esquece, por um momento, as tristezas e aflitivas preocupações; livra-te dessa angústia torturante instilada em tua alma pelas incertezas da vida; senta-te, aqui a meu lado, e escuta, com religiosa atenção, a famosa lenda que os poetas árabes intitularam: Iazul! Sim é isso mesmo: Iazul!
Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Viveu, outrora, na Pérsia, meio século depois de Timur Lenk, um Príncipe, generoso e bravo, que se chamava Shack Bock. Afirmaram historiadores altamente balizados que esse glorioso Emir tinha em sua importante corte um sábio, mestre e conselheiro, cuja nobre função era orientar o monarca em suas decisões, esclarecê-lo em suas dúvidas e corrigi-lo em seus erros e injustiças. Esse ulemá, judicioso e previdente, chamava-se Ismail Hassan, e era, pelos nobres muçulmanos apelidado o Saryh (aquele que é sincero).
Um dia muito cedo, logo depois da prece da madrugada - prece do ritual que os árabes denominam sobh - o Príncipe mandou que viesse à sua presença o conselheiro da corte. Fazia todo o empenho em ser urgentemente elucidado sobre um caso que se apresentava enrodilhado pelo mistério.
Sem perda de tempo, o ilustre Ismail, o Saryh, deixou os seus aposentos, e foi ter ao luxuoso divan (sala de audiências) do soberano persa.
O que teria acontecido? Que caso, assim, tão grave intrigava o Rei? O monarca parecia pálido. Em sua fisionomia morena surgiam, tracejando linhas incertas, as setes rugas da intranquilidade. Depois das saudações habituais, sem mais preâmbulo, disse o Emir ao judicioso Ismail:
- Acabo de receber, do Khorassan, este pequeno cofre, encontrado pelos meus agentes secretos, entre os despojos do infeliz e estouvado Khalil, senhor de Candahar. Dentro desse cofre vinha apenas esse singularíssimo anel de ouro. Desconfio de que se trata de jóia raríssima, que pertenceu ao grande Timur Lenk. Como poderei descobrir o enigma que envolve esse anel?
E o Príncipe, estendendo a mão, entregou ao douto Ismail o misterioso anel de Candahar.
Ismail, o sábio (Allah, porém é mais sábio!) examinou detidamente a joia, virando-a e revirando-a na palma da sua mão. E depois de refletir, em silêncio, durante algum tempo, assim falou ao Príncipe, seu amo e senhor:
- Julgo-me capaz de esclarecer esse mistério. Afirmo que uma das peças mais valiosas do tesouro persa acaba de chegar às vossas mãos. Este anel é o precioso e tão ambicionado anel mágico, que pertenceu ao invencível Timur Lenk, o Perseverante (que Allah o tenha entre os eleitos!). Como podeis ver, este anel no rico escudo em forma de tâmara, ostenta em letras bem talhadas a palavra tão bela e sonora: - Iazul.
- Sim, sim - confirmou o Príncipe, muito sério - já o havia notado. No escudo, entre dois brilhantes pequeninos, lê-se a palavra: Iazul. O mistério, a meu ver, permanece. O que significa, afinal, Iazul?
O sábio Saryh ergueu o rosto e, discorrendo em tom pausado e claro, explicou:
- Cumpre-me dizer-vos, ó Rei do Tempo!, que Iazul é uma palavra mágica, de alto poder. Asseguro que é a palavra mais expressiva e eloquente entre todas as que figuram no riquíssimo vocabulário persa. É mágica, repito. Reparai bem: Tem o dom de nos tornar alegres, quando estamos tristes, e de moderar as nossas alegrias, nos momentos de extrema felicidade e ventura.
- Singular, muito singular - refletiu o Rei. É, realmente, de alta magia, essa palavra que transforma as alegrias em preocupações, e que consegue aniquilar, ou pelo menos conter, as mágoas e tristezas que pesam em nosso coração!
E, fitando gravemente o sábio, acrescentou:
- Mas insisto em perguntar: O que significa essa palavra Iazul? Como podemos traduzi-la?
Respondeu o eloquente e esclarecido ulemá:
- Iazul, ó Rei!, dentro da sua espantosa simplicidade, significa, apenas Isso passa! Quando o homem atravessa períodos de felicidade, de alegria cor-de-rosa, de sorte e tranquilidade, deve pensar no futuro e ser comedido em suas expansões, sóbrio em suas atividades.
Convém que o afortunado não esqueça: Iazul! (Isso passa!), a roda do destino é incerta; a vida é cheia de mudanças. Há ocasiões, porém, em que nos sentimos anavalhados pelos sofrimentos, pelas enfermidades, feridos pelas desgraças, caminhando sob a nuvem da má sorte, da ruína e atingidos pelos golpes imprevistos do infortúnio. Para que o ânimo volte ao nosso espírito, proferimos, cheios de fé, fortalecidos de esperanças: Iazul! (Isso passa!). Sim, tudo passa! Virão dias melhores, dias calmos e felizes; a prosperidade e a boa sorte voltarão a iluminar a nossa jornada; a saúde será reconquistada; a serenidade procurará pouso em nosso atribulado coração! E, assim, ó Rei!, posso afirmar que Iazul, a palavra contida no pequeno escudo deste anel, é mágica! Alivia e abranda as tristezas dos infelizes; controla e arrefece as alegrias alucinadas dos exaltados!
Ao ouvir as eloquentes e judiciosas explicações do velho ulemá, o Rei tomou do anel, colocou-o no dedo indicador da mão esquerda e disse, serenamente:
- Que notável, interessante e proveitosa lição recebi hoje! Conservarei comigo este precioso anel. Jamais esquecerei em todos os momentos culminantes de minha vida, no meio de estonteantes triunfos, ou sob o guante da desgraça, de recorrer ao eterno ensinamento contido nesta palavra mágica: Iazul!
Quero, ó irmão dos árabes!, terminar esta lenda, exatamente como a iniciei:
Esquece, meu bom e dedicado amigo, esquece, por um momento, as tristezas e aflitivas preocupações; livra-te dessa angústia torturante instilada em tua alma pelas incertezas da vida; senta-te, aqui a meu lado, e escuta, com religiosa atenção, a palavra mágica Iazul!
E vale a pena repetir: Iazul! Iazul! Isso passa! Isso passa!
Realmente meus amigos IAZUL é uma palavra que devemos trazer no coração sempre.
IAZUL!
IAZUL!
Isso Passa!

TAHAN, Malba. IAZUL: Lendas Orientais.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Palma das Mãos


Trazia nas mãos palavras encantadas, mas nem sempre as distribuía por aí. Gostava de guardá-las como se fossem seus tesouros mais preciosos.
Na ponta dos dedos carregava uma delicadeza digna de versos, soando suaves como sonetos que falavam de amor e jamais fechavam as suas rimas com dor.
Na palma das mãos era capaz de traçar destinos tão leves feito uma bolha de sabão, tão coloridos quanto um arco-íris, mas também era capaz de embolá-los como novelos, brinquedos de gatos manhosos em tardes amenas.
De longe essa poderia ser destacada como a sua especialidade: embolar as palavras. As ditas, as não ditas, as desditas. Sortilégios de quem nasce com um quase-dom da escrita: não saber conter-se.
Entre um papel e uma caneta, a folha em branco sempre trazia uma poesia. As linhas vagas sempre estavam à espera de prosas, dedos de prosas descompromissadas envolvidas em aromas e sabores fortes de cafés e chás, de raios de sol e de cheiro de terra molhada.
Não sabia conter-se e também não sabia o que fazer com o ouro que lhe brotava das mãos. Sentia-se um pouco como Midas, mas com mais valor do que o resultado do rei. Para ela as suas palavras eram muito mais valiosas que qualquer ouro.
Quase todo papel que tocava era transformado em palavras. Da boca saiam risos rimados. As palavras soltas se ajuntavam entre seus dedos. Meneavam e arranjavam-se de modo envolvente, desejosas de serem ouvidas por um ou outro vento. Mas eram todas guardas.
A arca sagrada onde as palavras, frutos daquelas mãos, eram guardadas não era de cedro do Líbano, de madeira de lei, de ouro. Era de carne e sangue, de pulsar, de contrair-se e dilatar-se a cada nova palavra. A cada novo arranjo.
Tudo o que lhe viam com aquelas palavras era guardado no coração. Por isso, só poucas palavras eram expostas. Por isso, quem bem entendesse poderia enxergar ali, grãos dela mesma, velados em contextos diários, quase fictícios, mas com matizes de uma vida real.
As palavras que trazia nas mãos nem sempre nasciam dela mesma. Às vezes a escolhiam por morada e ela, generosa, acolhia todas. E as ninava, cobrindo-as com seus sonhos, alimentando-as com sua seiva vital. Aceitava usar e ser usada pelas palavras que lhe pousavam nas mãos. E assim, seguia seus dias escrevendo.

Dava guarida aos versos, às rimas, às palavras e dormia tranquila. E sonhava sonhos de azul. E escrevia coisas que talvez nunca seriam lidas. Escrevia. E sentia-se uma escritora que habitava estantes empoeiradas a espera da descoberta de leitores que também acolheriam as suas palavras.