Visitas da Dy

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Achismos


Descobriu que tinha um coração em uma manhã qualquer. O que a acordou foram os sons altos das batidas descompassadas.
De início não sabia o que era e muito menos de onde vinham os sons. Fazia silêncio, mas sentia-se ensurdecida. Olhou para o seu peito e descobriu um tambor ali dentro. Ou seria uma caixa sonora onde poderia guardar seus sentimentos a partir de então?
Caminhando por um jardim percebeu que borboletas voavam em seu estômago. Tentou matá-las com um sorvete, mas elas não congelaram. Café ou chá não as afogaram.
Devagar, abria a boca para que elas saíssem e ganhassem as flores e as cores do dia. Pôs-se a cantar suaves melodias.
Tinha um coração e pensava que podia amar.

Tinha borboletas e achou que podia voar.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Internalizações



Ela queria senti-lo dentro dela.
Desejava senti-lo latejando em seu interior, movimentando-se quase inescrupuloso. Queria ter o prazer adocicado na boca de sentir as suas vibrações correndo pelas veias, quente, vital, incessantemente.
Desejou possuí-lo como o pulmão deseja o ar. Desejou-o ardente, voraz. Imaginou como ele a invadiria. Fechou os olhos para tentar sentir como seria o exato momento em que ele a tomaria.
Já não era capaz de controlar os seus próprios sentimentos e como o seu corpo fosse terra paradisíaca, sentia que ele era tropa fortemente armada contra ela. Frágil, não oferecia resistência. Capitularia a ele em breve. Ainda não o fizera na tentativa de conservar sua honra.
Apesar de tudo era mulher digna. Jamais havia se entregado assim a tais desejos. Jamais imaginara ceder a caprichos dessa forma. Jamais.
A relação intensa que estabeleceram desde o início já assinalava para o desfecho. Ela o via sobre o sofá e não acreditava. Estavam imóveis, impassíveis, mas ele, naquele momento a dominava só por sua existência.
Não era grande. O impacto que causara era muito maior que ele próprio. E ela o observava com os olhos arregalados e sentimentos aflorados. Invejou as mãos que deram vida a ele. Invejou todos os viventes aos quais ele despertara aqueles desejos.
Por fim, ela cedeu. Era impossível resistir. De leve escorregou os dedos por ele e sem desviar os olhos só conseguia pensar em como seria ser a dona daquele verso tão curto, tão cheio de si e de significados que a invadira sem pedir licença.

Passou a tarde a se envolver ele, toda prosa, perdendo-se em pura poesia.

Aceitação


Aceito o castigo.
Não reclamo da sina de poeta.
Se perco o sono,
Se a insônia é meu grilhão,
Que me venham as noites com seus açoites.
As dores viraram rimas.
Que me venham os sonhos que tenho acordada.
Aceito ser poeta e bem sei o caminho que tenho.
Não é fado que se siga acompanhada,
Tampouco absolutamente solitária:
Tenho a lua por norte,
Estrelas como inspiração.
Tenho nomes como lumiares diante de meus olhos,
Tenho sonos para velar,
Sou fiel guardiã dos que repousam.
Das palavras tiro o consolo,
E se me canso enquanto todos descansam,
Recebo paga maior do que os que dormem:
Vejo o céu escuro se rasgar com o sol.
Recebo o dia prematuro
E bebo, antes do mundo, todas as suas alegrias.
Aceito, obediente a sua profecia:
Manchará o branco com o que vê,
Não será comum entre os viventes
- Entre todos, você já nasceu poesia.
Aceito, satisfeita beber minha agonia.
Aceito a existência notívaga,
Aceito a condição de vestir-me de palavras
E de ser plena preenchendo linhas vazias.

Submarinos


Nenhum mar é sempre sereno,
Nenhum coração bate tão tranquilo.
Há sempre um descompasso,
Uma lembrança,
Um cheiro de um abraço.
Há sempre navios deslizando no mar,
Encrespando a superfície de azul-calmaria.
Há sempre submarinos a nos espionar,
Remexendo em nosso interior.
Deixamo-nos navegar! Coragem!
Corramos o risco de nos entregar! Abra-se!
Há muitos lugares desconhecidos em nós!
Nos encontrar também é um exercício,
E pode acontecer quando nos perdemos
Em olhares curiosos de quem nos quer explorar!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Muros Rabiscados


08/09/13

Calaram-se as bocas
Secaram-se os beijos.
Restaram-nos os versos,
Os riscos nos muros,
As promessas loucas de vontade
De saírem da tinta
E realizarem-se no dia.
E as palavras mudas,
(Quase letras mortas)
Trouxeram à tona seus segredos
Emergindo à luz da aurora
Em tons de confissão:
Já eram ditas pelos olhares,
Já eram reveladas pela dedicação,
Já eram arrastadas pelo tempo.
(Oxalá, seja verdade!)
Ah, e o tempo...
As horas desfolhadas em prosa,
E a vontade de parar os ponteiros do relógio,
De calar o cuco,
De conter a areia.
Pelos muros, marcou-se a letra.
Pelos versos, escorreu-se o sentimento.
Pelo desejo, eternidade.
Pela presença, alegria.
Pela vida, planos.
Pelo real, utopia.

Pelos muros, nada mais que rabiscos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Relâmpagos


Chega uma hora em que já não podemos mais voltar atrás. Chega uma hora em que já trilhamos tamanha parte do caminho que a solução é seguir em frente, pagar para ver, jogar com as cartas que temos nas mãos.
Chega uma hora em que nos vemos quase perdidos pelos caminhos que nós mesmos escolhemos e há aqui uma leve parada para (re)pensar a trajetória. É nesse momento que nos perguntamos sobre as possibilidades que deixamos de lado.
Tem um momento em que nos damos conta de que não é mais possível mudar o curso, trocar de rumo. Seja porque o vento não sopra a nosso favor, seja por falta de vontade de movimentar as velas na direção de outra ponta da rosa dos ventos.
É essa falta de retorno que nos agonia, que quase nos sufoca porque é possível nos ver como jogadores de xadrez recebendo um xeque-quase-mate, se é que, de fato, não nos mate, do qual tentamos fugir, mas o oponente do outro lado tem pleno conhecimento de nossos pensamentos e ações, porque não passa de nós mesmos.
Se a vida pode ser entendida como um jogo, somos ao mesmo tempo do mesmo time e somos nossos rivais. Somos a mesma torcida que vibra, que teme e que vaia. Somos ao mesmo tempo oscilantes, vacilantes e estimulantes. Somos os vários pontos de equilíbrio no imite de nossas ações, mas nem sempre sabemos qual é o passo a dar.
Talvez seja nessa hora que nos reconheçamos como raio que risca o céu. Como um relâmpago que ilumina o céu escuro, mas que não consegue ver a própria luz. Somos breves. Iluminamos rapidamente céus que desconhecemos e passamos...

Como um relâmpago, nem sempre podemos voltar atrás e o que nos resta é aceitar a tempestade que trazemos dentro de nós, esperançosos que um dia ela vire calmaria.

Tanto quanto


Já somos tantos a comemorar a sorte.
Que nem reparamos o quanto.
(Banalizamos?)
Já somos tantos a acreditar que o amor acabou,
Que a fonte secou,
Que o vento nos levou,
Que nos acomodamos com o que temos.
(Estacionamos?)
Ficamos acostumamos com a saudade,
Com o tanto que nos falta,
E perdemos a noção de quantos somos.
(Incontáveis!)
E somos tantos...
E a saudade...
Quanta...

Tanta...
E ainda assim, tão grande, é pouca.
(Inundamos!)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Eco


Reservo-me ao direito de escrever 
Puramente para não enlouquecer.
Reservo-me ao direto de gritar
Porque sufocaria-me o ato de calar.
Reservo-me ao direito de nem sei o quê
(é possível?)
Na vã tentativa de me responder.
Eu sou o eco de mim
E aqui dentro as perguntas não têm fim

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Vigília


Mesmo na penumbra, velo seu sono.
Meus olhos percorrem toda a sua linha,
Traçando a cartografia do seu descanso.
Repousa e sonha como criança delicada.
A leveza de seu suspiro noturno me inunda.
Ao seu lado, sinto-me Tântalo:
Está ao tácito toque de meus dedos
E não ouso, recuo.
Está olvido no veludo da madrugada
E meu silêncio lhe embala e nina.
O espaço de minha cama fez-se em mar:
Eu lhe vejo navegando em meus lençóis.
Na imensidão desse azul que flutua.
Avisto-lhe, ilha paradisíaca, e desejo aportar:
Virei eu embarcação à deriva e você, oceano infindável.
Mas bem sei que não é o meu cais,
Bem sei que não matará a minha sede.
Bem sei que não saciará a fome de meus olhos,
Tão pouco será o destino de meus pés.
Velo o seu sono por lealdade jurada.
Guardo a sua serenidade com a minha paz
E deixo a minh’alma atarantada.
Seu sossego vale mais do que o toque.
Seu descanso é mais sagrado que o Livro.
Deito-lhe em meu altar, cama segura
E contemplo-lhe o sono, oblação abençoada.
Talvez eu me sacie com o orvalho que umedece sua fronte
Talvez eu me entorpeça com um madrigal,
Mas ainda assim, não despertarei o seu sonho
Nem lhe atordoarei o coração.
Durma, durma agora, que lhe quero muito bem. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Extrapolar-se



Quando já não cabemos em nós, transbordamos.
Quando os sentimentos nos invadem, derramamos.
Quando as palavras já não conseguem nos traduzir,
Buscamos novos meios de nos expandir.
A arte é expor-se de tantas formas quanto é possível
(Por vezes até tatear o impossível)
A arte é essa vontade que surge:
De nos mostrarmos
De querermos ser vistos sem limites,
De nos tornamos eternos,
Memória inesquecível!
A arte é extrapolar-se!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Tempo e a Pressa



(Para ler ouvindo Una Mattina de Ludovico Einaudi)




Quando todos dormiam no sossego e aconchego de suas camas eu estava acordada. Enquanto os homens tolos pensavam ser donos de si e de seus desejos eu já planejava o seu dia de amanhã, prevendo que seriam os seus próprios lobos sem que se dessem conta.
Por minhas próprias mãos dei forma e vida a dois filhos igualmente dependentes um do outro, como gêmeos siameses. Antes que cada um deles abrisse os olhos para o novo dia eu os nomeei. E escolhi os seus nomes de maneira que nenhum homem se esquecesse. Seriam um binômio quase tão perfeitos quanto antagônicos: Tempo e Pressa.
Ao parir esses dois, aceitei, de bom grado, acolher em meus braços outros filhos: o Antes e o Depois, que cresceriam ao lado do Tempo, da Pressa e dos homens. Outros filhos viriam, eu sabia. E aceitei cada um a seu tempo, compondo o ritmo do mundo, o ritmo de toda a minha criação.
Deixei que os homens despertassem e se lançassem em sua correria diária em busca de meu querido Tempo, que já perdiam quando se enlaçavam com a Pressa.
Ao homem faltava um tanto de discernimento para perceber que a irmã gêmea do Tempo era quem mais concorria para o afastamento entre eles. A Pressa levava os homens rumo ao sem-Tempo em passos cada vez mais largos.
Sou ré confessa. Revelo que criei ao mesmo tempo a salvação e a perdição de todo aquele que se pega desatento na vida. Para quem tem a Pressa como companhia, acaba faltando o Tempo e, para todo Antes não planejado, sofre-se um Depois de incertezas.
Diante de minhas criações, os homens aprenderam a se virar e a criar. E a cada nova criação se voltavam a mim dando-me novos filhos e filhas, os quais recebi e acalentei. Um deles, uma jovem, na verdade, eu chamei de Saudade, que nasceu bem no dia em que o Tempo percebeu-se diante da distância entre os homens.
A Saudade era moça de aparência doce, quase lívida, que sabia bem causar dor, mas sabia também ser leve. Ela gostava de passear nos sonhos, de visitar as infâncias, de abraçar os amigos perdidos pelo Tempo e a Pressa. Gostava de sentar nas janelas dos corações e ficar ali, jogada em um canto. Às vezes flertava com a Tristeza. E era teimosa. Só saia do coração quando recebia um abraço ou via sua irmã Alegria chegando.
Ah, esses homens... Abriam mão de sua inocência por pouco. Perdiam-se em descaminhos por caprichos vãos, mas eram incansáveis. Buscavam meios de recomeçar sempre. Tanto que criaram o Perdão. Tão nobre quanto difícil, mas sublime ao ser bem recebido.
Ah, esses homens, de olhos curiosos, atentos, fixos, com suas retinas sempre muito bem preparadas para observarem as histórias que o mundo pintava... Eles ainda me surpreendiam... Tanto que criaram o Amor. E esse veio a ser o filho que abracei com o maior cuidado, com a maior admiração.
O Amor era multiforme, multicolorido, adaptável ao mundo inteiro e capaz de habitar tantos lugares quanto era desejado. Incansável. Destemido. Quase uma semente que é capaz de morrer para renascer com mais força, dando frutos que se multiplicam. E talvez fosse mesmo uma semente. Dessas aladas, que se espalham e alcançam lugares inimagináveis.
Enquanto os homens dormiam, eu os admirava. Eles já haviam se perdido e se reencontrado. Eles tinham tudo para desistirem logo que acordassem, mas persistiram.
Eram os aprendizes eternos e se tornaram professores. Eram criaturas e acabaram por ser criadores. Tornaram-se fortes diante de cada fraqueza. Cresceram diante de cada obstáculo e, por mais que o Tempo passasse rápido enquanto eles tinham Pressa, aprenderam a lidar com cada filho meu: com a Saudade, com a Tristeza, a Alegria, o Perdão e jamais esqueceram do meu filho predileto, o Amor, que gosta mesmo de caminhar próximo da Esperança.

Enquanto os homens dormiam eu me fiz como a mãe da criação, como mito que atravessou os séculos e os velava, garantindo sua segurança no conforto de suas camas, orgulhando-me de como foram capazes de ser muito melhor do que poderiam. Enquanto eles dormiam eu percebi o quanto os quero bem e o quanto nada é pronto e acabado.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Lua Nova

Foto: lua nova na Argélia.


Por mais que eu queira
Não vou passar a vida inteira
Sentada e de braços cruzados,
Esperando a banda passar.
É lua nova, é chance nova!
Por mais que eu tenha me perdido
Pelos caminhos da saudade,
Aquela tristeza foi derradeira!
Agora é lua nova!
Tecerei novos dias,
Viverei outras tardes
E à noite, sairei para ver a lua.
A lua é nova e me convida a enchê-la!
E eu a encherei!
Farei nela a minha morada,
Escreverei seu nome no céu
Com letras disfarçadas:
Os tolos as chamarão de estrelas
Mas eu saberei que são caprichos meus
Fazendo companhia para lua,

Rompendo os breus.

Cantinho


Procurei um lugar onde pudesse colocar
Meus segredos secretíssimos.
Procurei um lugar onde pudesse revelar
Meus segredos secretíssimos.
Procurei um lugar onde pudesse fazer as minhas confissões,
Onde os pecados não seriam julgados,
Os amores não seriam quebrados,
Os abraços não seriam negados,
E os beijos jamais seriam em vão.
Vaguei por noites a fio,
Entrei madrugadas a dentro,
E ali, bem no cantinho, encontrei poesia:
Encontrei gente feita de fantasia,
De alegria, de tantos versos quanto eu,
De tantos sonhos quanto os meus.
De tantos segredos como eu!
Fiz desse cantinho minha morada:
Enfeitei-o de flores e de pássaros em alvorada.
E alvoreceu:
Um mundo de sentimentos,
De cumplicidade,
De amizade,
Dentro de cada um de nós!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Almas Inquietas



Hoje havia uma esperança de lua cheia. Mas quem se encheu foi o céu. E transbordou. E jorrou. As nuvens desfizeram-se em gotas cintilantes que ao mesmo tempo que molhavam, lavam a alma e a deixavam aberta, inquieta. Bem mais inquieta do que já é.
Parei silenciosa olhando aquelas pequenas gotas de cristais líquidas que tilintavam ao bater no telhado vizinho e me amoleciam os sentidos. Em um movimento lento e ao mesmo tempo rápido eu era tragada pra dentro de mim mesma, observando todas as minhas inquietudes que bailavam no ritmo ditado pelas gotas cadentes.
Seria eu uma alma tão diferente das outras?
Seria eu um ser alheio a este mundo?
Seria eu parte componente de outro lugar perdido nesse espaço-tempo que sequer sei mensurar, sequer sei onde está?
Por vezes, por várias vezes (e se eu as escrevesse não caberiam no papel, se eu as cantasse não caberiam melodias e se eu as contasse faltariam grãos de areia), olho ao redor e não me reconheço.
Não faço parte das ruas: entradas e saídas, rotas lacrimejadas de derrotas, de cacos de sonhos, de ecos roucos. Meus pés não encontram o chão. Meu chão está no céu. De ponta-cabeça é tudo mais interessante, de ponta-cabeça todo mundo tira o chapéu para o dia, para a noite, para a Maria e para o João.
Não faço parte das pessoas: não encontro luz em olhos distanciados de si mesmos, não ouço vozes serenas em dias de feira, não ouço sussurros amorosos. E nem o contrário: não ouço gritos escandalosos ou choros arrependidos. Quando muito reconheço bocas mudas, olhos fechados, ouvidos sedentos de palavras macias.
Não me reconheço no tempo: esqueci-me de dar corda no carrilhão da sala. Esgotou-se a bateria como a esperança depositada nos dias. E os ponteiros parados são como nossos passos nunca dados: são os pés quedados, inertes, das pessoas nas quais não me reconheço, que não se atrevem a ir pelas mesmas ruas que não cabem os meus pés, aquelas nas quais não me reconheço.
Seriam os nossos dias os esboços de um roteiro de um curta-metragem barato? Desses sem fins ou orçamento, sem direção, fadados ao esquecimento?
Não! Não! Não há de ser só isso. Não há de ser só uma imperfeição querendo deixar de existir, querendo transformar-se em novo, em renovo.
Se eu não me reconheço nas ruas, nas pessoas no tempo e se escrevo porque essa agonia a certa altura me corrói por dentro é porque nada está no seu devido lugar. É porque muito ainda há de ser feito e com efeito. Para que possamos assumir os nossos lugares enquanto personagens.
Se eu não me reconheço a cada manhã em que o dia vai mal e se escrevo, me escrevo e lhe escrevo é porque achei guarida em seu peito. E se consegue se reconhecer com a mesma dor que carrego em meu peito é porque lá no fundo somos semelhantes. É porque as nossas almas são inquietas. São inconformadas.
Devemos, então, assumir o posto. Riscar o fósforo e atear o fogo! Se a estranheza é grande, que queime em uma fogueira bem longe, lá pelos círculos de Dante. Se somos estranhos e nos reconhecemos, somos iguais! E por isso nos unimos e é a isso que devemos o brilho de nossos olhos: é por almejar dias melhores, por querer subir no palco da vida e rasgar as nossas dores, sapatear nossas agonias, mastigar nossas solidões, responder nossas questões.
Questões... O ponto de partida e de chegada de nossos corações. O grande motivo real de nossas orações... Giramos o mundo em viagens magníficas. Estudamos as ciências e refugiamo-nos na filosofia, mas do sentimento, do sentimento do mundo, quem sabe somos nós mesmos. Quem sabe é aquele que deita e não consegue dormir. Quem sabe é aquele que experimentou a insônia ávido por mudanças. E é isso o que me tranquiliza.
O que me acalma e traz alento é saber que por mais que eu me perca em pensamento, por mais que eu tenha tanta estranheza, há por aí outros tantos como eu, que buscam o melhor de si, que não se cansam de sonhar e que sabem que a mudança é uma semente resistente que vingará.

Hoje havia uma promessa de lua cheia, mas quem transbordou não foi a lua ou o céu. Foi a vontade de mudar.

domingo, 12 de janeiro de 2014

A Moura



A moura nascera diferente. O sol não lhe queimara a pele. Ao contrário, a lua a deixara láctea, com olhos de imensidão e desejos cadentes por estrelas.
Em noites frias que cobriam os seus próprios desertos, ela serenava como um rio sob a lua crescente e cheia de si permitia que seu olhar vagasse pelos jardins de seus oásis.
Em dias quentes bebia das fontes frescas de palavras que o vento lhe trazia em caravanas e mais caravanas de terras distantes. Cada um dos versos lhe soava como velhos conhecidos, linhas emaranhadas de caminhos percorridos por pés que nunca se cansavam.
Não era como os outros que conhecia. Não se contentava com os contos fabulosos de terras vizinhas. Fazia ela mesma suas histórias. Tecia, ela mesma, suas lendas, suas fábulas, seus contos e pagava a conta: o alto preço por ser ela e tantas outras ao mesmo tempo.
Dava-se ao luxo de acordar diferente todos os dias. Oscilava entre ser princesa, beduína, caravaneira, odalisca. Dispensava o ouro, pois brilhava com o sol; despia-se da seda, já que a pele reluzia com a lua; rasgava seus véus e emoldurava-se com seus cabelos.
Gostava de sentir-se livre. Gostava da sensação de ser uma ave-do-paraíso. Gostava de abrir os braços e sentir o vento enquanto dançava ao som de harpas. Por se sentir diferente, criava asas desejando alcançar as estrelas. Por não caber-se em si mesma, extravasava ao som da música.
A moura não tinha os cabelos negros como a noite e de Láyla, só o nome lhe coubera. A moura delicada como pétalas, pisava flores quando dançava e perfumava-se de rosas, embriagando o vento. A moura, leve, etérea, perdia-se na noite e na chama acesa que a iluminava nas madrugadas nas quais ela ousava ser mais ela do que poderia.
A moura de olhos de imensidão fitava o além das estrelas, buscando o sentido de sua vida, buscando o fio do destino, buscando os rumos de seus passos. A moura que escrevia as próprias histórias olhava para o céu infinito e mesmo sem compreender a razão de seus dias, tinha uma certeza: tudo aquilo já estava escrito. Maktub!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Lealdade



Quando todos repetiam “não tenho pressa, mas tenho um preço e todos têm um preço” eu ria. Um riso que às vezes era leve e em outras tantas vezes era desesperado. Eu não tinha um preço. Nunca tive. E paguei o meu preço por isso. E meu preço foi alto.
Ora, mas se eu não tinha um preço, como pude pagar um valor tão alto?
É que o valor pago não era o de minha própria venda, o do objetivo alcançado a qualquer custo, o da proteção em situação de perigo, o da fuga quando eu me encontrava acuado.
O preço pago era o de minha alma se rasgando por aquilo que um dia aprendi como sendo lealdade. Rasguei-me várias vezes para cumprir com a única coisa que eu sabia pertencer essencialmente a mim mesmo : a minha palavra.
Rasguei-me de cima a baixo quando abri mão de mim mesmo para honrar minhas promessas, quando deixei de ser eu para ser eu, porque arcar com o que se compromete, muitas vezes está associado a abandonar-se.
Afoguei-me em lágrimas quando tive que me abandonar à deriva de minhas palavras oferecidas como consolo, suporte ou fortaleza, sendo o abrigo para quem precisava. Só Deus sabe o sal que bebi, o sal que verti, a força que fiz para não me desfazer e ser rocha. Só deus sabe o quando fui areia quando a porta se fechou.
Virei-me do avesso muitas vezes quando jurei e já não sabia se cumpriria, mas cumpri a duras penas, a duras lutas comigo mesmo.  Fiquei às avessas e ao avesso me questionava: por que não ser como os outros? Por que não ser negligente uma vez? Por que não experimentar a displicência? Porque eu não era os outros, porque eu tinha aprendido a ser leal. E isso, por mais que doesse, valeria a pena.
Ruí. Mortifiquei-me no dia em vi minha lealdade indo por água abaixo, quando ela se desfez como a espuma na areia da praia e, rompendo com a palavra dada ao outro, sofri. Revirei-me por dentro. Revesti-me de culpa e por longas noites vaguei sozinho por minhas entranhas, sem dar a mim o perdão que precisava.
Arrastei as minhas correntes pelos corredores dos labirintos de meu coração como fantasma inconsciente de sua condição, até o dia em que percebi que, por mais que eu me esforçasse, não seria perfeito. Não poderia cumprir todas as minhas promessas. Não poderia ser leal a todos sempre. E então, foi nesse momento que percebi que meu maior elo de lealdade jamais havia sido quebrado: a lealdade a mim mesmo estava preservada.

Por ser leal a mim, a meus sonhos e às minhas necessidades, que todo homem que precisa correr atrás de seus sonhos me compreenda, eu estava apto a me perdoar. Porque os erros cometidos com os outros foram erros, sim, mas foram tentativas ousadas na busca de acertar. Por entender que a lealdade passa também por esses erros, fui capaz de me perdoar. E voltar a acreditar que mesmo diante de meus erros, minha alma ainda era nobre. Minha lealdade ainda era verdadeira e que tudo não passava de um processo de crescimento, de amadurecimento e que isso podia doer, mas que a transformação era necessária.

Esfinge ou Poeta?


Quem é essa que se veste de palavras?
Quem é essa que lança olhares de bem-querer
Escondidos entre sorrisos de amanhecer?
A quem pertencem as mãos pequenas
Que transformam, acariciam, guiam e acenam?
São as mesmas mãos que me escrevem?
São as mesmas mãos que me tateiam e descrevem?
Sabem essas mãos a ardência de se acender fogueiras
Ou só são acostumadas a clorem flores temporãs?
De quem são os olhos ao mesmo tempo rasos e profundos?
Sabem eles que são o meu mar noturno?
Sabem, esses olhos, que me afogam e salvam
Em suas linhas d’água marcadas de Oriente?
Quem é essa que se abre veladamente,
Que se mostra sob véus,
Que se descreve entre reticências,
Pula travessões, balança-se nas vírgulas,
Divertindo-se entre páginas escritas
E se pintando nas páginas em branco?
De quem é essa boca que, sorrindo, mastiga os sentidos,
Que grita silêncios escandalosos,
Que lança enigmas e me devora?
É uma esfinge ou uma poeta?
É uma mulher...

E isso basta.