Visitas da Dy

domingo, 17 de novembro de 2013

Ardendo a Eternidade



"Aqui estou ardendo a minha eternidade", já dizia Vinícius de Moraes. A eternidade e o infinito parecem voltar à baila. Mais do que palavras redescobertas de um dicionário, parecem se transfigurar em sentimentos.
Hoje temos muitos outros pensamentos que dizem "eu me sinto infinito" (Das Vantagens de Ser Invisível) ou ainda "alguns infinitos são maiores que outros" (A Culpa é das Estrelas). O meu preferido ainda é o bom e velho Soneto da Fidelidade “Mas que seja infinito enquanto dure”.
Eu digo que, sobre os infinitos, somos múltiplos: somos nós e somos o outro, os outros. Os tantos infinitos que nos cruzam e nos aumentam ou diminuem de acordo com nosso contato, com nossa intensidade, com nossa abertura para ser parte nossa e parte doada, experiência de troca sem fim que é a vida.
E se a vida é troca, que troquemos tudo de lugar: que possamos ter amigos em cada canto do mundo, uma história pra contar sob cada céu, iluminada por estrelas que brilham diferentes.
Se é para trocar, que troquemos de roupa, de livro preferido, de cidade, de roupa, mas há uma troca que não me permito fazer, embora muitas vezes seja necessária: a troca de amigos.
Coleciono amigos antigos. Quase um vício. Tenho alguns que nem me lembro mais como a amizade começou: muito mais de 20 anos na estrada. Outros são mais novos, coisa de 15 anos, uns de 10, outros bem mais novos, mas que parecem ser tão conhecidos quanto os de longa data.
Sobre a minha coleção de caros e raros amigos, retomo as frases sobre o infinito e a eternidade: que nossa convivência seja marcada nesse curto espaço de tempo que temos chamado vida, que nos é eterno enquanto dura e que nos faz sentir infinitos quando estamos com pessoas que nos fazem tão bem!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Enluarar


Quando todos os meus sóis me deixarem a sós, restarão apenas eu, essa sombra do que fui e os poucos brilhos do que virei a ser.
Irei desnudar-me de meu brilho solar radiante e alegre e rumarei para outro ponto do céu, tangente ao mar.
Seguirei meu azimute, seja lá em que quadrante for, na busca pelo toque da linha do horizonte entre céu e mar, exatamente onde Deus, piedoso, encostaria seus dedos em minha fronte para acariciar meus pensamentos e ordená-los. Existe esse lugar? Chegarei a esse limite? Seguirei.
A dúvida como bússola não aponta o norte, ela o desvia. Gira louca a rosa dos ventos, deixando as suas pás, suas pétalas, suas certezas espalhadas pelos ventos de oeste, leste, sudoeste, tempestade!
Quando todos os meus sóis me abandonarem, vou enluar. Nua de meu sol, cobrirei-me da translucência lunar, tendo como companhia apenas as lembranças boas que conquistei entre os pontos austral e boreal, entre a minha aurora e o meu crepúsculo.
Meus lábios terão como prece nomes que lembrarei porque me fizeram feliz, porque foram luzes junto a mim. Viverei de minhas lembranças, cadentes como estrelas, brilhantes e frias e cada vez mais distantes.
Passearei pelo céu, pelo meu e pelo seu céu, como no dia em que valsamos sem música, trocando passos em uma madrugada qualquer embalados por sons ouvidos juntos e calados em silêncios aconchegantes. Não serão lembranças de alegrias vãs, porque nenhuma alegria é vã. Toda alegria é completa a seu tempo e à sua hora. Mas a hora acaba.
Quando eu, lua nova, precisar de forças, buscarei por sua língua que ardia em palavras que me tocavam mais pelo que causava aos sentidos do que pela brava que não chegou a incendiar.
Quando eu, lua crescente, estiver me enchendo, será com o vento. O mesmo que me fazia sorrir, sussurrando a melodia de nossos sons ditos em feriados ou domingos ou dias de feira, porque todos os dias são iguais e sem fim quando se acredita ter a vida inteira. Encherei-me dos sonhos lúdicos e lúcidos que bebi a vida inteira, sem que tivesse percebido que a vida inteira já estava traçada, pronta e acompanhada, mesmo que eu não enxergasse os seus pés ao meu lado.
Quando eu, lua cheia, transbordar será por tanto amar, tanto querer e tanto desquerer que me cabe. Serei água clara e fresca em concha de mão pronta para matar a sede de bocas risonhas, mas que escorre pelos dedos só pelo prazer de seguir o seu curso junto ao rio. Desprenderei-me de minha fonte, ganhando cursos longínquos, atravessando céus de quem sabe para onde vai ou de quem se perdeu ou ainda de quem nem sabe se vai ou se fica, mas que se encanta pela vida.
Quando eu me enluarar, será para seguir-lhe, estrela-guia-distante, rumo de minha embarcação que abrigou marujos que velejaram pelos meus mares e minhas camas. Serei aquela que cheia de vontades, reflete o brilho do sol, dos sóis, que me couberam em tempos passados, mas que mesmo com mapas errados sempre buscou o tesouro maior, guardado na arca de seu coração (ou já era o meu coração e não percebi?).
Quando eu, lua plena, estiver cheia, verei que não sou cheia de mim, mas de tantas coisas que vi, vivi e senti. Serei cheia de todos que passaram por meus dias, que se doaram e me transformaram e terei uma só certeza: abandonar os sóis e enluarar é o crescimento que toda alma deve passar.
               Quando eu, cansada, lua minguante, minguarei muitos sonhos, muitas certezas e espalharei as minhas incertezas, abandonando todas elas. Mas não abandonarei a brisa que me refrescou e acompanhou desde os tempos de sóis ardentes. Não esquecerei o motivo dos rodopios pelas ruas, nem as inspirações mais poéticas. Porque a delícia de se enluarar é saber que o ciclo recomeça e que logo serei, de novo, uma lua nova, ávida pelo novo, sem esquecer o que me fez cheia um dia

Ensolarar


O dia preguiçoso não queria acordar
O sol não saiu da cama,
Vestia seu pijama cinza:
O céu nublou!
Dentro de mim tudo ardia.
Dentro de mim o sangue corria!
Enquanto lá fora o dia não se decidia,
Aqui dentro eu me ensolarava!
Tem gente que chama de alegria,

Eu só acho que é um novo dia!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Melancolia



Já havia se acostumado com o frio das tardes outonais. Sentia esse frio mesmo se fosse verão. Sentia-se vazio mesmo quando estava cheio. Sentia-se sozinho mesmo quando acompanhado.
Sentia a falta daquela que por algum tempo havia se transformado em todo o seu tempo. Em todos os seus pensamentos. Agora já não sabia mais caminhar pelos mesmos lugares de antes sem sentir a sua presença naquela ausência.
Tudo tinha sido muito rápido, quase um piscar de olhos. Uma mudança de estação. Tempo contado no relógio. Prazo de validade curto. E ela não lhe saia da memória...
Enquanto olhava para a paisagem com árvores desfalecendo e perdendo as suas folhas, típico da estação, pensava nela. Em como ela vinha sempre leve, sorridente. Era uma calma em forma de agitação. Vê-la se mover entre todos e ocupando todos os espaços cansava os olhos que precisavam busca-la incessantemente, mas enchia o ar com uma alegria imensurável. Como poderia uma pessoa como outra qualquer ocupar todos os espaços que o rodeava e fazer tanta falta? Como poderia ela ser tão presente mesmo em sua ausência?
Aquele vento frio o fez lembrar de um dia em que ela cogitou não sorrir e ele a repreendeu terminantemente. O sorriso dela era impagável. Era combustível. Era um renovo de caminhada, de planos e de esperança. Ele precisava dela. Precisava do sorriso, quase como um pássaro é dependente do céu.
O som do vento fazia com que ele se lembrasse dela sussurrando uma canção em uma língua desconhecida. Ela adorava cantar mesmo que não soubesse as palavras. Ela dizia que sentia a música, a melodia, independente das palavras. Classificava as músicas pelas sensações que sentia e quase nunca pelo ritmo. Para ela, a música preferida era o tum-tum: aquele que se ouve toda vez que encosta a cabeça no peito do amado. O coração sabe fazer declaração de amor silenciosa. Ele não erra nas palavras.

Por um momento ele desejou chorar de saudade, mas estava estagnado em suas emoções. A paisagem o levava para longe, para minutos passados que poderiam ter durado uma eternidade. A claridade do dia iluminava a sua solidão. Ele desejava ouvi-la. Sabia que nesse momento, por algum motivo, ela falava com todos, menos com ele. E aquele silêncio enchia toda a sua alma. Ela falava mesmo em silêncio. Ela era presente, mesmo passado.

Fio Vermelho


“Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se. Independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá se partir.”
Essa sabedoria chinesa martelou na cabeça dela o dia todo. E ao passar das horas a ouviu mais de uma vez. Devia estar na moda. Mais uma dessas frases que são repetidas incontáveis vezes em seus dez minutos de fama.
Não era. Findo o dia, outros tantos vieram e a frase martelava. Era como se o tal fio vermelho estivesse embolando-se cada vez mais nela. Havia começado como um novelo entre seus pés, mas agora já a envolvia até a cabeça, amarrando-lhe os pensamentos.
A água quente do banho ajudou a lavar os pensamentos. Ajudou a organiza-los, talvez. Pensou onde estaria o seu fio vermelho. Quem estaria segurando a outra ponta? Seria preciso um mapa da mina para descobri-lo?
Suspirou. Passou pela sala. Tomou uma bebida qualquer com gelo. Muito mais pelo prazer de brincar com cubos em temperaturas mais baixas do que os seus lábios do que para saciar a sede ou mudar o paladar.
De pronto pensou em uma série de pontas para o seu fio vermelho, mas nenhuma foi tão desejada quanto uma que, por acaso, havia se enroscado em seus cabelos vermelhos em um dia desses. Não era nada especial. Talvez nem tivera sido notada, mas notou e, de leve, sussurrou: Talvez os orientais estejam certos: talvez haja mesmo um fio vermelho que ligue as pessoas e, com sorte, o seu fio é o fio dos meus cabelos, tão vermelho, tão próximo de seus dedos...

Mais uma vez suspirou e desejou que a ponta de seu fio vermelho fosse logo encontrada. Não por carência, mas porque desejava se sentir amada.

Pelos Olhos



Da janela sem travas, sem cortinas ou véus,
Que chamamos olhos, ele, o amor, entra.
Sem autorização invade o coração.
Ah, esses olhos, muito mais que janelas,
São as sentinelas.
Deviam proteger, mas capitulam:
Como espiões nos entregam,
Acordados com nosso invasor.
Ah, o amor... essa bondade que nos invade,
Essa perfeição que nos aperfeiçoa,
Essa graça que floresce!
Ah, esses olhos...
Porta de entrada do que é sublime,

Porta de saída de nós mesmos...

sábado, 2 de novembro de 2013

Ponto Final II


Não me traga as suas verdades
Porque elas já não me cabem.
Não me diga que ainda me ama,
Suas palavras não me dizem nada.
Já cansei de sorrir na foto de sua estante
Acabou, tudo chegou ao fim, cansei de ser seu joguete.
É assim: final de tarde,
Um ponto final,
Rasura no texto,
Num dia de domingo
Sem nenhum pretexto.
Sou brinquedo velho deixado no quintal.
Não me venha com seus sorrisos,
Eles estão amarelos.
Os seus braços não enlaçam a mim,
Não sou a princesa desse castelo...
Tire logo os seus olhos frios da minha pele,
Acabou, tudo chegou ao fim, cansei de chorar por ele.
É assim: final de tarde,
Um ponto final,
Rasura no texto,
Num dia de domingo
Sem nenhum pretexto.
Sou brinquedo velho deixado no quintal.
Eu mudei, já fechei a conta,
Paguei os meus juros
Com minha melhor moeda
Siga o seu caminho,
Cada um na sua
Esqueça meu rosto

É só mais um ponto final.

Novembrou


Um-do-onze: é assim que ele chega,
Marcando um ritmo de "uns" em fila quase indiana.
Dias quentes, sóis alegres,
Anuncia a primavera em seu meio:
Meio do caminho meio andado.
Meio nova, meio velha,
É quando mudo de idade:
Nem lá, nem cá, quase sem lugar!
Novembrou!
Novembro chegou:
É festa, é chegada e despedida.
Um ano vai, outro chega,
A alma fica!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Albergue


Meus passos são firmes
E não sei para onde vou:
Eu me perco.
Minhas mãos são seguras
E buscam pelas suas:
Eu desatino.
Meus olhos brilham
E vejo o futuro:
Eu me entonteço.
Minha boca sonha com a sua,
Declama o seu nome:
Eu rogo.
Meus dedos tateiam no escuro,
Contorno a sua foto:
Eu choro.
Meus versos teimam em sair,
Despedaçam-se em mim:

Sou albergue de sentimentos.

sábado, 19 de outubro de 2013

Estejas longe de mim


Há uma hora escura em que perdemos as rédeas de nós mesmos. Sei que essa hora chegará para mim e para você e para todos que temos à nossa volta. Essa hora negra nos tira do sério. Afasta-nos de nós mesmos. Afugenta nossa lucidez e nos deixa à beira de nossos próprios abismos, sem eira para segurar. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.
Quando as palavras me faltarem, sei que estarei perdida em silêncios, não saberei nada do léxico, direi frases que se distanciam do menor nexo. Nesse momento gritarei calada e ninguém ouvirá meu grito. Minha prece não será repetida e nem tão pouco a minha oração será atendida. Terei me esquecido de como se abre a boca. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.
Nos dias em que me castigar com a tua presença silenciosa, recolherei as minhas gotas de brilhante nascidas de meus lagos rasos de tristeza, choradas das profundezas de minhas entranhas, trazendo à tona a minha dor. Sentirei na carne a navalha afiada de teu descaso e verterei sal em honra às palavras doces que já ouvi de ti. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.
Será naquele dia em que puderes me estender a mão e nada fizer que sentirei a punhalada do teu não-querer em face a todo o meu bem-querer devotado e febril. Lançarei teu nome em um livro de esquecimento e lamentarei o dia de folia em que meus olhos juraram fidelidade e lealdade aos teus, assumindo toda a minha ingenuidade. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.

Chegando o dia em que eu precise levantar um brinde à tua felicidade em detrimento da minha, erguerei meu cálice de vinho tinto, do qual farei tinta rubra para escrever-te versos. Desejarei que me leias, mas temerei as minhas entrelinhas. Mostrarei a ti a nobreza de minh’alma que mesmo em frangalhos, louva por sua existência. É nessa hora que rogo que estejas longe de mim.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cotidiano



Pelas barras de seu vestido, os passos.
Passante, não olha para os lados.
Observador, sou só olhos
E sonho.
E olho para você, só para você.
Parado exatamente aqui,
No mesmo lugar,
Estátua de bronze com olhos de lente.
E a moça que passa olha e não vê.
Vê e não enxerga.
Passa... desliza... quase voa.
Voa e cai em meus devaneios.
Fico pronto para despertar ao seu passar.
Fico pronto a explodir ao seu sorrir.
Desejo que se vá só para vê-la voltar.
Desejo acordar para não perdê-la de vista.
Entonteço ao meio-dia,
Desespero-me à meia-noite.
Do céu baixo as nuvens
Tapetes para seus pés que logo vêm.
Por essa leveza seria alcatifa,
Para seus deleites seria fonte cristalina.
E ela vem e passa e vai.
E eu observo e olho e não sou visto.
E faço parte de seu cotidiano de sorrisos,
De tantos “bom dia”, de ais e suspiros,
Mas assim como não sei como o sol se vai,
Aqueles olhos de ares sutis,
Passam por mim e não me veem,
Presos em seu cotidiano.


Primaveril



Enluarou. Estrelou. O lábaro cravejou-se.
Lá do alto eu olha para mim mesmo
Raízes fixas na terra, cabeça no espaço.
Pensava na amada, pés bailarinos,
Que afagavam meu coração com a ponta de seus dedos.
Pisava tão leve que parecia carícia.
Dançava nos meus sonhos.
Raiou o sol. Amanheceu. Venceu aurora.
Primaveril me sorria e abriam-se flores
Ao meio-dia, à meia-noite.
Em meus braços ela faltava,
Mas por dentro eu era cheio.
O vazio se completava com a cor dos seus cabelos.
Eu era oco e pleno.
A brisa era fresca e ardia.
Balbuciei seu nome, canção muda.
Era feliz em minha tristeza,
Era presente em sua ausência.
Era a princesa sem castelo
Eu, o príncipe sem cavalo.
Eu a sonhava jardineira,
Ela zombava de meus planos.
Eu a descobria, novidade.
Ela me reencontrava, sonho delirante.
Parecia noite de verão,

Era entardecer de primavera.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Silente


Em seu silêncio, calmaria.
Em meu silêncio, tempestade.
Ou seríamos dois turbilhões disfarçados?
Nossos olhos, caravelas em mares distantes,
Se buscam, se encontram e se perdem.
Ou fugimos das bordas desse Mar Tenebroso,
Medrosos de um abismo inevitável?
Deixamos nossas mãos perdidas, naus à deriva.
Deixamos nossas palavras silentes,
Estrelas cadentes no céu de nossas bocas caladas,
Correndo o risco de engasgarmos com as letras mortas,
Não ditas, inaudíveis, impronunciáveis.
Não há bússola que nos guie,
Nem carta náutica que nos dê uma rota.
Não precisamos sequer de um astrolábio,

Mas do encontro de nossos lábios.

Sussurro



Das conchas de suas mãos,
As palavras.
Não saiam da boca,
Mas dos olhos.
Atravessavam-me como o trem na estação.
Seu sussurro era tranquilo,
Doces notas harmoniosas.
Que os meus ouvidos invadiram.
Eco surdo em campo aberto.
Vento que causa arrepio.
Seus olhos de entardecer,
Minhas pernas de ventania.
Segui seus ditos como fiel em romaria.
Do leve som que ouvi,
Lembro bem das cores que sorri:
Era um sem fim de lilases,
Azuis e transparências.
Eram águas claras correndo,
Que eu seguia bebendo.

Eram seus desejos me ardendo.

Calendário


Vivo os dias como criança:
Começo em um novembro aniversariante.
Em dezembro recebo encomendas
Que são abertas em um janeiro
De calores e águas,
De ventos e mares,
De férias e esperas de folias.
Foliã de meus fevereiros,
Danço pelos meus dias,
E descanso no Equador de março,
Equinócio de meu outono,
Quando me mudo, me podo, me renovo.
E me abro em abril em prosa,
Em verso, em rima.
Permito-me uma ou outra mentirinha,
Que vai embora como a moça de maiô
No mar frio de quase inverno,
Dedilhando flores de maio,
Junho ou julho e suas fogueiras
De santos e padroeiros,
De milhos e pipocas, pescarias e quentões,
Quentura de corações.
Agosto de Deus sigo meu caminho.
Compro tinta e pinto a casa,
Pinto o dia, pinto flores, pinto o sete,
Setembreando os ares primaveris.
Que seja agora outubro ou nada!
Porque o ciclo se fecha

E o calendário não para.

Tela



Porque sempre tenho tinta à mão
Pintarei os melhores quadros para seus olhos,
Como promessa que nunca termina de ser cumprida.
Nesses quadros nem sempre haverá beleza,
Mas haverá o verde, a esperança,
Minha assinatura e o compromisso
De não deixar nada passar em branco,
De colorir seus dias,
De encher sua monotonia.
Farei da sua tela meu brinquedo,

Dias quentes de folguedos.

Miudeza


Sou miudeza. Minúscula. Poeira. Grão de pólen dourado que só brilha no sol. Brevidade. Tenho mãos pequenas e pés que se perdem. Tenho dedos curtos, finos, delicados, desses que tremem ao segurar um cristal. Tenho olhos brilhantes e curiosos. Sou pequena luz inquieta que busca acender olhos que vagam por breus.
Por ser pequena, não tenho muito. Tenho quase nada. O que tenho me basta. Bastaria se fosse seu. Se eu fosse sua. Bastaria se não fosse de silêncio, do seu silêncio atordoantemente agudo aos meus ouvidos.
Sou minúscula e seus olhos não me veem. Espero à sombra de mim mesma que me veja. Que olhe para mim e perceba que sigo seus rastros. Como a delicada joaninha ao pé da flor que tem sua beleza anulada, quase imperceptível porque só os aromas interessam a quem visita o campo.
Sou poeira levada pelo vento. Arrastada pelos passos de um caminhante qualquer que ousa em becos e vielas. Sou poeira repousada nas curvas de um ponto de interrogação que ecoa pelos vãos do tempo. Em galhos secos de frases podadas da boca seca de palavras certas.
Sou grão de pólen de versos desalinhados que provocam reboliços turbilhantes em minha própria mente. Contiguidade em meus descontínuos temas paralelos que se encontram em meu infinito de ideias, prantos, lamentos, desabafos e alegrias, rompendo a lógica euclidiana.
Sou brevidade, tempo determinado. Sou hora marcada para o fim. Tenho pouco tempo no relógio, pouca areia na ampulheta, pouco sol nas pedras angulares. Sou folhas contadas na agenda, dias esgotados do calendário, mas ainda assim lhe espero.
Pelas minhas mãos pequenas a caneta lhe escreve, lhe descreve, conjuga suas ações com as minhas. Salvam-me do limite da eira, tiram-me da beira, evitam a vertigem.

Pelos meus dedos pequenos toco canções ininteligíveis, com palavras nunca antes pronunciadas por nossas bocas. E já são tão poucas que pago pelo preço do que não vejo e já nem sinto tanto. Será que ainda há o encanto? Vago. Silêncio. Silencio. Não ouço resposta ou assobio. Suplico, conjuro, adormeço em minha miudeza de ser e grandeza de sentir, em minha pequenez de alma e imensidão de amar.