Visitas da Dy

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Caos II




Cada qual com seu caos
E cada caos com seus desesperos
E atropelos.
Que sejamos todos presos nesses emaranhados de novelos,
E cada um que se ajuste à História:
À minha e à sua, um dia, quem sabe, à nossa.
Sim, um dia, porque é questão de alma:
Ou ela se acalma ou se acostuma...
Mas o caos...
Cada um tem o seu e o aceita como pode.
E de cada taça, um gole,
De cada gota, uma tempestade.
A margem, de erro ou de rio, só o tempo dirá.

E é só com ele que vamos nos acertar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Universo Onírico




Dentre as tantas coisas que sempre quis colecionar e as tantas que colecionei reservei espaços para os sonhos, minha especialidade. Por eles dei o sentido necessário à minha vida. Como se fossem o ar que eu respirava.
Muitas vezes encerrei-me em meu mundo interior, ocupada de sonhar por longas horas, acordada, avoada, distraída, sendo tantas outras, construindo outros mundos, outras cores, outros sopros de ventos, outras moradas de paredes que desafiavam qualquer engenharia.
Doía-me só o despedaçar dos sonhos caídos ao chão. Pulsava mais forte o sangue que pingava dos dedos que tentavam ajuntar os seus cacos. Sobressaiam-me os desesperos alados daqueles Ícaros que saiam pelas janelas que eu me esquecia de fechar e nunca mais voltavam... restavam só as suas lembranças que dividiam entre si as sensações ao mesmo tempo doces e amargas, de um querer revivê-los e uma repulsa em saber como acabariam.
Não atrevi a desejar muita coisa em meus dias. Cabia aos meus pés o caminho, aos meus olhos, o sonho. E sentia-me confortável nessa empreitada. Sonhadora profissional. Descobridora de figuras em nuvens. Desenhista de sorrisos nos vidros embaçados. Bailarina das madrugadas e dos sons mudos.
Nunca entendi o que os outros chamavam de viver. Essa correria desenfreada, essa falta de olhares, de toques, de levezas. Sempre fui de sutilezas. De dias coloridos. De gentilezas. Por mais que me dissessem que era preciso acordar, eu não dava ouvidos. Não me agradava a ideia de abandonar meus planos. Não era por falta de experimentação. Ao contrário. era justamente por ter experimentado o mundo real, cru como se apresentava que optei pelos sonhos.
Desenvolvi um jeito próprio de ser de onde nunca fui. De ter o que nunca alcancei e de identificar-me com o que nunca existiu. E não era fuga. Não era sequer simples. Exigia uma complexidade tamanha fazer parte de um mundo e não se achar nele. Ainda é complexo. Mas agora a tranquilidade de quem está acostumada com os trâmites paira.
Toco, com minha poesia, tudo o que não é meu, mas passa a ser por apropriação. Tenho um eu-lírico mais atrevido que eu mesma, mais desbravador, mais possuidor de tudo o que quer, pois cria seu mundo.
Permiti-me um amar sem amar, como o poeta que finge. E a alma de poeta nunca abandona um coração que sonha. E os amores, sentidos ou não, serão sempre amores e nos permitem as mais belas e tristes e intensas colocações e esperanças. Como o se o tangível jamais estivesse ao alcance de meus dedos. Como se um dia Tântalo pudesse se saciar ou Sísifo descansar. Como se fosse possível viver experimentando o que nunca se experimentou. Como se a água continuasse a deixar a boca seca. E deixava. E deixa, às vezes.
Talvez seja por isso que me acostumei a sonhar de modo livre. Sem o menor dos pudores. E sem a menor pretensão de alcançar todos esses sonhos. Eram quase que colecionáveis. E junto deles eu guardo cartas, músicas, cheiros, sensações.
Não me isento da vida só porque sonho. Sonho justamente para suportá-la. Para ter forças nos ombros e coragem nos pés. Sinto cada curvo que dobro. Engulo cada novo sabor e cuspo longe todos os sapos que me são oferecidos. Em alguns casos cuspo fogo. Dragão vermelho dos contos de fada, amansado pelas noites de lua e cativo em torres altas de castelos fortes.
É uma vida mais cheia de fantasias. Não menos dura, não menos real, mas um pouco mais enfeitada, tendendo a ser mais otimista sempre que possível, mas permito as boas doses de realismo e um pouco da água do poço fundo do desânimo em tempos mais difíceis.
Tenho sonhos desertos ou de desertos. Longínquos. Solitários. Outros de oásis, de festa. De tendas ricas. De paisagens tão misteriosas quanto encantadoras nas quais não me canso de olhar e buscar. Das quais nunca me canso de sonhar.
Tenho sonhos como uma mania insaciável de construir. Construo os mundos como o poeta aos versos. Construo mundos e os venero e anseio por não abandoná-los e desejo poder tocá-los como música harmoniosa.

Tenho os sonhos como companheiros eternos e inseparáveis, que me dão mais vida à vida e que só ousarei me separar quando os olhos fecharem para não mais se abrirem. Quando eu me espichar pelo vão do não-sei-para-onde-vou. E quando, enfim, estiver encerrada a minha participação nesse mundo, que só é suportável porque me permito ser um universo onírico e paralelo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Para Todo Dia




Fosse quarta-feira e o ritmo seria outro. Na segunda, o pé estaria no freio, ainda preguiçoso. A mão estaria largada, tateando em busca do café-nosso-de-todo-dia. Mas era sexta. E apesar de todo o cansaço da semana, das correrias, dos ônibus perdidos, das horas atrasadas, das reuniões intermináveis e enfileiradas de segunda a quinta, como as filas das crianças na escola, a aceleração era total.
Poderia ter feito versos. Poderia ter ouvindo uma canção. Preferiu pensar em todas as palavras que poderiam ser escritas e endereçadas, mas não o seriam. Gostava de escrever essas longas cartas que não eram entregues a ninguém.
Jogou-se no sofá da cafeteria como se fosse o de sua própria sala. Afundou-se no meio das almofadas, sacou o caderninho e anotava tudo. Observava tudo. Com um som alto nos fones, perdia-se na contemplação do vai e vem das pessoas.
Gostava de ir ao shopping. Não de ir às compras, mas de sentar ali, na poltrona que já era quase sua e passar horas olhando as pessoas. Gostava de tentar imaginar o que se passava nas tantas cabeças que entravam e saiam das lojas, que se escondiam atrás das sacolas com produtos caros e que nem sempre eram necessários a todas aquelas pessoas.
Gostava, na verdade, de sentir-se desligada de tudo aquilo. Como se fosse só mais uma expectadora do mundo, uma fiel seguidora das histórias, das mil histórias sem fim que era a vida.
E sempre se pegava imaginando os fios que ligavam as pessoas, sem o menor dos sentidos lógicos, sem nenhuma outra explicação que não fossem um capricho dos novelos das Moiras.
Em dias acelerados como essa sexta-feira, gostava de cafés gelados, de energias revigorantes e refrescantes que a permitiam mais lucidez ao olhar para cada passo das pessoas e lhe permitia examinar a sua colocação no meio de todo aquele mar de histórias interligadas.
Pegava um ou outro fio e ia tateando para encontrar o exato momento em que o cruzamento acontecia. Encontrava, mas a lógica lhe fugia. E dessas experiências de pausa e observação tirava a sua receita para todo dia, de meditar, de concentrar-se nos acasos interessantes que os caminhos, suas voltas e atalhos proporcionavam. E anotava em seu caderninho cada um dos seus pensamentos. Como se pudesse compor um livro dos dias. Um livro de horas. Um livro de intermináveis histórias sem fim, com personagens que iam e vinham a cada nova página lida, escrita, reinventada.

Para todo dia, uma nova anotação. Para todas elas, uma dose de contemplação. E fazia-se assim, um pouco dona de tudo o que seus olhos viam e tocavam sutilmente pelo correr das horas que mergulhavam em mais uma taça de café gelado.

Às Cegas



É como descobrir-se sem que se conheça. É domingo de sol sem nada para fazer. Ou com tantos afazeres que vira segunda-feira. É sentir-se às avessas e nada poder fazer.
É uma sensação de cansaço que beira a desilusão, que beira solidão, que beira o desconhecido e que entontece qualquer um. Que se entranha nos pensamentos e esvazia as ideias, que tira o ar, que deixa o último fôlego se esvair, assistindo a tudo com frieza de concreto.
É como um feriado em dia de domingo com aquela sensação de que não valeu. Parece pênalti roubado, folga desperdiçada, chuva que cai depois que se lava todas as janelas mais altas. É um desânimo interminável que precisa ser vencido.
É um abismo com fundo. Mas com tantos riscos quanto o passo em falso pode assegurar quando o sem fundo é a garantia. É a certeza do baque forte que quebra tudo, desmonta sonhos, desloca pensamentos.
É uma incerteza de se existir ou viver. É a incerteza de se entender a diferença entre uma coisa e outra. Ah, quantos existem e não vivem... e quantos vivem tanto que chegam a incomodar quem só existe!
É a dúvida de não saber-se ser ou estarrecer. É sentir-se no meio do mundo em queda e não se reconhecer. É não ter para onde correr, mas ainda assim seguir e buscar forças para não desistir.
Acordar todos os dias é um exercício diário de pequenas conquistas, pequenas vitórias: sobre o despertador, sobre a vontade de ficar na cama, sobre o horário que passa voando, sobre cada decepção, sobre os maus agouros, sobre toda a gente que está ali só para servir de obstáculo.
Acordar todas as manhãs é um exercício de fortalecer-se sem esquecer das delícias que se alcança quando cada um desses desafios é ultrapassado.
Em tempos de cansaços, de muitos motivos para desistir, ainda consigo enxergar que o mundo contém todos os desdobramentos possíveis, para o bem ou para o mal, e que mudar os rumos ou manter-me de posse da mesma cópia feita de um original desigual depende mesmo é de minhas vontades.
Em tempos em que me sinto abstrata, presa em concretos e conceitos que parecem limitar, busco as beiras, as fronteiras, os liames e teimo em passar por cima ou por baixo das cercas que insistem em reduzir meus pensamentos.
Já não é de hoje que tentam me calar, mas ainda há o grito que posso dar, ainda há a angústia em que posso (quase) afogar-me e experimentar umas poucas gostas de amargo, só pelo prazer do diferente, sem deixar me abater completamente, sem desistir de ver ao chão cada caco desses espelhos distorcidos.

Não é de hoje que há uma busca por um não sei o quê e talvez esse seja o motivo do falso cansaço: o não saber. Uma busca às cegas tem seus prejuízos, mas uma certeza de se achar soa como um realejo ao longe, que muito mais do que a sorte, aguarda a mão que lhe dará corda e libertará seu som, leve como as notas de uma harpa suave. E os pés poderão dançar sua música. E aceitar a sua sorte. Acreditando ou não nela.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Fado Doido




Enquanto contava as horas que se estendiam e arrastavam em descompasso com o escuro da noite que se dissolvia em madruga, guardava beijos nas conchas das mãos, esperando quem os recolhesse.
Construindo castelos de poeira nas bordas das páginas dos livros lidos e daqueles que foram comprados e esquecidos, parte da velha mania de colecionar retângulos coloridos na estante pesada do canto da sala.
Mesmo nas madrugadas longas, enchia as mãos de sol. Esfarelava o brilho em pequenas fagulhas que soprava pela janela, estrelando os céus solitários que entravam por outras janelas insones.
Desencontrava-se de si mesma em pensamentos soltos e os escrevia em blocos de papel que se perderiam na próxima estação, que nunca ganhariam espaço, nunca seriam conhecedores da primavera.
Era um rio de sentimentos aprisionado em montanhas tão latas quanto seus sonhos, mas não sabia o caminho dos mares e morria um pouco mais dentro de si a cada dia. E calava as palavras. E as engolia. E quase se afogava em seu vale de lágrimas e contas perdidas.
Tocava o céu com seu peito aberto, arrepiado pelo vento, olhos atentos a todos os movimentos que só se podiam sentir. Via tão além e se distraia que o perto não lhe era conhecido: fado doido de quem se encanta por tudo o que vê e com pouco se contenta.
Se voasse seria uma gaivota, que troca os céus por mergulhos, que desafia os limites e se diverte em rasantes.
Se fosse peixe seria o de um aquário, que passa os dias esperando o nada, sem saber de nada, só sonhando com as correntezas que experimentou há muitas luas.
Inquieta, poderia ser faísca solta de fogueira, que se lança atrevida, mas cansada, apaga e se recolhe em cinzas.
Fosse palavra, seria tantas que não caberia em uma única língua e léxico nenhum conteria toda a sua essência e nenhuma gramática a arranjaria, nenhum tradutor a dominaria.
Sendo aquela que mata um leão por dia, não se daria por satisfeita e amansaria também as onças e se ajuntaria  a elas, aprendendo a arte de ser livre e feroz e sagaz e paciente quando necessário.
Se fosse silêncio seria aquele que paira sobre os cetins e tapetes antigos, das terras tão misteriosas quanto longínquas, seria véus espalhados pelo ventre á espera de mão que os soltasse.

Se fosse tudo isso, ainda assim se perderia e nenhum sentido bastaria, porque a busca e os desejos eram tudo o que a movia e entregar-se não fazia parte dos planos. Mesmo quando quase enlouquecia.

domingo, 5 de outubro de 2014

Para Sempre é Pouco




Aos quinze é tudo tangível. É tudo simples demais e complexo demais.
Aos quinze, o mundo é um paradoxo. E toda gota é a d’água e transborda até em copo vazio. E toda madrugada é longa demais para as lágrimas e pequena demais para os poucos minutos de sono antes do raiar do dia.
Todo dia é de folia, toda flor tem cheiro de alegria e toda chuva parece que nunca tem fim. E os domingos são chatos. E nas segundas de prova a preguiça comanda e o branco não sai da cabeça.
Aos quinze, a gente jura amizade eterna e diz que nunca vai se separar. Diz que amiga é irmã e descobre que algumas são, outras nunca foram.
Aos quinze, ainda teimamos em acreditar no príncipe encantado, mas já pensamos que ele tem mesmo é a cara do menino que esbarramos no outro dia, sem cavalo, sem capa, mas com um sorriso de tremer as pernas.
Aos quinze descobrimos nossos limites e juramos solenemente que vamos morrer ao final do filme “se tudo der errado” e não morremos. Juramos que a vida vai ser só de curtição para sempre.
Fazemos promessas de morar sozinhas ou com a melhor amiga. De ter as roupas mais maneiras. De ir em todas as festas e quer logo chegar aos 18.
Aos quinze, tudo o que queremos é que a vida passe, que os sonhos se realizem, que a noite seja breve e que aquele amor seja para toda vida.
Aos quinze, a gente sonha quando dorme, mas o bom mesmo é aquele sonho que se tem acordada, jogada na cama, no meio da tarde, quando contávamos as horas como se elas nunca fossem fazer falta.

Aos quinze, o tempo não para, mas também não passa. E a longa duração de tudo é sempre pouca e toda a nossa certeza é que o pra sempre, para nós, é pouco. E é, porque aos quinze, temos todo o tempo do mundo. Por mais que mudem alguns personagens.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Entardecer



Eu também já quis pular. Já sentei nessa beirada de abismo e olhei lá para o fundo que não se vê. Quis ter asas. Quis ver até onde ia a minha coragem. E até onde era esse fundo. Se é que um dia ele se acaba.
Já sentei na praia para ver o dia morrer. Já sentei na praia para ver o dia nascer. Já imaginei as dores da noite parindo a aurora e suas cores teimosas, rasgando o que sobrou da madrugada.
Eu já quis perder os sentidos e a memória. Quis acreditar que as dores da alma não eram de fato sentidas. Quis fugir. Quis afogar-me na imensidão do nada, esquecendo-me e fazendo-me esquecer da face da Terra, apagada de qualquer história.
Eu já quis morrer de amor. Já quis morrer de raiva. Morrer de medo ou de rir. E buscava justificativas plausíveis para todas as minhas vontades e, nem sempre, encontrava.
Já acreditei que todos os loucos tocam a santidade. Que os sonhos de voar eram só meus. Que as explicações existam. Que o caos não tinha fim.
A cada dia e a cada nova vontade, descobri as faces da sede. Desses caminhos áridos, difíceis de serem caminhados. Secos. Solitários. Asfixiantes. Distantes das nascentes.
Eu também já pensei em jogar a toalha. Já vi as forças acabarem. Vi o fim do dia, do mês, do ano. A troca das estações. E respirei fundo. E tomei um impulso. E recuei. E não era medo. Ao contrário. Era coragem. Muito mais do era preciso para pular, era a de ficar.
Ser forte quando se desconhece o próximo passo é difícil, mas vale a pena. Então, olha o abismo. Contempla a sua vastidão. Encanta-se com o perigo, mas recue. Não pule. Suas asas não foram feitas para isso, mas para voar alto.

Não se projete rumo ao fundo. Se saltar, que seja para alçar o voo e ver de perto o entardecer, onde o dia se redescobre e se recolore, onde a brisa encerra a sede e onde o cais é um porto seguro, sem tantos lamentos, sem sufocar-se com os ais.

Fome



Sentia fome. Uma fome de vida. Ou seria de viver?... Queria todas as experiências que não caberiam em suas mãos e nem em nenhuma mala e tampouco seriam alcançadas ali da janela do oitavo andar.
Era faminta pelas pessoas. Queria devorar cada uma delas. Conhecer cada vírgula de todas as histórias. E entender onde doíam as feridas. Desejava, sobretudo, curar todas as dores.
Tinha fome do que era, do que pensava. Queria ir sempre além, enxergar atrás da curva da luz, além de onde o vento pousava. E inquietava-se por não conseguir.
Sentia no peito a fome que só os silêncios prolongados podem proporcionar. E desejava engolir todas as notas, de toda dó ao sol mais fascinante, para que pudesse, em dias mudos, abrir a boca e fazer ressoar pela casa sustenidos e bemóis que a saciariam.
Era dona de uma fome pelo futuro que saciava olhando para o passado, redescobrindo coisas, esmiuçando os nãos ditos para entender todos os ditos. Virava páginas para escrever novos parágrafos, como se debruçada na borda de uma fonte dos desejos, em que seu reflexo traria respostas.
Tinha fome de fogo, de aquecer tudo o que era frio. De estreitar os laços, dar as mãos, sentir o toque e o calor das peles e das fogueiras que ardem dentro de cada um.
Sentia fome de azul, como se pudesse, um dia, degustar todo o azul do céu, como ele fosse capaz de aplacar as melancolias e os apertos cinzentos das almas cativas em peitos-de-gaiola construídos sem intenções de aprisionar.
Desejava comer partes dos caminhos, misturados a saladas de flores, bem coloridas, bem perfumadas, bem leves, cheios de desconhecidos. Prontos a serem desbravados.
Sentia uma fome que não cabia em si. E a compartilhava com o vento, na esperança que outros famintos como ela a ouvissem e se ajuntassem a uma só voz, clamando pelo cardápio de novos sabores, muito diferentes de todos aqueles que já se fazia conhecidos.

Sentia uma fome pelo novo. Pelos horizontes, pelos segredos nunca revelados, pelas releituras da vida, sentia uma fome de si mesma e se saciava quando se encontrava nas páginas que escrevia.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Aspirações





Quisera eu que não soubesse só os nomes de tantas cores que saltam das pontas dos lápis e colorem as flores.
Em dias como hoje encheria as minhas mãos de um azul-céu ou mar ou vento e jogaria no rosto, pra lavar a alma, para despertar o sossego que esqueceu meu endereço.
De tudo eu faria para parar de uma vez com meus esquecimentos e minhas pirraças, minhas brigas com as sombras nos finais de tarde, minhas inquietações das madrugadas, minhas agonias quase multicoloridas de tão vivas e um tanto sufocantes.
Eu mesma pararia com as tentativas de me convencer que a calmaria passou e que as tempestades extrapolam os copos d’água. Aceitaria de uma vez por toda beber as transparências de minhas teimosias para sorrir flores com cheiro de algodão-doce.
Os problemas são os dias. São todos os amanheceres pelos quais escorrego os olhos cansados de não dormir, exaustos de procurar um não-sei-o-quê intraduzível, inexplicável.
Os problemas são os meus porquês colecionados pelos anos, as interrogações enfileiradas à espera de respostas que não tenho e nem sei mais se quero ter. Talvez eu prefira mesmo só anoitecer e sentir a brisa que vem do lado de onde o vento faz uma curva tão leve que nem balança folha. Talvez eu goste mesmo é da sensação de se cantar de olhos fechados, fazendo noite em pleno meio-dia, envolvendo-me com uma nova música, desvendando uma nova melodia.
Pode ser falta de música, falta de verso, de rima, de nexo. Pode ser só um frio com pouca coberta, desses que passa logo que adormecer, logo que o corpo esquecer que existe, entregue na semimorte que é o sono.
Pode ser só o gosto do tempo que deseja parar, mas segue adiante, que custa caro. Custa vida, dor e alegrias. E cobra a conta no final, em balança dourada e fio de espada em salão nobre, feito feriado cívico. É espetáculo público a cobrança e a sentença é sabida antes por todos. É fim conhecido antes do começo. É fim.
Quisera eu entender o que eu não sei. E são tantas as coisas. E são tantas as buscas. E são tantos vazios que não se preenchem. E que sempre se renovam... quisera eu, num impulso, parar o ponteiro que gira incansável e descansar sem ter pressa. Quisera eu saber onde vou passar, já que sei bem onde é que vou chegar.

Isso de se buscar sem parar, deve ser a tal vontade de viver. A tal da vida que não te deixa em paz, porque ensinou a questionar e não a aceitar. Deve ser isso que chamam de caminho. Porque o resto, daqui onde estou, só parece paisagem. E segue.

Van Gogh





Pelas galerias do museu ela parava diante de algumas obras e chegava a se confundir com elas. Era quase uma mistura de pinturas de Van Gogh. Os Girassóis lhe douravam os cabelos com toques dos Campos de Trigos.
Nos olhos trazia brilhantes como das Noites Estreladas sobre o Róldano. Cores de uma ou outra Natureza Morta lhe coloriam os lábios e a face e em sua respiração podia-se sentir uma paz de Lírios do campo.
Era quase uma obra de arte, feita com o capricho dos deuses, ao mesmo tempo delicada e forte. De aparência tranquila, comum aos olhos de todos, mas ali dentro, um turbilhão.
Longe dos olhos que a percorriam, por dentro, ela tremia mais do que folhas ao vento. Mais do que a árvore onde o balanço da criança não para. E poucas pessoas seriam capazes de lhe conferir a devida atenção, o devido afago, o silêncio que compreendia.
Como cada um que ali passava, olhando os tantos quadros, ela se emocionava imaginando o desespero de se pintar-se mutilado. Como deveria ser arrancar de si mesmo um pedaço por amor (ou de amor)? E como seria olhar-se e saber que mesmo a parte amputada ainda parecia estar ali?
Curioso é tentar arrancar o que foi parte nossa. E ela tateava essa sensação agora. Sentia o formigamento no peito que ainda sangrava, inapaz de cicatrizar-se tão rápido. Suportar dores que sufocam, que apertam e que mesmo depois de curadas irão corroer algum lugar, ainda que seja ali, em um cantinho da unha.
E o pintor se arrancou. Se enviou em carta à amada. E se perdeu por julgar ter se encontrado nela. E se perdeu de si. E saiu de si. E quantas vezes ela saiu de si para se achar e não encontrou nada? E quantas vezes quis arrancar as próprias dores e jogá-las fora? Inúmeras vezes, mandaria todas elas ao remetente, presente-de-grego-devolvido.
Parecia uma expectadora comum, admirando as pinceladas, sã, consciente da beleza da arte, mas era, em verdade, muito mais do que isso. Era quem enxergava a pressa do pincel, marcada pela agonia de se ser, de saber-se existir e de desejar sumir.
Comportava-se como mais uma visitante da exposição, mas quase tocava o intangível momento em que se finaliza a obra e não se dá nada por ela a não ser o título de desabafo.

Observava calada, mas gritava uma compreensão que o artista, talvez, buscasse entres as cores e só agora alguém respondia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Juramento do Historiador




Algumas vezes sou tocada pela reflexão sobre o meu papel e, hoje, mais do que das outras vezes, o caminho que escolhi se abriu ante meus olhos de modo a fazer-me relembrar o juramento mais lindo que fiz na vida.
No dia em que escolhi minha profissão, tão pequena, tão criança, não sabia das maravilhas que me aguardavam, mas sabia exatamente o que queria.
Aos 12, escolhi estudar História.
Aos 19, entrei para a faculdade e comecei a lecionar.
Aos 24, solenemente, jurei dar o melhor de mim. E ainda hoje as palavras ecoam por todos os cantos de minha sala, pulsam em minhas veias como se fossem meu próprio sangue e Clio, com toda a sua inspiração, não me deixa abandonar o barco, por maiores que possam ser as tempestades.
Aos quase 30, relembro cada frase que disse e tenho a certeza de estar no caminho certo, por amor ao tempo, às pessoas, à História.

“Eu juro, nos caminhos da educação lapidar o meu destino com a sabedoria dos antigos, a força dos medievais, a razão dos modernos e a ousadia dos contemporâneos.
Sigo, mas não sem antes, deixar aos mestres meu olhar de respeito, gratidão e lealdade.
Em minha missão, um discípulo da honestidade na incessante busca do conhecimento; da memória, a preservação do patrimônio, a integridade.
Da ética farei inviolável ordenação.
Jamais permitirei que ideais de fé, valores étnicos ou sociais, partidários ou nacionais, comprometam o meu dever de levar o homem aos portais do saber.
Faço destas promessas, solene e livremente, as leis de minha própria consciência e glória, tendo o amor por testemunha, pela honra de fazer história.”


Que minha afeição por Clio e Chronos não diminua nunca!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Os Poemas que me Acompanham


Entre os poemas que me acompanham
Prefiro os que falam de amor.
Por mais que eu duvide se ele virá,
Por mais que eu não saiba seu destino,
Por mais que a mim seja intangível.
Gosto dos versos que descrevem
Aquilo que pra mim é inatingível.

Dos poemas que me acompanham
Há os se escondem nas noites.
Há os rebuscados e solitários,
Há os risonhos, quase embriagados.
Os versos noturnos são homens mascarados:
Deixam ver os olhos, mas não a alma,
Sons mudos ecoando no vazio das esquinas.

Entre os poemas que me acompanham
Guardo nomes, declarações, planos.
Guardo as confissões de nada-por-vir
Guardo segredos de não-me-toque
E me rio com as rimas frouxas
Tecidas em verões frios, à contramão da estação,
Bebendo maresia em mar de morros,
Desaguando em oceanos de ouro.

Dos poemas que me acompanham
Deixo seus títulos em um papel.
Sou autora de tantos, admiradora de poucos.
Reconheço minha pouca durabilidade,
A imensidão do tempo e a brecha da memória.
Coloco-me no vão dos ponteiros.
Desfaço-me em cantos, contos,

Incontida pelos pontos.

domingo, 14 de setembro de 2014

Limiar II



Depois de anos exposta,
Despendurou-se das paredes.
Quebrou as vitrines.
Saltou as janelas.
Apagou todas as luzes,
Fugindo dos holofotes.
Estava cansada de não se vista.
Sim! Nem sempre os olhares
Que passam nas exposições
Enxergam as obras de arte.
Cansada de tudo aquilo,
Tomou nova postura.
E desde o último outono,

Escondia-se na penumbra de si mesma:
Há detalhes que só são vistos pelo toque.
Tocava o limiar entre a luz e ela:
Bendito seja quem aprendeu a enxergá-la.

Mil e uma histórias



Quando a noite caia e a bela morena adentrava no quarto do sultão, não eram as suas madeixas os fios que mais prendiam o homem. Eram as teias de suas palavras que o envolviam o deixavam imóvel.
Ela, aranha, cuidadosamente o deixava emaranhado em tantas histórias quanto podia. Histórias fantásticas, mas também outras tantas comuns, que se entrelaçavam.
Sherazade ganhava a cada noite mais um dia, a cada respiração um novo suspiro porque apresentava ao seu sultão fios que não se desprendiam. Ao contrário se ligavam e religavam e dificilmente se sabia onde teriam começado.
Somos todos Sherazades.
Somos todos um composto de mil histórias sem fim entrelaçadas, pulsando em nós, latejando em nossas veias.
Sinto cada parágrafo do livro da vida, cada capítulo se abrindo, trazendo novos e interessantes personagens, em paisagens já vistas ou nunca imaginadas.
A cada novo dia, novas histórias se cruzam, novos olhares são construídos e torno-me mais e mais não só a contadora de histórias que queria ser na infância, a princesa dos castelos cercado por jardins e desertos, mas na personagem de histórias reais, cuidadosamente vividas e apreendidas.
Para todo bom capítulo, um ou outro parágrafo mal escrito, mal interpretado, mas compreendido, tempestades de areia passageiras que fortalecem.
Os capítulos ruins não são os últimos.
As histórias nunca se acabam.
Como a moça das histórias, fico presa às teias de Clio, aos fios das Moiras e ao caminho que traço e refaço.

Como nos contos das mil e uma noites, protagonizamos muito mais de mil histórias sem fim em nossas vidas. Somos muitas histórias dentro de uma só. E não me cai bem encerrar-me em uma única capa. Sou histórias que escritas em folhas livres voam com o vento, ávidas por serem acolhidas e lidas.

Saara


Herdei o peso da lua,
A inconstância de suas fases,
O frio de seus ais,
O breu de suas agonias.
Das tantas paixões não realizadas,
Outras tantas mal curadas
E um Saara de solidão.
Madrugadas convertidas em páginas,
Tempo desfeito, refeito, rarefeito.
Vida noturna: mais insone do que boêmia,
Mais de verso que de prosa.
Fogo no peito,
Frio no leito.
Vozes ao longe,
Rosários de pensamentos.
Conta
As
Gotas?
Conto os sonhos!
E carrego todo o peso

No crescente de uma lua.