Visitas da Dy

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Desalento



Ai de mim que lhe digo adeus.
Ai de mim que abandono o peito seu,
Logo agora que desejei não ser mais andante,
Que planejei fixar as raízes,
Cuidar de todo e cada canto que chamei de meu.
Ai de mim que me quis aldeia,
Casa sua ao mesmo tempo que se faria a minha.
Logo eu que não percebi sua chegada,
Logo eu que era mais feliz com seu bom dia.
Ai de mim que desfaço sentimentos
Só por não saber medidas,
Só por não compreender conceitos,
Só por não saber querer
E me afogar em teorias.
(Invenções vãs, confabulações)
Ai de mim que verei seus olhos em toda noite,
Mas, que achei melhor o silêncio,
A partida,
O abandono dos seus e meus escritos.
Que perdi livros e me perdi
E, na ausência dos saberes,
Também o perdi.
Ai de mim que já desconheço sua voz,
Mas, decorei seu cheiro.
Ai de mim que ainda quero
E não sou mais vista.



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Temores





Corre pelo mundo
Feito fera machucada
Bicho que sangrou
Bicho que teme 
E nega e foge.
Foge do desconhecido
Foge do que não viveu.
E, diante da porta entreaberta,
Sonha paixões em vermelho
Em lábios bem desenhados,
Em lençóis encharcados.
E sonha para si os tremores
Sonha para si a alegria da chegada
Sonha para si a explosão do corpo
Que começa pela cintura
E lhe abala as estruturas.
Mas, se vê tão pequena, a fera,
Que se encolhe, recolhe.
Vai pra longe, emudecida,
Engolindo seus gemidos e sussurros,
Seus desejos e planos.
Se afasta porque mesmo sendo selvagem
Já foi ferida e ainda sente 
O tempo das cicatrizes
E não aprendeu a usar bem as palavras
Se afasta porque teme amar o amor.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Poemas-pássaros





Quando não há mais consolo,
Quando não há mais saída,
Quando o silêncio grita e para,
Num instante leve e intenso,
Branco e profundo,
Elas, as palavras, brotam.
Pequenas sementes de amparo,
Incandescências inquietas,
Luzes coloridas e pulsantes,
Tradutoras de sentimentos.
Ser poeta é ser selvagem.
E,  no paradoxo, domar palavras.
É expor-se, brancas nuvens, em céu azul.
É doar-se ao outro (o que se sente)
E ver que seu reflexo é adotado pelo leitor.
Ser poeta é criar poemas-pássaros
Que pousam no olhar do outro
Que fazem morada além da margem
É parir e deixar ir, no movimento do mundo
Mudando rotinas

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Lábios



Não me importa onde o vento faz a curva,
Onde paralelas se cruzam,
Nem porque os sinos dobram.
A mim, a dúvida castiga
E só pelos seus lábios me chegaria a paz
Se por palavra dita ou beijo desferido,
Pouco importa afinal.
Mas, são eles, seus lábios atraentes
Que me prendem a atenção,
Atentam o juízo,
Atormentam.
Dá-me, segundo seu desejo,
Um tanto de sossego e compaixão:
Diga-me a que veio e vá embora
Ou beija-me a boca, os seios, a têmpora
E me faça coisa sua
Que a mim caberão horas de lamento ou prazer
Noites acompanhas ou de solidão,
Mas só seus lábios me contentarão.
Diga-me a que veio
E acalma meu coração
Dê-me sua verdade
Que farei dela uma canção.

domingo, 13 de outubro de 2019

Alquimia dos sons






Às vezes a poesia extrapola as palavras. 
Vira corpo. Vira movimento. Vira dança. 
Tudo é magicamente transformado.
Pela dança, o corpo que se move lendo os sons, 
Traduzindo as notas musicais.
É, sobretudo, um espetáculo múltiplo da divina criação. 
Há um quê de entrega, de imersão, 
De abandono de si e encontro com a alma. 
Uma alma mater, muito maior que se pode perceber.
Traduzir os sons com o próprio corpo
(Instrumento divino)
Exercício de generosidade
Construção do sentimento
Plenitude da poesia
Que sem palavra alguma toca.
Sem palavra alguma emociona.
Sem palavra alguma invade e preenche.
A liberdade dos sons envolve o corpo
A harmonia paira e nos eleva.
A música, a dança não são nada além
Do que a alquimia coletiva:
União de elementos
Explosão da arte e beleza
Como são em si: gigantescas.

sábado, 12 de outubro de 2019

Virtuos-idade



*** Poesia escrita para o espetáculo Zayin, do Studio Tablado Árabe Nabak, para a turma de Flamenco da professora Gisele Horta ***


Dos tempos tão passados, tão remotos
Em que a lua parecia não encher,
Listaram em poema descritivo
Todas as virtudes que os homens deviam ter.
Para nós, corpos que dançam,
A música por si só nos inspira.
O Flamengo nos inebria 
E independente do tempo
Estamos em nossa virtuosa idade:
A de bailar e viver,
A de encantar e crescer.
E imersos na Batalha das Almas,
Buscamos nossa melhor forma de ser.
Há de se ter DILIGÊNCIA,
Vencer o cansaço e a preguiça.
Abrir nossas asas ao vento
Ser livres como cotovias.
Também há se ter PACIÊNCIA,
Sermos serenos, calmos, pacíficos,
Afastarmo-nos da ira e inveja,
Recobrirmo-nos de BONDADE
Sabermos sentir o som, o amor, o afeto.
Há de termos TEMPERANÇA,
Buscar a justiça e a verdade,
Intensidades, profundidades,
Sermos puros como a CASTIDADE
Dispostos ao sacrifício, à doação,
Ao exercício da CARIDADE,
Entregando-nos à nossa arte.
E, ao fim, vitoriosos, sermos modestos
Emanando HUMILDADE, defeitos de vaidades
Abandonando as glórias, virtuosos.
Corpos dançantes, bailantes...
De alma leve e feliz,
Entregues à dádiva do corpo:
O prazer de quem dança.
De quem se reconhece na estrada,
De passado forasteiro,
De zorongos, giros e sapateios.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Anánkê*




* deriva do grego antigo e significa 'força restrita' ou 'necessidade'*


No exercício contínuo de seguir em frente,
Descobrir-se é mister,
É a necessidade primeira
De quem quer ser o que se é.
Então, há de dar asas às asas,
E ganhar o azul da liberdade aos pulmões,
Como se se coubesse o universo dentro do peito.
Então, há de se dar voz à voz,
E ressoar como címbalo encantado,
Que reverbera o bem e espanta maldades.
Então, há de dar ouvidos ao coração,
Saltar sem rede ao menor sinal,
Como trapezista corajoso e ganhar a imensidão.
Há de ser a dúvida, o espanto, o caos.
Há de receber o afeto, a poesia, o aconchego.
Há de compreender e se libertar
E dar um passo de cada vez
Como quem adota para si o tempo inteiro
E age  como se fosse  a dona da ampulheta,
Concorrente de Chronos,
Parceira das Moiras,
Escritora de seu destino.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Ofertório




Será, então, quando meu corpo-dia
Estiver cansado ou aflito,
Carente de pouso ou alegria,
Que verei em ti meu lugar bendito.
Serás para mim como a noite:
Umas mãos e uns braços envolventes,
Alívio para alma, abandono do açoite
Que me para nas costas quando de ti fico abstinente.
Serás o peito no qual me entrego
Tal qual altar dos deuses,
Tal qual imensidão em que navego,
Sem medir quantos esforços nem contar as vezes
Pelas quais me perdi e me achei,
E me despi e me acolheste,
Guardando-me como joia de um rei,
Convertendo meus vermelhos ímpetos em calmaria celeste.
Serás, então, minha hora preferida,
A de completas poesias e cumplicidades,
A que recebo teus olhares, desinibida,
E te ofereço minhas vontades.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Asas






O que mais posso fazer eu com o papel,
Branca possibilidade soturna,
Quando encontro-me só, envolta em breu?
Não atrevi-me às preces noturnas
Fiz silêncio: asas dos sentimentos
E aqueci-me com meu próprio fogo.
Ainda assim, faltaram-me acalentos.
Parte de mim fazia um rogo:
Compreender o todo, redesenhar o infinito
Aceitar a fortuna, a escolha, a sorte.
Lembrar-me do pedido há muito escrito:
Haveria de ser de ternuras e forte
De ações rápidas e aconchego
Haveria de ser real e em tempo certo
De semear o caos e trazer sossego,
De ser como é o oásis para o deserto.
E eis que me encontro em paz e atordoada.
Eis que quero e não sei o atalho...
Sinto-me livre e acossada,
Com arrepios de orvalho.
Sinto que sou um terremoto.
Sinto que me perco em paradoxos.
Convém abandonar o silêncio devoto?

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Astronauta




 
Há um quê de espanto
Que salta de seus olhos
E semeiam em mim interrogações tantas
Que desassossegam o espírito.
Os traços de tua beleza
Riscam meu céu de certezas,
Causam parada brusca
E a luminosidade de teus olhos entontece,
De modo que me ofuscas.
Não há uma medida:
Se te olho ou te sinto,
O que és expande
(Para dentro e para fora)
Como uma galáxia luminosa,
Um universo inteiro,
Que eu gostaria de desbravar.

domingo, 6 de outubro de 2019

Assombros




Assombra-me a paisagem.
A falta que algo me faz,
Ainda que não saiba o quê,
Ainda que nunca o tenha tido.

Assombram-me as fendas que se abrem
Em meu peito fecundo
E pouco ou nada brota
Porque essa falta não deixa.

Assombram-me os arroios
Que me escorrem pelo rosto
E molham seu nome em meus lábios
Porque o quero sem saber como.

Assombra-me esse desejo
Que vem não sei de onde
E faz em mim morada
E toma-me de assalto e desnorteia.

Assombra-me a falta do saber,
A ave vespertina do querer-bem,
Meu passo dado em sua direção,
O não saber se me acolherá entre suas mãos.

sábado, 5 de outubro de 2019

Repentare*





*Repentare, do latim repente, "de súbito".

Isso que habita em mim,
Que preenche meu peito,
Está longe de ser calmaria.
É um sentimento marulhoso,
Que vem de longe e rebenta
Às margens de mim, entre as mãos,
Como se, de fato, eu pudesse tocar
O som, o gosto, a respiração, a sede.
É como dançar uma novidade,
Escrever poema antigo,
Gerado na ancestralidade.
É como se tudo fosse um repente:
O espanto, prender o ar, entontecer,
Entrar no mar escuro da noite,
Não ter frio e ainda assim tremer.
Isso que me habita é feroz
Como raios partindo o céu,
Como a bagunça de uma tempestade,
E meus olhos brilham
Como se refletidos em lâmina de espada
E meus lábios clamam
Como se ecoassem palavra encantada
E não há chegada que me contente
Nem partida que não me desconsole
Porque, de súbito, existo 
E todo o resto me toca e me comove.



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Adelantado




Abre-se um portal
E tu és desbravador:
Adentras!
Tens ares de euforia,
Tens o tato cuidadoso,
Tens a curiosidade adolescente,
Mas já és experiente:
Segue teus passos.
Embrenha-te em estreitos,
Cansa-te e bebes de fonte desconhecida,
Mas, fresca e abundante
E segue teus caminhos:
Por trás da fenda, um mundo.
Sinuosas curvas,
Vales de vegetação suave,
Montanhas para recostar
Até livrar-te de tua fadiga.
O caminho é longo
A jornada impõe seu ritmo
Tu, caminhante obediente,
Aceitas os desafios.
Vences ao final.
E o gozo é tanto
Que só quem ultrapassa limites conhece
É como o primeiro beijo
Roubado displicente:
Sacia e dá sede.
E, mesmo tendo cumprido teu caminho,
Retornas a andar:
Há sempre mais a descobrir.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Alice





Alice acreditava em impossíveis.
Eu acredito em poesia
E, em dias como hoje,
Que tenho um poema como despertador
Tudo o mais fica leve,
Tudo o mais me toca com suavidade
Tudo o mais ganha cor.
Não tem nenhuma Alice em meu espelho,
Mas uma mulher
De cabelos e batom vermelhos
Envolta em poesia de bons dias
E, por isso, hoje ela pode tudo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Tormenta



Versos riscam o papel,
Abandonam a caneta, insolentes,
Como os raios descem do céu,
Como se me partissem ao meio,
Como se fossem meus próprios fragmentos.
Mergulho em uma tormenta
(Como se fosse possível)
De uma forma tão suave quanto violenta
E lá estou às voltas com minhas questões
Com meus eus, meus ais, meus vãos
E cá estou, entrementes, um tanto perdida,
Um tanto envolvida, um tanto estremecia.
Há o direito de se perder em sentimentos?
Há o direito de se sentir?
Há o direito à dúvida e ao porvir?
Há um silêncio, um suspiro,
Uma morosidade dos sentidos.
Há uma vontade inquietante 
(de tormenta) 
Que me alimenta e mima
E eu sei dos perigos do abismo
E ainda assim ouso querer me jogar.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Do que nos é permitido



Foi, então, entre margens avermelhadas que me perdi em tantas questões quanto sonhos, vagando em círculos. Círculos! Onde toda potência está contida, onde habita toda força, toda energia, todo princípio de movimento.
Mas, ainda que imersa em um círculo de pensamentos eu estava estanque, refletida em algumas daquelas entrelinhas. Desejando algumas das linhas.
E ainda me era permitido sentir? Depois de tantos ecos, espelhos, vãos, versos soltos, planos de papel, muros intransponíveis, desistências, murros em ponta de faca, saudades infinitas afogadas em travesseiros, silêncios ou lágrimas, o cansaço me abate só porque me acostumei à morosidade do não-agir, num desperdício de vida.
Fiz-me, ousada, parte do que li, parte da coragem e muito da transgressão: se me cabem as rédeas e regras do que chamo de vida, cabe a mim também o querer, o mudar, o arriscar, o viver.
Talvez, foram necessárias margens vermelhas e quentes que me queimaram e inquietaram por algumas horas para que eu bebesse do entendimento: a liberdade do ser consiste em saber que tudo nos é permitido, só basta coragem e entrega.


sábado, 7 de setembro de 2019

Tempestade




Meu corpo se agita,
Estremece ao trovão que é sua voz.
Ela é o chamado,
A anunciação.
Fecho os olhos diante de sua claridade,
Tem um brilho próprio
Que me atormenta 
E acalma.
Diante desse paradoxo, precipito:
Sou, de corpo inteiro, uma tempestade
E molho seu corpo noite adentro
E causo arrepios
E lhe sacio quando está sedento.
Ainda assim, não me demoro.
Adormeço.
Tento ser calmaria em seu leito.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Existência



A poesia existe
E envolveu-me em seus braços.
Abrigou todo meu corpo
Num apertado abraço,
Segurando-me (forte) pela cintura
E tirando meus pés do chão.
A poesia foi-me sussurrada
Ao pé do ouvido
Como prece,
Como sentença
De atear fogo
E incendiou-me.
E queimei 
Mais do que todas as fogueiras
Porque meu fogo interior,
Minhas próprias chamas,
Eram muito maiores.
A poesia existe e tocou-me
A pele, os sentidos,
Como se fossem pontas dos dedos
Desbravadores de entrefolhas
De poesias outras, suaves,
Constantes, cadentes,
Mas, dessa vez, era mais rompante,
Era num repente,
Era mais necessária e visceral
Era a poesia reclamada
Como alívio
Como repouso
Como desejo
Como única e primeira saída
De alma humana em queda:
Era a salvação do corpo que queima
Ao mesmo tempo em que era brasa
Que o aquece e mantém vivo.
A poesia sufoca para dar ar.
A poesia existe
E desde que me tocou
Habita em mim.
Ouso dizer:
A poesia é vida.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Mordidas



Eu não sei de onde vens
Nem os caminhos que percorres
Tampouco imagino onde está a planta dos teus pés
E se teus sonhos se movem
Mas é aqui, sob os meus olhos
Que teus olhos se fecham
E teu corpo é entregue ao cansaço rotineiro
É aqui, semeado em mim,
Em cada canto-breu desse quarto
Que tua sombra se perde
Se mistura à pele, à roupa largada,
À madrugada, à quietude da alma.
É aqui dentro de mim que fazes tua morada
E se te quero mais junto, minha prenda,
É porque o silêncio é demais
E só o teu nome rompe essa urgência
De sussurrar absurdos e desvarios 
Como se fossem gritos,
Como cristais quebrando entre os dedos.
Eu não sei se vens ou se vais,
Mas, reviro as horas 
E vejo a noite a morder o dia
E são teus dentes a morder-me o juízo
Menos reais do que gostaria


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Corpo-texto





Tenho um corpo-poesia
Marcado por história,
Cicatrizes, estrias.
São as letras do tempo.
São os pontos finais que vivi.
As reticências dos abandonos
(Que cometi e sofri)
São os dois pontos que anunciam:
O novo, o porvir, o leitor.
Todo texto tem sua língua,
Sua trajetória, mística, encanto.
A todo texto cabe uma tradução,
Uma interpretação,
Uma aceitação.
Aceito-me corpo-texto
Lido, relido, marcado.
Aceito-me corpo-poema
Com muita rima,
Pouco assunto,
Inconsistências,
Intensidades.
Sem compromisso de forma,
Com o compromisso do verbo:
Ser
Fazer
Deixar-se ler.
Tenho um corpo-livro
E, às vezes, posso ficar em sua estante,
Mas, meu lugar favorito é entre suas mãos
E, depois de folheado,
Pousado em sua cabeceira,
Habitando sonhos,
Inspirando desejos.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Inspirações Ardentes





Tomar um vinho, 
morder uma maçã. 
Buscar o calor do corpo do outro, 
Exalando prazer, exercitando o amor.
À primeira vista, a primeira festa:
Embriaguez de fluídos.
Perder os sentidos,
Perder os vestidos,
Abandonar os pudores e os senhores,
Os vestígios de castidade:
Capitular ao gozo,
Ao deleite, ao insano mar de odores,
De gostos, do banquete canal,
Do ato de entrega primordial.
Erguer-se em delírios,
Afogar-se em desatinos.
Traduzir em palavras o instante sagrado
Em que os corpos desafiam a física:
Dois se tornam um (êxtase)
Para se abandonar e se reencontrar
Na cama ou nas lembranças,
No ato ou na poesia.
Eis aqui uma coleção de fogueiras,
Incêndios gramaticais
Que se desfilam ante os olhos
Mas é no íntimo que queimam,
Que ardem e traz à tona o rosto de quem nos satisfaz.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Mezza




Estou aqui
Simples silêncios
Olhos atentos
Palavras guardadas.
Estou aqui
Expectadora
Expectativas
Esperanças vencidas.
Estou aqui
Contando adeuses
Soletrando talvezes
Escorrendo pela ampulheta.
Estou aqui
Engolindo distâncias
Remoendo lembranças
Colecionando desalentos.
Estou aqui
Efêmera
Mezza


domingo, 1 de setembro de 2019

Outra via



Não sou sua ferida,
Mas sou de carne, viva.
Com o calor do sangue,
Com a cor dos desejos
E entre suas mãos,
Sou outra via,
Outra poesia.
Aquela que já recebeu escrita,
Mas que lê como lhe convém.
Entrelaçar de caminhos,
De mãos, de pernas, de sonhos
Cabe seu nome em meus lábios
Cabe seu verso em meu compasso,
Mas eu, que sou de impulsos,
Saberei ser seu ninho?
Saberá ser meu, passarinho?
Por sorte, o céu nos cabe em seu azul
Abriga-nos em seus entardeceres alaranjados
Seremos vagalumes.