Visitas da Dy

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Cais




Repousa a cabeça em meu peito, cabendo entre meus braços um universo inteiro.
Não desejo ler seus pensamentos, mas, se pudesse, gostaria de saber quantos abismos já criou e quantos outros cruzou e morreu pelo caminho. Talvez eles expliquem seu medo de seguir adiante.
Gostaria de saber das tempestades que engoliu, dos raios que aparou, dos trovões que esbravejou e das distâncias que se aumentaram a partir das nuvens densamente precipitadas.
Queria saber dos precipícios que lhe juraram voos e que a ausência das mãos fez falhar as asas, fazendo da queda mais dolorida do que poderia suportar. Talvez seja isso que lhe impeça de andar de mãos dadas.
Queria saber das marcas que ganhou e não lhe deixaram cicatrizes no corpo, mas devoraram sonhos e transformaram suas noites em horas insones e em um breu assombroso de cálculos e previsões para que o erro não se repetisse. Talvez seja isso que prenda seus pés ao chão, como raiz de árvore ressequida, com um fio pequeno de seiva sustentando a existência.
Queria saber de onde veio o raio de esperança que lhe cegou os olhos e lhe trouxe aos meus braços. Queria saber se universo que margeio em meus braços ainda pode ser reconstruído ou se já se deu por perdido. Queria saber se hoje sou só travesseiro ou se posso sonhar em ser navio, aquele que deixará o caos do cais para traçar novas rotas nos mares de seu país.

Queria saber se tenho nos braços a partida ou a chegada se apenas durmo ou velo seu sono, tecendo acalantos de porto seguro ou acenando adeuses com um lenço branco.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Meia-noite, Dor-inteira




Passa da meia-noite, eu sei. Alguns gatos fazem bagunça no telhado,  um cão late ao longe e eu, que abri uma cerveja bem mais cedo, vejo as bolhas subirem pelo corpo da garrafa sem o menor interesse.
Há um tanto de coisas por fazer, escrever, ler, arrumar, mas eu prefiro estar pairando no nada como agora, como uma densa fumaça que nem vai, nem fica, só existe, sem ação, sem cuidado, sem porquê.
É meia-noite, mas não me cabem metades. Nenhuma delas. Meias palavras, meias vontades, meias desculpas, então, é que dispenso mesmo. Por aqui só a hora dessa noite é meia, por seu nome, porque a mim afeta por inteiro.
Por aqui a dor é inteira, como já foram inteiros os sentimentos, as músicas, os desejos. Hoje são inteiras as sombras que enchem o quarto e o desinteresse por tudo o mais que me cerca.
Não é que eu tenha me transformado em algo frio ou insensível. É justamente o contrário. É por sentir demais que me cabe só o que é inteiro. É por ter recebido só uma coleção de meios termos que hoje me reservo isolamentos e silêncios.

Eu não sou um ser de sombras. Ao contrário, sou uma espécie de ser que guarda luzes, mas que parece ter esquecido a hora certa de se expandir em claridades e, agora, espera que haja uma nova chance. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Palavras em Canetas



Mal cabia em si diante dos novos fatos: não era paixão, mas não era só simpatia. Era uma afeição, um carinho, um querer-bem(perto), desses que ninguém sabe explicar, tampouco lidar.
No pomar da vida, era fruta quase madura. Com uns amassados feitos pelo destino, com umas mordidas feitas pela boca do tempo. Mas, se é que se é possível rejuvenescer, parecia criança em dia de festa: com risos sonoros, sorrisos sem horário ou motivo, pensamentos de "será-que-bem-me-quer?" que brilhavam em neon nos olhos.
E o brilho nos olhos era luz que chegava a incomodar os pedestres que lhe esbarravam: todo mau humor se ressente da alegria incontida e leve. Era cabeça nas nuvens com pés no chão, sonhando raízes firmes e um ninho nos braços, para acalentar bem mais que sonhos, uma história, talvez.
Uma história... que precisava ser escrita, que precisava de personagens. Pelo menos mais um, quiçá, o papel seria de quem agora lhe enchia a cabeça e coração, sobrando nos lábios em forma de sorrisos.
Uma história. Era isso o que estava prestes a começar e, diante das horas, papéis em branco, se fez caneta, transbordando de palavras a serem escritas. Era a própria espera em si: das palavras dentro da caneta, da caneta para deslizar no papel, do papel em branco, à espera sobre a mesa.

Tudo era espera. Tudo era desânimo. Tudo era cansaço. Tudo era nada. E a caneta repleta de palavras transbordou seu azul em mágoas e lágrimas. Mais um livro que não foi escrito. Mais um quase-autor-emudecido. Mais um ser caminhante pelo caminho, colecionando "se" e "talvez". Mais um de tantos coleciona-dores cotidianos, incompreendidos, saudosos do que poderia ter sido.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Nua




Abro mão de toda poesia. De tudo isso que sou e você pouco percebe. Tiro-a de mim da maneira como posso e, nua, me exponho diante de seus olhos.
Falta-me agora que suas mãos me leiam. Que elas não me faltem. Que elas deslizem sobre mim e arranquem essas roupas que pela manhã combinavam com a luz do dia. Prometi não versar. Prometi não ceder à rima que salta aos lábios porque você acha que elas me escondem bem mais que as roupas. Estou nua à espera de seu toque.
Se ouso ser palavra é para caber entre seus lábios e me desejo mordida, leve, mas com ardor.
Se ouso ser som, projeto-me sussurros e gemidos: preces do corpo febril, quase desesperado pelo sim, pelo não, entre suas mãos, minhas roupas e poesias pelo chão.
Se ouso olhares é porque teimo enxergar o pouco de luz que me mostrou, mesmo imerso em sombras de não-me-quer, mesmo quando só experimentei a superfície. Sou mais que olhares. Sou olhos, buscando alguma profundeza sua, algum resquício de entrega, alguma afeição pelo que é belo, para além dessa arma-dura que me oferece. Ouso, em meio às margens que nos colocamos, devolver parte do frio que me lança: espelho que reflete sua retina. Taça cheia à espera de seu gole. Sou pouco menos amarga que a bebida que lhe entorpece, porque meu doce foi desperdiçado ao chão, junto com minha poesia.
Estou aqui crua, bem mais do que nua, disparando tudo o que pede pra receber e, embora pense ser submissão, chamo de coragem, enfrentamento, doação, paixão.
Pediu-me nua. Recebeu-me crua. Terá nas mãos o fogo que me forja? Terá as rédeas que doma minha fúria? Sou de poucas esperas. O caminho de ida é bem mais curto que o da chegada. O tempo é inexorável e sigo com ele, nua, esquecendo-me que já me quis sua.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Fogueira



Ardia desafiando qualquer inverno.
Seus olhos embrasados eram algo entre um desespero e um chamado, dois demônios internos que abrigava sem reclamar. E, olhando fixamente um ponto em meu corpo, era capaz de ser convite e correntes: inegável, envolvente.
A língua de fogo que lhe saltava, ora dançava com segredos ferventes, ora lambia meus limites, incêndios incontroláveis a subir por colinas. Em outros tempos eu não saberia ser entre coxas ou orelhas, entorpecido.
Era uma fogueira de solstício, celebração de vida e vontades de braços longos a me esperar para o derradeiro momento em que tudo pudesse acabar.

Poderia ser eu o fim das febres, água apaziguadora, calmaria outonal, paz branca de domingo, mas diante daqueles olhos eu sabia que toda calma era pouca e inútil. Para ela eu só poderia ser lenha a ser consumida até o fim e, talvez, quando cinza, nos caberia o descanso.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Dignidade





Passou a tarde tentando entender a essência da dignidade humana. Sua estreita relação com o amor próprio, esse valor tão (quase) esquecido e ofuscado pelos refletores das necessidades frívolas.
De certo que, insistir, por vezes esbarra não só nos quereres e vontades, mas na perda essencial de um valor, da auto estima por si mesmo e isso não é algo fácil de lidar quando a cabeça pousa no travesseiro.
Agora, entre o vazio que lhe habitava o peito, como um ninho abandonado, restava um tico de lucidez desajustada pela luz do quarto, sinal ofuscante que parecia dizer: tente outra vez.
Queria tentar. Queria lançar a palavra-convite mais uma vez. Queria dar-se mais uma chance. (Lá no fundo sabia que a chance não era para si, mas uma meia verdade a essa hora nem era caso grave).
Queria a procura ou pelo menos o golpe de misericórdia vindo direto, sem rodeios, sem farsa: as meias palavras não bastavam. Os lábios emudecidos não bastavam. Queria a dor do golpe certeiro e sincero, fosse qual fosse a sentença, a receberia.                      
Era um misto entre o medo da rejeição e outro medo, o do prolongamento vago e sem intenção. Talvez precisasse de uma dose de uísque e um trago de cigarro, mas não bebia nem fumava. Plano descartado.
Talvez um conselho, um livro de auto-ajuda ou uma boa olhada no espelho...
Talvez, àquela altura da vida, perder a dignidade já nem fosse um crime imperdoável e a insistência fosse entendida apenas pelo que deveria ser: vontade. Pensou mais um pouco e escreveu o que bem quis. Ao enviar ao remetente se arrependeu. Era ela, a morte anunciada, a agonizante dignidade estirada pelo chão, à espera de um milagre, de sua ressurreição.
Ainda bem que era uma sexta-feira e, aleluia, o milagre se daria tão logo: ressurgida, a dignidade se recuperaria a passos lentos, mas a sensação de arrependimento ainda perduraria até a nova lua.

Das vontades declaradas, poucas chegam vivas às satisfações: é que tudo é vário, incerto e breve. E queremos sempre mais do que é dado, menos do que merecemos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Brumas





Eu já estava acostumada com seus silêncios longos, mas gostava mesmo do som da sua voz. Aceitava a negação do som de suas palavras como se fosse a única alternativa de compreensão.
Convencia-me de que a distância era um respiro, uma necessidade vital. Eu definhava saudades. Mas parecia feliz: a sua ausência era a presença mais constante que eu tinha. E aquela foto na cabeceira.
Eu já estava acostumada à espera da palavra escrita que rompia a barreira do não-som. E eu sentia vontades de bailarina diante do texto que ganhava a cor e o tom que eu dava.
Eu perdi a conta dos dias. Esqueci do som que tanto me aprazia. Esqueci o rosto, o gosto, o sonho e o sono em algum canto de caixa empoeirada na sala. Esqueci tantas outras coisas que nem as horas importavam. Os vazios diminuíram e algo, antes rompido, foi reconstruído de modo mais fechado, mais cuidadoso, apreensivo, até medroso.
Esqueci o toque do telefone, a música preferida, os versos que compus. Passei a gostar do silêncio e a contemplá-lo como dádiva.
Mas quis a sorte me testar e não houve palavra escrita, mas dita, naquele dia de chuva e frio e conheci na voz que antes me afagava o fino corte de navalha.

O silêncio rompido estilhaçou-se pelo chão e junto, não nego, atordoou-me o coração. Que fazer diante do susto, do espanto, do assombro? Aceitar que nem o silêncio nem a dor eram velhos o bastante para terem morrido. Aceitar que só muito aos poucos é que o tempo tem eficácia e conviver com as brumas do passado que ainda visitam o presente.

domingo, 2 de julho de 2017

Flash



Tive um flash de sonho com você.
Talvez vire poesia,
Talvez lhe conte quando chegar o fim do dia.
Talvez eu nem comente, criando um silêncio, pérola minha.
Tive um flash com você no meio da noite:
Cintilou pelo quarto todo, quase relâmpago.
E choveu nos meus olhos, mas não medi o tanto.
Era saudade líquida, brisa fria.
Eram dias fluídos, imersos em correria.
Só eu era estanque, guardando um livro na estante
Ajeitando meu sorriso meio tímido, escondendo-me entre títulos.
Tive um flash na madrugada, desejo meu...
Mas não há lâmpada que o realize:                               
Ainda são poucos os desertos
E, nesse frio, sequer tivemos nossos corpos descobertos:
Inércia, distância, movimento, presença...
Conto mais o que me falta do que as suas promessas.
Ainda vejo com clareza: pouco mais de alguns minutos...
Lua míngua, sei lá eu de sua língua?
Me sabe o sopro do Dragão:
Ainda nem é inverno (ele ainda demora), mas aqui já faço verão.
E você dentro de um flash, miragem minha...
Revés de sonho, cochilo zonzo...
Estendo a mão em toque, palavra minha...
Lanço os dados, desejo a sorte.
Há ainda no que acreditar?
Visão minha, flash que já se foi...
Corro os olhos na noite e mordo os lábios:
Desperto do clarão que me trouxe sua voz...            
Eu que pensei tê-la esquecido...
Foi só um lampejo entristecido.
Busco novamente o sono

Nas horas quase geladas desse outono.

sábado, 1 de julho de 2017

Inconteste




Eram seus olhos como farol que gira incansável:
Mas naquele dia era busca, não era guia.
Passou em brilhos e fogos de cometa,
Deslizando pelo céu do meio-dia de minhas mãos.
Era feito de buscas, mas eu não era o alvo do dia.
O silêncio crescia em meu peito e invadia a rua.
Até o respirar se amansara, murmúrios.
De certo, um rubor me cobria,
Mas era de prata o olhar que lhe devolvia.
Não soube eu trocar um passo,
Era uma quase-pedra no caminho?
Não soube eu existir em meio a tanto espaço,
E fiz-me sombra de planeta, eclipse.
Fiz-me a calma que nunca tive.
Em asas, voou. Em caminhar, corria.
Passou o som que me estremeceu
E perdi até o chão.
Passou o vento que me arrepiou
E de claridades me lançou na escuridão.
Fui eu transformada em estátua, inerte,
Pelos olhos de medusa impiedosa,
Pelos raios do cometa atemporal.
Fui lançada num labirinto de senões.
Fui devorada por porquês e interrogações.
Fui envolvida por histórias sem fim,
Enrolada por novelos de pouca cor.
Em busca de um começo e um contexto, por fim percebi
Que nem toda história cabe em margens,
Que nem todo verso se equilibra em pauta,
Que nem todo livro respeita a capa.
Era eu parte do sem nexo dos sonhos
Inconteste descontexto,
Ser vivente sem explicações
Diante dos paradoxos do destino.

Ali parada e o tempo passando...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Oníria



A despeito das velocidades que saltam os relógios, nesse momento, com todas as calmas que já pairaram sobre essa terra, eu colheria seus beijos, frutas saborosas de toda (e nenhuma) estação específica.
Para além de toda beleza que é contemplar o mundo através de seus olhos, eu atravessaria longo tempo com os meus fechados, recebendo o acarinhar de seus lábios, enxergando as sutilezas do toque e as quenturas próprias de um verão que teima em arder em pleno inverno.
Sendo o mundo um vasto emaranhado de rumos, um descanso certo sob árvores ainda seria pouco se em seus abraços eu encontrasse pouso, ainda que rápido, ainda que vadio, porque conforta-me e fortalece-me o envolver de seus braços, assim como renova-me o deitar sobre seu peito, casa minha.
Ainda que os versos fossem muitos, faltariam definições para o que vejo e o que sonho, mas toda tentativa seria justa, se não, esforço, de beirar a realidade inalcançável, prece nossa de todo o dia, quereres nossos de todo dia, vãos nossos em busca de sentidos todos os dias.  

Estando eu na condição de amante do intangível, aprendiz dos segredos de Nix e Eros, colheria não só seus beijos, abraços e sonhos, mas a sua imagem refletida na borda de meus olhos, definição perfeita do inesperado: se me salta e abandona, choro. Se me fica e cativa, rendo-me. De resto, não sei o  que fazer. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bandeira




Hasteou, mais uma vez sua bandeira.
Conhecida de todos, sua cor não negava a luta.
Era de uma fé quase religiosa, quase cega,
Dessas que só conhece quem já bebeu do amor.
E, se não fosse essa a razão, nem ousaria sair do lugar.
Desarmou-se para a batalha.
(Peito aberto é o melhor dos campos para se travar combates.)
Desafiou os ventos que lhe sinalizavam para não seguir.
Embora o cansaço de outros tempos lhe pesasse nos ombros,
Embora as cicatrizes lhe marcassem o corpo,
Embora o medo lhe segurasse a mão, ousou.
Desbravou caminhos que lhe pareciam conhecidos.
Ao redor, tinha a impressão de déjà vu, mas fez seu caminho.
Hasteou sua bandeira heroicamente.
Esqueceu-se que tinha os poderes de Midas,
Mas ao contrário.
Aos poucos contemplou a ruína,
O esfacelamento dos esforços.
De novo era como o náufrago,
De novo era embarcação abandonada.
De novo precisava se recolher,
Infinitamente era apenas pedaços.
A mão ainda segurava a bandeira quando se viu em abandono.
A mão ainda recusava-se a desistir,
Mas a alma ferida mais uma vez, dormiu.
E, por mais que parecesse paz, era mausoléu.
Era o sono de exaustão.
Era bilhete rejeitado num pedaço de papel.
Era sombra à espera de sol,

Noite infinda, porque esqueceram de lhe despertar com o novo dia.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Compasso



No passo do dia,
Sigo o compasso que posso
Ponta seca, fixa, em conhecidas paisagens e vias,
Pouco desafio distâncias, viajando apenas no que ouço.
Tenho pressa e conto as horas:
Diversão rotineira de quem desconhece o sono.
Sou paciente e coleciono suas auroras
Enfeito os dedos com os anéis de Cronos
E se me sobram esses círculos de Saturno
São suas mãos que desejo como órbitas.
A vida é pequeno sopro que parece diuturno,
Miragem de noites órficas?
Talvez sejamos apenas as nuvens que passam
Ou os vermelhos gritos inconformados.
Prefiro pensar que sou as escolhas que me extravasam
A fuga constante dos padrões formatados.
Mas, se rodei e não sai dos círculos, aproximação do que é perfeito
Se, caminhante ou navegante, experimento o vão e o são
Volto ao compasso que me leva e desenha a rota no peito:

É tudo aquilo que é concêntrico que me fortalece e expande a paixão.

domingo, 14 de maio de 2017

A Dança das Horas



Vagas, sem lumes, as horas passam.
Não dizem nada as horas, os passos.
Corri a noite.
Dedilhei os minutos
(Queria seu corpo).
Bebi soluços
(Queria seus fluidos)
E o tempo me correu.
Entre outras coisas,
Sua lembrança me ocorreu
E voltei para a dança das horas:
Vagas, vãs, frias irmãs
Longe de alívios
Perto de pensamentos sombrios.
Padeci de solidões, versos e canções
Arrastei meus lençóis, seus cheiros, anzóis
Como peixe, morri pela boca:
Coube o beijo e o gesto
 Para tudo o mais, sóis.
E a dança das horas findou:
Foi-se a noite, raiou o dia
Entre outras coisas,
Restou-me insone, alma quase vazia.
Restou-me um fio de claridade:

A dança das horas não perde o passo do tic-tac. 

sábado, 13 de maio de 2017

Para os dias ruins



Salva-me da agonia desse dia, como se fosse o antídoto necessário.
Salva-me da jornada que pareceu mais pesada que eu poderia suportar, porque para todos os lados que pude olhar, eu era só uma vitrine, exposta, vidraça transparente, porém distorcida pelos olhos que me observavam.
Salva-me porque Dante não me soube reservar lugar e vago por muito mais que nove círculos infinitos, labirintos incansáveis.
Salva-me porque toda palavra tem seu tempo, mas não sei esperar e os ouvidos tampouco recebem minhas preces banais, quem dirá meus ais.
Salva-me com suas mãos ou por elas, que já me enlaçaram, já me contornaram e é por elas que pensei ter visto começos tantos, sem fins anunciados.
Salva-me pelo tato sagrado que prevê acalantos de finais desfocados, que garantem o fim dos desenganos ensolarados e dos cansaços diários que só pouso e aconchego acalmariam.
Salva-me de mim e dos dias ruins que eu mesma traço ou invento. Daquelas promessas vãs que eu juro ter ouvido com fé e não quis ver desfeitas.
Salva-me das horas que conto a espera de nada, pelo nada e me conte uma história que seja sua. Real ou inventada. Apenas salva-me pela palavra, bênção maior da alma atarantada, maldição eterna das bocas que só se sabem caladas.
Salva-me como quem dá o beijo final na noite escura e rasga o céu com cintilantes emoções multicores.

Salva-me do breu e deixa, nesse instante, meu corpo repousar sobre o seu.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Jardim



Cuidava da grama como se fosse uma tecelã
E cada uma das pequenas folhas, fios de uma alcatifa.
Preparava seu pequeno universo com carinhos angelicais.
Tinha sonhos de dançar descalça sobre ela.
Tinha sonhos de esperas e chegadas
Cujos nortes ainda desconhecia.
Todas as vezes que o sol lhe acordava,
Sussurrava o nome tão sagrado quanto o vento,
Mas não sabia sequer qual era, onde estava, quando chegaria.
Ainda assim, cantava canções ao amanhecer
Suaves despertares para os ouvidos prontos a recebê-las.
Ainda assim, cantava canções de anoitecer,
Ninando as horas cansadas da jornada.
Como coruja, noturna, tecia saberes e histórias.
Era espera e olhares pela janela.
Era espera e casa de jardim.
Era semeadura e desabrochar.
Movimentos de outono e primavera,
Regando suas mudas e silêncios com preces e prantos,
Podando suas arestas e dores com os ciclos da lua.
Era guardiã de ventos e temperamentos
Era guardiã das noites e suas cantigas que nunca são vãs
Era aquela que dorme e dá aconchego.
Era de uma beleza natural, buquê floral,
Que só tem viço em meio ao verde,
Que não combina com jarros,
Que não se limita nas paredes da casa

Porque sabe que seu lugar é o jardim.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Serpente



Era uma serpente, cheia de curvas,
Dona de veneno que entorpece, deixa a vista turva.
Deslizando sobre a cama,
Mais parecia lenha a alimentar uma chama.
Ornada com prata e batom,
Realizar desejos era seu dom.
Por entre travesseiros e sonhos pairava
Ignorando por completo que juízos desvaira.
E eu quando arrasto correntes, ela é cada um dos elos,
E se me atrevo poeta, ela está nos versos mais belos.
Ela é uma serpente e me tira o ar
É ímã que prende meu olhar.
Sou o alvo no qual a flecha de seus olhos crava,
Mas não me enxerga, a parva!
Não sabe a força que tem dentro de si
E repousa ali, mansa, delicada colibri.
Parece flor em manhã, orvalhada
Parece inocente, assim, deitada.
Talvez a seja, escultura branca, serva de Vestal
E seja apenas minha essa versão do pecado original.
Mas eu beijaria aqueles lábios vermelhos de maçã madura
E nenhuma pena (de Títio, Tântalo ou Sísifo) me seria dura,
Pois as dores sumiriam na lembrança pouca
Do dia em que experimentei aquela boca.