Visitas da Dy

sábado, 1 de outubro de 2016

Economias





Economizei palavras. Muito mais do que deveria. Não nos poemas. A esses mantive a rotina e os enchi de tudo quanto poderia: de palavras a sentimentos, de cores a sons.
Não é porque está escrita que a palavra não vibra, não toca a alma, não nos eleva aos céus e nos faz criança contando estrelas.
Economizei onde não poderia: ali, diante da única plateia à qual gostaria de ser ouvida e, tendo seus olhos, meus holofotes preferidos, distanciado o foco, já quase apagado, não sei mais se tenho o direito à palavra ou se tiver, não sei ainda tenho voz. Escapam-me certas compreensões de mim mesma.
Economizei por medo de assustar. Nunca se sabe onde os ecos do que é dito pode chegar. E, nesse exercício, também me assustei pelo tanto que guardei, pelo tanto que ainda tenho guardado, pela exposição que nunca fiz.
O que causa certo espanto é que, ainda assim, em meio a meias palavras e a falseações, nos entremeios do dito pelo não dito, houve uma compreensão silenciosa, tocante, fraterna. Um envolvimento de sentidos que só quem domina os silêncios e seus meandros consegue ter.
Meus silêncios gritaram até aqui, na economia de minhas palavras. E, ainda assim, olhos atentos me ouviram. De fato, não se deve subestimar as entrelinhas.                       
Existem leitores de alma por aí, sob o mesmo céu que me espanta e encanta. E eles me enxergam e me traduzem, como eu mesma já não acreditava ser possível. Seus olhos me ouvem quando eu não sei bem o que dizer.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Embates





Quando já não havia planos, minhas planícies foram invadidas silenciosamente na madrugada quase fria.
E, naquele corpo que há pouco pairava apenas em pensamentos, a lança atravessou, trazendo-o de volta à realidade.
Era como um exército invadindo fronteiras. Era guerra vencida, mas a batalha foi travada.
E, dos corpos que estavam no embate, suor, calor, resistência, força, cadência, suspiro.
Quando o empate alcançado e sustentado foi tido como acordo de paz, almas em chamas precisaram se acalmar.
Das fontes disponíveis para beber, afogaram-se no desejo de saciedade, só alcançado em mais uma luta, dessas que se estendem até o amanhecer.
Não fosse o sono implacável e os olhos desertores, os corpos estariam ainda em luta: certas batalhas são necessárias.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Flluência




Anseio para que sua língua me seja fluente, corrente, por todo meu corpo de palavras.
Que ela me saiba compreender, plena, em detalhes, em cada curva, em cada dobra de sentidos, em cada entrelinha a ser revelada ao se deitar a palavra nos brancos lençóis do papel.
Que não falte imaginação ou criatividade para os contos desvelados pelos quatro cantos desse mundo em que me deito e lhe espero, transbordando pelos poros a vontade de fazer-me poesia pura ou prosa descompassada, desfolhada por seus dedos cuidadosos de autor dos meus desfechos mais secretos.
Sou, assim, literatura acessível, livro pronto a ser aberto, história sem fim de amores, de afetos, de querências e entregas.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Horizontais





Pilar de minhas fantasias,
Derrama diante de meus olhos,
Seu néctar da ambrosia.
Padeço de um não querer
Falseado em sussurros de querer cada vez mais.
Entrego-me sem resistência,
Como nau à deriva no seu mar
Nessas horizontais linhas
Em que caibo tão bem.
É nessa cama que me entendo rio:
Deságuo em desejos e ais
Que são cânticos aveludados
Como o toque que me contorna,
Como as mãos que me emolduram,
Como os segredos que me invadem o ouvido.
Sou, nesse momento, toda arrepios
E, inconsciente, me fogem gemidos.
Daqui de onde me deito,
Abrem-se céus de outono
São avermelhados seus entardeceres
E estendem-se as noites contra todo o tempo.
Amanheço à meia-noite.
Floresço no inverno.
Ignoro as estações e suas lições.
Só obedeço meus impulsos de vulcão.
Estremeço e experimento a calmaria
Adormeço aproveitando a companhia
Tenho ares de quem se sacia
Mas por dentro ainda não sei o que é satisfação.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Batalha Campal





Entre os declarados e os que apenas desconfio
Há alguns homens que me passariam ao fio
De suas espadas empunhadas, firmes.
Tomando-me de assalto, cena de filme...
Mas se me cabe a escolha de a quem capitular
É só sob teus olhos que desejo me desnudar.                    
E, sendo fogo entre suas mãos,                                   
Espero que preencha meus vãos
Quando deixarei de ser chama ardente?
Quando sua língua me for mais quente...