Visitas da Dy

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Menestrel






Não há por estas vielas
Nenhum encanto, nenhuma beleza,
A não ser que eu olhe pelas janelas
E encontre algum traço de singeleza.

No caminho que faço pelos becos escuros,
Pouca coisa me chama a atenção,
Mas gosto dos rabiscos nos muros
Sejam de xingamento, verso ou um coração.

No saguão desse hotel vejo os passantes
Gente que vai e vem sem destino.
E desejo fazer algo que seja marcante,
Que ecoe pelos tempos como um sino.

Do tamanho de minhas dores, pouca coisa me cabe.
Um poema seria um deleite, um mel.
E que passa aqui dentro só a minha palavra é que sabe.
Traduzir-me para mundo, um menestrel.

Tarefa que assumo com cuidado.
Como quem pinta seu autorretrato,
Mas não quero parecer um malfadado.
Revelarei-me, então, como verso abstrato.

Que me entenda quem quiser.

sábado, 17 de outubro de 2015

Entre os Dedos



Não podia parar o tempo, mas parava para admirá-lo.
Não podia conter seus desejos e já nem tentava.
Não conseguia apanhar seus sonhos.
Não tinha amuleto que lhe coubesse tamanha sorte.
Acendia o sol com um sorriso
E tentava segurar as últimas horas do crepúsculo
Entre os dedos.
Deleitava-se com o por do sol
Só pelo prazer de saber
Que,com as mesmas mãos que cerceava o dourado,
Faria nascer a lua.
E a lua, menina, me nina de mansinho
E faz de conta que tudo é possível.
E faz do "era uma vez" ser "dessa vez".
Enquanto isso, ela espera o tempo,
Filha do tempo, pelos tempos,
O exato momento de tocar o céu
E contar as estrelas e as histórias
De amores embalados pelo ruído do mar
Que crescem ao sabor das ondas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Nós





Há um deserto dentro de meu peito
E, sedenta, vago por ele.
Cavo com as próprias mãos poços:
A alma sente sede.
E falta mais que água,
E trago mais que calos e cansaços.
Trago traços.
Rabiscos e versos.
Trago nós e laços.
E deixo de ser só eu quando penso,
Quando passa a existir um amontoado de nós.
Nós que, como nós, são cegos.
(Nós que nos apertam sem nos unir.)
Logo nós, que pensávamos enxergar
Somos só emaranhados perdidos em pressas
Em preces recitadas nas noites,
Em velas acesas em nossas tendas,
Que tentam iluminar os caminhos sob nossos pés
E não os vemos.
Eu que me sinto deserto, sou a outra metade desse nó,
E nós voltamos ao marco zero
(de onde talvez nem tenhamos saído)
E nos prendemos, cada um, em nosso peito
Em vão e sem noção do quanto somos cativos.
Do quanto somos queridos.
Do quanto somos errantes
Nos desertos que somos nós,
E que sou eu, quiçá, o outro.
E há a sede que tira os sentidos.
E há a sede da vontade de ser
E há a sede da vontade de viver
E os nós que nos atavam ao passado
Se desfazem nos gritos calados das almas insones
Que todos nós já tivemos como companheiras.
Almas livres que vagam em paz agora
E que suspiram pelo presente
Que se desembrulha nas areias que escavo com minhas próprias mãos:
Tento desatar os nós.
Tento abrir os olhos.
Tento saciar a sede.
Mas calo quando deveria ceder ao grito.
Mas me desfaço no vento quando deveria enfrentá-lo.
E vago no deserto que sustento.
E tenho o peito vago
Com uma vaga esperança
Que teima em não ir embora.
Talvez ela seja mais numerosa que a areia
Talvez ela seja o frescor de uma sombra
Onde eu preciso me abandonar.
Talvez nem seja um deserto o que carrego,
Mas vontades desordenadas,
Ansiosas pelos rumos cardeais
Das constelações noturnas.
Durmo nesse chão, esperando a escuridão:
Talvez a noite venha e me brinde com o sossego
De um coração tranquilo
De uma mão estendida
De minha metade, de nós,
Que serão laços de afeto incontáveis,
Que, na verdade, serão oásis.




domingo, 13 de setembro de 2015

Afetos




em 13/09/2013



Se seus olhos escorregam sobre mim,
Se suas palavras me causam arrepios,
Se sua presença me enche de alegria,
São sinais de que fui afetada por seu afeto
Ah, esses afetos... de fato, nos tomam de assalto,
Nos enchem de alegria em um sobressalto

Canduras




Despertam-me canduras
Os risos alvos das crianças
Mais que puras, sinceras.
Evaporam-me as agruras
Quando renovo as esperanças.
Elevam-me onde não posso tocar
Cada pequeno gracejo
A tal ponto que não desejo
Outra coisa se não voar.
Loucura! Dirão os transeuntes!
Futilidades e perfumarias, apontarão alguns.
Por dentro, rirei de cada um
E cada vez mais:
Não sabem a riqueza de um riso tolo.
Não sabem a beleza por trás das asas.
Longe de um nome ou um rosto,
O que me dobras as esquinas do ser
São sentimentos.
É o abandono da o ofício de colecionaDOR
Que há muito exerci.
Esvaio-me, agora, em prosas soltas,
Com-VERSO
Livre de pretensões,
Livre e alado.
Folhas em branco e linhas bem traçadas:
Passaportes para o mundo que desconhecia,

Salvação que devolveu-me a alegria!

sábado, 12 de setembro de 2015

Lu(cide)z





Tantas sou, que diante do espelho é preciso escolher quem serei ao longo do dia.
Não se tratam de máscaras, mas de marcas que fazem parte de quem sou agora e de tudo o que sinto.
(Antes de qualquer coisa, trata-se das cicatrizes que vou expor por aí.)
Por vezes, sinto tanto e em profundidades tamanhas que não me reconheço, não caibo nem no reflexo nem na ideia que faço de mim mesma.
Há um quê de loucura? Eu prefiro chamar de excesso de lucidez que tenho para comigo e para o mundo que vejo. E ela me extravia de quem fui, afastando-me do que foi frio ou morno, levando-me a passos largos e firmes para tudo o que me faz febril.
Gosto quando as faces estão rubras. Gosto da sensação do sangue pulsando e correndo pelas veias. Gosto de ter os lábios quentes com a empolgação do desconhecido.
Não nego que muitas vezes a boca fica seca. O ar parece queimar. As palavras teimam em derreter na ponta da língua e voltam para dentro da boca. As ideias não saem. O sentimento não se dissipa no ar, não se mostra. As pernas desejam avançar, mas o querer ainda é pouco e elas estacam. É, então, como uma força oculta que me guia e me derrama sensações que desconheço e que recebo resiliente.
Diante do espelho, enquanto essas sensações, resultados de experimentações, desfilam diante de meus olhos e me impõem a escolha de um “eu”, consigo refletir e questiono-me se, de fato, sinto isso tudo ou se são delírios.
A voz que me responde é interior e clara: o poeta sente mesmo quando não o sabe e traduz o intangível em palavras. Toma a sua caneta. Rabisca o seu papel. E qualquer que seja o “eu” que escolher, escreva. Porque só se é e só se sente verdadeiramente quando o abandono do lugar comum acontece. Escreve. E sai, assim, do lugar cativo. Alça voos que seus olhos sonham e será plena de uma beleza imensuravelmente contagiante. Será poeta. Será verso.