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domingo, 17 de maio de 2015

Dy por Dy - Entrevista

Entrevista a Lui Morais, para a rádio do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 03 de maio de 2015.



Você pode falar quais peças constituem a sua obra até agora?
Não tenho livros publicados.
Toda a minha produção fica disponível em meu blog, Dy-vagando, no ar desde 2010, mas só levado a sério a partir de 2011.
Desde 2013 sou colunista na Revista Biografia, eletrônica, com textos semanais. Participei da Antologia Versos de Verão (2014), da Revista Replicante, (México, 2014), e do Suplemento Acre (nº5, 2015).
Tenho 4 projetos de livros prontos, esperando uma editora. Dois livros de prosa (Vontades Incompletas e Entre uma Balada e um Blues) e dois de poesia (InVersus e Palavras Indizíveis, Sentimentos Indivisíveis).

Por que você escreve?
Para me aliviar. Observo muito o mundo à minha volta e vou absorvendo o máximo que posso. Esses sentimentos acabam me extrapolando em forma de poesia.
É uma forma de ser e continuar sendo através das palavras, mesmo depois que o sentimento passa. Gosto dessa ideia da permanência das palavras no tempo. E gosto de me expor nas entrelinhas, com sutilezas, com paixão. Claro que nem todos os textos são sobre mim ou o que vivo. Muita coisa é fruto das observações. Só faço uma espécie de tradução do mundo tão rígido e tão sério para as palavras mais leves, mostrando que há beleza em tudo. Pelo menos aos meus olhos. Não faço da escrita um compromisso. Só escrevo quando estou transbordando. Não tenho uma rotina para fazer poesia.

O que é poesia pra você?
A poesia faz parte da minha vida desde que aprendi a ler. Escrevo há pouco tempo, uns 5 anos, mas ela sempre esteve presente. É pela poesia que me expresso quando estou feliz, triste, com raiva. A poesia é uma válvula de escape, uma passagem secreta para um lugar maravilhoso, o mundo das palavras. É uma ponte entre pessoas incríveis que conheci. É meu travesseiro cheio de sonhos. É companheira em noite de insônia. É a lente pela qual escolhi ver o mundo. Não há uma definição do que ela seja para mim, mas é muito importante.

Você se considera uma autora pós-moderna?
A ideia do pós-modernismo pra mim é um vulto. Se for levar em conta o que tem se entendido como pós-modernismo, um grande balaio onde se colocam grandes autores sem muita conexão, devido à fluidez do conceito, sim, eu seria uma pós-moderna.
Mas não sou apegada a esse tipo de rotulação.
Faço poesia. Isso devia bastar. É só uma forma de expressão, é só um meio de tentar embelezar o mundo, de me derramar sobre o papel e ter nele uma extensão do que sinto. Sinceramente, não sei dizer se tenho essa ou aquela característica de pós-moderna. Sou poeta.

A tradição da literatura e das artes influencia muito sua poesia? Pode dar exemplos?
Antes de ser escritora, sou leitora.
Antes de derramar, me preencho.
Toda forma de arte me inspira. Mas não me ligo à tradições e sua rigidez, não há um movimento único que eu pudesse escolher. Transito em tudo o que posso.
Quase sempre escrevo ouvindo música, de clássica a MPB, de Ludovico Einaudi a Emilie Simon, de Khaled Mouzanar a Erik Satie.
Na MPB eu vejo fontes inesgotáveis de poesia, vou desde os consagrados Djavan, Caetano, Oswaldo Montenegro, Lenine à galera não muito conhecida – há controvérsias! – como Vinícius Calderoni, Rafael Altério, Fernando Anitelli, que apresentam poesias muito boas, simples e marcantes, questionadoras e provocativas.
Também sou fortemente influenciada pelo Oriente Médio, sua poesia, dança (do ventre) e música. É clichê, mas tudo começou na infância, com as Mil e Uma Noites, na época, uma organização de Malba Tahan. Hoje volto-me para os libaneses Amin Maloouf, Khalil Gibran, Joumana Haddad, mas a lista ainda tem escritores iranianos, como Nahid Rachlin, e marroquinos como Mubarak Rabia e Muhammad Chukri, que são contistas modernos.
Na literatura nacional gosto muito de Nélida Piñon, Leminski, Manoel de Barros, Elisa Lucinda.

Como você sente a relação da sua poesia com o tempo? E com a realidade?
A poesia é, em parte, filha de seu tempo. A minha não é diferente. Ela é, na maioria das vezes filha da madrugada, mas gerada à luz do dia. Não tenho temas específicos, gosto mais de escrever sobre minhas reflexões, sentimentos, mas há algumas que são muito fortes e questionadoras sobre o que acontece no dia a dia.
Nem sempre estou só tocando a ficção. Muita coisa é fruto de minha indignação, das notícias dos jornais, de experiências vividas no meu cotidiano.
Como toda literatura, muitos textos são atemporais, outros só farão sentido em seu contexto.
A poesia é arte e ela sobrevive ao tempo. Chronos deu esse presente à poesia: um ser alado que transita por onde quiser e quando quiser, descolada dos calendários, livres para pousarem nos ponteiros do relógio de seu leitor e depois voltar a voar.
Minha poesia é assim. Tem lugar de nascer, tem traços desse tempo, mas não é presa a ele.
                   
Você gostaria de indicar outros poetas que considera interessantes para participarem desta pesquisa?
Conheço muita gente boa. No Rio tem a Flavinha, Flávia Cortes, que lançou o livro Espanto! Ela é maravilhosa!

Tem o Rômulo Ferreira, que distribui sua poesia pelas ruas do Rio, que conheci por acaso, e que já publicou um texto meu no Suplemento Acre. Ele é uma figura muito emblemática: não desiste da arte, da arte nas ruas, popular, ao alcance de todos. Gosto muito do trabalho dele e seria lindo vê-lo falar sobre livros artesanais, sobre a arte pela arte.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Luz



Pesa-me nos olhos a luz que desconheço.
Cega-me seu brilho encantado e não encontrado.
O que trago nos seios, são gotas
De orvalho e desejo.
O que cora a (nossa) face é seu rubro lampejo
De um não sei o quê
Que lhe corre
–  às veias e aos sonhos –.  
O que ergue-me é o som de sua voz
Que me treme, envolve e ensurdece
Mesmo sendo silêncio,
Mesmo sendo eco,
Mesmo eu sendo (ou parecendo) louca,
Porque só lhe imagino,
Luz dos meus olhos,
Toque de meus tinos,
Rumo dos meus sinos,
Sentido de minhas catedrais.
O que ilumina-me é a luz pelos vitrais,
Enquanto tento esconder-me
Em escombros medievais.
E são vãos:
Os espaços
E o espalmar das mãos.
E sou luz inquieta que não cabe na candeia.
E sou traçado imaginado de estrada

Sob seus pés que nunca me chegam.

Fardo




Se não coube a mim a sorte dos seus amores
Que eu me regozije com seus humores
Certeza das multiplicidades dos sentimentos
Superação maior de meus pensamentos
Porque está acima de todo vão querer
E será, dessa maneira, completude de meu ser,
Embalos de alegria,
Motivo de folia,
Um ser-estar consolidado

De quem compreende bem a leveza do fardo.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Solilóquio




Meus pés recusaram-se a fazer o caminho
Meus ombros já cedem ao fardo
Desço do carrossel que criei para mim
Tentando evitar os cansaços diários.
Procuro hastear a bandeira do sossego
Aquela branca que salpicaria o céu
Busco a paz e sei bem o que ela é:
A paz é o descanso eterno.
É o fim da linha.
É o suspiro último no derradeiro dia.
Fecho os olhos e fico em paz.
Que eu não volte nunca mais.
Que não viva mais ais.
Que não viva.
Paz.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

Distâncias



Parecia ser à frente de seu tempo. Parecia ter experimentado as amadurecências da vida bem antes de todas as pessoas que conhecia.
Em um dia vivia anos, em uma semana, séculos. As cores não eram só algo que saltava paletas e prendiam-se em telas brancas. Eram mensagens secretas, saberes quase mágicos e poderosos que podiam mudar todo o equilíbrio do mundo.
Foi aprendendo a aceitar-se assim, um tanto distante dos outros, um tanto distante do tempo em que vivia, quase deslocada, pessoa mal encaixada nos cotidianos.
Por sentir-se distante de tudo o que tocava e fazia, por buscar as suas compreensões, aprendeu a admirar essas distâncias e a aproximar-se delas como quem observa um reflexo no lago.
Tateando claridades intangíveis a quem não via o mundo pelas suas lentes, desvendava mistérios como em um passe de mágica, perdendo parte de todo o encantamento ingênuo que cerceava o mundo.
Adivinhava as nuances da natureza como um jogo natural e simples: observava e entendia. Compreendia o exato lugar de cada coisa, os calcanhares de Aquiles, os esforços sísifos, os suplícios de Tântalo, as lutas vencidas e as abandonadas e nada disso lhe despertava mais graça.
Terrível era sua sina de não convencer-se que a ignorância era uma virtude. Não sabia mais existir sem ser iluminada por relâmpagos repentinos de consciências e análise de tudo a sua volta e sentia-se em um abismo, cada vez mais distante de quem a rodeava.
Tinha a impressão que, como vivia muitos anos em uma só hora, também envelhecia na mesma velocidade, era um amadurecimento quase atroz, que lhe consumia e a coloca em posição de desconforto com as complexidades desnecessárias, já que descobrira que a simplicidade era a melhor forma de beleza e completude.
Aos poucos, foi entendendo que há certas distâncias que por mais que envolvam duas pessoas, só podem ser transpostas por uma delas.
Há necessidades que são urgentes e que nos engolem se não as enfrentamos.
Há amores que nascem nos olhos, se mudam para o coração, mas não têm força para serem vividos. Esses são belos por completo, poéticos, inspiradores, mas irreais.
Pra ela, também o amor era uma espécie de distância em que as pessoas iam avançando em caminhos cujas dificuldades eram do mesmo tamanho pra todo mundo, mas que se um não anda, o outro se cansa.

Em suas percepções, o que mais marcou foi que todos temos a necessidade de amar, de romper nossas barreiras, não somos e nem podemos ser estáticos. Nascemos pulsantes. Vibrantes. E vencer as distâncias é o maior de todos os desafios.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Vale a pena se matar?






Há quem conte dos dias que se viveu,
Histórias, lembranças, memórias.
Tudo isso que possa parecer pouco,
Mas que marca profundo.
Há os que por honra própria escolheram as notas.
Não as sonoras,
(Desses tenho dó)
 mas as promissórias, verdes, valorosas.
Eu, do meu canto,  questiono o valor.
Do cobre eu dispenso a moeda,
Aceito só a cor, do cabelo da menina,
Do sol a se por em mais uma esquina.
Dessas imagens que saltam qualquer moldura
E moldam o jeito que quero viver.
Há quem prefira a prata
Que retine no prato,
Que trancafia se no cofre.
Eu prefiro a que vem do luar,
A que mergulha no mar,
A que me embala a divagar.
Vale a pena se matar?
Duras penas não rejeito,
Faço verso, reinvento,
Mas nessa dor
(A de me matar por nada)
Não vou me afogar.
Deixa disso, companheiro!
Não vale a pena essa vida desperdiçar,
Não vale a pena só ver o tempo passar,
E achar que todos os minutos poderá contar
(Os lucros).
Eu é que sou rico, meu xará!
Contei minutos em beijos,
Cobrei juras de amor com juros
Amarrei-me com empréstimos de amantes.
Desse tempo de errantes,
Quem erra é quem só saber contabilizar.
Eu aprendi desde cedo a contar:
Mais vale um abraço,
Um toque na mão,
Do que dinheiro no bolso,

Amargando solidão.

domingo, 10 de maio de 2015

Parir-se



Quando não coube mais em si,
O amor extrapolou o corpo.
Quando o riso já parecia gasto,
Quando os braços pareciam vazios,
Quando o colo pedia mais,
O ventre foi abrigo,
Explosão de amor maior.
Ao dar à luz, ao dar a vida,
A mulher paria-se:
Nascia, no mesmo instante,
Um filho e uma mãe.
Conhecia-se, naquele instante, o indefinível.
Tateava-se o divino,
Passou a ser mulher-mãe,
Fonte de força, de carinho, se segurança.
Passou a entender o sentido da vida.



Arma-Dura



Fez planos de papel. Desses que já nascem sabidos de seus destinos: o fim prematuro. A não realização. O canto da página. O esquecimento breve, apesar da euforia passageira.
Recortou a folha de papel como se fosse uma máscara e a colocou. Era quase uma arma-dura com a qual enfrentaria o mundo a partir daquele momento.
Tinha os passos exaustos de lutas encampadas quase em vão, daqueles dias em que tudo o que via era o concreto, também armado, em curvas, que feriam as retas paralelas dos tais planos rabiscados nos papeis.
Frente às vitrines espelhadas observava como a tal arma-dura lhe caia bem e já não sabia mais, ao longo dos dias atravancados pelos vaivens cotidianos, se a máscara lhe cobria o rosto ou se revelava quem ela era de fato.
Explicava-se a si mesma que a máscara seria a sua arma mais dura frente aos outros. Com ela manteria distâncias seguras, pouparia todo o desgaste do desconhecido. Mostraria-se forte o bastante para não terem penas de suas feridas e suficientemente preparada para aguentar todas as adversidades.
Avançava, ora acreditando na nova face, ora aceitando que sempre fora a mesma. Escorregando pelos cantos das ruas, passava em brancas nuvens, desejando deitar-se sob o azul do céu, sobre o verde da grama e perde-se nas chuvas multicoloridas de esperanças abandonadas.
Desligava-se, aos poucos, de quem era e fixava-se em seus reflexos. Esquecia-se que usava a arma-dura. Esquecia-se que convocara há tempos uma guarda fiel para si e que se escondia. Esquecia-se, aos poucos, das flores, dos bilhetes, das bolhas de sabão, das vontades de ficar.
Acreditava-se mais forte por conta da máscara, sem perceber que a força era dela desde o início e que só precisava de seus sorrisos para compor e recompor tudo o que estava por vir.
Depois de um banho de chuva, desses comuns no outono, desceram-lhe as gotas d’água e os pedaços da máscara, desfazendo sua armação. Despida de suas armas, de sua máscara, maquiagem bem feita, agora estava diante de si mesma e, percebeu que todas as pedras no caminho foram vencidas por ela mesma.

A máscara não era tão necessária. Desfez-se da fantasia e passou a encarar o mundo olho no olho, sem  correr, aceitando os desafios, como quem acorda para tudo o que virá.

sábado, 9 de maio de 2015

Ser ou Não Sei


Escrevo tudo o que sinto,
Mas nem sempre sinto o que escrevo.
Se cabe ao poeta encontrar-se,
A mim coube perder-me.
Não sei mais quais palavras são as minhas,
Quais delas nascem de minha língua
Ou quais me brotam poesia.
Não que eu não seja meus versos,
Não que eu não me encontre neles
Sequer os desprezo.
São filhos noturnos,
Paridos pelos traçados cuidadosos
De caligrafias cotidianas,
Adotados pela beleza ou pelo bem que trazem,
Sendo verdadeiros ou não.
São ninhos de tigres
Dóceis e selvagens
Indecifráveis.
São labirintos de solidão,
São destinos de mãos que obedecem

Ora à caneta, ora à inspiração. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Elementar




Tinha muito a dizer, mas calou.
Assumiu a profissão de detetive,
Tentando descobrir 
Onde foram parar todos aqueles silêncios
Impregnados de sentimentos.
É elementar, minha cara,
Que o coração é um sem fundo de (des)esperanças

E carregar esse abismo no peito não é negociável.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lâmpada Mágica




Se a lâmpada que tenho nas mãos além de luz, me desse desejos, eu pediria a extensão das horas. Das tímidas horas em que passamos juntos e que nos atropelam com os ponteiros do relógio (solavancos da realidade).
Faria de cada avançar dos ponteiros uma nota nova, consciente da impossibilidade de qualquer ré e evitando dó, mas sem economizar lá e sol (quanto maior melhor), para compor música nunca feita antes, que traduzisse todas as vivências.
Pediria que o sol do entardecer que emoldurou seu rosto, que intensificou seus olhos, ao mesmo tempo em que me despertava, fosse perpetuado (instante mágico do desabrochar de sentimentos).
Gosto de molduras. Gosto de pensar que esses momentos são telas cuidadosamente pintadas para a minha apreciação, para o meu encantamento, para que eu me convença cada vez mais que a contemplação é natural e que a beleza é digna de toda e qualquer homenagem.
Gosto de ver como todas essas sutilezas estão à minha disposição, mas que nem para todos os mortais ela é evidente. E lamento, em prece, por aqueles que sabem entender as singelezas do afago do vento.
Coubesse a mim mais um desejo, ousaria deixar de lado essas belezas e me concentraria, de novo, em quem me despertou para elas. Voltaria-me a você e pediria as traduções de cada linha que seus olhos imprimiram sobre mim e de tudo o que leram enquanto me percorriam e me faziam sentir arrepios como se eu mesma fosse um texto em braile, sem sequer ter havido o toque. 
Algumas delicadezas, como esses olhares que tocam mais do que a ponta dos dedos, como essas do amor, nos escapam e perdemos oportunidades de felicidade. Para não desperdiçar essas oportunidades eu desejaria atenção, não dessas de quem vigia, mas a de quem sabe notar os detalhes.

Se coubessem a mim esses desejos, experimentaria as sensações que hoje são tão raras e colocaria-me  entre aqueles que alcançam os mais altos lugares dos altares: aqueles que reconhecem os momentos certos e não os perdem. Eu estaria, de bom grado, entre aqueles que aprenderam a viver.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Hayat






Hoje a insônia continua.
Ela tem nome, sobrenome
É sobre todo nome em minha lista.
Hoje, a insônia é só saudade:
A que me consome
E outra antecipada.
Hoje não descanso os pés que sonharam...
Eles não queriam ser de bailarina,
Mas de beduína, que baila nos desertos.
Hoje tenho saudades do tempo de menina.
Antecipo as saudades da mulher:
Hoje ela dança!
Gira e faz sonhar!
Não cruzou senão seus próprios desertos,
Mas aprendeu que seu peito é um oásis.
Que dentro dela habita um mundo.
Hoje a insônia tem um nome:
Sonho
E seu sobrenome é fé.
Quem a conhece chama de vida.
A menina-moça-mulher
Gosta de outra língua
E a diz: hayat! 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Estações



Tinha uma sede
Insaciável.
Tinha uma busca
Inalcançável.
Tinha dias de sóis
Admiráveis.
Desertos,
Intransponíveis.
Doçuras suficientes.
Amores intangíveis.
Tinha tanta coisa
E era tão pouco...
Achou-se, de verdade,
Em dia de outono,
Entre ventos gelados,
Folhas voando,
Cabelo desgrenhado,
Equilíbrios sobre paralelepípedos:
Na corda bamba da vida,
Cansou de só aplaudir.
Abriu uma sombrinha
E foi brincar de caminhar.
Fez-se o caminho.
Fez-se a vida.
Estações.
E o trem

Passa.

domingo, 3 de maio de 2015

Margens




Entre as minhas próprias margens,
Permito-me ser tudo.
Sou uma folha em branco
À espera de escritas
Que me tatuarão pra sempre.
Para tal, só me coloquei uma regra:
Não contentar-me em ser esboço.
             Nem meu nem de ninguém

sábado, 2 de maio de 2015

(Des)Confiança



Não foi feita para se quebrar. Era um cristal, desses que se deve ter cuidado, como herança de família.
Não foi feita para se rasgar. Muito mais valiosa que essas notas às quais atribuem valores e que perdemos a vida correndo atrás. Era para ser como carta última do grande amor, intocável.
Não foi feita para secar. A fonte deveria jorrar, ininterrupta. Deveria saciar a quem a buscasse. Devia ser descanso, pausa, dia de domingo.
Não era para se desfazer. Deveria ser uma espécie de fortaleza, altiva como castelo medievo, mas era tão frágil... tão fácil de se desmanchar que parecia uma miragem e as miragens deveriam ser limitadas aos desertos. Mas essas estavam por aí, crescendo e multiplicando-se à luz do dia, diante dos olhos.
Não era para ser faca de dois gumes. Sequer era para ser faca ou arma ou cortar, mas é que a fizeram de tal maneira que causava dores e ferimentos ao seu doador quando mal aproveitadas.
E se se quebrava, se se partia, restavam os cacos, muitos. Pedaços múltiplos, diversos em tamanhos e formas, aleijões.
Cacos. Acho que no fundo temos vocação para gostar de cacos, pedaços. Nascemos artesãos! Nosso talento esta aí! E, para valer nosso ofício, escolhemos uma especialidade e optamos pelos mosaicos (do que somos, do que gostaríamos de ser e do que jamais alcançaremos).
Aquela confiança era para ser o sentimento mais nobre. Era para ser o mais valorizado. Era para ser guardada a sete chaves. Milagre que não precisa ser contado, porque todo mundo um dia o vive. E mais de uma vez, fazendo-o perder o seu encanto, quiçá sua importância.
Era um dia de feira comum, nem feriado, nem dia santo. Só um dia. As mesmas vinte e quatro horas, o mesmo número da folhinha, do calendário, a mesma impressão de repetição, mas a confiança depositada com devoção, com desprendimento foi quebrada. Isso fez daquele dia um marco dorido.
Quem depositou a tal confiança era beduíno errante, dono de um tesouro embrulhado em tapetes raros, em busca de oásis para sua nobreza de caráter, para o seu voto (devoto) de esperança de que as pessoas merecem uma mão estendida, mas viu-se em tempestade de areia, que lhe encheu os olhos.
Dos olhos empoeirados, a descrença, o aprendizado que vem do quebrar-se em mil. O desapontamento. A impotência e o quase arrependimento, só não se arrependeu porque já havia aprendido a chorar e fazia dessa ação a sua virtude de renovação.
Dos olhos empoeirados brotavam cristais salgados que misturavam-se ao pó e davam a certeza de que as mãos que enxugariam a cachoeira do rosto, seriam, na verdade, mãos de oleiro, moldando a nova criatura, mais rica em aprendizado.
As mãos seriam de artesão, que com os cacos da confiança depositada, faria a sua arte: faria um mosaico. E, olhando de longe, se o resultado é bonito, ninguém se importa com os remendos. E, olhando de perto, ninguém se importa com os tamanhos dos cacos, porque quem confia um dia, por mais que doa, voltará a confiar, porque lhe é natural.
Confiança quebrada corta a carne, os dedos de quem ajunta seus pedaços, mas as cicatrizes não tardam e logo o caravaneiro parte e novo oásis se descortina.
Triste é saber que uma parte do que se quebra fica pelo caminho, mas é bonito ver a arte que se faz com o que sobra: reinventar-se é dádiva.
Nem todo mundo sabe chorar. Nem todo mundo sabe (re)construir-se a partir de escombros ou pedaços. Raridade é mostrar-se ao mundo como é, inteiro e aos pedaços, vivo, pulsante. Confiante de que há um novo dia, uma nova chance, e novos mosaicos serão feitos.
Não é questão de querer. É questão de respeitar o dom que se tem: o de ser. E a isso não se pode dar um fim ou um pronto e acabou. Só se pode ser.


Terra Prometida





Prometeram uma terra, uma paz, um lugar para descansar, para sonhar, para viver.
Inocente, acreditei.
Li em um livro alguns nomes e os escrevi em papel colorido, bonito, com destaque de honra: precisava não esquecer o seu nome, para ter certeza quando o encontrasse.
Ah, Canaã, Tel-Aviv, cortes transversos nos Orientes que já não orientam, ao contrário, me desorientam e deixam pra lá de Bagdá, acolá de Marrakesh, perdida nos desertos das solidões minhas e dos outros, imersa em meus infinitos diários de ponderações e reflexões.
E se há reflexos, os espelhos d’água em que me miro, giram, aqueles que vêm do sossego interior dos desertos, com suas belezas, sabem ser inquietantes. Turbilhões que engolem os restos de esperança que não usei ou porque caí em desespero ou porque embriaguei-me em ansiedades ou porque esqueci-me de usar seu verde.
E essa cor que me estimula, esse ver-de-perto as promessas ancestrais feitas nos livros sagrados... As terras prometidas... Verde... Ou de esperança ou de tempos de amadurecências... Verde das gramas que cobrem as terras, as que foram prometidas... As que não encontro e não me esqueço, por mais que hoje delas não tenha me lembrado.
Não cessam as buscas pelo chão em que pisarei menos firme do que agora, mas muito mais segura. Não cessam os desejos de ver o sol nascer na esquina de uma montanha, à beira de Shangri-la, próximo a Pasárgada, em um porto, em uma praia.
Não cessam os sonhos de paz... Essa paz que parece correr diante de quem a busca. Fico, daqui, à espera de que ela se canse e pare, para que eu a alcance à beira de um caminho, um Edelvais radiante.
Sigo à espera do momento em que chegarei às terras cuja felicidade fez morada, em que solidão alguma dure, àquelas que os mapas trazem marcadas com um xis, diferente das coordenadas que me deu. Diferentes das marcações de seus mapas.
Seus mapas que não levam a lugar algum. Suas coordenadas que voltam ao mesmo lugar e que abrigam só a sua arca que é oca, não carrega tesouros, se não o brilho falso de olhos que cruzaram esses caminhos.

Frágeis mapas. Frágeis coordenadas. Frágeis criaturas que buscam incessantes o seu lugar. Não há lugar certo. Não há um xis. Não há um porto. Só há a busca. A distância entre a água e a sede. Entre o fogo e o frio. Entre a paz e a bandeira que tremula no horizonte, nos orientes e ocidentes em que me divido. Sejam os próximos ou os extremos. Só há corações e a paz corre em nossas veias. Se ela parar, o sangue coalha. A paz é, na verdade, o descanso eterno. É o fim.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Imperialismos Sentimentais



A angústia toma conta de nós como as águas de uma represa, que parecem tranquilas, mas que romperão, em breve, com muito mais violência do que podemos imaginar.
Não é de todo uma culpa, mas não há como nos desvencilharmos da tal mea culpa: não sabemos lidar conosco, com os nossos sentimentos e por puro egoísmo, vaidade ou necessidade de autoafirmação nos lançamos para cima dos outros.
Praticamos um imperialismo sentimental no coração alheio sem sequer dominarmos o nosso próprio estado, não damos conta nem de saber quem somos, nem de saber onde é nossa casa e já partimos para o lado alheio. Invadimos.
Não necessariamente entramos chutando o balde. Às vezes é uma dominação silenciosa, quase pacífica com flores e cartões e músicas, como se fosse quermesse, como se fosse comemoração de feriado e então instalamos nossas bases.
Fixamo-nos ali, na terra coração dos outros, displicentes, quase covardes, supostamente sem intenções, mas plenamente conscientes de tudo o que queremos e não queremos. E fazemos o estrago. E não seguramos o rojão. O soltamos, julgando que os estilhaços não nos alcançarão, mas alcançam.
Somos incapazes de nos valer da sinceridade crua, ainda que pouco leve, que poupa sangramentos que podem ser estancados. Gostamos do sangue jorrando. Gostamos da hemorragia. E depois da verborragia que se segue. E das lágrimas escorrendo. E do sal engasgando e secando a boca, a voz, o resto de sentimento.
Somos cruéis com os outros e conosco. Sim! Conosco porque não saímos ilesos dessas pequenas invasões no mundo do outro. Respingam-nos um quê-de-tudo-um-pouco e já não sabemos o que éramos e o que nos transformamos.
Meu Deus, onde vamos parar? Se é que queremos parar... Se é que já não nos acostumamos com essas incursões desastrosas que promovemos em nome de bandeiras que nunca hasteamos verdadeiramente. Se é que temos conhecimento dos objetivos que elencamos. Se é que sabemos que somos de carne, osso, sentimento e poesia.

Por vezes acho que nos abandonamos. Acho que largamos a poesia no caminho e nos acostumamos só ao pó. À poeira do que gostaríamos e que se amontoa nos cantos dos planos amassados que jogamos no chão de nossas histórias não vividas.