Visitas da Dy

domingo, 26 de abril de 2015

Serenidade




Quando pus-me a caminhar pelo mundo,
Pés descalços, alma desarmada,
Não esperava tantos espinhos.
Acreditava nas flores que via,
Nos tantos perfumes que inebriam
E que emolduravam os amanheceres.
Meus olhos ardiam com as quenturas do verão,
Entristeciam-se nas friezas invernais,
Mas, tocados pelas delicadezas dos entremeios
Fossem outonos ou primaveras,
Coloriam-se e ganhavam vida.
Dos tantos laços que teci,
Alguns me prenderam, ásperos, de modo que sofri.
Outros tantos, de tão frouxos, igualmente doeram.
Curiosa sensação de dor:
Pelo aperto ou pela folga.
Os extremos doem.
As doçuras de açúcares nem sempre verdadeiros
Tanto adoçam quanto amargam.
Amarguei as realidades que engoli à pão seco,
Com solavancos, trancos e barrancos.
Com dores certas que me acertaram no alvo, no âmago,
Alma nua, crua e alvejada.
Alma crescente, tornando-se experiente
Tocada por esperanças renovadas de felicidade
Desfazendo-se dos vazios que preenchiam seus interiores,
Expulsando tudo o que não fosse alegria.
É cansativo desfazer-se de si mesma.
É construção lenta de pontes de sentimentos,
É um aprendizado constante de equilíbrio,
É lidar com repousos inquietos
E inquietudes que acalmam.
É saber-se pouco e tanto que se baste
É saber que não se basta só por querer
É aprender a esperar
E esperar para aprender
É ser contrários em si
E respeitar-se
É ser:

Serenidade.

sábado, 25 de abril de 2015

Palavras Indizíveis



Deixei um livro aberto
Bem em frente à minha janela.
O vento chegou sorrateiro,
Embaralhou as linhas paralelas,
Espalhou as palavras como borboletas,
Ideias aladas que ganharam o azul.
As palavras voaram e me pousaram sutis,
Voaram livres, me fizeram seu descanso.
Voaram tranquilas, me fizeram seu pousio.
Do jardim eu comia um pedaço de nuvem,
Açúcar que rodopiou no palito,
E encheu a boca com gosto de infância.
O vento deu em minha saia rodada,
Girou a cabeça de menina.
Trouxe ele inspiração pra poesia.
Trouxe um nome, um cheiro, uma rima.
Trouxe sentimentos que eu desconhecia.
Eram palavras mudas, indizíveis,
Eram sentimentos tênues, indivizíveis,
Eram gotas de felicidade que pariram um arco-íris
Eram melodias de bem-te-vi,
Mas não vi...
Porque o vento, só senti...
Agarrei-me às asas de borboleta-palavra,
Tingi o papel-asa com tinta-sorriso,
Organizei os versos e os recoloquei no livro.
Agora guardo as palavras
Longe das janelas:
Quero distância de todo pé de vento.
Lugar de memória é em baú de tesouro,
Lugar dos meus versos é travesseiro,
Perto dos sonhos, à altura dos olhos,
Embrulhados em fantasias pueris,
Versos sagrados no altar

Que construí no dia em aprendi a ouvir silêncios.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Teimosias




Era um sol teimoso
Que coloria o céu,
Que afastava de nós as horas
Nas quais nos desfizemos em nós,
Desatando nossas vontades,
Experimentando-nos,
Alimentando-nos boca a boca
Como quem ganha força para o novo dia.
Calma, que o sol que nos desperta
Também nos arde.
Calma, que o sol do meio-dia
Há de ser o mesmo que aqueceu nossos lençóis
À meia-noite, à meia-luz.
Calma, amado meu, que mesmo sob esse azul
Todo reflexo são dos olhos seus,
Todas as juras serão suas
E todo café-castanho irá me embriagar.
Calma, amado meu, e contempla o céu
Chamuscado de dourado
Ouve as preces do vento e crê:
Sou aquela que lhe espera no entardecer,
Com brasa nas mãos pra lhe acender,
Que faz da noite seu abrigo,

Do meu seio sua senda.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Perguntas e Respostas





Faço das respostas perguntas.
A cada pergunta, novas dúvidas
E o círculo vicioso se forma.
Se não sei nunca a resposta,
Se não me cessam as perguntas,
Não descanso nem de dia nem de noite.
Sou um questionário infinito
De matéria ainda não dada,
De manias ainda não decoradas
E se lanço no ar a dúvida corrosiva,
É que aqui dentro ela já deu partida:
O que não converto em poesia,
Retina pela minha retina,
Rebrilha em estrelas frias
E segue a badalar nos ouvidos:
Há perguntas sem respostas

Há compreensões que dispensam entendimentos.

domingo, 19 de abril de 2015

Tardes




Não tarde a chegar nesse fim de tarde em que a lua já desponta, em que o último cacho dourado do sol descansa à beira da janela onde coloquei meu vaso de flores.
Não tarde a ser o motivo do sorriso em minha boca, em colher o beijo que lhe reservei e que contenho mordendo os lábios encarnados com a cor viva de jardins inteiros, quente como o fim desse dia de verão.
Chegue e não tarde o instante dos olhares. Já está muito adiantado o andar das horas, dos dias, dos anos que contamos e das tantas experiências que ainda não partilhamos, mas estão à espera de nós, cintilando nos resquícios da luz que ainda suspira nesse fim de dia.
Estanque à minha frente e deixe-me dedilha-lo como se fosse um alaúde, como se não me restasse escolha a não ser fazer ressoar a canção que representa a minha vida, meus sonhos e meus prazeres. Cantarei a você meus versos iluminados pela chama das velas, companheiras dos ecos que minha boca chama: seu nome desconhecido.
Silencie os agouros que me foram atirados. Acanlante as preces que desfiei não em rosários, não em contas de lágrimas, mas nos sons longínquos de além mar, de além olhos, carregados com os cansaços de meu fardo que pesa mais quanto mais tarde fica.
Não tardemos mais o nós. Desfaçamo-nos dos nós e apreciemos a noite e o sol que tarda a amanhecer nos presenteando com as noites mais claras que pudemos experimentar, desejosos de que outras tantas possam vir para contemplarmos os eclipses que criamos entre nossos desejos nos céus de nossas bocas.
Não tarde a ser a luz incandescente de meu crepúsculo, minha estrela da tarde, porque eu ainda espero que seu luar me nasça e me amanheça, rompendo a ordem dos luzeiros celestes e a lógica dos tempos marcadamente cansativos.
Chegue em uma tarde e faça com que meu corpo lhe guarde e me esqueça, antes que seja tarde, e eu mesma me converta no próprio esquecimento, no limbo entre a incerteza do que é alegria, do que é a tristeza, do sei ou pensava saber.

Que seja a tarde o momento em que cheguemos nos festejos das festas de fogo e preces que abrem as portas dos sonhos, que abrem os braços do infinito para as tantas histórias, que abrem os vinhos das calmarias que nunca chegam tarde.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Metades



Para o céu exausto de preces,
Tempestades.
Para copos cheio de amargor, 
Gotas d'água.
Para paisagens muito tranquilas,
Furacões.
Para mares em calmaria,
Maremotos.
Para pensamentos avulsos,
Turbilhão.
Para tudo aquilo que não nos cabe,
Desabafos.
Para o que sufoca,
Liberdades.
Para mãos espalmadas, 
Cuidado.
Para dias nublados,
Giz.
Para músicas tristes,
noites longas.
Para flores coloridas,
Moldura de janelas .
Para os meios que não bastam,
Busca pelo completo.
Para todo aquele que é mais,
Transbordamentos.
Porque as metades são partes
Que precisam de seus complementos.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ausência



Chegou-me aos braços a sua ausência.
Invadiu-me a cama,
A noite, o porta retrato.
Era uma falta dolorida, de estar doente.
Era uma vontade de ficar encolhida,
Recolhida, remoída.
Era uma falta arrepiante,
Lâmina afiada, cortante,
Poema sem métrica, irritante,
Espaços sem preencher.
Chegou-me aquela ausência como fantasma,
Vulto negro sem contraste com a madrugada,
Sombra presente de tudo o que já tinha ido.

Passado presente como se fosse possível.

sábado, 11 de abril de 2015

Vãos



É que no fim das contas
Tudo é vão a se preencher:
O espaço entre nossas mãos,
A falta dos abraços,
Os silêncios praticados,
Os amores não declarados.
Sejamos o cimento tão esperado:
Histórias que se cruzam,
Dedos entrelaçados.
É clichê e realista:
Todos nós esperamos
Alguém que nos faça

Ver a vida de maneira simplista!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

In Memoriam





O que não se apaga
É o amor da memória.
É o que vi de olhos fechados,
É aquilo que desnorteou
Quando cheguei ao norte.
O que não esqueço
É o que me tirou o ar.
O segundo em que parei de respirar
A surpresa embrulhada em dia claro,
A serra dourada de sol
Em dia comum, sem feriado,
Em fuga do mundo,
Que de tanto só andar
A mim parecia estagnado.
O que ainda lembro
É o cheiro do café fresco,
O canto longínquo no tempo,
Ecoando na sala de visita.
É o véu que nunca usei,
E a dança que ensaiei.
O que me corre nas veias,
Passa pelos olhos e pelo peito,
Não é sangue, mas tem tons de vermelho:
É sonho de infância, terracota, barro,
Doce de padaria.
É o reflexo crescendo e mudando no espelho,
É papel, cola, tesoura,
Caderno novo, caneta colorida.
É passeio e vestido de estampa florida.
É o que não toco com a ponta dos dedos,

Mas me toca de leve, acaricia.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Eclipse





Toda força é assustadora.
Mas nem toda força é destrutiva.
Há, em toda força, um ponto de fraqueza,
Há, em toda fortaleza, um quê de fragilidade.
Se o eclipse se mostra como uma força,
Que seus olhos saibam se acostumar.
Se, por outro lado sol e lua se encontram,
É porque o tempo certo sabem esperar.
O divino encontro não acontece todo dia
É preciso paciência para vê-lo chegar,
É preciso atenção para não deixá-lo passar.
Somos eclipses: escondemo-nos
Quando na verdade, precisamos nos mostrar.
Sejamos um eclipse desfeitos dos véus:

Deixemos a vida nos aproximar!

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Às Avessas



Talvez viver
Seja mesmo morrer às avessas.
E, às avessas,
Descobrimos a bre-VIDA-de de quem somos,
Que ser visceral é necessário,
Mas que nem todo mundo consegue.
Então, que aprendamos a lidar com nossos limites.
É quando nos conhecemos que chegamos mais longe:
E ir cada vez mais longe,
Dentro de nós é que vale a pena.


(E dessa pena, faço poema!)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Stellaris






Desce dessa estrela que lhe carrega
Toma de volta o brilho que é seu.
Desce e venha ver como o chão é bom,
Como ter raízes eleva o espírito,
Como é crescer e se fortalecer.
Desce dessa estrela que risca o céu,
E realiza o desejo que fiz.
Desce e venha ser de um azul mais forte, marinho.
Troca a mansidão celeste
Pelas agitações marinas.
Experimenta a euforia de minha companhia.
Experimenta o que é ter só a cabeça na lua.
Experimenta enraizar-se em planos – e planícies –
E aprende a levantar voo
Só quando o vento for calmo,
Só em avião feito de papel em branco,
Enfeitado de versos rabiscados.
Experimenta navegar em barcos de papel
Que naufraga e desmancha
(Ou desmancha e naufraga?)
Em seu próprio tempo,
Que sabe onde tem que chegar,
Mas que não se importa com os desvios,
Que é inocente e pueril.
Experimenta brincar de ser aquarela,
Colorir o que está á volta,
Preencher meus lábios com a cor de seu sorriso,
Meus caminhos com a cor de suas pegadas,
Meus dias com seus azuis-e-brancos

De papel, de céu, de imaginações estreladas.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Poema Quebrado




Tinha nascido poesia,
Mas não era cor de rosa.
Era uma confusão de cores,
Talvez por isso, nunca se deu bem com amores.
Depois de tanto tentar
Desfez-se em mil pedaços.
Hoje é só mais um poema
Quebrado no outono
De quem não sabe ser verão.

E sente frio.

domingo, 5 de abril de 2015

Do Mundo que Eu Quero Habitar



Chega um momento
Em que você percebe
Que o que importa não é se seus ombros são largos,
Mas fortes.
Não importa o quanto suas pernas andaram,
Mas o peso que os joelhos aguentam depois de dobrados,
Depois que tocam o chão.
Em algum momento da vida sua pequenez vai gritar.
Seu silêncio vai ser doente.
Suas forças quase insuficientes.
Nessa hora, tudo o que vai querer
É que seu mundo caiba dentro de outro.
E essa mágica só acontece quando se experimenta um abraço.
Quando se cabe em um abraço,

Tudo a sua volta se renova.

sábado, 4 de abril de 2015

Fases II



Quero passar essa fase do encantamento
Quero que fique em meus olhos 
Só a admiração
Só o carinho e o cuidado
Desses que tenho com um livro novo
Desses que não esgotam.
Quero me caiba como companhia, 
E assim o seremos: 
Complementos em calmaria.
E nos saberemos próximos
Por mais que desafiemos
Toda a geografia, 
Todo tempo, espaço, toda teoria.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Aquário



Subi o mais alto que poderia
Daqui do alto contemplo o azul
É mar, é saudade,
Serão os dias que virão?
Se eu apanhar a água do mar
E colocar em um aquário
Criaria um novo mundo?
E se a sua retina tocar
O liame dos meus sonhos,
Terá parte em tudo o que faço?
Sei mais de água (salgada),
Do que de (meus) olhos (castanhos),
Do que verdes (olhares),
Do que liláses (contemplações).
Sei bem mais de lápis de cores
Do que de nuances sentimentais.
Sei bem mais de reflexos no espelho
Do que de meus reflexos nas pessoas.
Sei mais dos efeitos que gostaria
Do que dos que realmente causo.
Sei muito mais do aquário que possuo
Do que dos peixes que poderiam habitá-lo.
Sei mais dos mundos que crio
Do que daquele em que vago.
E já pouco respiro

Talvez só me inspiro.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Desinteresse





Ela amava o desconhecido.
Por mais estranho que pudesse ser.
Amava as possibilidades da descoberta.
Chegava a temer o dia
Em que os segredos seriam findos.
Ela amava tanto
Que aprendeu a tecer paciência
Com os fios do silêncio
E a contemplar a espera.
Ela amava porque era tudo o que sabia fazer.
Não esperava nada em troca.
E só por isso já merecia ser amada.

Era a própria ternura encarnada. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Chuva Tardia




Em meados de abril
Abriu as portas do céu
Fez-se inundação, maré alta,
Chuva que era pra ser de verão
Tardia, caiu à tarde
Água quase fria, quase quente, fogo-morto
De versos que lhe diziam muito: a resumiam
Mas apenas o tato dos olhos a compreenderiam
Seguiu chovendo.

(Ninguém bendisse a chuva tardia

E, com frio, em alguma noite ela ardia)