Visitas da Dy

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Entre Moiras e Clio, A Filha da Noite



Já estava acostumada à insônia. De tanto não dormir, acostumara-se a usar a madrugada como seu tempo-espaço próprio para pensar.
O sono já se configurava em seu inimigo. Uma completa perda de tempo. Aquela semimorte em que o corpo se entregava já deixara de ser necessária para ser irritante e quase desnecessária.
Quantos planos, quantas confabulações não deixariam de ser feitas em uma noite de sono profundo? Não! Dormir não era tão essencial. Pensar é que era!
Ao ler em algum lugar que ao final da vida pouco mais de um terço dos nossos dias seriam desperdiçados nos braços de Morpheu, desesperava-se. Gostava da praticidade e das urgências. Perder-se em mundos oníricos não era para ela.
Quanta vida pulsava nas veias da madrugada! Quantos mundos a serem descobertos! Quantos noturnos não nasceram das horas mais escuras, mais solitárias! Quantos sons não foram criados só para romper com aqueles silêncios ensurdecedores que só a noite sabe reproduzir!
E os amores? Quantos haviam sido desfeitos e outros tantos nasceram. Quantos gritos abafados pelos travesseiros ou pelas mãos que preferiam desabafar em notas harmônicas ou em versos ritmados. Quantas musas inspiradoras repousavam enquanto o observador fiel descrevia seus traços em mármores e telas encharcadas de tintas.
Ela era um ser da noite. Uma coruja, um gato pardo solitário, uma mariposa dessas de luzes corriqueiras, de ruas sem charme, sem passos em prumo. Sentia-se como um daqueles caderninhos de segredos que só são destrancados nas penumbras, que se fazem em confissão e selam preces para que ninguém as revele até que percam o sentido.
Era na noite que sentia que tinha veias, membros, que tudo pulsava. A poesia lhe jorrava como se houvesse um corte no pulso que não estacava, mas que também não lhe mataria de nenhuma verborragia. Ao contrário, lhe daria muito mais vida.
Cabia à noite organizar aquele desfile de ideias e imagens, que ao mesmo tempo em que deixava a moça inquieta, trazia paz, uma paz de espírito que poucos entendiam, porque ainda acreditavam no sono.
Para ela, o sono não era salvação, talvez adiamento, e isso não a agradava. Gostava de soluções, de tudo esclarecido na primeira hora, de quitações à vista de todos e sem prazos, sem postergações.
Distanciava-se um pouco do presente à noite. Era uma espécie de pausa entre o ser e o estar que ela gostava de experimentar e, às vezes na janela, contava as brasas das pontas dos cigarros que teimavam em cair de outras janelas ou olhava para as estrelas tentando entender as constelações.
Tinha a necessidade de perder-se nessa fenda de tempo-e-espaço (andurriais), onde encontrava sua inspiração, seu presente, escrevia seus enigmas e perdia suas preces no cansaço de tantas pessoas.
Sentia-se livre na noite. Sentia-se parte dela, intrínseca. Sentia-se parte daquele infinito de escuridões e iluminações paradoxais que sua alma experimentava enquanto velava o sono da maior parte da cidade. Sentia-se dona daquele tempo quase estanque que a cercava nas madrugadas.
Deslocava os ponteiros do relógio com a ponta dos próprios dedos, entre as Moiras e Clio, escrevendo histórias, traçando destinos, olhando o passado, respirando o presente, vendo o sol quase a conta-gotas, levantar-se de algum lugar onde já se escondera também um arco-íris, pouco importando se se tratava de um mar ou uma montanha.

Desfazia-se em paixão nas noites. E as estrelas lhe davam a leveza necessária para que pudesse se desprender das utopias ao raiar do novo dia e um chá lhe renovava as forças para o despertar do mundo, porque o dela acontecia toda vez que a noite caia.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Quimeras




Poderia acreditar em tudo e em qualquer coisa.
Poderia acreditar que estava escrito. Reduzir todo um mundo de possibilidades em  um único verbo como os árabes. Algo com requintes cruéis de uma imutabilidade que sugeria uma aceitação, quase um fatalismo, mas que com boa dose de romantismo e poesia, soaria bonito.
Poderia acreditar em seus sonhos com desconhecidos como se fossem presságios. Poderia esperar encontrá-los a cada esquina e que os convites para dois dedos de prosa fossem se realizar e que dali sairiam amizades duradouras.
Poderia acreditar em trajetórias de vidas passadas. Almas que estão predestinadas a viverem juntas para sempre. Que se encontrariam de qualquer maneira, que se completavam.
Poderia acreditar nos anúncios de jornal que garantiam a satisfação, nas promessas de empréstimos a juros baixos, no Coelhinho da Páscoa e no Papai Noel.
Poderia. Mas não acreditava. Olhando a foto que ainda teimava em guardar na gaveta, lembrou-se de como tinha sido até chegar naquele momento congelado. Gostava de fotografias – reveladas – porque tinha exatamente essa sensação de perpetuação. O tempo ali, parado, capturado, pronto para ser revisto – quase revivido – a hora que ela quisesse.
Ainda ouvia os sons daquele dia quando fechava os olhos. Os sorrisos soltos pareciam dançar. As mãos pareciam ter a certeza do trajeto que fariam. Fosse um quadro, teria a certeza de que fora pintado de propósito, com todos os detalhes calculados. Mas era uma fotografia. E ela quase ousava dizer que seria um esboço de perfeição.
Talvez fossem aqueles três segundos quase mágicos que todos vivem um dia e poucos sabem. Ela só sabia agora, muito tempo depois e o contemplava quase devota.
Sacudiu a cabeça, afastou para longe o som dos pássaros e das vozes que estavam ao redor naquele momento quase mágico. Espantou aquela música que escolheu como trilha sonora e voltou-se para a gaveta.
Havia na gaveta uma bagunça típica de gavetas onde se guarda de tudo. Ali não era um lugar exclusivo para suas fotos ou lembranças, mas um amontoado de tudo. Era quase o seu próprio refúgio. Suas relíquias a compunham e a davam um ar quase medieval quando olhava tudo aquilo com certa devoção (tão ardente quanto quando olhava para a foto).
Em pedaços de papel, poemas. Amores, um adeus, cacos, desenhos, beijos, cheiros, abraços, incensos, origamis, lágrimas. Tudo embrulhado em lembranças. Tocava cada objeto e sorvia deles saudades que eram semeadas em seu peito e floresciam pelos olhos, que, generosos, vertiam cristais-flor.
A gaveta era um mundo. Era ela no mundo, eram seus planos. Suas quimeras desfeitas, atropeladas pelo tempo. Eram os motivos pelos quais ela poderia ter ficado ou partido, eram suas dúvidas, suas dívidas consigo mesma. A gaveta era uma prisão em que ela sentia prazer de ficar.
Ainda relembrava exatamente o som das palavras escritas sugerindo passados ancestrais. Ainda sentia o perfume em sua cabeceira, de Orientes que desejava tocar e outros que desejava traçar.
Dentro da gaveta guardava suas dores que a faziam contorcer-se depois da fuga de uma decisão difícil. Guardava preces não feitas, interrompidas pelo sono ou abandonadas por julgar que não merecia mais o que pedia.
Dourava pílulas que agora engolia. Guardava suas desistências, seus desânimos, alguns fricotes, alguns dias menos coloridos e os multicoloridos. Guardava a música favorita, o primeiro poema, o anel perdido, o recorte de revista.

A gaveta era um tesouro, era ela. Era onde se encontrava e se perdia para se reencontrar e revi(vi)a a vi(d)a que escolhera, como se fosse plateia de si mesma, escritora de seu roteiro, criatura-criadora, ser viv-ente, que como todos os outros que conhecia, precisava aprender a (res)guardar-se de vez em quando. Por isso escolhera a gaveta como seu mundo paralelo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Eternidades



Fim de tarde. Início de noite. Esses limiares nunca foram muito bem entendidos ou definidos por ela. Também nunca foram respeitados, como as horas. Ah, e quantas horas ela já não tinha perdido! Não conseguia fazer as pazes com o relógio.
Nos últimos dias já não conseguia fazer as pazes com o tempo, que gritava meio rouco em seu ouvido, dizendo que passa acelerado e sem pedir permissão. Esse tempo que mastiga planos, que não espera um novo amanhecer, que é implacável e quase cruel.
Ela não aceitava o tempo-medida, sem medida certa para as pessoas. E talvez até para ela mesma. Era uma não-aceitação fundamentada especialmente no que não entendia: o tempo, às vezes, era generoso às avessas. Deixava-se levar por quem parecia não o merecer e se extinguia daquelas pessoas que deveriam merecer a eternidade.
Tão difícil pensar que se poderia julgar quem merece ou não mais tempo. Mas ela, agora, pensava que tinha essa função. Mentalmente fez uma lista de quem poderia ter as horas extintas e quem deveria, por sorte, ter algum acréscimo de vida. Politicamente correta, pensou em eliminar do mapa as pessoas más, que promoviam guerras, fomes e toda sorte de mazelas. Muito tendenciosa, doaria tempo àqueles a quem amava e a rodeava.
Tola demais! Gastou seu tempo e sua energia em empreitada já fadada ao fracasso. Mas era uma tentativa de acalmar seu coração agalopado pela consciência do fim de tudo e todos.
Sentia muito. Vivia à flor da pele. Apesar de não ser uma mulher alta, em sua mediana estatura cabia um coração largo, amplo, com bastante espaço para o amor. E cultivava esse amor como o jardineiro cuida de uma flor rara, com atenção, dedicação, sinceridade.
Muitas vezes ela se permitia a pensar em como era sentir tanto. Chegava a pensar que sentia mais que os outros. Mas se convencia que amor não se mede. E para aliviar, só sorria.
Em finais de tarde ou início de noite como aquele em que se experimentava as quatro estações do ano em um único dia, ela se permitia sentir um pouco mais e mais, permitia-se mostrar tudo o que lhe agitava o peito e, se não falava, escrevia, se não escrevia, chorava.
Depois que o céu desabotoou as suas nuvens e a chuva renovou tantas esperanças enquanto escorria pelas escadas e calçadas das ruas que ela passava, tomou um bocado da água nas mãos. Fez poça d’água, lago transparente afogando a sua linha da vida. Tinha na palma das mãos um novo aprendizado: seremos afogados pelas águas do tempo. Teremos nossas linhas da vida, do amor, do sucesso, paralelas, retas ou curvas, todas afogadas, aos poucos apagadas, esquecidas.
Naquele dia, ela experimentava, em si mesma, as medidas dos amores que carregava. Experimentava o que era escolher quem levar pelos seus dias afora e teve a certeza de que a-m-a-v-a.
Ela amava. Isso era o que sabia e o que as palavras não diziam. Poderia se esforçar procurando em todo o dicionário e não encontraria em todo o léxico algo que a expressasse.
Ela chorou. Feito criança perdida. Feito um desconsolo. Até soluçar, não se importando com onde estava, com quem a olhava, com nada mais além do que sentia. E o céu desabou mais uma vez, em chuva fria, cristais transparentes anunciados pelas vozes dos trovões, talvez em solidariedade, talvez para misturar-se às lágrimas dela e mostrar que, mesmo que parecesse, não estava sozinha.
Poderia ter sido, talvez, só uma coincidência ou um capricho de Deus, mas por um segundo pensou que o céu chorava com ela, arrependendo-se de ser a morada de pessoas que mereciam mais tempo ou alegrando-se por receber preces que seriam atendidas. Ela já não sabia muito bem o que pensar do céu. E nem queria pensar nisso. Agora, só chorava.
Aquelas lágrimas já tinham sido contidas, mas fizeram-se queda livre da nascente castanha que observava tudo e pouco falava, sofrendo da falta de palavras que sequer lhe era habitual. Ela chorou e lavou a alma e descobriu que o amor é saber-se finitamente infinito, voltou a crer no impossível, renovou a fé e sorriu.

Descobriu que o tempo sempre é suficiente. Os olhos é que não o sabem sentir. As mãos é que não o sabem transformar. As pessoas é que não o sabem compreender e aproveitar. É que essas coisas de eternidade não se medem no relógio ou no calendário, só se sentem.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Protocolos







Chega de meras formalidades sociais. Basta de tantos protocolos. A mim, interessam as espontaneidades. Ou oferece-me o que se tem de melhor, os sorrisos e as conversas sem rumo, ou não interrompa meus silêncios.
Quanto aos seus silêncios, colecione-os como quiser ou como puder: cada um que se aguente, que tolere as próprias manias, mas não queira estender a mim as práticas típicas de repartições monótonas. Não tenho vocação para nada do que é repetitivo.
Se as palavras que foram pensadas e levadas à ponta da língua não se adaptam aos olhos nos olhos, e são engolidas à seco, que nem se atrevam ao toque da ponta dos dedos. Meus ouvidos não interpretam o som sem ritmo das teclas que pautam as conversas de hoje. E meus olhos não distinguem muito bem as nuances que poderiam ser ouvidas.
Tenho problemas de adequação a essa preguiça que assola seus dias e impede cafés e cheiros. Ainda prefiro as correrias de abraços furtivos e beijos roubados, displicentes, mas presentes. Perpétuos lampejos na memória de quem sabe o que quer ou descobriu-se no meio do caminho.
Defendo-me dessa carranca que não vejo, mas pressinto, que acompanha aquele típico “a gente se vê” que nunca se permite acontecer. Uso um patuá infalível para esses maus agouros em forma de pressa: chama-se compromisso. Ouso marcar e cumprir, espantando toda a sorte de azar-o-de-quem-não-veio. Tenho palavra.
Gosto da palavra como se ela fosse parte minha. Extensão minha. Documento meu. Mais sagrados que o Livro. Honraria de maior grau que não distribuo gratuitamente por reconhecer o seu valor, que resgato quando a lanço refém de meus desejos e promessas.
Afasto-me de ataques de cinismos e ironias pobres, fantasiadas como pierrô entristecido. Sou, ao contrário, a Colombina brincalhona que se diverte com outras figuras – de linguagens – e escorrega nas entrelinhas tão claras quanto suas assertivas.
Cansa-me toda essa embromação contemporânea dos desinteresses nossos de cada dia. Prefiro, a despeito desse enrolo, desfiar minhas horas com a poesia. Ganho mais, cultivo harmonia.
A quem não sabe dizer um não ou cala sem certeza, lamento os momentos de recaídas. Não bastarão. Não soarão diferentes do que são: meros protocolos das vontades não sabidas, escondidas, contidas, mal resolvidas ou inventadas. Nenhuma intervenção as salvará. Nenhum meio de campo mudará aquela primeira impressão mecânica que se fez.
Teço paciência com fios de silêncio só até quando me convém. E, convenhamos, o tic-tac do relógio cobra a sua conta muito mais rápido do que parece e logo o tal silêncio vira tédio e a paciência se esvai.

Felizmente tenho rompantes de euforia que espantam toda a monotonia e me relembram que não gosto dos protocolos. E os devolvo a você, no mesmo endereço, para não errar o destinatário. Que se procure outra repartição. Aqui comigo nada é repartido. Tudo é por inteiro.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Cavalgando Leões





Experimento, mais do que nunca, o paradoxo da vida. Essa alegria dolorosa, esse esvair de tempo que parece infinito sob nossos pés, esse caminhar na beira de um abismo que não admite paradas nem desistências. É um lobo que nos desafia por fora e por dentro. Que olha nos olhos, que pisa em brasas, que descansa admirando a lua. É um leão feroz que ruge em nós e para nós, impulsionando. Talvez viver seja só isso: saber-se lobo ou leão. Domar-se e deixar-se livre, sem medidas exatas. Só seguindo as trilhas.
Busco equilíbrios para que eu não caia daqui do alto desse abismo. Há a possibilidade do voo, eu sei, mas ainda não são claros os limites de minhas asas. Ainda desconheço o tamanho da minha coragem frente à queda livre da vida. O que sobra é a consciência de que mais um dia, menos um dia, o caminho se estreitará e terei de me lançar.
Viver talvez seja cavalgar nesse leão selvagem. Seja desenvolver a arte de domá-lo. E esse leão me habita e eu habito nele, somos um. É como a primeira noite de um viajante sob um céu desconhecido e almejado. É como uma insônia ansiosa e alegre, que cede lugar à aflição quase sufocante das expectativas que crio. E das dores que degusto ao recolher meus cacos pelo chão.
O paradoxo é tamanho que já busco consolo frente ao natural. Ao rumo certo que todos tomaremos um dia, mas que causa absurdos em minha alma e revira todos os conceitos semiperfeitos que construí ou me apropriei ao longo da jornada.
Se a via é de mão múltipla, o destino é um só. A linha de chegada está no mesmo lugar para mim, para você, para todos. E sobre isso há a pseudo ignorância que me dá calmaria e possibilita respirações tranquilas.
O problema está na evidência. Evidenciada a brevidade do tempo, a efemeridade, bebo goles amargos de realidade, de consciência, doses cavalares de pontos finais inevitáveis que me tiram o sono, me arremessam em vales de lágrimas mais salgadas do que pensei.
Volto a cavalgar meu leão indomado e transformo-me nele: sem rumo. Sem o menor senso de direção, por mais que saiba que só posso ir para frente. Do fundo de meus quereres impossíveis não desisto. Há a fé. Há, sobretudo, a simpatia pelos milagres: os pequenos que observo e guardo na lembrança e os imensos, dignos de odes, que espero.
Volto a transformar o vale de lágrimas em vale de cristais. É uma tentativa de colorir o entorno. É uma tentativa de desenhar arco-íris com giz nas paredes recém pintadas de cinza. Funciona. Distrai. Acalma.
Domo o meu leão. Domo-me a mim. E lembro, mais uma vez, que estou à beira de um abismo, que a caminhada é inevitável e necessária. Que tenho asas e as saberei usar. Que tenho dores e saberei curá-las. Que tenho paisagens que inspiram e as cantarei em poemas. Que construirei meus castelos de areias ou de nuvens, mas não me pouparei os esforços de ser e fazer.
Talvez a vida seja só isso. Exercício diário de tentativas de se entender os paradoxos e mirar como se houvesse um alvo cuja recompensa por acertá-lo valha toda essa pena, todo esse esforço. Tento.


Sobre as Saudades Minhas de Cada Dia





Se minha cama é, de fato, um lugar onde as saudades habitam, se é em meu travesseiro que elas me aguardam todas as noites, recostarei apenas para um cochilo hoje. E todos os dias em que eu sentir esse misto de medo, de pequenez, de não-saber, de não-querer-lembrar.
A noite foi feita para pensar. Ou para sentir saudades. O problema é quando essas saudades teimosas crescem tanto que não cabem no curto período de tempo em que me deito e adormeço. Ou ainda, quando elas não me deixam dormir, ou invadem os sonhos, e resolvem fazer barulho no meio do meu dia.
Tem saudade que é grande, muito grande e dolorida. Eu não queria ter esse tipo de saudade. Queria ter só as saudades boas, as que não doem, mas me fazem lembrar da barriga que doeu de tanto rir. Mas eu não controlo as saudades.
Eu não queria que as saudades reinassem nas minhas madrugadas. Muito menos que elas carregassem essa pontinha de medo que tenho sempre que olho para a cama e enxergo meu travesseiro como um berço de saudades.
Mas ela vem. Rainha soberana do meu espaço entre o sono e o adormecer e invade o quarto. Minha saudade chega a ser cruel: tem gosto, cheiro, textura e a vejo bem melhor de olhos fechados, mas se abro meus olhos e toco a penumbra com meus castanhos, ela ali está, deixando-se perceber.
Não há como ela deixar de ser tão luminosa. Não há como eu convertê-la em outra coisa se não em si mesma: a saudade... Esse vão entre o que foi e o que faz falta. Esse oco entre o que eu gostaria e não foi... Esse trem desgovernado que se antecipa nas linhas férreas do meu peito.
Agora sinto saudades antecipadas dos dias que estão por vir e passarão por mim sem que eu lhes dê total atenção. Daqui a pouco virarão saudades. É nesse momento que me darei conta de tê-los vivido? Ou é nesse momento que me darei conta de que poderia ser melhor? Vivo? Existo? Amo e declaro ou só invento cores?
Essas saudades minhas de cada dia e noite mostram-me o quanto ainda questiono. O quanto não sei lidar com as descobertas, com os sentimentos, com a lógica da criação. É uma revelação do meu despreparo para o fim dos dias. É a certeza de que eu gostaria de viver muitos prolongamentos e os vivos: são as minhas saudades!
Talvez as saudades que me levante tantas questões sejam as minhas respostas: se há a saudade, houve o momento. Ou a vontade. Ou o despertar. E, por vezes, tudo o que eu preciso pelas manhãs é isso: despertar, que é muito mais do que só levantar da cama e trocar o pijama. O que preciso é abrir os sentidos e receber todas as sensações!
Que me venham as saudades! Que me vá embora o medo dessa tolices cotidianas e que haja o despertar efetivo, aquele que vai me trazer novas e boas saudades que repousarão tranquilas em meu travesseiro todas as noites!


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Nudez




Entre as quatro paredes que se faziam cegas ante a todos os tipos de casais que se despiram ali, a nudez jamais havia sido completa.
Desabotoadas as roupas, largadas ao chão, misturando-se em uma quase confusão de ansiedades, vontades e pressa, os corpos eram só isso. Vitrines opacas de algo bem maior, mas não completamente visível, talvez sequer insinuado.
Os corpos se exibiam como texto em braile, prontos a serem tateados, superfícies sensoriais não menos enigmáticos que os códigos antigos. Não menos incompreendidos que os esconjuros de séculos passados.
Naquela hora e pelas poucas que se seguiram, eles se bastavam. Mas sabiam-se poucos. Sabiam-se muito mais líricos e íntimos do que aquela aparente nudez carnal que logo seria um balé de saciedades quase tão breves quanto a nota solitária de um violão ou um primeiro gole de vinho encorpado. Um respiro. Um suspiro.
A completude da nudez nem sempre necessita da ausência dos tecidos, emaranhados de fios e estampas, mas tão somente do retalhamento (da carne) e da exposição (não livres de dores e medos) dos remendos que guardamos no peito. A nudez de fato é a exibição do coração, da alma, do que se sente. É preciso deixar nossa composição à vista, sem prazos. Quase uma partitura aberta, pronta a ser tocada com a suavidade e a urgência que cabe a cada nota.
Talvez seja por isso que aquelas paredes se faziam cegas: estavam cansadas das superficialidades, das banalidades, dos lugares comuns que presenciavam. Ainda não tinham experimentado a verdadeira nudez de nenhum de seus ângulos. Nenhuma entrega real, sincera. As paredes estavam exaustas da mesmice, da sensação de deja vu que ecoava pelo quarto a cada novo casal.
Imóveis, as paredes só podiam esperar por um pouco mais de sinceridades reais, de aberturas, de essências, de pessoas que estivessem dispostas a se permitirem de verdade.

Enquanto isso, o tempo passava, os corpos passavam e só permanecia a sensação de que algo sempre se perdia entre as várias oportunidades da experimentação da nudez que ficam pelo chão.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Como Soy - Lucia Tacchetti - Letra


Garimpando na internet por músicas em espanhol que pudessem me ajudar a estudar o idioma, encontrei essa preciosidade que é Lucia Tacchetti. A canção Como Soy é belíssima e, como não encontrei a letra disponível, transcrevi.
Seguem, então, o vídeo e a letra!
Surpreendam-se!


Como Soy
(Lucia Tacchetti)





Actúo raro me mido lo pienso analizo qué sentirás
Pues no puedo ser natural 

Me da miedo saber qué dirás
Está mal no es correcto no sirve de ejemplo quererte agradar
Pues al fin me conocerás y todo caerá
Me voy relajando y te voy dejando conocerme más
Sigo sin saber qué pensás pero ya me da igual
Me enrosco en palabras

Me ahogo en el agua
Así es como soy hablo cosas sin solución
y te quiero decir quién soy
Testaruda hasta el fin

Sensible como un jazmín
Me siento segura pero en el fondo soy un poco muda
No sé discutir sólo digo que sí
Me gusta el helado y en verano no uso calzado
Me tropiezo en todos lados

Lo femenino lo dejé de lado
No sé de formalidad

Sólo se sonreír y sentir
Me voy relajando y te voy dejando conocerme más
Sigo sin saber qué pensás pero ya me da igual
Me enrosco en palabras me ahogo en el agua
Aasí es como soy hablo cosas sin solución
Y te quiero decir quién soy
Testaruda hasta el fin sensible como un jazmín
Me siento segura pero en el fondo soy un poco muda
No sé discutir sólo digo que sí
Me gusta el helado y en verano no uso calzado
Me tropiezo en todos lados lo femenino lo dejé de lado
No sé de formalidad sólo se sonreír y sentir

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ar-Dor



Seguem as horas.
Seguem os grãos de poeira a dançar no ar.
Tudo é novo. Nada me encanta. Tampouco tenho vontade de explorar: seja esse quarto de hotel, seja a cidade lá embaixo, ainda quieta, ainda fria.
Dentro de mim, ainda está tudo meio morno. Ainda alimento dúvidas. Agora penso em acender um cigarro, pegar uma bebida ou dar um cochilo enquanto a cidade não começa seus gritos ensurdecedores e insistentes que não me deixarão descansar.
Deito. Não durmo. Rolo. Não caio. Nessa cama que acolhe meu corpo, despejo meu mundo e pouco caibo nele ou ele em mim. Somos uma simbiose, mas não há pleno acordo entre nós.
Começo a arder.
Há no ar uma dor.
Há um ardor.
Respiro esse bafo quente e úmido, coisa de litoral.
Da janela avisto uma praia que desconheço, como todo o resto da paisagem lá fora.
O dia está cinza e caberia em um cinzeiro. É um dia daqueles que amanhece pálido e com uma aparência adoentada. Faltam-lhe alegrias. Falta-me algo. Somos dois incompletos: o dia e eu.
Parece-me que essa paisagem e esse dia desconhecem a finitude. Pousam na linha da eternidade. Estou ardendo. Estou em estado de quase febre: ardo essa eternidade. Sinto o peso de ter vivido séculos, como se tivesse protagonizado cada uma das histórias que li, cada uma das histórias que escrevi.
Não caibo mais na cama e muito menos em mim. Não refresco meu estado febril nem as ideias ou a cabeça. Sou brasa. O mundo, meu braseiro. Sigo ardendo e quase tudo não me basta. Toco as cinzas do dia com a ponta dos dedos e renasço: sou uma espécie de fênix, que só sabe o que é a vida quando arde.

Tateio o desejo de frescor e incendeio: desconhece o morno quem nasceu pra ser fogueira.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Questionamentos



Sobre os homens, o mundo, as bombas
E balas perdidas que acham pessoas.
Sobre não saber onde foram parar os limites,
Onde está o bom-senso e a noção.
Sobre para onde foi a civilidade, a gentileza, o cuidado.
Sobre ser ou não ser, matar (de rir?!) ou morrer.
Sobre essas coisas que chamam fronteiras, essas barreiras...
Tantas línguas que não se entendem e fogem dos beijos
Sobre os dedos que não se acariciam,
As mãos que não se dão.
Sobre as preces não atendidas, lamentações, orações.
Sobre as dúvidas acerca de Deus e seus tantos nomes.
Sobre esses questionamentos que me assombram,
A falta de sono, a madrugada que vai alta, a lua que se encolhe.
Sobre a falta de tempo, a escassez de sentimento.
Sobre tudo isso, meu Deus, sobra tanta falta de resposta!

E o mundo se configura em roda viva, cujo sangue jorra.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ao que se gerou



Nove luas se passaram
Nove mundos inventei
E em cada um deles o amei.
Destaquei seu nome sobre todo nome.
Escolhi a dedo cada letra,
Cada som que ecoaria em meus ouvidos
A canção mais linda.
Com um pincel delicado desenhei seus traços
Do verde profundo dos mares
Busquei seus olhos,
Mais valiosos que esmeraldas.
Para suas palavras, imaginei poesias,
Rimas ricas, livros raros,
Tesouros que guardei com cuidado.
Fiz de seus dedos meus versos,
De seus passos a inspiração,
Nenhuma delas capazes de representar
O meu amor em profusão,
O sublime e intocável sentimento
Que o fez brotar, primeiro em meus sonhos,
Depois em meu ventre.
Acolho-o, filho meu, com braços-ninho,
Aconchego, acalanto, pousio.
Guardo-o, filho meu, como joia,
Precioso presente, lampejos de futuro.
Gerei-o, filho meu, eternidade minha,
Príncipe de meus castelos,
E carrego o fardo de ter meu coração
Fora do peito,
Correndo serelepe pelo mundo.
Alegrando meus dias,

Chamando meu nome.

Melancolias II



Invade-me, às vezes,
Um mar de melancolias.
Com ondas de espumas tão brancas
Que mais parecem salpicadas florezinhas.
O mar inunda-me,
Enche-me
E quase sufoca.
Sinto nessa hora
Vontades de chorar
Um choro liso, limpo, sincero.
Um choro incontido,
De sal grosso, cristalino,
Que me faz soluçar.
Que me liberta.
Que salva da agonia momentânea.
Que arde os olhos,
Queimando, como fogo, tudo o que vejo.
Ah, mar de melancolias
Bem sei que sou eu quem verte o seu sal.
Bem sei que é seu o meu consolo.
Bem sei que você sou eu
E que, como as suas ondas,
Tudo passará.
Inclusive eu.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Primavera Antecipada





Para todo inverno que me cerca
Seus abraços, lembranças calorosas.
Para a boca de café,
Seus beijos, sabores nostálgicos.
Para o vento que me invade a janela,
Meu vestido que balançava ao seu passo.
Para a ausência de cor,
Seu perfume dentro de um livro:
Primavera antecipada,
Que traz  consigo meus desejos
Sonhos de uma noite de verão.
Acordo.
Ainda é inverno.

Aqueça-me!