Visitas da Dy

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Às Cegas



É como descobrir-se sem que se conheça. É domingo de sol sem nada para fazer. Ou com tantos afazeres que vira segunda-feira. É sentir-se às avessas e nada poder fazer.
É uma sensação de cansaço que beira a desilusão, que beira solidão, que beira o desconhecido e que entontece qualquer um. Que se entranha nos pensamentos e esvazia as ideias, que tira o ar, que deixa o último fôlego se esvair, assistindo a tudo com frieza de concreto.
É como um feriado em dia de domingo com aquela sensação de que não valeu. Parece pênalti roubado, folga desperdiçada, chuva que cai depois que se lava todas as janelas mais altas. É um desânimo interminável que precisa ser vencido.
É um abismo com fundo. Mas com tantos riscos quanto o passo em falso pode assegurar quando o sem fundo é a garantia. É a certeza do baque forte que quebra tudo, desmonta sonhos, desloca pensamentos.
É uma incerteza de se existir ou viver. É a incerteza de se entender a diferença entre uma coisa e outra. Ah, quantos existem e não vivem... e quantos vivem tanto que chegam a incomodar quem só existe!
É a dúvida de não saber-se ser ou estarrecer. É sentir-se no meio do mundo em queda e não se reconhecer. É não ter para onde correr, mas ainda assim seguir e buscar forças para não desistir.
Acordar todos os dias é um exercício diário de pequenas conquistas, pequenas vitórias: sobre o despertador, sobre a vontade de ficar na cama, sobre o horário que passa voando, sobre cada decepção, sobre os maus agouros, sobre toda a gente que está ali só para servir de obstáculo.
Acordar todas as manhãs é um exercício de fortalecer-se sem esquecer das delícias que se alcança quando cada um desses desafios é ultrapassado.
Em tempos de cansaços, de muitos motivos para desistir, ainda consigo enxergar que o mundo contém todos os desdobramentos possíveis, para o bem ou para o mal, e que mudar os rumos ou manter-me de posse da mesma cópia feita de um original desigual depende mesmo é de minhas vontades.
Em tempos em que me sinto abstrata, presa em concretos e conceitos que parecem limitar, busco as beiras, as fronteiras, os liames e teimo em passar por cima ou por baixo das cercas que insistem em reduzir meus pensamentos.
Já não é de hoje que tentam me calar, mas ainda há o grito que posso dar, ainda há a angústia em que posso (quase) afogar-me e experimentar umas poucas gostas de amargo, só pelo prazer do diferente, sem deixar me abater completamente, sem desistir de ver ao chão cada caco desses espelhos distorcidos.

Não é de hoje que há uma busca por um não sei o quê e talvez esse seja o motivo do falso cansaço: o não saber. Uma busca às cegas tem seus prejuízos, mas uma certeza de se achar soa como um realejo ao longe, que muito mais do que a sorte, aguarda a mão que lhe dará corda e libertará seu som, leve como as notas de uma harpa suave. E os pés poderão dançar sua música. E aceitar a sua sorte. Acreditando ou não nela.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Fado Doido




Enquanto contava as horas que se estendiam e arrastavam em descompasso com o escuro da noite que se dissolvia em madruga, guardava beijos nas conchas das mãos, esperando quem os recolhesse.
Construindo castelos de poeira nas bordas das páginas dos livros lidos e daqueles que foram comprados e esquecidos, parte da velha mania de colecionar retângulos coloridos na estante pesada do canto da sala.
Mesmo nas madrugadas longas, enchia as mãos de sol. Esfarelava o brilho em pequenas fagulhas que soprava pela janela, estrelando os céus solitários que entravam por outras janelas insones.
Desencontrava-se de si mesma em pensamentos soltos e os escrevia em blocos de papel que se perderiam na próxima estação, que nunca ganhariam espaço, nunca seriam conhecedores da primavera.
Era um rio de sentimentos aprisionado em montanhas tão latas quanto seus sonhos, mas não sabia o caminho dos mares e morria um pouco mais dentro de si a cada dia. E calava as palavras. E as engolia. E quase se afogava em seu vale de lágrimas e contas perdidas.
Tocava o céu com seu peito aberto, arrepiado pelo vento, olhos atentos a todos os movimentos que só se podiam sentir. Via tão além e se distraia que o perto não lhe era conhecido: fado doido de quem se encanta por tudo o que vê e com pouco se contenta.
Se voasse seria uma gaivota, que troca os céus por mergulhos, que desafia os limites e se diverte em rasantes.
Se fosse peixe seria o de um aquário, que passa os dias esperando o nada, sem saber de nada, só sonhando com as correntezas que experimentou há muitas luas.
Inquieta, poderia ser faísca solta de fogueira, que se lança atrevida, mas cansada, apaga e se recolhe em cinzas.
Fosse palavra, seria tantas que não caberia em uma única língua e léxico nenhum conteria toda a sua essência e nenhuma gramática a arranjaria, nenhum tradutor a dominaria.
Sendo aquela que mata um leão por dia, não se daria por satisfeita e amansaria também as onças e se ajuntaria  a elas, aprendendo a arte de ser livre e feroz e sagaz e paciente quando necessário.
Se fosse silêncio seria aquele que paira sobre os cetins e tapetes antigos, das terras tão misteriosas quanto longínquas, seria véus espalhados pelo ventre á espera de mão que os soltasse.

Se fosse tudo isso, ainda assim se perderia e nenhum sentido bastaria, porque a busca e os desejos eram tudo o que a movia e entregar-se não fazia parte dos planos. Mesmo quando quase enlouquecia.

domingo, 5 de outubro de 2014

Para Sempre é Pouco




Aos quinze é tudo tangível. É tudo simples demais e complexo demais.
Aos quinze, o mundo é um paradoxo. E toda gota é a d’água e transborda até em copo vazio. E toda madrugada é longa demais para as lágrimas e pequena demais para os poucos minutos de sono antes do raiar do dia.
Todo dia é de folia, toda flor tem cheiro de alegria e toda chuva parece que nunca tem fim. E os domingos são chatos. E nas segundas de prova a preguiça comanda e o branco não sai da cabeça.
Aos quinze, a gente jura amizade eterna e diz que nunca vai se separar. Diz que amiga é irmã e descobre que algumas são, outras nunca foram.
Aos quinze, ainda teimamos em acreditar no príncipe encantado, mas já pensamos que ele tem mesmo é a cara do menino que esbarramos no outro dia, sem cavalo, sem capa, mas com um sorriso de tremer as pernas.
Aos quinze descobrimos nossos limites e juramos solenemente que vamos morrer ao final do filme “se tudo der errado” e não morremos. Juramos que a vida vai ser só de curtição para sempre.
Fazemos promessas de morar sozinhas ou com a melhor amiga. De ter as roupas mais maneiras. De ir em todas as festas e quer logo chegar aos 18.
Aos quinze, tudo o que queremos é que a vida passe, que os sonhos se realizem, que a noite seja breve e que aquele amor seja para toda vida.
Aos quinze, a gente sonha quando dorme, mas o bom mesmo é aquele sonho que se tem acordada, jogada na cama, no meio da tarde, quando contávamos as horas como se elas nunca fossem fazer falta.

Aos quinze, o tempo não para, mas também não passa. E a longa duração de tudo é sempre pouca e toda a nossa certeza é que o pra sempre, para nós, é pouco. E é, porque aos quinze, temos todo o tempo do mundo. Por mais que mudem alguns personagens.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Entardecer



Eu também já quis pular. Já sentei nessa beirada de abismo e olhei lá para o fundo que não se vê. Quis ter asas. Quis ver até onde ia a minha coragem. E até onde era esse fundo. Se é que um dia ele se acaba.
Já sentei na praia para ver o dia morrer. Já sentei na praia para ver o dia nascer. Já imaginei as dores da noite parindo a aurora e suas cores teimosas, rasgando o que sobrou da madrugada.
Eu já quis perder os sentidos e a memória. Quis acreditar que as dores da alma não eram de fato sentidas. Quis fugir. Quis afogar-me na imensidão do nada, esquecendo-me e fazendo-me esquecer da face da Terra, apagada de qualquer história.
Eu já quis morrer de amor. Já quis morrer de raiva. Morrer de medo ou de rir. E buscava justificativas plausíveis para todas as minhas vontades e, nem sempre, encontrava.
Já acreditei que todos os loucos tocam a santidade. Que os sonhos de voar eram só meus. Que as explicações existam. Que o caos não tinha fim.
A cada dia e a cada nova vontade, descobri as faces da sede. Desses caminhos áridos, difíceis de serem caminhados. Secos. Solitários. Asfixiantes. Distantes das nascentes.
Eu também já pensei em jogar a toalha. Já vi as forças acabarem. Vi o fim do dia, do mês, do ano. A troca das estações. E respirei fundo. E tomei um impulso. E recuei. E não era medo. Ao contrário. Era coragem. Muito mais do era preciso para pular, era a de ficar.
Ser forte quando se desconhece o próximo passo é difícil, mas vale a pena. Então, olha o abismo. Contempla a sua vastidão. Encanta-se com o perigo, mas recue. Não pule. Suas asas não foram feitas para isso, mas para voar alto.

Não se projete rumo ao fundo. Se saltar, que seja para alçar o voo e ver de perto o entardecer, onde o dia se redescobre e se recolore, onde a brisa encerra a sede e onde o cais é um porto seguro, sem tantos lamentos, sem sufocar-se com os ais.

Fome



Sentia fome. Uma fome de vida. Ou seria de viver?... Queria todas as experiências que não caberiam em suas mãos e nem em nenhuma mala e tampouco seriam alcançadas ali da janela do oitavo andar.
Era faminta pelas pessoas. Queria devorar cada uma delas. Conhecer cada vírgula de todas as histórias. E entender onde doíam as feridas. Desejava, sobretudo, curar todas as dores.
Tinha fome do que era, do que pensava. Queria ir sempre além, enxergar atrás da curva da luz, além de onde o vento pousava. E inquietava-se por não conseguir.
Sentia no peito a fome que só os silêncios prolongados podem proporcionar. E desejava engolir todas as notas, de toda dó ao sol mais fascinante, para que pudesse, em dias mudos, abrir a boca e fazer ressoar pela casa sustenidos e bemóis que a saciariam.
Era dona de uma fome pelo futuro que saciava olhando para o passado, redescobrindo coisas, esmiuçando os nãos ditos para entender todos os ditos. Virava páginas para escrever novos parágrafos, como se debruçada na borda de uma fonte dos desejos, em que seu reflexo traria respostas.
Tinha fome de fogo, de aquecer tudo o que era frio. De estreitar os laços, dar as mãos, sentir o toque e o calor das peles e das fogueiras que ardem dentro de cada um.
Sentia fome de azul, como se pudesse, um dia, degustar todo o azul do céu, como ele fosse capaz de aplacar as melancolias e os apertos cinzentos das almas cativas em peitos-de-gaiola construídos sem intenções de aprisionar.
Desejava comer partes dos caminhos, misturados a saladas de flores, bem coloridas, bem perfumadas, bem leves, cheios de desconhecidos. Prontos a serem desbravados.
Sentia uma fome que não cabia em si. E a compartilhava com o vento, na esperança que outros famintos como ela a ouvissem e se ajuntassem a uma só voz, clamando pelo cardápio de novos sabores, muito diferentes de todos aqueles que já se fazia conhecidos.

Sentia uma fome pelo novo. Pelos horizontes, pelos segredos nunca revelados, pelas releituras da vida, sentia uma fome de si mesma e se saciava quando se encontrava nas páginas que escrevia.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Aspirações





Quisera eu que não soubesse só os nomes de tantas cores que saltam das pontas dos lápis e colorem as flores.
Em dias como hoje encheria as minhas mãos de um azul-céu ou mar ou vento e jogaria no rosto, pra lavar a alma, para despertar o sossego que esqueceu meu endereço.
De tudo eu faria para parar de uma vez com meus esquecimentos e minhas pirraças, minhas brigas com as sombras nos finais de tarde, minhas inquietações das madrugadas, minhas agonias quase multicoloridas de tão vivas e um tanto sufocantes.
Eu mesma pararia com as tentativas de me convencer que a calmaria passou e que as tempestades extrapolam os copos d’água. Aceitaria de uma vez por toda beber as transparências de minhas teimosias para sorrir flores com cheiro de algodão-doce.
Os problemas são os dias. São todos os amanheceres pelos quais escorrego os olhos cansados de não dormir, exaustos de procurar um não-sei-o-quê intraduzível, inexplicável.
Os problemas são os meus porquês colecionados pelos anos, as interrogações enfileiradas à espera de respostas que não tenho e nem sei mais se quero ter. Talvez eu prefira mesmo só anoitecer e sentir a brisa que vem do lado de onde o vento faz uma curva tão leve que nem balança folha. Talvez eu goste mesmo é da sensação de se cantar de olhos fechados, fazendo noite em pleno meio-dia, envolvendo-me com uma nova música, desvendando uma nova melodia.
Pode ser falta de música, falta de verso, de rima, de nexo. Pode ser só um frio com pouca coberta, desses que passa logo que adormecer, logo que o corpo esquecer que existe, entregue na semimorte que é o sono.
Pode ser só o gosto do tempo que deseja parar, mas segue adiante, que custa caro. Custa vida, dor e alegrias. E cobra a conta no final, em balança dourada e fio de espada em salão nobre, feito feriado cívico. É espetáculo público a cobrança e a sentença é sabida antes por todos. É fim conhecido antes do começo. É fim.
Quisera eu entender o que eu não sei. E são tantas as coisas. E são tantas as buscas. E são tantos vazios que não se preenchem. E que sempre se renovam... quisera eu, num impulso, parar o ponteiro que gira incansável e descansar sem ter pressa. Quisera eu saber onde vou passar, já que sei bem onde é que vou chegar.

Isso de se buscar sem parar, deve ser a tal vontade de viver. A tal da vida que não te deixa em paz, porque ensinou a questionar e não a aceitar. Deve ser isso que chamam de caminho. Porque o resto, daqui onde estou, só parece paisagem. E segue.

Van Gogh





Pelas galerias do museu ela parava diante de algumas obras e chegava a se confundir com elas. Era quase uma mistura de pinturas de Van Gogh. Os Girassóis lhe douravam os cabelos com toques dos Campos de Trigos.
Nos olhos trazia brilhantes como das Noites Estreladas sobre o Róldano. Cores de uma ou outra Natureza Morta lhe coloriam os lábios e a face e em sua respiração podia-se sentir uma paz de Lírios do campo.
Era quase uma obra de arte, feita com o capricho dos deuses, ao mesmo tempo delicada e forte. De aparência tranquila, comum aos olhos de todos, mas ali dentro, um turbilhão.
Longe dos olhos que a percorriam, por dentro, ela tremia mais do que folhas ao vento. Mais do que a árvore onde o balanço da criança não para. E poucas pessoas seriam capazes de lhe conferir a devida atenção, o devido afago, o silêncio que compreendia.
Como cada um que ali passava, olhando os tantos quadros, ela se emocionava imaginando o desespero de se pintar-se mutilado. Como deveria ser arrancar de si mesmo um pedaço por amor (ou de amor)? E como seria olhar-se e saber que mesmo a parte amputada ainda parecia estar ali?
Curioso é tentar arrancar o que foi parte nossa. E ela tateava essa sensação agora. Sentia o formigamento no peito que ainda sangrava, inapaz de cicatrizar-se tão rápido. Suportar dores que sufocam, que apertam e que mesmo depois de curadas irão corroer algum lugar, ainda que seja ali, em um cantinho da unha.
E o pintor se arrancou. Se enviou em carta à amada. E se perdeu por julgar ter se encontrado nela. E se perdeu de si. E saiu de si. E quantas vezes ela saiu de si para se achar e não encontrou nada? E quantas vezes quis arrancar as próprias dores e jogá-las fora? Inúmeras vezes, mandaria todas elas ao remetente, presente-de-grego-devolvido.
Parecia uma expectadora comum, admirando as pinceladas, sã, consciente da beleza da arte, mas era, em verdade, muito mais do que isso. Era quem enxergava a pressa do pincel, marcada pela agonia de se ser, de saber-se existir e de desejar sumir.
Comportava-se como mais uma visitante da exposição, mas quase tocava o intangível momento em que se finaliza a obra e não se dá nada por ela a não ser o título de desabafo.

Observava calada, mas gritava uma compreensão que o artista, talvez, buscasse entres as cores e só agora alguém respondia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Juramento do Historiador




Algumas vezes sou tocada pela reflexão sobre o meu papel e, hoje, mais do que das outras vezes, o caminho que escolhi se abriu ante meus olhos de modo a fazer-me relembrar o juramento mais lindo que fiz na vida.
No dia em que escolhi minha profissão, tão pequena, tão criança, não sabia das maravilhas que me aguardavam, mas sabia exatamente o que queria.
Aos 12, escolhi estudar História.
Aos 19, entrei para a faculdade e comecei a lecionar.
Aos 24, solenemente, jurei dar o melhor de mim. E ainda hoje as palavras ecoam por todos os cantos de minha sala, pulsam em minhas veias como se fossem meu próprio sangue e Clio, com toda a sua inspiração, não me deixa abandonar o barco, por maiores que possam ser as tempestades.
Aos quase 30, relembro cada frase que disse e tenho a certeza de estar no caminho certo, por amor ao tempo, às pessoas, à História.

“Eu juro, nos caminhos da educação lapidar o meu destino com a sabedoria dos antigos, a força dos medievais, a razão dos modernos e a ousadia dos contemporâneos.
Sigo, mas não sem antes, deixar aos mestres meu olhar de respeito, gratidão e lealdade.
Em minha missão, um discípulo da honestidade na incessante busca do conhecimento; da memória, a preservação do patrimônio, a integridade.
Da ética farei inviolável ordenação.
Jamais permitirei que ideais de fé, valores étnicos ou sociais, partidários ou nacionais, comprometam o meu dever de levar o homem aos portais do saber.
Faço destas promessas, solene e livremente, as leis de minha própria consciência e glória, tendo o amor por testemunha, pela honra de fazer história.”


Que minha afeição por Clio e Chronos não diminua nunca!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Os Poemas que me Acompanham


Entre os poemas que me acompanham
Prefiro os que falam de amor.
Por mais que eu duvide se ele virá,
Por mais que eu não saiba seu destino,
Por mais que a mim seja intangível.
Gosto dos versos que descrevem
Aquilo que pra mim é inatingível.

Dos poemas que me acompanham
Há os se escondem nas noites.
Há os rebuscados e solitários,
Há os risonhos, quase embriagados.
Os versos noturnos são homens mascarados:
Deixam ver os olhos, mas não a alma,
Sons mudos ecoando no vazio das esquinas.

Entre os poemas que me acompanham
Guardo nomes, declarações, planos.
Guardo as confissões de nada-por-vir
Guardo segredos de não-me-toque
E me rio com as rimas frouxas
Tecidas em verões frios, à contramão da estação,
Bebendo maresia em mar de morros,
Desaguando em oceanos de ouro.

Dos poemas que me acompanham
Deixo seus títulos em um papel.
Sou autora de tantos, admiradora de poucos.
Reconheço minha pouca durabilidade,
A imensidão do tempo e a brecha da memória.
Coloco-me no vão dos ponteiros.
Desfaço-me em cantos, contos,

Incontida pelos pontos.

domingo, 14 de setembro de 2014

Limiar II



Depois de anos exposta,
Despendurou-se das paredes.
Quebrou as vitrines.
Saltou as janelas.
Apagou todas as luzes,
Fugindo dos holofotes.
Estava cansada de não se vista.
Sim! Nem sempre os olhares
Que passam nas exposições
Enxergam as obras de arte.
Cansada de tudo aquilo,
Tomou nova postura.
E desde o último outono,

Escondia-se na penumbra de si mesma:
Há detalhes que só são vistos pelo toque.
Tocava o limiar entre a luz e ela:
Bendito seja quem aprendeu a enxergá-la.

Mil e uma histórias



Quando a noite caia e a bela morena adentrava no quarto do sultão, não eram as suas madeixas os fios que mais prendiam o homem. Eram as teias de suas palavras que o envolviam o deixavam imóvel.
Ela, aranha, cuidadosamente o deixava emaranhado em tantas histórias quanto podia. Histórias fantásticas, mas também outras tantas comuns, que se entrelaçavam.
Sherazade ganhava a cada noite mais um dia, a cada respiração um novo suspiro porque apresentava ao seu sultão fios que não se desprendiam. Ao contrário se ligavam e religavam e dificilmente se sabia onde teriam começado.
Somos todos Sherazades.
Somos todos um composto de mil histórias sem fim entrelaçadas, pulsando em nós, latejando em nossas veias.
Sinto cada parágrafo do livro da vida, cada capítulo se abrindo, trazendo novos e interessantes personagens, em paisagens já vistas ou nunca imaginadas.
A cada novo dia, novas histórias se cruzam, novos olhares são construídos e torno-me mais e mais não só a contadora de histórias que queria ser na infância, a princesa dos castelos cercado por jardins e desertos, mas na personagem de histórias reais, cuidadosamente vividas e apreendidas.
Para todo bom capítulo, um ou outro parágrafo mal escrito, mal interpretado, mas compreendido, tempestades de areia passageiras que fortalecem.
Os capítulos ruins não são os últimos.
As histórias nunca se acabam.
Como a moça das histórias, fico presa às teias de Clio, aos fios das Moiras e ao caminho que traço e refaço.

Como nos contos das mil e uma noites, protagonizamos muito mais de mil histórias sem fim em nossas vidas. Somos muitas histórias dentro de uma só. E não me cai bem encerrar-me em uma única capa. Sou histórias que escritas em folhas livres voam com o vento, ávidas por serem acolhidas e lidas.

Saara


Herdei o peso da lua,
A inconstância de suas fases,
O frio de seus ais,
O breu de suas agonias.
Das tantas paixões não realizadas,
Outras tantas mal curadas
E um Saara de solidão.
Madrugadas convertidas em páginas,
Tempo desfeito, refeito, rarefeito.
Vida noturna: mais insone do que boêmia,
Mais de verso que de prosa.
Fogo no peito,
Frio no leito.
Vozes ao longe,
Rosários de pensamentos.
Conta
As
Gotas?
Conto os sonhos!
E carrego todo o peso

No crescente de uma lua.

sábado, 23 de agosto de 2014

Escriba




Encantada. É assim que fico diante de você.
Espero pacientemente que durma, que se entregue ao descanso diário e necessário para que eu possa me despertar enquanto lhe observo.
Perco-me na doçura de seus olhos fechados, que quase nada viram do mundo e lamento pelos meus próprios olhos que tão pouco viram e que se enchem e se satisfazem com a sua visão.
Admirada, sinto-me deusa pagã de tempos antigos. Sinto-me aquela a quem prestam homenagens, mas nunca alcançam e que por mais que fosse amada, jamais chegou a ser entendida.
Enquanto dorme, eu-deusa, tenho pauras de endoidecer. Tenho desejos de lhe (d)escrever  e sinto-me incapaz de dominar as letras indolentes. Mas como deusa do seu amor não precisaria dominar essas letras que acabam por ser tão frias. E volto a ver-me como mulher. A mulher que se desmancha diante dos olhos fechados do amado.
Eu, mulher-desmanchada-de-adimirar-lhe-o-descanso, percebo-me mais que uma deusa, mais que simples mulher. Vou além daquelas que passaram. Vou além daquelas que apenas existem. Vou além daquelas que tentam chamar a atenção e despertar-lhe os desejos, porque eles já são meus.
Coube-me guardar o seu repouso, os seus sonhos, o seu sossego e como prêmio ganhei a descoberta de meu dom. O mesmo dos escribas. A função nobre de me perder em palavras e só me encontrar tecendo linhas sobre você, sobre o que vejo.
Tudo o que os deuses antigos não souberam ou não puderam restou de herança aos poetas que, corajosos, se despem vestindo de versos. E eu uso as palavras como vestido. Em noites de galas, redondilhas. Em dias comuns virtuosismos.
Pouco importa de onde saem, para onde vão, como foram feitos. O que me vale é a inspiração. É o momento em que meus olhos pousam sobre você e param estáticos, invejando o silêncio que o envolve e o ar que lhe dá a vida.
Cabe-me ser escriba do que sinto, do que penso sentir, do que sentirei e daquilo que jamais experimentarei. Cabe-me ser poeta, domadora de rimas, descobridora de léxicos, que faço para brindar-lhe com meu vinho mais encorpado, mais saboroso, de embriagar sem tirar o juízo, de saciar sem acabar com a sede para ser repetido.
Cabe-me ser maior que a vida e a morte e as suas pelejas, ser poesia, ser voz ouvia em milhares de anos, canto nunca silenciado. Cabe-me encher as taças e erguer brindes e entoar canções.
Cabe-me preservar o dom milenar de quem dominou a pena. Escriba. Jardineira de rimas, que cria flores em versos e deixa se ler em reversos. Semear perfumes de antigamente em corações sedentos de hoje e de gotas de amanhã-de-manhã, dando vida para as vidas que virão e alento para as que aqui estão.

Encanto-me com o seu silencioso adormecer e sinto-me engrandecida e feliz por descobrir-me pelos seus olhos, ainda que fechados, ainda que inconscientes do despertar que me causam. E escrevo. E quando o sono vem, repouso feliz, com mais um verso pronto, pousando-lhe nos lábios um beijo de agradecimento e sinceridade. Sussurrando-lhe meu nome e novas promessas de um dia bom.

Passagens




Amo as chuvas.
Caminho na lua.
Tem dias – e noites –
Que conto estrelas.
Em outros tantos,
Descanso nas nuvens.
Amo o dia com o seu clarão.
Sua verve que me salta em poesia.
Amo o passar das horas
E os seus pés

Que o faz passar por mim.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Rascunhos



Há muito tempo guardo rascunhos. Pensamentos fragmentados que surgem em um sobressalto e que pousam no papel à espera de uma atenção que nunca terão.
Os pequenos fragmentos são visitados todos os dias para ganhar novos acréscimos, mas nenhum dele é lido. Vou tecendo, assim, com palavras, uma espécie de colcha de retalhos infinita, fada ao esquecimento. Imersa na indiferença que eu mesma crio.
Sou uma sabotadora de ideias, das minhas ideias. De planos. De versos que poderiam ser tão bonitos quanto um Neruda ou um Pessoa, não por pretensão ou talento, mas por vocação: toda palavra tem vocação a ser doce, suave, tocante.
Quando vejo os traços mal feitos com as palavras que anotei correndo para não esquecer uma voz me diz: deixe estar um dia você as lerá. E outra, mais maldosa e, talvez, mais realista gargalha: lá vem você com mais palavras que não quer esquecer e que nem quer ler!
Isso basta para lançar-me a angústia quase fatal que é conviver ao mesmo tempo com uma esperança e uma contra-esperança que não se abandonam.
Muitas palavras nasceram em bordas de xícaras de café e por ali mesmo se afogaram. Alguns rascunhos vieram no vento como dente de leão desvairado e injustamente aprisionado no papel.
Dou-me conta do quão injusta sou com meus pensamentos. O quão cruel sou eu que os aprisiono em um caderno nem tanto secreto, nem tanto invisível, nem tanto inacessível, mas que é evitado cotidianamente. E lamento por tudo aquilo que foi pensado, escrito e nunca lido.
Encaro as palavras mudas diante de ouvidos atentos e percebo a imensidão que elas poderiam alcançar se pudesse voar com suas próprias asas, se pudessem ser livres em suas tantas reticências, longe dos mal entendidos dos pontos-e-vírgulas.
Doou-me conta de que tenho ouvidos surdos diante de palavras que me gritam e finjo não as ver, mesmo quando as tateio. E sinto o quanto elas são carentes de movimento próprio. Percebo o quanto o deslocamento das ideias é importante.
Faço os meus rascunhos com a seriedade de quem chegará até o projeto final, mas os abandono como criança mimada com brinquedo novo, na caixa, que despreza o recém-chegado anterior.
Percebo que as linhas em que guardo minhas palavras são ninhos, que aconchegam meus pequenos pássaros cativos, meus rascunhos, que são desejosos de céus abertos para crescerem e deixarem de ser tão miúdos. Percebo um antes e um depois mais aflito do que deveria ser por mero capricho meu em não dar a liberdade tão almejada pelas palavras que fingi ter libertado pela tinta da caneta.

Talvez os rascunhos sejam braços abertos, carentes de outros braços que os permitam se entrelaçar e se fortalecer e pelos quais eu mesma encontraria mais firmeza. Talvez os rascunhos devessem ser revisitados e relidos e transformados em projetos finais. Só para alívio.