Visitas da Dy

segunda-feira, 30 de junho de 2014



Lá fora as pessoas não tinham graça. Todas haviam perdido o viço, o brilho nos olhos, o frescor dos sorrisos.
Todos, sem nenhuma exceção pareciam figuras emolduras em peças largas de madeira envernizada. Mesmo transitando entre buzinas e engarrafamentos, pareciam engarrafadas, engessadas, imóveis.
Estranho ter essa sensação. Estranho olhar e não ver nada através dos olhares. Como se todos os globos oculares fossem de vidro, refletindo apenas a luz que recebiam. As almas estava fora dos olhos. Quiçá dos corações. Ainda que em festividades, a tristeza pairava.
Era uma sensação medonha. Dessas de tirar o sono. De espantar os sonhos. De ser malquista pelo mal que causa. Indesejável sensação de vazio que o enchia.
Rodeado por temas desinteressantes, só lhe restava retribuir com desinteresse. Nada chamava a atenção. Nada despertava a menor curiosidade. Nada fazia esboçar o menor sorriso. No peito só restava uma angústia.
Uma busca incansável por uma saída se instalava e atormentava-lhe o juízo, deixando dormentes os membros. Debatia-se nas curvas das paredes, dos móveis, das frases mal lapidadas e sentia-se como em um labirinto.
O som oco de vozes que pouco diziam aos ouvidos não cessavam e incomodavam, tirando o sossego. Diferentes de todos aqueles olhares perdidos ainda conservava um gosto pela vida, mas já não sabia como preservá-lo. Como encontrar a saída? Como escapar desse sótão empoeirado e ver a uz do sol?
Queria poder dormir por dias ininterruptos e acordar em outro mundo, outra realidade pelo menos, mas isso não poderia. Seria rapidamente acordado com os apelos roucos que nada diziam de concreto e que o despertariam só pelo prazer de interromper o sossego da alma.
Buscava a salvação. Desejava desatar o nó de sua garganta. Deixar vazar o grito espremido em seu peito, mordido junto com a língua, quase engolido com o sangue próprio e outras tantas palavras engasgadas.
Nem toda água do mundo desentalaria. Nem todo tempero faria o grito menos insosso. Buscava o ar fresco das manhãs e fazia manha para chegar a algum lugar.
Encontrou-se justamente com aquilo de que fugia: com as palavras. À medida em que aprendeu a se aliviar com os verbos inauditos, o nó ia diminuindo. As palavras começaram a atropelar-se e a salvar-se umas às outras e uma confusão de Babel era a solução almejada.
Nem sempre havia sentido nos arranjos de palavras, mas havia o alivia, a redenção dos pecados, a liberdade. E por ter asas leves, cada palavra alçava seus voos e deixava o peito mais leve, menos afogado.
Livres dos alçapões escuros que as prendiam, as palavras voaram e com elas, novas cores tingiram as paisagem das janelas e as molduras que cerceavam as pessoas foram caindo, libertando também a quem as ouvia.

Pelos sons coloridos e audaciosos de palavras antes mudas, fizeram as novas visões e os novos dias. Quebraram-se os grilhões e pensar e falar já não era mais uma tarefa angustiante, mas libertadora.

Dedo Verde


Olhando para o jardim das casas da vizinhança, como se fosse uma estátua que compunha a paisagem, ela refletia sobre o seu não dom de cultivar flores e outras coisas.
Não era a menina do dedo verde. Descobrira isso ainda na infância, mas aulas de ciências, nas quais o seu feijão era o único a não brotar no algodão molhado.
Talvez fosse falta de paciência. Falta de água não era. Incontáveis vezes a professora precisava salvar o pobre feijão do afogamento inevitavelmente provocado pela pressa em ver o broto surgir refletida nos quase dilúvios que caiam sobre o grão.
Outras vezes, diante do fracasso do excesso de água, deixava o feijão em total privação. Fazia do algodão uma sucursal do Saara: sequer uma gota d’água passava perto da experiência. E o broto não nascia. O grão permanecia dormente, como a princesa dos contos de fada à espera do beijo.
Anos mais tarde tentou a sorte com vasos de plantas: lindas violetas só ficavam lindas na floricultura. Na casa dela morriam todas. Até um cacto ela conseguiu matar... de sede!
Definitivamente, cultivar flores não era a sua especialidade. E, nos últimos tempos o cultivo de pessoas também não estava sendo.
Dispersa por sua própria natureza, voando no mundo da lua ou navegando pelos mares de seus pensamentos intempestivos, não era muito apegada aos contatos pessoais. Esquecera-se de que as pessoas – e as amizades – são como as plantas e precisam de doses diárias de cuidado, de atenção, de afeto.
Presa ao fantástico mundo de seus pensamentos organizava a vida como os capítulos dos livros que guardava na estante, sem achar isso algo ruim.
Já havia realizado boa parte de sua lista de desejos para a vida. Já havia plantado árvores. Já tinha brincado de ser poeta, já tinha viajado por terras desconhecidas, que sequer sonhara alcançar.
Empenhava-se em manter a ordem que havia criado e assim estava tudo como deveria, mas esquecera-se de cultivar... as pessoas. Estabelecia contatos curtos, com prazos de validade: não se apegava, não se deixava cativar e nem fazia muita questão de firmar nós. Os laços brandos que formava pareciam feitos de nuvens e logo se dissipavam.
 Aos poucos o seu jardim de pessoas estava perdendo os sorrisos. Aos poucos o seu dedo marrom distanciava os risos frouxos e uma paisagem ressequida se formava.
Em um outono desses, percebeu seu quase inverno e passou a se esforçar mais. Passou a refletir sobre as medidas que a vida solicita. Percebeu que para cada uma de suas sementes havia medidas d’água diferentes e, talvez por isso, por sempre usar a mesma medida, não conseguia ver flores desabrochando ao seu redor.

Diante das diversidades passou a ter novos olhares, novas medidas, novos tratos e já podia ver brotos, sinalizando a volta da primavera mesmo fora da estação.

domingo, 29 de junho de 2014

Iazul


Esquece, meu bom e dedicado amigo, esquece, por um momento, as tristezas e aflitivas preocupações; livra-te dessa angústia torturante instilada em tua alma pelas incertezas da vida; senta-te, aqui a meu lado, e escuta, com religiosa atenção, a famosa lenda que os poetas árabes intitularam: Iazul! Sim é isso mesmo: Iazul!
Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Viveu, outrora, na Pérsia, meio século depois de Timur Lenk, um Príncipe, generoso e bravo, que se chamava Shack Bock. Afirmaram historiadores altamente balizados que esse glorioso Emir tinha em sua importante corte um sábio, mestre e conselheiro, cuja nobre função era orientar o monarca em suas decisões, esclarecê-lo em suas dúvidas e corrigi-lo em seus erros e injustiças. Esse ulemá, judicioso e previdente, chamava-se Ismail Hassan, e era, pelos nobres muçulmanos apelidado o Saryh (aquele que é sincero).
Um dia muito cedo, logo depois da prece da madrugada - prece do ritual que os árabes denominam sobh - o Príncipe mandou que viesse à sua presença o conselheiro da corte. Fazia todo o empenho em ser urgentemente elucidado sobre um caso que se apresentava enrodilhado pelo mistério.
Sem perda de tempo, o ilustre Ismail, o Saryh, deixou os seus aposentos, e foi ter ao luxuoso divan (sala de audiências) do soberano persa.
O que teria acontecido? Que caso, assim, tão grave intrigava o Rei? O monarca parecia pálido. Em sua fisionomia morena surgiam, tracejando linhas incertas, as setes rugas da intranquilidade. Depois das saudações habituais, sem mais preâmbulo, disse o Emir ao judicioso Ismail:
- Acabo de receber, do Khorassan, este pequeno cofre, encontrado pelos meus agentes secretos, entre os despojos do infeliz e estouvado Khalil, senhor de Candahar. Dentro desse cofre vinha apenas esse singularíssimo anel de ouro. Desconfio de que se trata de jóia raríssima, que pertenceu ao grande Timur Lenk. Como poderei descobrir o enigma que envolve esse anel?
E o Príncipe, estendendo a mão, entregou ao douto Ismail o misterioso anel de Candahar.
Ismail, o sábio (Allah, porém é mais sábio!) examinou detidamente a joia, virando-a e revirando-a na palma da sua mão. E depois de refletir, em silêncio, durante algum tempo, assim falou ao Príncipe, seu amo e senhor:
- Julgo-me capaz de esclarecer esse mistério. Afirmo que uma das peças mais valiosas do tesouro persa acaba de chegar às vossas mãos. Este anel é o precioso e tão ambicionado anel mágico, que pertenceu ao invencível Timur Lenk, o Perseverante (que Allah o tenha entre os eleitos!). Como podeis ver, este anel no rico escudo em forma de tâmara, ostenta em letras bem talhadas a palavra tão bela e sonora: - Iazul.
- Sim, sim - confirmou o Príncipe, muito sério - já o havia notado. No escudo, entre dois brilhantes pequeninos, lê-se a palavra: Iazul. O mistério, a meu ver, permanece. O que significa, afinal, Iazul?
O sábio Saryh ergueu o rosto e, discorrendo em tom pausado e claro, explicou:
- Cumpre-me dizer-vos, ó Rei do Tempo!, que Iazul é uma palavra mágica, de alto poder. Asseguro que é a palavra mais expressiva e eloquente entre todas as que figuram no riquíssimo vocabulário persa. É mágica, repito. Reparai bem: Tem o dom de nos tornar alegres, quando estamos tristes, e de moderar as nossas alegrias, nos momentos de extrema felicidade e ventura.
- Singular, muito singular - refletiu o Rei. É, realmente, de alta magia, essa palavra que transforma as alegrias em preocupações, e que consegue aniquilar, ou pelo menos conter, as mágoas e tristezas que pesam em nosso coração!
E, fitando gravemente o sábio, acrescentou:
- Mas insisto em perguntar: O que significa essa palavra Iazul? Como podemos traduzi-la?
Respondeu o eloquente e esclarecido ulemá:
- Iazul, ó Rei!, dentro da sua espantosa simplicidade, significa, apenas Isso passa! Quando o homem atravessa períodos de felicidade, de alegria cor-de-rosa, de sorte e tranquilidade, deve pensar no futuro e ser comedido em suas expansões, sóbrio em suas atividades.
Convém que o afortunado não esqueça: Iazul! (Isso passa!), a roda do destino é incerta; a vida é cheia de mudanças. Há ocasiões, porém, em que nos sentimos anavalhados pelos sofrimentos, pelas enfermidades, feridos pelas desgraças, caminhando sob a nuvem da má sorte, da ruína e atingidos pelos golpes imprevistos do infortúnio. Para que o ânimo volte ao nosso espírito, proferimos, cheios de fé, fortalecidos de esperanças: Iazul! (Isso passa!). Sim, tudo passa! Virão dias melhores, dias calmos e felizes; a prosperidade e a boa sorte voltarão a iluminar a nossa jornada; a saúde será reconquistada; a serenidade procurará pouso em nosso atribulado coração! E, assim, ó Rei!, posso afirmar que Iazul, a palavra contida no pequeno escudo deste anel, é mágica! Alivia e abranda as tristezas dos infelizes; controla e arrefece as alegrias alucinadas dos exaltados!
Ao ouvir as eloquentes e judiciosas explicações do velho ulemá, o Rei tomou do anel, colocou-o no dedo indicador da mão esquerda e disse, serenamente:
- Que notável, interessante e proveitosa lição recebi hoje! Conservarei comigo este precioso anel. Jamais esquecerei em todos os momentos culminantes de minha vida, no meio de estonteantes triunfos, ou sob o guante da desgraça, de recorrer ao eterno ensinamento contido nesta palavra mágica: Iazul!
Quero, ó irmão dos árabes!, terminar esta lenda, exatamente como a iniciei:
Esquece, meu bom e dedicado amigo, esquece, por um momento, as tristezas e aflitivas preocupações; livra-te dessa angústia torturante instilada em tua alma pelas incertezas da vida; senta-te, aqui a meu lado, e escuta, com religiosa atenção, a palavra mágica Iazul!
E vale a pena repetir: Iazul! Iazul! Isso passa! Isso passa!
Realmente meus amigos IAZUL é uma palavra que devemos trazer no coração sempre.
IAZUL!
IAZUL!
Isso Passa!

TAHAN, Malba. IAZUL: Lendas Orientais.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Palma das Mãos


Trazia nas mãos palavras encantadas, mas nem sempre as distribuía por aí. Gostava de guardá-las como se fossem seus tesouros mais preciosos.
Na ponta dos dedos carregava uma delicadeza digna de versos, soando suaves como sonetos que falavam de amor e jamais fechavam as suas rimas com dor.
Na palma das mãos era capaz de traçar destinos tão leves feito uma bolha de sabão, tão coloridos quanto um arco-íris, mas também era capaz de embolá-los como novelos, brinquedos de gatos manhosos em tardes amenas.
De longe essa poderia ser destacada como a sua especialidade: embolar as palavras. As ditas, as não ditas, as desditas. Sortilégios de quem nasce com um quase-dom da escrita: não saber conter-se.
Entre um papel e uma caneta, a folha em branco sempre trazia uma poesia. As linhas vagas sempre estavam à espera de prosas, dedos de prosas descompromissadas envolvidas em aromas e sabores fortes de cafés e chás, de raios de sol e de cheiro de terra molhada.
Não sabia conter-se e também não sabia o que fazer com o ouro que lhe brotava das mãos. Sentia-se um pouco como Midas, mas com mais valor do que o resultado do rei. Para ela as suas palavras eram muito mais valiosas que qualquer ouro.
Quase todo papel que tocava era transformado em palavras. Da boca saiam risos rimados. As palavras soltas se ajuntavam entre seus dedos. Meneavam e arranjavam-se de modo envolvente, desejosas de serem ouvidas por um ou outro vento. Mas eram todas guardas.
A arca sagrada onde as palavras, frutos daquelas mãos, eram guardadas não era de cedro do Líbano, de madeira de lei, de ouro. Era de carne e sangue, de pulsar, de contrair-se e dilatar-se a cada nova palavra. A cada novo arranjo.
Tudo o que lhe viam com aquelas palavras era guardado no coração. Por isso, só poucas palavras eram expostas. Por isso, quem bem entendesse poderia enxergar ali, grãos dela mesma, velados em contextos diários, quase fictícios, mas com matizes de uma vida real.
As palavras que trazia nas mãos nem sempre nasciam dela mesma. Às vezes a escolhiam por morada e ela, generosa, acolhia todas. E as ninava, cobrindo-as com seus sonhos, alimentando-as com sua seiva vital. Aceitava usar e ser usada pelas palavras que lhe pousavam nas mãos. E assim, seguia seus dias escrevendo.

Dava guarida aos versos, às rimas, às palavras e dormia tranquila. E sonhava sonhos de azul. E escrevia coisas que talvez nunca seriam lidas. Escrevia. E sentia-se uma escritora que habitava estantes empoeiradas a espera da descoberta de leitores que também acolheriam as suas palavras. 

domingo, 15 de junho de 2014

Peculiaridades


Temo em usar a máxima do “cada macaco no seu galho”. Pode ser que se levantem bandeiras contra a simples frase, alegando dizer muito mais do que eu pensei. Em tempos de bananas em estádios, de somos-todos-macacos, eu só quero mesmo dizer que devemos cada um ocupar o seu espaço. Longe dos macacos reais ou dos tantos que nos inventam.
Poderia usar um “cada um no seu quadrado”, afinal, quero mesmo é falar das nossas esquisitices particulares que cultivamos com tanta estima e que haja paciência alheia para aguentar! Mas não teria o mesmo efeito. Talvez caiba bem um “cada louco com sua mania”, já que todos flertamos com a loucura em dias mais ferventes.
Cada um de nós tem a sua própria coleção de manias e a minha é o gosto pelos fones de ouvido – mesmo que não haja música tocando –, os livros espalhados, mesmo que não leia todos ao mesmo tempo e o café, quente ou gelado, menos morno. Nada morno.
Há quem goste de multidões. Há quem goste de solidões. Há quem goste de mares ou de desertos. Há cidades povoadas ou abandonadas. Tem gente que é do dia, enquanto eu prefiro a noite...
Por sermos assim tão deliciosamente diferentes que vejo graça em cada uma das esquisitices pessoais e as coleciono, observando de longe cada uma delas e seus donos, que ora se mostram demais, ora se escondem. Seja lá por preservarem suas sombras, seja por acharem que a luz os faça mal.
Seja lá quais forem as nossas peculiaridades, lá no fundo o que somos é um teatro vazio, onde nós, atores solitários, encenamos para uma plateia inexistente. Onde podemos esquecer as falas e reinventá-las sem que ninguém nos aponte.

No fundo, por mais estranhas que possam parecer cada uma de nossas atitudes, são todas barcos a vela sem rumo em noites de lua crescente, onde pouco se vê diante dos olhos. E como toda viagem precisa de uma trilha sonora, a viagem rumo ao nosso eu deve ser embalada por um blues, daquele que toca sem ser percebido nas madrugadas, mas que faria falta se calasse.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Entre uma Balada e um Blues



Escorriam, do alto dos prédios, sabores de sorvetes derretidos pela língua quente que ousava desafiar aquela estabilidade cremosa.
Os azuis celestes pingavam nas espumas brancas das ondas daquele mar de sensações em mais um fim de tarde.
Perdida nos entremeios daquele domingo, esperando sabe-se lá o quê, ela dançava um blues, soçobrando a calmaria tradicionalmente instaurada naquele que não era um dia de feira.
Os fones nos ouvidos a desconectavam daquele cenário de concretos e amores congelados. Ela ouvia as batidas de seu coração e vivia uma balada: a balada dos primeiros amores. 
(Recusava-se a acreditar em um único primeiro amor, pois defendia o ineditismo de todas as emoções vividas.)
Como se o tempo parasse para assistir a sua euforia, dançando no meio do mundo, expondo as suas alegrias e deixando-se mais leve do que a pluma de Osíris, ela observava a fonte seca do meio da praça. Ou nem isso. Olha e nem via. Dançava. Quase pairava.
Podia ser a Praça Paris ou o Passeio Público. Poderia ser em qualquer um dos jardins da cidade ou próximo ao Relógio das Flores, pouco importava o lugar. A balada é que dava o tom daquele blues que era quase tranquilo como o seu amor.
Descobrira-se apaixonadamente envolvida em novos versos, novos nomes, novos dedos emaranhados e traçava planos de tranquilidade e companheirismo para as tantas horas que pulariam entre as nuvens daqueles céus de outono.
Achava o seu blues tranquilo. Achava o seu amor tranquilo. Mas estranhava, já que nem blues e nem amores são tranquilos. Deu-se uma folga. Não pensava em nada. E era levada, em-balada pelo som.
Ali, no meio da praça, apaixonada, ela parecia ter nascido para dançar. Parecia ter nascido entre as flores. Parecia louca deixando o corpo envolvido em cada novo acorde que ouvia.
Estava entregue à nova descoberta: a música jamais ouvida lhe despertara sensações inexplicáveis e a envolvera como nada antes havia conseguido fazer.
Ali, entre passantes, pombos, pipocas, crianças, ela havia apaixonado-se perdidamente pelas notas suaves e (quase) tranquilas daquela canção, deixando-se solta entre uma balada e um  blues que, a partir daquele momento, passou a ser tão sua.
Ali, em um domingo quase sem graça, ela redescobriu sons de tempos passados e sonhou ser uma nota daquela partitura.
Naquele fim de tarde ela descobriu-se amante também da música, sem deixar de lado a poesia, porque não lhe cabia a monogamia quando se tratava das artes e, agora, flertava também com as cores, pingando matizes de risos lunares ao crepúsculo de despedida de um sol alaranjado.

sábado, 24 de maio de 2014

Muros Rabiscados II



08/09/13

O casal de jovens embalava-se em amores primaveris. Coisa da idade, de quem descobre o primeiro amor e pinta flores nos galhos secos da vida. Descobriram outros olhares para a guerra que assolava sua terra.
Com um disparo rouco no meio da noite, um copo cheio caído no tapete da sala, como as espumas que ficam na beira da praia com saudades do mar eles se separaram. Entre homens que não amam, o amor nunca é percebido como antídoto.
A mão caprichosa do destino os colocou em opostos. Calaram-se as bocas, secaram-se os beijos.
Restaram àqueles corações a saída dos que se perdem em sons mudos: os versos, os riscos nos muros das ruas que percorriam e que sonhavam reencontrar-se.
As promessas loucas de suas vontades saltavam da tinta e  realizavam-se nas madrugadas, colorindo, rimando e mostrando que o amor não dormia, desfilando diante dos olhos ao raiar do dia.
Eram palavras mudas, quase letras mortas, que traziam à tona seus segredos, emergindo à luz da aurora em tons de confissão: todas aquelas palavras já eram ditas pelos olhares, eram reveladas pela dedicação, eram arrastadas pelo tempo.
Oxalá, seja verdade que o amor resiste a tudo e ao tempo...
Só essa verdade faria das horas desfolhadas em prosa,  da vontade de parar os ponteiros do relógio, de calar o cuco, de conter a areia, um esforço sadio, longe das agonias de Tântalo ou de Sísifo.
Pelos muros, marcaram-se as letras. Pelos versos, escorreram-se os sentimentos. Pelos desejos, a eternidade. Pela presença desejada, alegria quase incandescente. Para a vida, planos. Pelo real, utopia e pelos muros, nada mais que rabiscos.
Ansiosos pelo fim do inverso de suas vidas, contavam os dias e todas as bocas que conheceram, jamais tiveram o mesmo gosto. Nenhuma noite embalou sonhos com outros personagens. E nenhum poema foi suficiente para sufocar as brasas que restaram daquele primeiro amor.

Pressentimento



No dia em que eu pressentir que o meu fim está por chegar, mandarei avisos a quem interessar. Para todos que os receber, uma única recomendação será dada: que corram até a janela.
Quando as minhas horas se extinguirem, serei visível das varandas e alpendres. Chegarei de leve, com o vento, e logo que a noite vier, caberão, a todos os ouvidos, partes de meus segredos, sussurrados entre as badaladas noturnas dos carrilhões que ainda resistirem ao tempo.
Os versos que escrevi estarão livres e voarão, dispersos em tons de azul e prateado, combinando com a cor da noite, com as fagulhas das estrelas, com as espumas de tantos planos não concretizados que, empoeirados, foram esquecidos nos cantos mais escuros das pessoas.
As rimas que não ousei serão as companheiras dos planetas destituídos de sua posição, vagando Plutões de solidão e de vontades contidas. Palavras mudas, letras mortas e pétalas caídas, cenários de idas, vindas e tentativas frustradas.
Dissolverão todas as tristezas nas penumbras da lua e seus crescentes desejos em ser nova e restarão as alegrias cheias, sem nenhum minguante assombrado. Nenhum rosto será esquecido. Nenhuma risada será silenciada. Há de se fazer festa pelos céus lácteos e as preocupações se lançarão nas nebulosas para nunca mais reencontrarem os caminhos de nossas casas.
Os nomes serão pronunciados em vozes altas e firmes e o mar e suas ondas e inquietudes não rugirão tão alto e não calarão nem frases feitas, nem palavras de efeito. Caberá a ele apenas apagar todos os mal-ditos e os não-quereres e levará para o seu profundo todos os excessos de  silêncios sufocantes.
Abrirão todas as bocas porque os ares serão de poesia e encantamento. Todo coração irá se acelerar e toda velocidade para o sangue será pouca: o amor não saberá mais esperar.

Toda noite será curta e todo o dia não bastará, porque uma ampulheta terá se quebrado e dela, não cairá apenas areia – ou tempo – mas uma alma que ansiava pela liberdade das horas tantas que foram poucas e que mesmo conhecendo amplitudes, sonhava com a imensidão e o ruir das horas será um passo para o abismo, para o abrir completo das asas.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Flor e o Espinho


Gostava de usar vestidos. Os tons claros eram os preferidos. Gostava da sensação de leveza. Gostar de pensar que como a barra da saia que girava, ela flutuava. Em dias de sol branco, vento brando e cantos azuis de pássaros multicoloridos ela saía para caminhar por trilhas que não levavam a lugar nenhum.
Às vezes, como se fosse filha de Afrodite, ornava a fronte com rosas. As mesmas rosas que perfumavam seu quarto e que a lembravam de dores passadas.
Como todo mundo ela tinha as suas dores e como todo mundo ela procurava velá-las e, pra isso, criava mil fantasias. A que melhor lhe cabia era, de fato, a das rosas.
Ela comparava as suas dores com as flores que mais gostava e cultivava. Para elas seus conflitos internos eram caminhos forrados com as flores e ela seguia firme a cada passo. O coração doía, mas entendia que a dor era como andar sobre rosas perfumadas.
A cada passo sentia-se os espinhos, a dor fina deles entrando e rasgando a carne. Sentia-se o pulsar do sangue quente escorrendo pela pele machucada. Sentia-se uma vontade imensa de chorar.  Mas o perfume das rosas não deixava as lágrimas escorrerem. O doce perfume,  tão intenso, tão inebriante, tão alegre, era capaz de transformar a dor em coisa passageira, em situação suportável.

Assim, enfeitada com rosas de várias cores ela se escondia em sorrisos, que não eram falsos, posto que eram reflexos da alegria maior de alguém. Mas no fundo, bem no fundo, ali dentro, onde ninguém a via, morava uma dorzinha chata, um espinho que não conseguia arrancar... era quase de estimação.

domingo, 27 de abril de 2014

Colecionadora de Sonhos


De pequeninas mãos brancas a menina de cabelos escuros corre atrás de borboletas no jardim.
Quem a observa tem quase certeza de que existem mais borboletas em sua imaginação do que entre as flores.
O som da risada ecoa e faz ritmo com um veio d’água que passa perto. Barulho de criança sempre enche todos os espaços e com ela não seria diferente.
A pequena de pele clara prefere esconder-se atrás das folhas de um verde mais escuro, na sombra, esperando o sol se encoberto pelas nuvens. Não que não goste do calor, mas porque gosta de olhar para o céu e a sua absurda beleza infinita circundada de azul.
Ela sabe que as nuvens não são de algodão. É uma das poucas crianças a ter certeza que as nuvens são sonhos que vão se aglomerando sobre nossas cabeças. Eles ficam no alto não para nos mostrar que são impossíveis ou inatingíveis, mas dizer que são divinos. Que nos elevam na sua busca e nos deixam lá, no céu, quando são realizados.
Ela também sabe que muitos desses sonhos passam da hora. Por isso eles escurecem e se derramam. A chuva é o precipitar dos sonhos não realizados. É o reconhecimento de que desistimos, de que tentamos pouco, de que preferimos nos fixar na terra. E a chuva é isso: é a volta dos nossos sonhos para a terra.
A menina de olhos curiosos que fita o céu sabe bem onde coloca os seus sonhos: eles são os guias de seus passos pueris. Quem sabe será uma princesa? Quem sabe habitará histórias ou as contará?
Para os sonhos que ainda não tem certeza, reserva-lhes a fronha do travesseiro e dorme sobre eles todas as noites. Para aqueles sonhos não realizados – não os dela! – ajunta as gotas em dias de chuva e coloca num aquário: tem esperança de que seus peixinhos os deixem coloridos e que eles voltem para o céu, arrancando sorrisos e suspiros.

A menina de mãos pequeninas já é colecionadora de sonhos e sonha chegar muito longe, correndo atrás de cada item novo para a sua coleção.

sábado, 26 de abril de 2014

Final(idades)


Reconheço que perdi. Paro diante dela e sou obrigada a reconhecer sua vitória.
Em minhas lembranças sempre a via de negro, mas hoje, sua altivez resplandece alva, com véus e saias longas e arrastadas sobre o tapete e as flores. Flores que exalam um perfume que para alguns são compostos de notas doces, mas a mim são mais enjoativos do que outra coisa. Chego a ter náuseas.
A comparação é inevitável quando nos encontramos no mesmo quadro. É notável que aparento mais vigor, mais energia, que pareço uma explosão de sentimentos e impulsos, que pareço ter nos lábios levemente avermelhados meia dúzia de palavras fortes para dizer, mas são tantos cristais nos olhos a esconder...
Ela, ao contrário, pálida. A cada minuto mais branca, mais estática. Com o rosto sustentando um quê de sorriso de Monalisa que todos comentam sem saber ao certo que palavras usar ou que palavras calam.
Por nossos sentimentos únicos nos tornamos quase gêmeas. Não fosse a exigência monogâmica do destino, quase poderíamos dividir o mesmo espaço no peito dos homens que conquistamos. Somos, em realidade, inseparáveis.
Em certa medida travamos, a todo tempo, uma disputa de nossas conquistas: eu, com meus atrativos mais alegres, encarnada em cores quentes, despertando sensações de meio-dia, de tardes de domingo, de primaveras confiantes e verões intermináveis. Ela é mais reservada, melancólica, transitando entre o entardecer e o amanhecer, timidamente exposta, com dedos longos e frios a ajeitar madeixas loiras que escondem bem suas intenções.
Por nossa necessidade e fim nos tornamos inseparáveis. Uma é dependente da outra e nos completamos. Por mais que sejamos desejosas de um mesmo corpo, não podemos dividi-lo, mas sabemos que a cada hora uma de nós o terá.
Reservo-me os melhores dias. Os mais alegres. Mas meu tempo é breve quando ela aparece. Cabe a ela selar os fins. Por o ponto final. É mais forte que eu. Por isso reconheço minha derrota.
Estou aqui reconhecendo nossa complementaridade, não como quem se dá por satisfeita ou desiste da luta, mas como quem sabe que todo camelo, no meio da travessia, precisa de um oásis; como quem sabe que toda hora se encerra; que toda vírgula prenuncia um ponto.
Estou aqui como o fio que nos une e nos separa, como o caminho que leva ao destino de todos e entrego cada um dos que tive pelas mãos às mãos dela. Estou aqui assumindo que todo início tem um fim e que por ser a vida só posso conduzir à minha quase gêmea, à morte.

Reconheço que perdi. O fim da vida é mesmo entregar o último sopro à morte, mas desfaço a sua lembrança enlutada e a coloco mais leve, mais translúcida. Enquanto vida que foi de fato vivida, entrego os pontos finais rumo ao descanso sagrado, à noite amena de sono eterno, sonho e esperança. Que seja a morte uma dama de companhia que nos guia para um mundo melhor. Que seja ela a irmã quase gêmea e entendida em sua necessidade final.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Salvação II


Em meio a tantas paredes frias,
Descoloriam-se as fantasias.
Tudo o que parecia restar era a conformação,
Cartesiana como a fome se dá pela falta de pão.
Como se o frio da chuva não bastasse,
Como se o inverno jamais terminasse,
Todos os casacos do mundo não aqueceriam,
Todos os ouvidos do mundo não ouviriam.
Os ecos das vozes roucas seriam esquecidos.
Poesia já se transformava em coisa de tempos idos.
Ninguém parecia ouvir os poetas e os versos choravam.
Ninguém sabia mais amar e as pessoas se isolavam.
Foi então que uma luz se acendeu:
Na ponta dos dedos o milagre floresceu!
A menina de olhos curiosos e vivos
Encantou-se pelos livros!
Salvou a humanidade:

Livrou-a de  toda insanidade.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Café II



Acaba a escuridão da noite
Entro na escuridão do dia,
Naquela que me refaz,
Que me enche de energia:
Escorrendo rápido pelo coador,
Seu cheiro me lembra de fazer uma prece.
Deus do céu, dá-me sabedoria,
Deus do céu, aumentai a minha fé,
Deus do céu, amenize as dores do coração!
Do outro lado do balcão da padaria,
Vejo o vibrante café,
Companhia sagrada do pão,

Reavivamento meu pelas horas esvoaçantes.

domingo, 13 de abril de 2014

Diametralmente


Perdida em si mesma vagava pelas horas que corriam no fio da espada do tempo. Cortante. Corrente. Arrastado pelas noites, acompanhado de gemidos contidos para não incomodar as vizinhanças. Vestia-se de branco e combinava-se com seus fantasmas interiores.
Pela janela, quem a visse só teria duas opiniões: assombração da meia-noite caminhando em plena metade do dia ou jovem louca. Demente. Entrementes ela se deixava alheia aos comentários. Não precisava deles.
Com o olhar fixo em um ponto invisível no horizonte, quando as pálpebras se baixavam, eram como pesos mortos. Cortinas que encerravam atrás de si o mundo inteiro. Morto. Fosco. Sem viço. Como os seus planos abortados e histórias não escritas.
Esse cenário estático e dormente durava só um suspiro, um lamento, um quase desespero dissipado com o reerguer dos olhos. Tudo renascia quando ela movia a cabeça e ousava olhar de novo. Tudo se iluminava pelo seu sorriso de nuvens em céu de metrópole acelerada.
Por certo aquela tristeza era inventada. Ninguém poderia ser tão infeliz em um momento e em um segundo próximo irradiar toda alegria que continha aquele sorriso. Um único rosto não poderia ao mesmo tempo encerrar as letras do mundo, letras tortas e sem sentido, e se abrir em um dia de domingo ensolarado, rimas de poesia harmoniosa.
Se inventadas ou reais, não eram órfãs toda tristeza e alegria que pairavam na sala e que podiam ser vistas pela janela. Eram tomadas com o devido gosto pela jovem que valsava de branco nas tardes avermelhadas ou nas noites de azul questionador. Eram cuidadas como crianças galopantes que não deixam a casa parecer vazia em nem uma hora do dia.
A jovem sabia ser a dona de sentimentos tão diametrais quanto complementares e isso não a incomodava. Ao contrário, deixava-a mais tranquila, mais convicta de que era capaz de perceber as sutilezas de cada momento.
Quando vista como assombração, marcada pela tristeza incompreendida, enfeitiçava os passantes. Aparecia-lhes nos sonhos, estreitando suas camas e perguntando a eles o porquê da permissividade em sufocarem-se todos pelos desprazeres cotidianos.
Por outro lado, quando vista como louca, era pelo riso quase insano. Pelo sorriso largo, branco e devorador de sombras. O som de seu riso era canção. Melodia agradável que beijava os ouvidos e enchia os olhos. Impossível não serem vistos quando os olhos se fechassem. Impossível não ouvi-los quando a boca abria querendo jogar ao vento confissões matinais.
Criatura docemente triste, levemente feliz, sutilmente equilibrada em dramas cômicos e comédias trágicas que lhe conferiam um caráter diferente a olho nu, mas que diante de lentes revelava-se igual a todos em seu íntimo. O que a deixava mais propensa a receber títulos era a sua transparência.
Interpretava, ela mesma, os seus próprios papeis. Protagonista de suas próprias histórias e desventuras, com o peito aberto e nervos à mostra. Segurava suas dores sozinha e não tomava remédios para elas. Aprendia gota a gota que amargos eram os outros e não a vida.
Aceitava queimar-se no fogo que trazia no peito e acalmar-se com as lágrimas que lhe rolavam pelo rosto. Era fogo que vertia água. (E todos são, mas poucos o sabem ou se assumem tão opostos a si mesmos).
A jovem que parecia vagar sozinha, perdida em si mesma era consciente e não louca. Era real e não um fantasma. Mas incomodava aqueles que não sabiam lidar com seus sentimentos, suas imperfeições e que não se deixavam ver completamente nem por si nem pelos outros.

Ela era igual a qualquer ser vivente sobre a Terra, mas aprendeu a aceitar a si própria e por isso parecia de outro mundo. Ela aprendeu que seu equilíbrio era o fio da espada e que poderia trazer alguma dor, mas que com a medida certa a levaria cada vez mais longe. Por ter se encontrado, parecia perdida, mas era só questão de se saber de que lado era observada. Só quem a via de dentro para fora entenderia.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pen(s)ar


A cabeça girava mais que um girassol nas tardes alaranjadas de verão. Os seus sóis eram as ideias. Preferia o silêncio turbulento de suas reflexões às tagarelices intermináveis e vazias.
Fazia do ato de pensar o seu esporte. Passava horas em lugares distantes, por mais plantada que estivesse no chão. Chegava a fazer parte da paisagem de tão comprometida com suas elucubrações. As noites eram combustíveis para suas ideias febris e sedentas de respostas e elos perdidos.
Ao longo de tantas madrugadas o pensar já se havia transformado em atividade terrível: tirava-lhe o sossego, o sono, a calmaria e conduzia a passos lentos, mas contínuos ao cansaço.
Pouco a pouco o gosto pela solidão aumentava, assim como o apreço por certa ponta de tristeza e desapontamento observados pelas janelas abertas de suas reflexões. Chegava a ser movida pela vontade de não pensar, de poupar-se à tarefa que lhe desgastava pelas madrugadas sem fim.
Imersa em si mesma já sentia um penar no ato de pensar. Muito maior, é verdade, se era chamada a expor-se. Não sabia mais em que medida deveria manter seus pensamentos soltos. Prendê-los e não mais pensar seria uma saída, mas, sobre isso, era preciso pensar.
Estava feito: estava condenada a si mesma, círculo vicioso do pensar (até em não pensar), de repensar e de se alterar, fluida como as próprias ideias, leves e confusas, emaranhadas e dispersas, vigorosas e tênues, possíveis ou insanas.

Pensava. Voava. Abria-se em si mesma e se recolhia com as asas maiores, capazes de voos longos e cada vez mais perto do sol: sabia que não cairia, suas asas não eram com as de Ícaro, mas como as de Ísis, que humildemente sempre se lembrava de todos os começos.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Da Salvação I



Porque as letras, mesmo as mortas, esquecidas,
Trazem em si a essência de quem as escreveu.
Trazem em si o calor no qual foram pensadas,
Os tremores de quando foram ditas,
Os rabiscos das mãos afobadas,
Pouco importa se são garatujas ou caligrafias.
As letras soltas ou não,
Voando ao vento, alheias, flutuantes
Ou presas, ancoradas em nós, fixadas no pensamento,
Nunca estão de todo perdidas.
Ah, as palavras que teimam,
Que correm pela veia,
Que queimam, que ardem e tiram a paz...
Ah, as palavras que saciam, que matam a sede,
Que devolvem o sossego quase celestial...
Ah, as palavras que conseguem ser inferno e paraíso,
Guerra e paz,
Janela e paisagem.
As palavras nunca são perdidas:
Sempre há o que se salvar,
Sempre há quem salvar.

Sempre há um bom motivo para não calar.