Visitas da Dy

sábado, 15 de junho de 2013

Não se quebra paradigmas sem deixar cacos



Frente a uma série de pedidos de PAZ nas manifestações que estão ocorrendo no Rio de Janeiro e São Paulo, resolvi falar um pouco do que penso, claro, baseado no que já vivi e no que percebo com relação à mídia, especialmente a televisiva, no Brasil.
Para você, leitor, que chegou até esse texto e que, provavelmente já leu algo nas mídias pedindo a paz nas manifestações, eu tenho apenas um pedido: Descreva manifestação com PAZ, por favor.
Sofremos a repressão do governo em todos os manifestos desde que eu me entendo como militante e falo com propriedade, uma vez que luto pelos diretos (meus e da sociedade) há 14 anos.
Conheço as realidades de Juiz de Fora e do Rio. Já fiz passeata, já parei o trânsito, fui a audiência pública, abracei museu, árvore e já fui da ala dita como radical, quando invadi reitoria, câmara de vereadores, conselho superior da universidade federal. Já sofri com cercos montados pela polícia, já apanhei da polícia. Já tive amigos que apanharam e foram parar na delegacia e, ao contrário do que pensa, NÃO somos VÂNDALOS. Somos apenas CIDADÃOS preocupados com a sociedade e com o estado que vamos deixar esse mundo para nossos filhos e netos.
Longe de mim prestar o papel de defensora os atos de alguns manifestantes que depredaram o patrimônio público, mas convenhamos: um ponto de ônibus quebrado não significa absolutamente NADA frente aos absurdos que nos são expropriados há séculos.
Não sejamos inocentes acreditando que só o voto é suficiente para mudar a realidade política do país. É claro que através dele vamos retratar nosso pensamento crítico e politizado, mas espere um momento: só alcançamos um nível crítico e politizado quando temos, minimamente, uma educação de qualidade, quando os governos aplicam as boas e já tão conhecidas e velhas ideias iluministas de Rousseau: o governo deve REPRESENTAR o POVO e a EDUCAÇÃO é a BASE de toda SOCIEDADE, servindo para despertar justamente esse senso crítico.
NÃO HÁ o menor interesse político em fazer da educação a base de nossa sociedade. E por quê? Ah, meu caro, uma sociedade crítica dá muito trabalho: ela entende quando não é representada e vai às ruas. Ela LUTA, ela faz barulho, incomoda aqueles que se acomodam com a mesmice, aqueles que seguem no comboio rumo a mais um dia de amanhã que será igual ao ontem e tão monótono e expropriador como é o hoje.
Que me desculpem os conservadores e reacinhas de plantão, mas palavrinhas bonitas não fazem mudanças no mundo. Não as do tamanho que precisamos.
Há séculos, observamos no curso da História que as grandes revoluções só acontecem com o povo nas ruas. Isso assusta. Causa medo, sim, mas temos sempre os corajosos que tomam o front, que se doam às causas da sociedade e é a eles que eu me ajunto. É com a voz deles que eu faço o meu coro.
Quero mais é ver as ruas tomadas. Quero é ver o que a mídia manipuladora e parcial chama de vandalismo, de caos, acontecer todos os dias até que esses políticos que não me representam, nem irão, jamais, representar vejam a força que nós temos. Quero mais é que esses movimentos se espalhem pelo Rio, São Paulo, Juiz de Fora, Porto Alegre e os quatro cantos do meu país e sirvam de exemplo. Que mostrem sem o menor pudor que vivemos em uma sociedade doente e acomodada.
Não se muda o mundo só com palavras. Não se faz revoluções sem que haja enfrentamento. Não se quebram paradigmas sem deixar cacos pelo chão. A paz é o prêmio de quem luta e merece, ao final, o descanso sagrado dos guerreiros que não temem os mandos e desmandos de um governo autoritário, infame e corrupto.
Que me venha a paz, que meu espírito se aquiete, mas que isso só venha após eu ter a certeza de que muito lutei. E que não sejamos ingênuos achando que os omeletes serão feitos sem que os ovos se quebrem.

Todo apoio ao movimento! Todo apoio aos manifestantes! Que a luta venha árdua, porque não calaremos nossa voz, não deixaremos nossos ideais. E porque há o meu direito de representação, o meu direito de expressão e o meu direito de mobilização eu os usarei até o fim.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Leminskyando



Edylane

É dya
de quase frio
é o
o
u
to
    n

        o

Ela dança
girando sua saia
no vento.



(Que Leminski me perdoe!)

O Tempo



No meu relógio o tempo é um tic:
nervoso
um tac:
de porta fechando...
lá se foi ele:
a gente não viu.
Ele não se despediu.

domingo, 9 de junho de 2013

Chuva



Espero pela água que vem do céu para molhar os homens:
Quem sabe ela nos livra do pecado de não enxergar a beleza nos dias?
Quem sabe é da água que virá nossa redenção?
Será de sua transparência que saltará a alegria?
Será de seu cheiro que se inebriará  meu coração?
Se preciso for, farei dança da chuva, batucando um tambor.

Faço de tudo para nesse mundo, espalhar mais amor!

Dias Melhores



Abri por inteiro o meu peito:
Coração era brasa e lá dentro ardia.
Não podia sufoca-lo deitada no leito.
Ter desejos de dias melhores eu ousaria.
O tempo agora demora a passar,
As batidas do relógio seguem um ritmo lento.
Faz um grande silêncio e ouço o meu respirar,
Ele se mistura com a cor do vento.
Para a casa enfeitar, uso flores.
Gosto de seus perfumes e muito mais de suas cores.
Cortinas nas janelas para disfarçar a chuva,
Que mais cedo ou mais tarde romperá as nuvens.

Enquanto isso no sofá, delicio-me com uva.

Mudança



Como se fossem páginas virei meus pensamentos
Redecorei cada canto do novo apartamento.
Esperei todas as luas descerem para o mar
E todos os mares se mudarem para os sertões,
Na esperança de que as pedras parassem de chorar
Todas as minhas lamentações.
Fiz questão de entoar um novo canto,
Desfazendo-me de todo pranto
(A menos que esse fosse de alegria!)
              Olhei no espelho: lá a moça sorria! 

Pretérito Imperfeito



Ela o amava como uma criança,
De olhos fechados, com plena confiança.
Amava-o como se estivesse em um lugar alto,
Pronta para dar um salto:
Chegava a ter uma vertigem
Que sequer sabia a origem.

Ela o amava de maneira incondicional
Como se ele lhe fosse o ar vital.
Era capaz de mover mundos e fundos,
Percorrer quilômetros em segundos.
Por ele jogava-se ao chão,
Deixava até que ele lhe pisasse o coração.

Ela o amava como só se vê nos filmes, sem medida.
E entregar-se assim foi o seu caminho só de ida:
Perdeu-se a si mesma no que achava ser certeza
Seu amor era um rio e ela deixou-se levar pela correnteza.
No fim, sentia-se como um barco á deriva, sem rumo,

E por mais que buscasse nos mapas, não encontrava seu prumo.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sacrifício


*sob a inspiração de The Sacrifice, de Michael Nyman

Sacrifício é doar-se.
É saber-se jamais conhecido.
É levar nos olhos o brilho dos que passam despercebidos.
É confessar o amor jamais sentido,
É sentir o amor jamais confessado.
Sacrifício é a espera de dias que nunca chegam.
São buscas infindáveis por tesouros que não existem.
Sacrifício é ter que andar na lua sem poder ver as estrelas.
É parar na estação só de ida.
Sacrifício é levantar todos os dias e não se sentir amado.
É andar pelas ruas sem rumo,
É não saber qual é o seu lado.
Sacrifício é ter dores lancinantes, negando-se a si
Por saber necessário sangrar.
É abrir o próprio peito e se mostrar.
É correr atrás de sonhos que parecem poeira ao vento
E ter a certeza que só você acredita neles.
Sacrifício é o caminho que trilhamos na busca por dias melhores,
É o trajeto que precisamos cumprir para receber os louros.
Sacrifício é abrir os olhos e enxergar o mundo de outro modo,
É querer mudar, lutar e só depois de muito esforço conseguir.
Sacrifício é o que vem antes de toda vitória:

É abrir mão de um agora para viver um longo depois de glória.

Lobo

*Para ler ouvindo Michael Nyman, The Heart Asks Pleasure First

Corações alvoroçados,
Pensamentos embolados.
Ar que invade o peito, quente.
Tremor de pernas que desequilibra a gente.
Riso que enche os ouvidos:
Amor que se pensa infinito, mesmo sem ter havido.
Uma hora por ser tanto,
Causa espanto...
Vasa pelos poros, salta pela boca
Mas teima em fazer do meu peito sua toca.

E não há escapatória: ele é nosso lobo.


*Feito a partir do desenho de Erich

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Neblina




*Para ler ouvindo Caresse, de Erik Satie.

A neblina adentrou a madrugada
E escondeu o meu sorriso.
Eu ainda o buscava, como menina mimada,
Mas não encontrava o meu riso
Os passos ficaram distantes...
Os beijos não voavam mais pelos ares.
Nada era mais como antes.
Eu era um barco navegando sem mares.
E os planos, onde foi que se perderam?
Perdi-me nos mapas que tracei...
Sou a capitã, mas meus marujos, onde se meteram?
Foram todos embora, só eu fiquei.
O tempo passa e acha graça.
Caminho pela areia, procuro pela água, mas ela não me molha.
Olho a neblina, densa como fumaça.
Assemelha-se a você que já não me olha.
Das mãos que se buscavam
Sobraram os dedos soltos.
Das palavras que se pronunciavam,
Só se ouviram os gritos roucos.
Da lua que nos iluminava,
Só a míngua ficou.
Eu, que menina sonhava,

Percebi que nenhum sonho restou.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Autorretrato II




Pinta os cabelos de vermelhos só pra combinar com as suas unhas e o seu coração. De tanto se esforçar, se assemelha a Sísifo, rola, diariamente, a sua pedra morro acima e a vê rolar para o início impiedosamente, ignorando o seu trabalho que terá de recomeçar.
Quer carregar o mundo e pouco importa se será nos braços ou perdido dentro da enorme bolsa tiracolo – quase um universo paralelo – inseparável. Gosta de abraços e quer abraçar o mundo seja com os braços ou com as pernas. Quer fazer de tudo um pouco, já que o contrário não a satisfaz.
Tem olhos famintos, desejosos de conhecer e captar todo o mundo e suas belezas. Talvez, por isso, tenha tanta pressa. Apronta-se veloz e sai em disparada. Tropeça, se indigna, cai, aprende, levanta, volta a andar e corre: o tempo não para e ela não quer ficar na estação por muito tempo. Sabe bem que a chegada e a partida têm hora marcada e entre um intervalo e outro há vida. Isso ela não pode perder.
É sedenta. Queria poder tomar todas as dores do mundo, acabar com o sofrimento, tirar daqui todo o gosto amargo. Piedade, compaixão ou só mesmo predileção? Não sabe responder... Mas gosta de tudo aquilo que beira os limites e o amargo beira o seu limite de paladar seja ele físico ou o da alma. Gosta do amargo porque ele faz o mel ter uma doçura mais suave, mais bem saboreada, mais sutil em sua língua, para que essa saiba medir as suas palavras, saiba deixa-las mais leves e menos ferinas.
É criativa e criadora. Tem muitas ideias! Planeja cada detalhe e muda de ideia no próximo minuto. Muda o rumo, troca a roupa, passa a música e desiste do filme preferido. Cria o seu próprio mundo e coloca personagens que lhe são importantes em papeis mais importantes ainda, sem que eles mesmos saibam. Sonha com um final feliz, mas nega isso. Nunca se assumiu romântica, não brincava de bonecas e nem se vestia de princesa. Na verdade se diverte quebrando os paradigmas, fugindo de tudo que seja cor-de-rosa e de músicas suaves, mas permite-se ao lilás, aos tangos e às Trois Gymnopédies.
Assume que é forte e ninguém sabe, mas ela chora nas madrugadas. Banca a durona e ri até a barriga doer. Não tem medo de escuro, mas gosta de segurar a mão de alguém quando vai atravessar a rua. Não gosta de silêncio, mas grita silenciosamente, esperando que alguém a ouça. Faz-se de fortaleza, mas desfaz-se a cada onda que visita sua praia, misturando-se às espumas e ao vento.
Já jurou solenemente que não fazia nada de bom. Já orgulhou-se  grandemente por um feito. Já prometeu e cumpriu mesmo quando o esforço lhe doía, mesmo quando a alma sofria, porque mais importante que sua dor é a sua palavra.
Desenhou o seu castelo, traçou o seu caminho e por ser impulsiva jogou tudo pro alto. Sequer ajuntou os papéis. Deu vez à preguiça, ao ócio e escreveu. Perdeu-se em linhas e mais linhas, transferiu para as palavras toda culpa que sentia. Mostrou-se nelas deixando a carne à mostra, mostrando seus ocos, seus vãos e esperava, quiçá em vão, que alguém a conseguisse interpretar, como um livro esquecido na estante empoeirada do tempo.
Escreveu a sua história esperando um grand finale que se perdeu pelo caminho ou foi desfeito pelos seus próprios tropeços e atabalhoamentos. Não desistiu. Seguiu e segue como caminhante à beira da estrada, observando os outros passantes, observando os seus próprios passos, procurando por rastros que a interesse.
Ela é faminta. Tem fome de conhecimento. Devora livros. É insaciável. Come vorazmente dezenas de personagens a cada nova estação. Faz dos autores as suas sagradas companhias de cada dia na casa vazia, deixando-se perdida no quarto dos fundos ou jogada em sua alcatifa, rodeada pelas almofadas. Queria morar dentro de um livro, pertencer a tantas páginas quantas fosse possível, por isso escreve.
Gosta de cozinhar! Tem nas panelas os seus cadinhos. Faz dos temperos uma alquimia. Acha mágica a transformação da comida e brinca com novas receitas que ela mesma inventa. Novos sabores e descobertas, delícias de quem aprecia detalhes.
Busca motivos para sorrir e os encontra. Tem o riso frouxo, largo e divertido. Ilumina o rosto  com o sorriso que é tanto e branco. Mas chora. Vê os dias passarem nas folhinhas dos calendários e não se reconhece nos números perdidos. Perde o sono nas madrugadas e não consegue acordar cedo. Atrasa-se com a frequência de quem não se prende a horários e queria um dia com mais de vinte e quatro horas. Muitas vezes queria parar o tempo, só para não ver o fim de um dia.
É boa de conselhos: arruma e desarruma o problema de qualquer um, menos os seus: “mas eu nem tenho problemas!”, ela diz. Mas sabe que lá no fundo há questões pendentes. E para essas questões há esboços de soluções, planos infalíveis e coragens momentâneas que se esgotam com a brevidade de 3... 2... 1... e já desiste. Assume-se covarde, mas corajosamente paga o preço de suas escolhas, guardando consigo segredos e silêncios, degredos que ela já imaginou ser a sua salvação.
Perde-se nas mesmas velhas músicas, encanta-se com os mesmo velhos amigos e experimenta um vinho novo. Compra vários sapatos e afirma não ter nenhum que combine com a bolsa. Repete os mesmo modelos de vestidos e diz não ter um preferido.
Não ouve música. Sente. Deixa a melodia e a letra entrarem por seus poros. Foi feita de poesia. Gosta do cabelo ao vento, mas os deixa mais crescer. Acostumou-se com a praticidade dos fios curtos. Dança como menina, mas é forte como mulher.

Sente-se cansada, pensa em desistir e desiste. Desiste de desistir! Corre, luta contra o tempo e tira forças de dentro de si mesma. Acostumou-se com o tédio dos fins de semana e a solidão noturna. Fica acordada enquanto todos dormem e acha lindo ver o repouso alheio. Emociona-se com o barulho da respiração. Entende o milagre da vida nessa hora e faz uma prece em nome de quem ama, velando o descanso, o sono, os sonhos. Diz-se bem como está, acha que o mundo anda mal, dá a sua palavra que seu destino será solitário, mas escreve coisas de amor.

domingo, 19 de maio de 2013

Arcana*





Por mais que pareça feliz, que em sorrisos me deleite,
Há aquelas horas de silêncio, de vãos, de não ter você aqui.
O sono não vem, não importando, sequer a hora em que me deite.
Fico pensando em como seria recomeçar essa história a partir daqui.
Quisera eu, flor, desabrochar ao meio-dia.
Pudera eu, boca, falar-lhe em verso e prosa,
Desfazer-me dessa solidão que me vem tão fria,
Por mais que esteja em companhia maravilhosa.
O que trago no peito é arca sagrada, cofre de marfim,
Que guardam palavras que são só suas,
Que encerram amores de um sem fim,
Mas que guardados foram, em segredo, por muitas luas.
Oh, dono de meus pensamentos,
Triste é sonhar com seus olhos, desejar seus beijos e não tê-los.
Doloroso é sussurrar seu nome aos ventos,
Chamando-o, mesmo certa de que não cederá aos meus apelos

Dedicado à história de uma amiga, que como tantas outras tem um amor secreto.
(*Arcana = Segredos)

sábado, 18 de maio de 2013

Arauto





Às vezes gosto de enganar-me:
Faço poses de quem tudo sabe
O que me vem à cabeça sempre é dito,
Ganhando força em meu lábio bendito.

No fundo sei que minhas palavras não são perfeitas.
Mas pouco me importa se não serão aceitas.
Faço uso de toda a minha liberdade:
Ouso falar, gritar, romper a comodidade.

Imponho-me buscando meu lugar no mundo
Dou asas ao meu pensamento fecundo.
Se agrado ou desagrado, não é de minha alçada.

Sigo sendo fiel a tudo o que sinto.
Calar seria perder-me em um labirinto.
Calar seria negar minha natureza apaixonada.

Penejar




Ah, quando escrevo são minhas mágoas,
Fios embolados de um novelo.
Escrevo e livro-me delas como na água:
Afogo-as em um leve desespero.

Escrevo sobre as minhas dores
Para libertar-me de toda ansiedade.
Apego-me às palavras como a meus amores
E ao final de cada texto, já sou só saudade.

Escrevo porque trago o mundo em meu peito:
Porque o sinto vasto e belo e tanto.
E com as suas paisagens meu olhar é cheio:

Quando ele transborda, rola-me o pranto.
Verto lágrimas frias de sal
Que carregam em sai a beleza de um cristal.

Desfiando horas




Ver o tempo correr.
É isso o que mais tenho feito.
Não é por falta do que fazer.
Não é por não gostar de nada.
Ao contrário, faço por gostar.
Desfiar as horas e jogá-las ao vento
Nada mais é do que um prazer.
E essa atividade enche-me de contentamento.
É como se o cair das horas
Funcionasse como renovo de sonhos e esperanças
Penso que a cada volta que os ponteiros completam
Fossem suas pernas com passos lentos,
Decorando cada detalhe do caminho de casa.
Rompendo, suavemente, o limite entre o real e o meu pensamento.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Gris



Foi como se tivessem cortado as amarras. Todas as amarras. De repente ela se sentia meio frouxa, com muito espaço, tendo liberdade para esticar os braços sem esbarrar em ninguém, podendo virar-se para todos os lados sem ter que tomar cuidado para não empurrar pessoa alguma.
Há muito tempo ela sentia-se presa por laços invisíveis e quase infinitos. Era uma quase dependência da presença, do afeto, do sorriso e das canções. Sabia-se livre, mas não sentia a liberdade. Sabia-se solta, mas teimava em não tirar os pés do chão. Sabia-se leve, mas não ousava dar mais do que dois ou três passeios na lua, olhando as estrelas.
Naquela manhã de inverno, gelada como o sembrol, ela caminhou devagar a até a sua janela olhando o vazio. Viu algumas folhas dançando com o vento que anunciava chuva e resolveu tomar uma xícara de chá bem quente.
Cada gole descia-lhe pela garganta aquecendo-a como brasa. E como se fosse uma nova criatura entendeu que por mais que os caminhos se cruzem, raramente as estradas seguem alinhadas uma ao lado da outra.
Desvencilhar-se do que lhe já era habitual era doloroso. Era como se equilibrar no fio de uma faca afiada: ou lhe cortaria os pés ou pularia para fora do penar. Ficar equilibrando-se no rumo do incerto só lhe traria marcas nos pés, dores, um pouco de superação e o gosto pelo desconhecido. Saltar desse caminho poderiam lhe trazer as mesmas sensações, mas com outras possibilidades, novas visões.
Talvez os dias ficassem cinza por algum tempo. Talvez ela fosse tomada de um amargo no canto da boca que lhe impediria de sorrir mostrando todos os dentes, com felicidade plena. Talvez passaria noites acordada, elaborando teorias do tipo “e se...” só pra passar a insônia. Talvez nada disso acontecesse e ela só demorasse um tempo para transformar tudo o que sentia em uma saudade dessas gostosas de se lembrar porque tinha a certeza de ter vivido cada momento. Talvez seria tudo só um talvez. E ela detestava o talvez.
Abriu um livro, acendeu um incenso, olhou pela janela. Pegou um cobertor e entregou-se de corpo e alma ao Walter Scott, sua companhia naquele dia gris e frio.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Anjo de Guarda



Anjo que me guarda,
Que conhece meus caminhos,
Que protege meu coração,
Seja companhia nessa noite.
Seja calor no frio do sembrol.
Seja calmaria no meio de minha tempestade.
Você que tudo sabe, oh, anjo de guarda,
Abra seus braços em conforto,
Acolha-me em sua fortaleza.
Fale-me com sua voz firme,
Inunda-me com sua sabedoria.
Anjo que me guarda do mundo,
Direcione meus sentidos.
Prenda-me em seus abraços.
Mostre-me o melhor caminho,
Alivia todo medo, dúvida e incerteza,
Dando-me a certeza de que os meus passos
Serão sempre acompanhados pelos seus.
Assegurando-me que sempre vai estar aqui,
Lá, acolá, onde eu for,
Porque sua missão é de ser meu protetor,
Meu guardião, meu companheiro.
Anjo que guarda meus sonhos,
Guarda-me de mim mesma,
Toma-me em suas mãos.
Leva-me para onde os ventos são suaves,
Para onde minha estrela brilhe,
Para onde haja felicidade.