Visitas da Dy

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sacrifício


*sob a inspiração de The Sacrifice, de Michael Nyman

Sacrifício é doar-se.
É saber-se jamais conhecido.
É levar nos olhos o brilho dos que passam despercebidos.
É confessar o amor jamais sentido,
É sentir o amor jamais confessado.
Sacrifício é a espera de dias que nunca chegam.
São buscas infindáveis por tesouros que não existem.
Sacrifício é ter que andar na lua sem poder ver as estrelas.
É parar na estação só de ida.
Sacrifício é levantar todos os dias e não se sentir amado.
É andar pelas ruas sem rumo,
É não saber qual é o seu lado.
Sacrifício é ter dores lancinantes, negando-se a si
Por saber necessário sangrar.
É abrir o próprio peito e se mostrar.
É correr atrás de sonhos que parecem poeira ao vento
E ter a certeza que só você acredita neles.
Sacrifício é o caminho que trilhamos na busca por dias melhores,
É o trajeto que precisamos cumprir para receber os louros.
Sacrifício é abrir os olhos e enxergar o mundo de outro modo,
É querer mudar, lutar e só depois de muito esforço conseguir.
Sacrifício é o que vem antes de toda vitória:

É abrir mão de um agora para viver um longo depois de glória.

Lobo

*Para ler ouvindo Michael Nyman, The Heart Asks Pleasure First

Corações alvoroçados,
Pensamentos embolados.
Ar que invade o peito, quente.
Tremor de pernas que desequilibra a gente.
Riso que enche os ouvidos:
Amor que se pensa infinito, mesmo sem ter havido.
Uma hora por ser tanto,
Causa espanto...
Vasa pelos poros, salta pela boca
Mas teima em fazer do meu peito sua toca.

E não há escapatória: ele é nosso lobo.


*Feito a partir do desenho de Erich

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Neblina




*Para ler ouvindo Caresse, de Erik Satie.

A neblina adentrou a madrugada
E escondeu o meu sorriso.
Eu ainda o buscava, como menina mimada,
Mas não encontrava o meu riso
Os passos ficaram distantes...
Os beijos não voavam mais pelos ares.
Nada era mais como antes.
Eu era um barco navegando sem mares.
E os planos, onde foi que se perderam?
Perdi-me nos mapas que tracei...
Sou a capitã, mas meus marujos, onde se meteram?
Foram todos embora, só eu fiquei.
O tempo passa e acha graça.
Caminho pela areia, procuro pela água, mas ela não me molha.
Olho a neblina, densa como fumaça.
Assemelha-se a você que já não me olha.
Das mãos que se buscavam
Sobraram os dedos soltos.
Das palavras que se pronunciavam,
Só se ouviram os gritos roucos.
Da lua que nos iluminava,
Só a míngua ficou.
Eu, que menina sonhava,

Percebi que nenhum sonho restou.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Autorretrato II




Pinta os cabelos de vermelhos só pra combinar com as suas unhas e o seu coração. De tanto se esforçar, se assemelha a Sísifo, rola, diariamente, a sua pedra morro acima e a vê rolar para o início impiedosamente, ignorando o seu trabalho que terá de recomeçar.
Quer carregar o mundo e pouco importa se será nos braços ou perdido dentro da enorme bolsa tiracolo – quase um universo paralelo – inseparável. Gosta de abraços e quer abraçar o mundo seja com os braços ou com as pernas. Quer fazer de tudo um pouco, já que o contrário não a satisfaz.
Tem olhos famintos, desejosos de conhecer e captar todo o mundo e suas belezas. Talvez, por isso, tenha tanta pressa. Apronta-se veloz e sai em disparada. Tropeça, se indigna, cai, aprende, levanta, volta a andar e corre: o tempo não para e ela não quer ficar na estação por muito tempo. Sabe bem que a chegada e a partida têm hora marcada e entre um intervalo e outro há vida. Isso ela não pode perder.
É sedenta. Queria poder tomar todas as dores do mundo, acabar com o sofrimento, tirar daqui todo o gosto amargo. Piedade, compaixão ou só mesmo predileção? Não sabe responder... Mas gosta de tudo aquilo que beira os limites e o amargo beira o seu limite de paladar seja ele físico ou o da alma. Gosta do amargo porque ele faz o mel ter uma doçura mais suave, mais bem saboreada, mais sutil em sua língua, para que essa saiba medir as suas palavras, saiba deixa-las mais leves e menos ferinas.
É criativa e criadora. Tem muitas ideias! Planeja cada detalhe e muda de ideia no próximo minuto. Muda o rumo, troca a roupa, passa a música e desiste do filme preferido. Cria o seu próprio mundo e coloca personagens que lhe são importantes em papeis mais importantes ainda, sem que eles mesmos saibam. Sonha com um final feliz, mas nega isso. Nunca se assumiu romântica, não brincava de bonecas e nem se vestia de princesa. Na verdade se diverte quebrando os paradigmas, fugindo de tudo que seja cor-de-rosa e de músicas suaves, mas permite-se ao lilás, aos tangos e às Trois Gymnopédies.
Assume que é forte e ninguém sabe, mas ela chora nas madrugadas. Banca a durona e ri até a barriga doer. Não tem medo de escuro, mas gosta de segurar a mão de alguém quando vai atravessar a rua. Não gosta de silêncio, mas grita silenciosamente, esperando que alguém a ouça. Faz-se de fortaleza, mas desfaz-se a cada onda que visita sua praia, misturando-se às espumas e ao vento.
Já jurou solenemente que não fazia nada de bom. Já orgulhou-se  grandemente por um feito. Já prometeu e cumpriu mesmo quando o esforço lhe doía, mesmo quando a alma sofria, porque mais importante que sua dor é a sua palavra.
Desenhou o seu castelo, traçou o seu caminho e por ser impulsiva jogou tudo pro alto. Sequer ajuntou os papéis. Deu vez à preguiça, ao ócio e escreveu. Perdeu-se em linhas e mais linhas, transferiu para as palavras toda culpa que sentia. Mostrou-se nelas deixando a carne à mostra, mostrando seus ocos, seus vãos e esperava, quiçá em vão, que alguém a conseguisse interpretar, como um livro esquecido na estante empoeirada do tempo.
Escreveu a sua história esperando um grand finale que se perdeu pelo caminho ou foi desfeito pelos seus próprios tropeços e atabalhoamentos. Não desistiu. Seguiu e segue como caminhante à beira da estrada, observando os outros passantes, observando os seus próprios passos, procurando por rastros que a interesse.
Ela é faminta. Tem fome de conhecimento. Devora livros. É insaciável. Come vorazmente dezenas de personagens a cada nova estação. Faz dos autores as suas sagradas companhias de cada dia na casa vazia, deixando-se perdida no quarto dos fundos ou jogada em sua alcatifa, rodeada pelas almofadas. Queria morar dentro de um livro, pertencer a tantas páginas quantas fosse possível, por isso escreve.
Gosta de cozinhar! Tem nas panelas os seus cadinhos. Faz dos temperos uma alquimia. Acha mágica a transformação da comida e brinca com novas receitas que ela mesma inventa. Novos sabores e descobertas, delícias de quem aprecia detalhes.
Busca motivos para sorrir e os encontra. Tem o riso frouxo, largo e divertido. Ilumina o rosto  com o sorriso que é tanto e branco. Mas chora. Vê os dias passarem nas folhinhas dos calendários e não se reconhece nos números perdidos. Perde o sono nas madrugadas e não consegue acordar cedo. Atrasa-se com a frequência de quem não se prende a horários e queria um dia com mais de vinte e quatro horas. Muitas vezes queria parar o tempo, só para não ver o fim de um dia.
É boa de conselhos: arruma e desarruma o problema de qualquer um, menos os seus: “mas eu nem tenho problemas!”, ela diz. Mas sabe que lá no fundo há questões pendentes. E para essas questões há esboços de soluções, planos infalíveis e coragens momentâneas que se esgotam com a brevidade de 3... 2... 1... e já desiste. Assume-se covarde, mas corajosamente paga o preço de suas escolhas, guardando consigo segredos e silêncios, degredos que ela já imaginou ser a sua salvação.
Perde-se nas mesmas velhas músicas, encanta-se com os mesmo velhos amigos e experimenta um vinho novo. Compra vários sapatos e afirma não ter nenhum que combine com a bolsa. Repete os mesmo modelos de vestidos e diz não ter um preferido.
Não ouve música. Sente. Deixa a melodia e a letra entrarem por seus poros. Foi feita de poesia. Gosta do cabelo ao vento, mas os deixa mais crescer. Acostumou-se com a praticidade dos fios curtos. Dança como menina, mas é forte como mulher.

Sente-se cansada, pensa em desistir e desiste. Desiste de desistir! Corre, luta contra o tempo e tira forças de dentro de si mesma. Acostumou-se com o tédio dos fins de semana e a solidão noturna. Fica acordada enquanto todos dormem e acha lindo ver o repouso alheio. Emociona-se com o barulho da respiração. Entende o milagre da vida nessa hora e faz uma prece em nome de quem ama, velando o descanso, o sono, os sonhos. Diz-se bem como está, acha que o mundo anda mal, dá a sua palavra que seu destino será solitário, mas escreve coisas de amor.

domingo, 19 de maio de 2013

Arcana*





Por mais que pareça feliz, que em sorrisos me deleite,
Há aquelas horas de silêncio, de vãos, de não ter você aqui.
O sono não vem, não importando, sequer a hora em que me deite.
Fico pensando em como seria recomeçar essa história a partir daqui.
Quisera eu, flor, desabrochar ao meio-dia.
Pudera eu, boca, falar-lhe em verso e prosa,
Desfazer-me dessa solidão que me vem tão fria,
Por mais que esteja em companhia maravilhosa.
O que trago no peito é arca sagrada, cofre de marfim,
Que guardam palavras que são só suas,
Que encerram amores de um sem fim,
Mas que guardados foram, em segredo, por muitas luas.
Oh, dono de meus pensamentos,
Triste é sonhar com seus olhos, desejar seus beijos e não tê-los.
Doloroso é sussurrar seu nome aos ventos,
Chamando-o, mesmo certa de que não cederá aos meus apelos

Dedicado à história de uma amiga, que como tantas outras tem um amor secreto.
(*Arcana = Segredos)

sábado, 18 de maio de 2013

Arauto





Às vezes gosto de enganar-me:
Faço poses de quem tudo sabe
O que me vem à cabeça sempre é dito,
Ganhando força em meu lábio bendito.

No fundo sei que minhas palavras não são perfeitas.
Mas pouco me importa se não serão aceitas.
Faço uso de toda a minha liberdade:
Ouso falar, gritar, romper a comodidade.

Imponho-me buscando meu lugar no mundo
Dou asas ao meu pensamento fecundo.
Se agrado ou desagrado, não é de minha alçada.

Sigo sendo fiel a tudo o que sinto.
Calar seria perder-me em um labirinto.
Calar seria negar minha natureza apaixonada.

Penejar




Ah, quando escrevo são minhas mágoas,
Fios embolados de um novelo.
Escrevo e livro-me delas como na água:
Afogo-as em um leve desespero.

Escrevo sobre as minhas dores
Para libertar-me de toda ansiedade.
Apego-me às palavras como a meus amores
E ao final de cada texto, já sou só saudade.

Escrevo porque trago o mundo em meu peito:
Porque o sinto vasto e belo e tanto.
E com as suas paisagens meu olhar é cheio:

Quando ele transborda, rola-me o pranto.
Verto lágrimas frias de sal
Que carregam em sai a beleza de um cristal.

Desfiando horas




Ver o tempo correr.
É isso o que mais tenho feito.
Não é por falta do que fazer.
Não é por não gostar de nada.
Ao contrário, faço por gostar.
Desfiar as horas e jogá-las ao vento
Nada mais é do que um prazer.
E essa atividade enche-me de contentamento.
É como se o cair das horas
Funcionasse como renovo de sonhos e esperanças
Penso que a cada volta que os ponteiros completam
Fossem suas pernas com passos lentos,
Decorando cada detalhe do caminho de casa.
Rompendo, suavemente, o limite entre o real e o meu pensamento.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Gris



Foi como se tivessem cortado as amarras. Todas as amarras. De repente ela se sentia meio frouxa, com muito espaço, tendo liberdade para esticar os braços sem esbarrar em ninguém, podendo virar-se para todos os lados sem ter que tomar cuidado para não empurrar pessoa alguma.
Há muito tempo ela sentia-se presa por laços invisíveis e quase infinitos. Era uma quase dependência da presença, do afeto, do sorriso e das canções. Sabia-se livre, mas não sentia a liberdade. Sabia-se solta, mas teimava em não tirar os pés do chão. Sabia-se leve, mas não ousava dar mais do que dois ou três passeios na lua, olhando as estrelas.
Naquela manhã de inverno, gelada como o sembrol, ela caminhou devagar a até a sua janela olhando o vazio. Viu algumas folhas dançando com o vento que anunciava chuva e resolveu tomar uma xícara de chá bem quente.
Cada gole descia-lhe pela garganta aquecendo-a como brasa. E como se fosse uma nova criatura entendeu que por mais que os caminhos se cruzem, raramente as estradas seguem alinhadas uma ao lado da outra.
Desvencilhar-se do que lhe já era habitual era doloroso. Era como se equilibrar no fio de uma faca afiada: ou lhe cortaria os pés ou pularia para fora do penar. Ficar equilibrando-se no rumo do incerto só lhe traria marcas nos pés, dores, um pouco de superação e o gosto pelo desconhecido. Saltar desse caminho poderiam lhe trazer as mesmas sensações, mas com outras possibilidades, novas visões.
Talvez os dias ficassem cinza por algum tempo. Talvez ela fosse tomada de um amargo no canto da boca que lhe impediria de sorrir mostrando todos os dentes, com felicidade plena. Talvez passaria noites acordada, elaborando teorias do tipo “e se...” só pra passar a insônia. Talvez nada disso acontecesse e ela só demorasse um tempo para transformar tudo o que sentia em uma saudade dessas gostosas de se lembrar porque tinha a certeza de ter vivido cada momento. Talvez seria tudo só um talvez. E ela detestava o talvez.
Abriu um livro, acendeu um incenso, olhou pela janela. Pegou um cobertor e entregou-se de corpo e alma ao Walter Scott, sua companhia naquele dia gris e frio.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Anjo de Guarda



Anjo que me guarda,
Que conhece meus caminhos,
Que protege meu coração,
Seja companhia nessa noite.
Seja calor no frio do sembrol.
Seja calmaria no meio de minha tempestade.
Você que tudo sabe, oh, anjo de guarda,
Abra seus braços em conforto,
Acolha-me em sua fortaleza.
Fale-me com sua voz firme,
Inunda-me com sua sabedoria.
Anjo que me guarda do mundo,
Direcione meus sentidos.
Prenda-me em seus abraços.
Mostre-me o melhor caminho,
Alivia todo medo, dúvida e incerteza,
Dando-me a certeza de que os meus passos
Serão sempre acompanhados pelos seus.
Assegurando-me que sempre vai estar aqui,
Lá, acolá, onde eu for,
Porque sua missão é de ser meu protetor,
Meu guardião, meu companheiro.
Anjo que guarda meus sonhos,
Guarda-me de mim mesma,
Toma-me em suas mãos.
Leva-me para onde os ventos são suaves,
Para onde minha estrela brilhe,
Para onde haja felicidade.

quinta-feira, 7 de março de 2013

O nascer do sol, mais um dia!

              

              É assim que surge uma nova página de nossas vidas, que chamamos de dia: as nuvens amanheceram lilases, cansadas de seus brancos tradicionais; algumas mais petulantes desfilavam rajadas de laranja. Logo cedo a cabeleira do sol, ainda desgrenhada, porque ele havia acabado de acordar, se misturou às nuvens já coloridas e em pouco tempo estava tudo muito claro. 
              O sol, esse menino meio sapeca, meio bronzeado e bronzeador não queria ir embora, mas depois de ter brincado de "boca de forno", colocando-nos quase que nas próprias brasas, tamanho era calor, ele desistiu e foi dormir. 

              (É que as crianças também se cansam!!) 

              A dona lua já está por aqui, mas ainda carrega o calor de todo o dia... Ela é moça jovem pra casar: desfila com seu vestido cravejado de pequenos brilhantes, as tais das estrelas. Dizem que ela olha para a Terra procurando o seu amor, mas só encontra os olhares dos poetas.

terça-feira, 5 de março de 2013

Nem sei se quero...


Foto: Dy Eiterer por Sarah Azavezza

Tem gente que reclama do sol
Eu escuto um rock'n'roll
Tem gente que reclama da chuva
Eu faço piadas sobre casamento de viúva
Tem gente que faz poesia
Eu escrevo tudo que posso, pra folha não ficar vazia!
Alguns poetas escolhem suas rimas com esmero
Eu nem sei se é uma rima que eu quero!

Escrever é uma saída,
Uma fuga,
Uma luta:
A tinta teima e mancha o papel
A palavra teima e escapa pela boca
Minha alma se mostra nas entrelinhas.

(Só pra constar: a trilha sonora da composição é Alexandre Nero e Maquinaíma)

Versos





E sobre os meus versos:
Às vezes nascem em meu silêncio
Em outras saem dos meus gritos
Mas eu gosto mesmo é de ver
O movimento dos lábios a declamar!
Eu gosto mesmo é de ouvir
Aqueles versos que eu fiz...
Ganhando vida em uma voz rouca.
Poesia é mesmo uma coisa louca

segunda-feira, 4 de março de 2013

Verde




Sempre que olho nos meus próprios olhos
Me perco e te acho,
Mas se as cores não são as mesmas,
Por que as lembranças seriam?
Deve ser a cor dessa manhã
Deve ser o ritmo da sua última manha
Ai de mim que me perco pra te achar...
Ai de mim que amo o teu verde,
Sendo fruta quase madura.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Chão




Tenho livros que já não cabem na estante.
Tenho ideias que não ficam quietas dentro da cabeça,
Antes que eu me dê conta a boca fala:
Despeja todas as minhas palavras,
Esvazia o coração.
E a alma? Essa ficou toda exposta, estirada no chão...
– Deus me ajude que ninguém a pise!

Escape



Preparo-me pra dormir
Puxo o cobertor e fecho os olhos...
A caneta salta em cima da mesa
As folhas de papel voam pelo quarto.
Permaneço calada, mas as palavras me gritam.
Não fui eu quem escolheu a poesia:
Ela é que faz de mim o seu escape!

Rio de Janeiro ou de Março?


“O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro, fevereiro e março...”






O Rio é de Janeiro, mês em que eu me preparei para me mudar e ser recebida pelos braços abertos do Cristo Redentor há alguns anos atrás...
O Rio é de Fevereiro, mês que me mudei para a cidade Maravilhosa, mês do carnaval, de sol, de sal, de mar...
O Rio é de março, primeiro de março! Completando hoje seus 448 anos de existência, charme e encantamento sobre os seus cariocas, privilegiados por nascerem na terra onde os 3 “s” são constantes (Samba, Sol e Sal) e, claro, sobre aqueles que não nasceram em suas terras, mas tiveram o prazer de conhecê-la!
O Rio de Janeiro é balanço bom, samba-rock-bossa-blues que se reflete no andar dos cariocas: elas a balançar as barras de suas saias pela orla da Barra, Ipanema ou Copa ou ainda distraídas pelo Passeio (Público) num fim de tarde. Eles com sua malandragem, jeito gingado e atraente com suas pranchas, bermudões ou devidamente engravatados, na correria frenética que nos embala.
Ah, o Rio de Janeiro... se eu pudesse não ia nunca deixar esse lugar pra trás... ou melhor: puxaria seu mar pra mais perto das Minas Gerais! Tomaria um mate gelado com meu ‘pãdiquêjo’ sentada em uma montanha, molhando meu pé no seu mar!
Se eu pudesse nunca mais esquecer os momentos que passei aqui... não perder nenhum instante, nenhum lugar que visitei, meus olhos famintos de novidades e brindados a cada piscada com o novo!
Terra de samba... muitas rodas de samba! De cerveja gelada, de amigos animados!
Terra de suor... de gente que levanta cedo pra trabalhar, pra estar lá quando a gente vai por trabalho!
Terra que não dorme nunca! Seja em sua vida boêmia, seja em seus braços trabalhadores. A engrenagem não pode parar. Nossos sonhos têm que continuar e lá se vai o Rio de Janeiro os embalar!
Terra de história! De museus maravilhosos onde o cheiro dos séculos passados ainda está preso nas cortinas de veludo e brocado e os passos ecoam nas tábuas corridas de seus corredores.
Terra das artes, das belas! Onde desfilam por nós Tarsila, Pedro Américo, Niemeyer, Portinari, Rembrandt e Renoir, Burle Max e Mestre Valentim.
Terra de mares... É o Rio que navega pro mar ou é o mar que não resiste e joga as suas ondas para o Rio? Paixão recíproca entre o azul profundo e o laranja dourado, que doura as peles, aquece os corações e faz de nosso despertar um eterno carnaval, essa folia que se dá no peito cada vez que amanhece mais um dia.
Rio de ventos e velas, de mansões e favelas, de gente nova e velha, que mescla sentimentos e emoções, que acolhe, que aquece, que entorpece!
Ao Rio dos meus encantos, de janeiro, fevereiro, de todo ano, que seus 448 anos sejam saudados por todos que te conhecem e que te amam!
Que seu encanto não permaneça, aumente!
Que o mundo te conheça e se apaixone!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Metade



Acordei pela metade. Era como se o dia não fosse meu. Olhei à volta e era tudo tão igual, tão do jeito que eu havia deixado antes de me deitar, mas ao mesmo tempo tudo tão diferente, tão sem as minhas marcas... Achei melhor fechar os olhos e contar até dez... Nove... Oito... Sete... Chega! Isso não ia funcionar e, de qualquer maneira, era melhor levantar.
Coloquei o pé no chão. Era o esquerdo. E daí? Detesto convenções. Essa coisa de acordar com o pé direito é baboseira. Levantei. Eu estava pela metade. Nada fazia sentido completo. Nada era capaz de me preencher.
Olhei no espelho: os olhos estavam mais profundos. Mais provocadores. Mais questionadores e me cobravam muito mais do que eu mesma poderia suportar. Ali mesmo decidi me reinventar.
Rasguei-me por completo: o que era metade virou migalhas. Em poucos instantes eu estava em cacos. Como pequenos pedaços de papel decidi não me colar, mas me queimar.  Peguei um fósforo e ateei o fogo. Ah, o fogo... rapidamente me consumiu. Ardeu em mim e deixou-me em brasa, tão quente quanto o sol que brilhava lá fora. Não virei cinzas. Virei a própria brasa. Dessas que não se apagam, que esperam pra incendiar outra vez. Que podem aquecer em uma lareira ou destruir uma vila inteira.
Matei-me. Era impossível continuar a viver sentindo-me pela metade. Era impossível continuar sem saber o que faltava. Restava agora um meio de me fazer nova. De me (re)viver. Do que havia sobrado do incêndio fiz meu pão. Eu, enquanto brasa, aqueci meu sangue novamente. Deixei-o fervente, para que ao percorrer as minhas veias pudesse me encorajar.
Travei uma guerra comigo mesma, lutando contra tudo de morno que fui ajuntando nos cantos da vida. Travei uma batalha contra os entulhos de pessoas que não me acrescentam. Empunhei a espada para dissipar todo resquício de lágrimas que ficaram paradas no canto de meus olhos, empoçadas pelo caminho. Chorei por ter chorado. Briguei com a tristeza que me assolava. Quebrei-a como um cristal e joguei fora seus cacos.
Bebi uma dose de meu próprio veneno que se fez antídoto: provei da dor que já causei, sofri com as dúvidas que semeei, petrifiquei-me com o desprezo que lancei. Como me matei, me revivi. Como me envenenei, me curei. Ergui-me diante de mim mesma mais forte, mais decidida, mais cheia de mim e de gana.
Em meio a minha própria guerra trouxe-me a paz que já habitava meu coração, porque sou fera, sou escorpião, mas também sou mulher e sei ser anjo. Oscilo entre a razão e a paixão, entre o medo e a coragem, entre o riso e o choro, entre o quente e o frio. Jamais me equilibro. E gosto dos extremos. O limiar das fronteiras é mais bonito se visto bem de perto. Assim como os olhos de quem se aproxima.
Hoje acordei e estava pela metade.
Hoje me matei e me reconstruí.
Hoje me refiz e me preenchi comigo mesma.  Descobri que toda calma é santa, que nem toda loucura é vã. Descobri que meu céu pode ser um inferno e que as palavras me aliviam e me sufocam, me libertam e me aprisionam.
Hoje respirei fundo e descobri que mesmo sendo curta, a vida pode ser tanta...