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terça-feira, 11 de junho de 2013

O Drama da Classe Média



Pouco mais de 10h da manhã e eu, ainda sonolenta no meu dia de folga, resolvo correr os olhos nas notícias do dia.
O primeiro baque vem ao abrir o site do blog Limpinho e Cheiroso que traz a matéria do dia 02 de junho (eu sei que estou lendo com atraso, mas convenhamos, não acompanho porcarias!) da Revista Época. A matéria se refere ao Drama da Classe Média. O resumo da ópera: gente com renda familiar entre 8 e 15 mil reais por mês, chorando as pitangas porque não pode pagar míseros 800 reais no salão de beleza, não pode mais frequentar restaurantes e cinemas todas as noites, não pode mais sair pra beber com os amigos. A choradeira se dá, segundo a revista devido aos muitos erros do governo em sua política econômica.
Sim, é triste. É de doer. Cheguei a chorar. Especialmente quando vi que a mesada da filha de 15 anos do casal que mais chora SÓ ganha 500 REAIS DE MESADA ao mês. Um minuto, por favor, escorrem-me lágrimas... só que é em face da minha desvalorização, da minha tristeza. A boneca aí ganha mais pra comprar balas e doces e telefones da modinha do que eu para cuidar da educação de crianças... como ela!
Sinceramente, isso acaba com a semana de qualquer brasileiro que, como eu, se mata de trabalhar em um emprego e vários “bicos” pra aumentar a renda-nossa-de-cada-mês honestamente. A conta do salão de beleza da moça é quase o meu salário como professora!
Não posso recolher-me em minha indignação e ficar calada. Penso que devemos nos mostrar mais: é uma afronta que tenhamos que ler esse tipo de coisas em nossas bancas e bater palmas.
Chegamos ao limite da abominação política, ética e cognitiva, como bem nos diz Marilena Chauí. A Classe Média perdeu o (bom)senso há tempos, talvez lá nos idos do século XVIII quando ousou clamar por liberdade, igualdade e fraternidade, mesmo assim, bem sabemos (que me ajudem os amigos historiadores) a história não foi bem essa, e cabeças rolaram quando os tais trabalhadores sonharam que estavam incluídos no novo projeto de mundo liberal.
Ao ver essa matéria percebo claramente que estão, mais uma vez, colocando-nos (sim, nós, os trabalhadores que não chegamos ao patamar de semideuses da classe média) no lugar de pobres miseráveis, condição eterna que fazem questão de reforçar de tempos em tempos. Ainda me indigno, mas não me assusto mais. Já tornou-se comum o discurso pronto para nos confirmar na situação da miséria, da linha da pobreza, daqueles que (sobre)vivem de teimosos que são ou será que é porque são “brasileiros e não desistem nunca”?
Não estou aqui dizendo que quem conseguiu alcançar um salário de 8 mil mensais esteja errado e nem possa gastar o seu vintém como lhe convém, mas por favor, fazer drama onde não há é, no mínimo, desrespeito com o meu suor, pago com poucos cobres e não é por falta de estudo, não é por falta de vontade, é por outro problema, denunciado mais à frente, com outra notícia, que me deixou mais perplexa ainda.
O site Ecaderno trouxe na manhã de hoje uma notícia da Revista Forbes, na qual estão listadas as 10 profissões menos promissoras (que fique claro que os parâmetros são os EUA, mas não deixa de se refletir no Brasil).  
(Não deixe seu filho escolher uma delas ou ele não chegará à casse média!)
Não fiquei surpreendida dessa vez, mesmo vendo a minha profissão – historiadora e professora – figurar na lista. Não me surpreendeu que várias outras profissões que se voltem para a educação estejam na lista dos EUA e que poderia facilmente ser encaixada no contexto brasileiro, e sabe por quê? Explico:
Porque não me admira que cada vez mais desvalorizemos as profissões que visem nossa formação crítica. Quem vai se compadecer dos pobres coitados da revista Época se todos forem capazes de criticar a situação vivida? Primamos pelo comodismo, pela vida longa das vacas-de-presépio que só aceitam, aceitam, aceitam.
Em tempos de dramas da classe média, quem critica e se expõe é pseudointelectual, é “comuna”, é “do contra” ou só chato mesmo.
Quem vai dar trela para todo esse blá-blá-blá de que o atual governo federal cometeu erros que fazem a classe média penar se forem capazes de analisar o conjunto das medidas político-econômicas que foram feitas no Brasil nos últimos anos e notar os visíveis avanços? Longe de mim fazer apologias partidárias ou políticas, mas o fato é que se a classe média padece, coitadinha, mais brasileiros têm novas oportunidades. (Mas isso é assunto pra outra hora.)
Sou professora e acompanho nossas lutas diárias pelo aumento do salário, pela valorização, pelos incentivos à carreira e não posso negar que temos alguns avanços. Não posso negar também que me entristece muito ver minha profissão na lista das menos promissoras, mas é sinal que nós, professores, fazemos o nosso trabalho direitinho, incomodamos. Precisamos seguir nesse caminho e reverter a situação, sim, mas com a certeza de que nossos esforços rendem alunos mais críticos.
A lista deprimente serve para mostrar que há muito pelo que lutar ainda, especialmente pela nossa valorização, mas me dá a certeza de que eu não sou mais uma a me calar diante dos lixos editoriais que vejo pelas bancas esparramados aos montes nas páginas da revista VEJA, ÉPOCA, ISTO É. E porque há o meu direito de me expressar, escrevo. E quem não gostar, que feche as páginas.

O Drama da Classe Média
As Dez Profissões Menos Promissoras

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