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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Oswaldo Montenegro - Malandro




Era uma festa de aniversário comum. Eu fazia 8 anos. Ninguém é tão adulto quanto alguém com 8 anos de idade. As calças curtas absurdas de inconsistência e incoerentes com a minha pose, postura e alma adulta dos meus 8 anos.
Papai Noel era óbvio que não existia. Eu não era nenhum bobo. Eu tinha 8 anos. Até porque ninguém sabia que eu morria de medo dos meus pais morrerem, de trovão e do Júnior (que era um cara que batia me todo mundo lá na minha turma). Escondidos no meu coração de menino os medos saltavam como bolas, mas por fora, por fora eu era um homem.
Se meus dentes de leite já haviam caído e se o definitivo não havia nascido eu não ria mais e pronto! Eu já tinha 8 anos. É por isso que eu achei bobeira aquele filme que escolheram pra minha festa. Aquele vagabundo de bigodinho, bengala, era bobo. Se sujava na lama, tropeçava, tacava torta na cara de todo mundo e quando sorria, ah, quando ele sorria me dava uma vontade de chorar que eu odiava. Logo eu, um homem feito de 8 anos chorando, que raiva! Eu olhava aquele filme chateado, deprimido: eu não vou chorar!
Na minha frente meu avô sério, careca, seco e minha avó triste, sempre concentrados. Meus avós pareciam mordomos de filmes, empertigados, sem emoção nunca, nunca não, não, nunca não. Olhando aquele vagabundo de bigodinho e chapéu coco e bengala se dobravam de rir, riam alto, de dar vexame. E eu vi pela primeira vez eles se darem as mãos. E aí eu chorei. Logo eu, um homem, que ódio daquele vagabundo de filme. Ele me mostrava sem pena que a ternura ia me acompanhar pra sempre nessa miserável raça de adultos na qual eu julgava ter ingressado nos meus 8 anos.
As lágrimas escorreram, aí eu suguei com a minha boca sem dente e ninguém viu. Graças a Deus, ninguém me viu chorar, porque todos, mas todos morriam de rir enquanto suas almas davam as mãos a qualquer avó e a qualquer amor que ainda existisse.

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