Visitas da Dy

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Esquizofrenia Coletiva




Estamos vivendo no mundo das comunicações. Por todo lado há informação saltando aos nossos olhos. Querem nos vender, a todo custo, uma felicidade enlatada, como as sardinhas no mercado ou como nós mesmos quando estamos indo ao trabalho no ônibus ou metrô lotado.
Querem nos fazer acreditar que assim, como sardinhas – sem cabeças – seremos felizes. Fazem um grande esforço para nos convencer disso: gastam seu latim, seu inglês e suas cores para isso. E conseguem.
Quem de nós nunca comprou algo que não precisava? Sou capaz de ajuntar uma caixa cheia de quinquilharias modernas que não uso pra nada e, sinceramente, não sei porque comprei.
O uso da tecnologia acaba sendo isso: quantas redes sociais nos são anunciadas diariamente? Prendemo-nos na mais famosa dos últimos dois anos, mas quem garante que na virada da meia-noite um outro sortudo não ganhe destaque e vire a bola da vez?
O uso da tecnologia nos enche com seus barulhinhos, seus aplicativos e gadgets e nos esvazia de nós mesmos. Tenho uma teoria: a sociedade anda esquizofrênica, todos nós – e ‘nós’ me inclui!
Andando pelas ruas é muito fácil encontrar pessoas, mas não vejo mais gente. Essas pessoas, pobres coitadas, estão cada dia mais escravas de suas pseudo-obrigações com o mundo virtual e esquecem-se de seu mundo real. Observe a cena:
Em uma mesa de bar, duas pessoas sentam-se para almoçar e, com sorte, apenas uma delas enquanto o garçom não traz a refeição vai se conectar a internet para fazer o seu famigerado check-in no restaurante, ignorando por alguns minutos a sua companhia real. Se tudo der certo, em mais alguns minutos a dupla tirará uma foto, sorridente, aplicarão um filtro – para dar um ar maior de felicidade – e postarão como a vida é bela em plena segunda-feira-casca-grossa-dura-de-aguentar.
Sim, meus caros, a vida é bela, só que não! É, na verdade Central do Brasil! Uma central onde passamos correndo todos os dias pelos outros e não damos bom dia, não sorrimos mais. Já fizemos isso no facebook e nos desobrigamos às gentilezas tão comuns até o início do século XXI.
Sofremos de uma esquizofrenia e de uma depressão coletiva quando priorizamos congelar um sorriso falso, amarelo e semipronto que ensaiamos no espelho e disparamos sempre que alguém diz: “foto!” e automaticamente completamos a frase com “shop” e pensamos logo se o resultado final com o aplicativo photoshop irá nos fazer mais bonitos, salientando nossas curvas, nossos olhares e nosso belo sorriso sem graça. Se o resultado for bom vai para o mural, ganha destaque e vamos ver quantos “curtir” eu ganho.
Curtir... a vida se pauta em curtidas! Mas não falamos mais com a gostosa ideia de sair por aí aproveitando a vida, dando gargalhadas reais, com amigos reais, em noites quentes e com músicas e abraços de verdade. Agora nos pautamos nas curtidas virtuais: nunca um dedinho polegar levantado teve tanta importância para uma sociedade da informação e informatizada.
Uns chamam isso de progresso. Eu chamo de retrocesso. Que me adianta ter mil dispositivos onde as pessoas – e eu mesma – posso curtir, se curtir não tem mais o mesmo sentido?
Estamos vivendo uma depressão coletiva, onde nos afastamos dos outros e de nós mesmos, prendendo-nos no nosso fantástico mundinho pessoal, longe das pessoas e de toda a sorte de sentimentos bons e ruins que poderíamos viver.
Repito: estamos esquizofrênicos! Tornamo-nos pessoas e não mais gente. Tornamo-nos sorrisos foscos. Perdemos o calor, o brilho, a alma. Estamos em tempos de grandes exposições, mas expomos só a nossa embalagem. Esquecemos o conteúdo, que era a melhor parte. Estamos criando armadilhas para nós mesmos, estamos nos atocaiando e não damos conta. Reservamos para nós dias de solidão e não nos damos conta disso.
Tenho medo das pessoas que vejo pelas ruas, de seus vazios, seus olhares transparentes, seus sorrisos mecânicos e seus bom dias protocolares. Tenho medo do que estamos nos transformando. Tenho medo do que vou ver no espelho daqui há alguns anos... não quero ser estanque enquanto a vida passa. Não desejo e nem mereço isso. Não merecemos.
Que nossos corações resistam. Que nossas almas não se entediem de nós e que não nos abandonem em nossa imperfeição e mediocridade. Nós apenas sonhamos em ser melhores, por mais que isso implique em nos tornamos piores.

2 Comentários:

nani disse...

Belo retrato da sociedade dito em palavras suaves...

Dy Eiterer disse...

Ah, obrigada pela gentileza!

Postar um comentário