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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Respeite o professor!


É sexta-feira de carnaval, em Campinas o sol esteve presente todo o dia assando os pobres mortais que tinham que trabalhar com a cabeça na folia do sim de semana mais prolongado e mais esperado desde março do ano passado, quando foi o último carnaval.

Como não gosto do reinado de Momo, peguei meus textos e fui estudar. Tenho prazos a cumprir no mestrado, muito mais pela pressão que a CAPES, que “gentilmente” me concede uma bolsa de R$1200,00 mensais para eu estudar, comprar livros, pagar aluguel e contas públicas – morando no Rio de Janeiro – e ainda pagar as caríssimas inscrições no 357 congressos anuais que preciso participar para registrar a minha produção acadêmica.

Uau! Quantos artigos publicados preciso ter? Quantos possíveis! Ainda que eu só troque os seus título, que só troque a ordem dos parágrafos e siga numa ciranda do auto plágio eterna. São textos e mais textos que pouca – ou nenhuma – gente lerá, mas é preciso produzir. É preciso terminar o mestrado para poder consegui um emprego melhor, uma oportunidade de ter um bom salário. Essa é a expectativa que temos ao ingressar na vida acadêmica.

Nós, quem, cara pálida???

Pra buscar uma distração entro no Facebook e vejo uma imagem absurda: um concurso público no município de Vila Rica, Moto Grosso, Brasil, oferece vagas para cidadãos com o ENSINO FUNDAMENTAL INCOMPLETO e para os que têm ENSINO SUPERIOR COMPLETO. Até aí está perfeito! É uma prefeitura fazendo a sua parte e colocando em seus quadros para exercer as funções públicas pessoas de grau de instrução variado. Democrático, bonito, garante o direito de muitos cidadãos a, pelo menos, tentar ingressar numa carreira relativamente estável.

O meu problema não é com o edital, longe disso. Acredito realmente que devem-se criar mais oportunidades como essa. O meu problema é com a faixa salarial apresentada para cada função.

O indivíduo que for aprovado para ser “operador de escavadeira hidráulica” receberá ao final do mês a quantia de R$1291,98 como remuneração ao final de suas 40 horas de suor semanais. O mesmo valor está garantido para os colegas que trabalham como operadores de máquinas de esteira, torneiros mecânicos e operadores de motoniveladoras. Todos estes devem ter APENAS o ENSINO FUNDAMENTAL INCOMPLETO.

Já para os meus colegas de profissão, os professores, que devem ter no MÍNIMO uma GRADUAÇÃO, ou como expresso no edital curso SUPERIOR COMPLETO, receberão um salário de R$1246,32, por 30 horas semanais de trabalho.

Existe pelo menos UMA incoerência nesses valores salariais, isso porque não quero me estender nessa discussão.

Não discuto aqui a “nobreza” ou a importância do trabalho de nenhuma das categorias, mas defendo a minha com unhas e dentes.

É inadmissível que um professor que passe por anos de estudo a fio, que mesmo depois de deixar os bancos da universidade não para de estudar, porque, se for um bom profissional e levar seu trabalho a sério vai sempre querer levar o melhor de si para seus alunos, ganhe MENOS do que um profissional, que sim, tem todos os méritos de sua profissão, mas que se quer terminou o ensino fundamental.

Acorda, Brasil! Desse jeito o que temos é um processo absurdo de desvalorização do profissional da educação, que todos nós que trabalhamos na área conhecemos e que explicitamos das mais diversas formas, mas agora fica mais evidente a sua INSTITUCINALIZAÇÃO!

Uma prefeitura que desvaloriza o seu professor dessa forma, deve rever seus conceitos.

O salário oferecido é baixo para qualquer categoria. Quero ver se nossos representantes das câmaras, dos senados conseguiriam se manter com exatos R$41,56 por dia como remuneração, tendo que pagar aluguel, água, luz, comida, roupas. Quero ver o que eles diriam ao ter que ver seus filhos pedindo um brinquedo que não poderiam comprar. E aqui, estou sendo muito generosa com as contas que um pai de família honesto deve pagar todos os meses em nosso país, porque levo em consideração que a saúde pública e o ensino gratuito são inquestionáveis e atendem bem a sociedade. Se eu for contar que nosso trabalhador paga um plano de saúde e uma escola particular esses valores citados não dão nem para os três primeiros dias do mês.

Um país que vira as costas para aqueles que formam os seus cidadãos ainda não aprendeu que estão no caminho certo: o caminho certo para permanecer vinculado às grandes economias mundiais, sendo explorados, sendo cada vez diminuídos, colocados em segundo plano.

Temos que fazer o caminho errado! Temos que incentivar a educação e suas aplicações. Um país que tem cidadãos letrados não perde nunca: só ganha! Ganha indivíduos que pensam a sua política e ajudam a controlar as picaretagens, as falcatruas, a eliminar a corrupção.

Um país que valoriza os seus professores cresce em todos os sentidos: passa a ter mentes brilhantes atuando para o seu próprio benefício com descobertas intelectuais, científicas, econômicas e sócias.

Temos que percorrer o cainho errado. Aquele que não é falado nos canais de televisão, aquele que nos ensina a ler bons livros e a travar um bom debate questionador, que nos faz desenvolver a crítica e o pensamento.

Enquanto seguirmos no caminho que os outros dizem ser o certo, continuaremos com essa postura natalina: de vaca de presépio, que balança a cabeça e rumina o seu feno tacitamente.

Chega!

Quero valorização profissional: para mim, para meus colegas de profissão – que mais do nunca o fazem por amor, por amor ao conhecimento, por amor aos SEUS FILHOS, porque acreditam que têm um papel na mudança da sociedade; quero valorização para o gari que trabalha nas madrugadas para que às 6 da manhã quando eu for passar para ir trabalhar a rua esteja limpa, porque outros cidadãos ainda não aprenderam que o lixo se joga no lixo e não nas ruas ou nas urnas. Quero valorização para todos os profissionais que se doam para que essa máquina chamada Brasil cresça e que chegue a ser a 6ª maior economia do mundo, mas com uma divisão justa de seus ganhos.

Sim, concordo que tivemos um grande avanço nos últimos anos, mas ainda temos muito a fazer.

É hora de começarmos a lutar por uma política mais justa para todas as categorias, mas principalmente para nós, professores, que somos a base para TODAS as profissões, ou alguém aí já viu um médico, um engenheiro, um político que não teve um professor?

Façam-me o favor de respeitar a profissão que escolhi.

Façam-me o favor de valorizar aquele que passa mais horas com o seu filho do que você mesmo.

Façam-me o favor de acabar com essa imoralidade. Isso ofende. Isso dói. Isso não é papel para ser exercido por ninguém, muito menos pela máquina estatal, que deveria agir em benefício de seus cidadãos e não de si própria.

Estou indignada. E tenho dito.


Link para acessar o tal edital: http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.consulplanmg.com%2Fconcursos%2Fconcurso.php%3Fid%3D334&h=RAQHKLAyp

1 Comentários:

Hilda Kriger de Lima disse...

Muito bem, concordo com tudo o que foi dito pela colega, precisamos valorizar a nossa profissão.

Prestem atenção, está em tramite na Camara dos Deputados o projeto de Lei 2435/2011 que regulamenta a atividade de tutoria na Educação a Distância. Essa lei, se aprovada vai criar uma profissão isolada da profissão de professor e oficializará os baixos salários percebidos pelos tutores, consultem o blog: http://joaomattar.com/blog/2012/02/22/pl-24352011/#comment-66165.

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