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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Aos que se foram

              Para ler ouvindo Comptine d'Un Autre Été - O Fabuloso Mundo de Amelie Poulin





E ontem, dia que dedicamos aos nossos queridos que se foram de nossa companhia,  o dia foi longo, mais cinza e cheio de uma saudade angustiante, saudade que sei não poder matar de imediato.
A casa vazia ficou ainda maior. A cortina que balançava como vento que entrava pela janela aberta dava a impressão de que a qualquer momento eu poderia de novo ver essas pessoas que não estão mais aqui. Mas era impressão.
O silêncio no qual me mergulhei por longas horas me fez pensar muito nessas pessoas, me fez dirigir orações aos céus, desejando que meu coração se acalmasse e que soubesse ter a paciência necessária nessa espera por um possível reencontro.
É que muitas vezes fica difícil seguir caminhando sabendo que quem amamos não está por perto. Que o nosso tempo acabou, e às vezes achamos que esse tempo é tão pouco. Eu sempre acho pouco.
Entre as pessoas que já perdi as que mais me lembro são jóias raras: um jovem, tão lindo, tão cheio de vida, de planos, mas que decidiu por si mesmo abrir mão de tudo isso. Meu cunhado, menino alegre, com quem pude contar muitas vezes e que numa tarde comum, de um sábado comum achou que já era a hora de partir e por si só seguiu por um caminho que o afastou de nós e fez com que as nuvens virassem o seu espaço, o seu lugar.
As outras três pessoas que me lembro e que mais lamento em não ter por perto eram exemplos. Vó Linda, a senhora Olinda, tão linda! Uma senhora que aos 94 anos se despediu de nós. Uma senhora que me ensinou que não há nada mais valioso nesse mundo do que o respeito pelas outras pessoas e por si mesmo. Ainda me lembro das palavras que preparei para dizer enquanto me despedia, mas que nunca foram ditas, porque a voz me sabotou.
De tudo o que eu queria dizer à ela, e que muitas vezes disse, o que mais lembro é que a comparava a uma grande árvore, forte, que nos cobria com sua sombra, nos ensinava tudo o que sabia. Que deu frutos, que soube na hora certa me servir de apoio, que entendeu que fazer o meu sonho era mais importante que realizar o sonho que o outro havia pensado pra mim. Que me dava alegrias incontáveis quando me olhava nos olhos, com seus olhos tão azuis e dizia: “ah, minha filha! Você tem tanto juízo que chega a te atrapalhar a viver”. Cabelos tão cinzentos que mais pareciam de prata, tão dedicada, mostrava-me seu caderno de anotações “para uma boa moça” e ria de mim dizendo que em pleno século vinte e um eu fazia as coisas que eram lá do século passado, de quando ela era moça…  árvore que era sombra no meu jardim, refúgio, segurança, companhia da qual só pude compartilhar por dez anos… ah, e eu queria tanto mais dez… mas os olhos azuis da  moça que se casou sem saber quem seria o marido e que mesmo assim o amou, se fecharam pra descansar…
Outra pessoa tão querida foi o senhor Geraldo, pai de Semiramis, uma grande amiga. Homem de uma alegria que era invejável, cozinheiro de mão cheia, bom-humor era com ele mesmo. Adeus inesperado, mas pressentido em meu coração que já havia acordado apertado. E um coração que era enorme, que carregava tantos sentimentos bons, resolveu parar numa manhã de quinta-feira, trazendo tristezas para os nossos dias que eram tão alegres juntos. “Menina, deixa de ser boba, daqui a pouco você tá no Rio e não vai nem lembrar da gente…” É eu vim pro Rio, mas me lembro sempre de todos que deixei lá nas Minas, que volto pra ver regularmente, mas lembro-me dos que tiveram que ir pra sempre… Ganhei de presente alguns CDs de sua enorme coleção pessoal e um deles do Rod Stuart tem a minha música preferida, que agora é impossível ser ouvida sem me trazer a sua lembrança…
Enfim, o que mais me entristece é saber que as saudades que tenho de meu avô, Lauro, não terão fim e que me são as mais antigas e doídas. A minha primeira grande perda. O meu primeiro grande amor despedaçado, coração partido e dorido. Os olhos verdes que me protegiam, me guardavam, sonhava os meus sonhos, deixaram de brilhar numa madrugada fria, numa quinta-feira da paixão, quando descobri que paixão era mesmo o melhor adjetivo para aquele dia em que o vento me avisou que eu tinha visto o meu avô pela última vez.  Nunca me senti tão passiva diante de um acontecimento, nunca sofri tanto. Era mesmo uma paixão. Perde-lo foi sentir um misto de raiva e de injustiça, ainda não entendo bem o porquê dele ter ido tão cedo, aos cinquenta e pouco anos, e ter nos deixado. Eu ainda tinha tanto pra viver com ele, tantos chocolates “Surpresa” pra comprar! E os passeios de domingo? E a escola? E o meu computador? (eu ia comprar um quando ganhasse na mega-sena). A tarde que antecedeu a sua partida ainda é tão viva em minha memória que fecho os olhos e a vejo como um filme, eu sentada em seu colo e ele me dizendo que eu ia estudar e virar doutora, que ia ser muito inteligente e feliz, o “orgulho do vô”. Ai, como me é dolorido ver que consegui tanta coisa, mas que não tenho aquele abraço…
Passada essa dor tamanha que sinto quando me lembro dessas pessoas, o que fica é a vontade enorme de reencontra-las por aí, um dia, e dar o abraço mais gostoso do mundo, e dizer o quanto foram e são importantes para meu crescimento, para a minha vida.
Depois de chorar meu luto que é eterno, mas que sabe ficar escondido no sótão do meu cração, o que me vem é um sorriso no rosto e a certeza de que não fiquei em débito com nenhum deles. A certeza de que fui feliz ao lado deles, que me fizeram muito feliz, até quando era pra chamar a atenção, dar um puxão de orelhas. Fica a certeza de que eu os amei, ainda amo, e que eles sabiam disso.
Nesse dia que honramos nosso queridos que se foram, que eles sejam lembrados em seus momentos mais alegres, com seus sorrisos mais bonitos, raios de sol que aqueceram meus dias e que me fazem falta, mas que foram eternos enquanto duraram e que se tudo der certo ainda nos encontraremos por ai.



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