Visitas da Dy

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Palavras




(Para ler ouvindo Moonlight Sonata (Mvt01) de Beethoven)


Então, em alguns dias como hoje, nos caminhos que me são já tão comuns, tão sem surpresas, acabo por me pegar completamente distraída e pensando em como as palavras causam um efeito tão grande em nós, em mim.
Depois de ouvir palavras que são comuns, que voam pelos ventos todos os dias na barulheira na qual nos inserimos a cada despertar, pude notar que seus efeitos, para além de serem dados pelos arranjos caprichosos de quem as pronunciam podem ser cuidadosamente articuladas para ferir, para magoar, para criar uma relação de dependência às avessas, que se dá não pela confiança ou carinho, mas pela simples obrigação ou aparência.
As palavras formam esse amarrado de tudo ao qual chamamos mundo, elas servem para saciar essa nossa vontade de ter posse sobre as coisas e as pessoas, uma vez que damos o nome a tudo.
Servem à nossa vaidade, uma vez que as usamos para nos vangloriar de nossas vitórias.
Servem como nosso cartão de visitas já que é através delas que nos mostramos como somos e nos colocamos a disposição do outro, a quem queremos ter por perto.
Servem como nossa defesa, quando as usamos para esconder nossos defeitos e mais do que isso, para esconder nós mesmos, como máscaras venezianas.
Servem cruelmente como nossa mais potente arma contra os corações alheios, despreparados frente ao desconhecido, abertos em flor a receber nosso golpe fatal, de aço frio, afiado, dilacerante.
Peguei-me pensando em como é estar imersa num mundo cerceado de palavras que deveriam ser verdadeiras, mas não são. Palavras que ficam presas na garganta, que saem pela boca a fora rumo aos quatro cantos do mundo, ora sem nenhum motivo, ora carregadas de intenção.
Pensamento voou pra longe, acompanhando o emaranhado de palavras soltas que meu ouvido captava e não demorou muito pra que eu me perdesse, de novo, naquele meio do mundo, naquele meio de palavras, naqueles sons.
Se mal posso compreender a lógica de palavras que muitas vezes digo, como posso eu, reles mortal, querer compreender as palavras dos outros?
Como posso eu, querer que os outros entendam as minhas palavras com a mesma intensidade que coloco nelas ao arranja-las?
Como posso imaginar que alguém no mundo seria capaz de entende-las exatamente com a sutileza com a qual elas são organizadas na minha mente, em meu coração?
Como posso querer que alguém entenda o que se passa em mim?
Como alguém saberia compreender a leveza ou a aspereza de meus sentimentos?
Tudo isso é impossível.
É impossível porque sequer eu, que coloco-me como dona das palavras, das minhas palavras, as sei explicar, as sei compreender.
Sequer sei escolher as palavras certas para me expressar e por isso devesse optar pelo silêncio. Mágico. Que incomoda. Doente. Que faz meu amigo reclamar. Que faz quem me gosta notar minha ausência presente, meu silêncio amargo que surge pra dar um pouco de realidade na doce fantasia que é o mundo no qual vivem as minhas palavras, os meus pensamentos.
Quanta inocência pode haver em um coração perdido no meio da multidão de uma cidade grande: é preciso que uma caminhada despreteciosa e um falatório corriqueiro aconteça para eu perceber o quão as palavras são importantes para mim, para eles, para nós.
Será que por ter omitido coisas – que ainda omito – eu estaria me eximindo de crimes e faltas cometidas? Não. A palavra lançada e o ato feito jamais retornam ao seu autor livres de responsabilidades. Jamais o deixam imune aos seus efeitos e aos efeitos que causam aos outros. Por atos e/ou omissões, no fim, todos nós nos sentiremos culpados por algo, sentiremos que falhamos. Eu sinto. Todos os dias. Agora. É bem maior que eu, que as palavras, que o mundo.
É uma criação que ganha asas e que parece ter vida própria. Parece que as palavras que saem das bocas que conheço e que chegam aos meus ouvidos e coração fossem independentes de seus donos, mas carregadas de suas intenções, porque por mais que no fim de uma conversa eu ouça um “deixa pra lá” ou um “esqueça”, as palavras ficam ali, me martelando, me martirizando, num círculo sem fim.


3 Comentários:

Nanda disse...

Dy amada... fenomenal seu texto ... acho que todos nós deveríamos refletir ao pronunciar uma palavra... mas somos seres impulsivos o q nos tornam no final de tudo até um pouco egoístas, não acha? Mas é um mecanismo de defesa... acho que estamos nesta vida para realizarmos essa auto reflexão e tentarmos minimizar essas falhas ... mas saberá quem quer se livrar desta mascara?
Obrigada por essas suas mensagens que partilha através de seu blog são sempre de grande valia e reflexão.
Saudadessss
bjsss

Dy Eiterer disse...

Oi, Nanda!
O que não entendo é o porque usar as palavras como labirintos para se envolver as pessoas e depois larga-las lá, sem a menor ajuda de Ariadne contra o minotauro...
precisamos conversar... coisas acontecem no reino da dinamarca que me fazem desabar...

Madney Bundish disse...

Então, que ótima e complexa questão foi levantada pelo seu texto. Eu sempre reflito sobre isso. É um paradoxo essa coisa de palavra....
"words are very unnecessary they can only do harm"
"words are useless, specially in sentences, they stand for anything, how can we explain how we feel?"

É.... nomear algo, é realmente tomar posse disso...

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