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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cálculo Matemático



A mocinha “apaixonadamente apaixonada e apaxonante”. Era assim que um professor, um senhor de mais de sessenta anos a chamava no início da faculdade. Ele sabia que ela era diferente. Sabia que só fazia o que queria. Só se mantinha numa situação se estivesse feliz. Ele sabia que ela era de extremos e de intensidades.
Ela queria mudar o mundo.
Ouvia rock e mpb, uma doçura meio rebelde, uma mistura indecifrável de timidez e euforia, de querer manter tudo nos conformes e no próximo minuto mudar tudo, era um “decifra ou te devoro” que pedia por favor.
Apaixonava-se por tudo. Todos os dias. O mundo só tinha graça se ela se levantasse da cama e se apaixonasse por alguma coisa. Isso explica a música do seu despertador, as cores das unhas, as frases da agenda.
Vivia sem planos. De certo esse era o plano: não ter planos.
Apesar de achar que a vida era um palco pronto para as grandes mudanças, de enfrentar policiais e participar de passeatas e achar, de verdade, que ia mudar o mundo, a mocinha queria mesmo era se apaixonar pra valer. Não. Ela queria amar. “Amar só por amar” – essa frase de Florbela Espanca era uma de suas favoritas. Amar alguém pra chamar de seu, amar alguém que soubesse ser seu. Amar alguém com quem pudesse contar.
Aos poucos foi parando de fazer as suas revoluções e entendendo que o mundo não queria necessariamente ser mudado, que as pessoas precisam se organizar primeiro pra depois começarem a mudar o espaço que habitam.
Mudar é coisa complicada. Precisa ser de dentro pra fora e isso não é pra qualquer um. É pra quem não teme correr riscos e pra quem não teme se chocar com seus próprios medos, questões e tocar na própria ferida, porque de vez em quando pode-se perceber que muitas das coisas que condenava acabaram por ser feitas por você ao longo do caminho.
Ela foi tentando só se mudar, e a partir de seu mundo (nada) organizado, aos poucos, ia conseguir cativar as pessoas, sem força-las a mudar, sem necessariamente desejar isso. Não criar expectativas foi a estratégia.
Ela queira amar e amou e viu o amor virar bom dia.
Viu outro amor passar pela janela, como quem olha a banda. Viu outras promessas de amores no jardim, misturadas às flores, mas eram promessas e de promessas ela não gostava…
Ela queria amar alguém que soubesse ser seu. E amou, e ama. Incondicioalmente. Fez-se dois. Repartiu-se. Seus olhos castanhos viram também olhos azuis-esverdeados ou seriam verdes-azulados?
Queria amar alguém com quem pudesse contar. E encontrou o conforto dos amigos.
Assim descobriu que amar só por amar é fácil: é acordar todos os dias com sua música preferida, é dar bom dia ao dia, é vestir-se e sentir-se bem, é perfurmar-se para ela mesma. É distribuir sorrisos.
Ainda assim ela pensava que  amor seria uma fórmula, um cálculo matemático, onde “ele + eu = nós”.
Não aprendeu nada pelos caminhos que trilhou.
Não sabia que para esses cálculos só resta a frieza e que amor é calor. Que a exatidão não é boa, é limitadora demais.
Não aprendeu que o amor é bicho de asas, que mora no coração, que não tem porta, porque precisa ser livre pra voar e crescer.
A mocinha sonhava encontrar a fórmula certa. O que não aprendeu nesses anos todos é que as coisas não acontecem assim, de uma hora pra outra. Que em se tratando de coração “1 + 1 = infinitas possibilidades de alegrias, de momentos, de sonhos”. As coisas acontecem devagar… aos poucos… em cada detalhe… E, talvez, ela não percebesse os detalhes porque era cismada com a ciência. Era passional com mania de ser racional. Não sabia que a vida toda havia andado no caminho certo, agindo em busca de sua felicidade e que agora, desejando ser diferente se colocava num caminho oposto ao que a levaria a chegar ao amor.
Mas ele vem. Um dia vem. Mesmo que seja na contramão. Ainda que de longe… ele voa ao por-do-sol! 

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