Visitas da Dy

terça-feira, 20 de setembro de 2011

VivaVida com Neruda




Vivavida. Essa era a frase que estampava o fichário todo preto e cheio de colagens que a minha vizinha, uma moça bonita e simpática, carregava.
A vizinha era uma moça inteligente e bem mais velha que eu, uma menina de pés descalços que jogava bola na rua. Nossa diferença de idade parecia enorme, um abismo.
Essa moça chamava muito a minha atenção: era diferente das outras moças. Estudava no centro da cidade, andava na garupa da moto de seu irmão, era simpática: só sorrisos para todos os vizinhos  e tinha um fichário! Todo preto ele era. Ela cuidadosamente fizera sua capa com recortes de fotos e revistas.
Um dia peguei o mesmo ônibus que ela e consegui sentar ao seu lado. Bisbilhotei o seu fichário e li na capa: VIVAVIDA. A frase estava bem no centro e em volta tinha fotos dela com os amigos e bem lá ebaixo uma outra frase parecia fechar em grande estilo o quadro: “serei… serás… seremos…” e sob a frase uma palavra: “Neruda”.
A frase pouco me dizia. Era uma pura conjugação verbal… fiquei mesmo foi pensando sobre o que era “Neruda”. Eu era uma guria nova, uns 12 anos, talvez, mas lia muito e conhecia um sem fim de palavras, mas nenhuma delas se parecida com “Neruda”. Acabei cansando-me de pensar, mas nunca esqueci a tal palavra.
Continuei sendo a menina-moleque de sempre até os 14 anos: jogava bola na rua, pulava muros, roubava frutas no vizinho, brincava de pique, roubava no jogo de baralho. Cresci. Todo mundo cresce um dia.
Comprei um fichário preto. Montei a sua capa aos moldes daquele que nunca havia me saído da memória. Fui estudar no centro da cidade. Pegava o ônibus todos os dias. Cansei-me do fichário. Comprei um caderno. Desisti do caderno e passei a ir pra aula sem nada pra anotar, meio sem lenço, mas com documento.
Aquela moça parou de crescer. Eu cresci mais um pouco. Ela perdeu a graça. Eu ganhei um pouco de graça. Faz parte da vida de toda menina: ganhar um pouco de brilho quando faz certa idade. Meu brilho demorou um pouco pra chegar… vinha mais pelo que eu sabia do que pelo que eu mostrava ser.
A moça passou a ser, além de vizinha, minha colega de ônibus. Nosso abismo etário nem era tão grande. Uns 6 ou 7 anos. Nos descobrimos com gostos até parecidos. Ela me disse que queria ser professora, eu também. Ela pensou em mudar o mundo e eu acordava e tramava esses planos mirabolantes todos os dias.  Viramos “conhecidas”.
O engraçado nisso tudo é o tempo: os anos parecem muitos até certo ponto, mas depois param de exercer tanta influência sobre nós.
Aprendemos a lidar com o tempo.
Aprendemos que quando somos muito jovens queremos que ele passe rápido e logo em seguida desejamos que ele volte, ou que pare. Demora um pouco, mas o que precisamos aprender, de fato, é que o melhor que temos a fazer é estabelecermos uma relação sadia com o nosso tempo e aproveita-la ao máximo.
Ah, e sobre a palavra que eu não sabia o que era, hoje sei bem: adoro o Neruda! Pablo Neruda! Um dos meus poetas favoritos e que alegra meus dias e enfeita a estante.
Anos depois entendi que a frase do diário da minha vizinha, não era mera conjugação de verbos, mas uma linda declaração de amor, da qual chego a me invejar às vezes.
Hoje, depois que reencontrei essa vizinha no ônibus, o mesmo que pegávamos há anos, lembrei-me desse episódio.
Sigo lendo Neruda, aproveitando o meu tempo como dá e tentando, de verdade, viver bem comigo, com os outros e com o tempo.



“E desde então, sou porque tu és
E desde então, és,
Sou e somos…
E por amor…
Serei… serás… seremos…”
Pablo Neruda

Boa semana pra quem por aqui passar.
Dy.

4 Comentários:

Anônimo disse...

Fantástico!!!!!!!!!!!!Bjs Z

Anônimo disse...

Adorei esse texto também...
Gosto dessa forma [FALHA NO LÉXICO(não consegui achar um adjetivo, mas vc melhor do q ninguém sabe q forma é essa, kkk)] como você expõe o trivial da vida.
“E desde então, sou porque tu és
E desde então, és,
Sou e somos…
E por amor…
Serei… serás… seremos…”

Ah, esse Neruda! ♥ :D

Madney

Dy Eiterer disse...

Oi, z!

Desse jeito vou achar que é pura tietagem! kkkkkkkkkkkkk

Obrigada pelas incansáveis visitas que faz por aqui!

Beijo, querida!

Dy Eiterer disse...

Oi, Madney!

Não disse que eu ia responder aos comentários?

É que tenho ficado sem tempo.

Bom, continuo achando que todo o brilhantismo que encontram nesse texto é por conta do Neruda - que é uma covardia com qualquer um, né?

Obrigada por ler os textos, por dar as opiniões e até ajudar nas correções.

Se um dia eu ficar famosa - como professora, né?, porque pelos textos não ficarei - eu o agradecerei publicamente pelo carinho!

Beijo!

Postar um comentário