Visitas da Dy

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sentimento do Mundo


“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”… Há uns três ou quatro (ou mais) meses li esse livro do Drummond. Achei lindo e fiquei horas pensando só no título. Trata-se de uma obra que reúne alguns poemas. Mas o que importava de fato era a ideia de se ter apenas duas mãos… e o sentimento do mundo…
Tenho pensado muito em textos que li há algum tempo e em como eles se tornaram tão atuais “de repente, não mais que de repente”.
Normalmente escrevo sobre coisas que ouço, que vejo, que li e que senti, mas hoje escrevo porque me aborreci, porque vi um dia – o meu dia – colorido ficar monocromático.
Hoje escrevo porque vi outros dias que estavam coloridos passarem para a escala de cinza como em um passe de mágica. Escrevo porque nem se eu tivesse todas as tintas do mundo poderia pintar de novo esses dias.
Escrevo porque vi que se faz urgente pro meu coração se esvaziar de duas questões que são tão diversas entre si, mas que andam tão juntas, como duas mãos a aperta-lo e a fazer com que uma agonia enorme tome conta dele.
Pego na caneta hoje porque aprendi que o papel é janela aberta pra alma fugir, correr e talvez encontrar alento e consolo: ou só pelo fato de ter saído livre a voar ou porque alguém vai ler e depois me acalentar.
Atrevo-me a escrever hoje porque foi o único meio de companhia desacompanhada que encontrei, porque na verdade o que queria mesmo era um abraço, de uns braços que fossem capazes de parar o mundo, de dar conforto, de mostrar que tudo o que eu sentia e ainda sinto é passageiro, que daqui a pouco a madrugada vem com seu vento frio, seu breu misterioso, mas que assim como todos os meus sentimentos desse dia, vai passar, como o andor da procissão, como a chuva de verão, como os anos, os dias, os minutos.
Encaro o papel porque, hoje, talvez tenha sido um dia em que lamentei ter apenas duas mãos, lamentei ser limitada, lamentei não poder resolver todos os problemas que surgem ao meu redor e isso inclui os meus.
Depois de uma ou outra reclamação diária, daquelas que ouvimos por aí, o dia que estava alegre, colorido e ainda enfeitado com os livros que comprei na minha primeira visita a uma Bienal de Livros acabou por ficar pesado, cinza-chumbo-muito-pesado. Não podia e não posso resolver todos os problemas que se descortinam aos meus olhos, mas tentei da melhor maneira que pude. Isso bastou pra eu reparasse a minha pequenez.
A melhor solução que pude dar é só paliativa. Breve. Amanhã ou depois não terá servido de muita coisa.
O que ocorre é que mais uma vez percebi que muitas vezes tomo medidas que julgo serem boas, mas não são suficientes. Não bastam. Passam. Isso me faz mal.
Sinto-me diminuida, como se encolhesse de repente e  ficasse insignificante.
Pra completar “ganhei” um conselho: “você não é a salvadora do mundo”… logo eu que sempre quis fazer do mundo um espaço melhor, que sempre busco fazer o que julgo ser o melhor.
Impotência. Foi o que me sobrou.
Um mundo enorme e eu minúscula.
Um sentimento do mundo e eu só com duas mãos, sendo incapaz de solucionar questões que, em tese, seriam fáceis de resolver, com um ou dois pontos de organização administrativa, bom senso e comprometimento.
As pessoas não são acostumadas com comprometimentos. Não sabem cumprir suas palavras. Na verdade, acho que nem sabem o valor das suas palavras.
Isso é ruim.
Foge ao meu controle.
Não posso pensar que todos sejam iguais e tenham os mesmos parâmetros, as mesmas condutas. Que todos cumpram suas palavras.
Eu não estou cumprindo a minha, ou estou cumprindo em parte, ou estou indo mesmo é na minha própria contra-mão.
Já escrevi sobre isso. É recorrente a questão. Faz parte da segunda coisa que aflige meu coração nesses dias – e acabou extrapolando nessa quinta-feira, com cara de segunda.
Volto a me questionar sobre as coisas que quero. Sobre a minha postura no mundo. Sobre estar ou não sendo “correta”, quando nem mesmo sei o que vem a ser  “ser correta”…
Hoje tenho medo de querer o que quero. Na verdade tenho me contentado em só imaginar, sem necessariamente querer, sem desejar de verdade, que é pra não correr o risco de acontecer e depois de não conseguir bancar, embora a coragem (pra bancar) não falte.
O que penso é que em qualquer historinha da carochinha nenhum personagem é sozinho. Nenhum ato tem consequencias apenas para quem as pratica. Atinge os outros. E causar mágoas e decepções é ruim.
Vejo pistas de duas histórias que estão prestes a se repetir, vejo personagens que representam bem, outros, nem tanto, e eu sem saber direito onde entro, qual minha cena, minha voz, meu papel. Lembro-me de passagens shakespearianas, de peças chinfrins, de frases feitas, de frases não ditas, de oportunidades perdidas e outras tantas se perdendo e o tempo passando e eu ficando, e o tempo passando e eu indo, cada vez mais indo de volta pra terra de onde vim e para onde não queria voltar.
É um misto de sentimentos. Ao mesmo tempo que algumas situações fazem com que me sinta pequena em outras sinto-me invisível. E não consigo definir qual dessas angústias é pior.
Os versos de Arnaldo Antunes ajudam um pouco a entender o que se passa:

Eu estava lá mas você não viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim
(…)
Quando eu fui falar

Minha voz falhou
Tudo se apagou você não me viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim
Mas
se eu já me perdi

Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você
Mas se eu já te perdi
Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você

Sabia que não devia me meter a estudar demais. Filosofia me deixa assim, em crise. E só penso se meu destino está traçado por Arthur Schopenhauer  quando ele diz que "A solidão é o destino de todos os espíritos eminentes  e quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre". Longe de mim colocar-me entre os grandes, mas é que quando se vê o mundo de maneira diferente paga-se um preço alto. Muito alto. Ganha-se só olhares curiosos, comentários nada agradáveis e raros são os que nos compreendem de verdade.
Querer fazer o melhor de si sem medir esforços, cumprir as palavras que são dadas e fazer as próprias vontades, buscando ser feliz parecem não ser coisas muito comuns para as pessoas que se colocam como normais…
É… acho que só porque eu passo os dias cantando não faço parte desse mundo…
Acho que só porque o sorriso insiste em morar nos meus lábios, ainda que haja um pouco de tristeza no coração sou tida como um “bicho estranho”.
Na verdade eu queria mesmo era ser só metade da fortaleza que aparento. Queria que meu castelo fosse de pedras, forte e resistente e não esse arranjo de areia e sal que teme a próxima onda que se aproxima…
Queria poder ganhar o melhor dos abraços agora.
Queria ter olhos que olhassem na mesma direção que os meus e pés que seguissem no rumo do mesmo farol… queria voar lá pra perto da lua, pra contar pra ela meus segredos, medos, inseguranças e talvez enxergar, lá de cima alguém que fosse capaz de me entender…
Queria mesmo era poder chorar igual todo mundo sem ter que dar muitas explicações, uma vez que explicar não resolve… “se fosse resolver iria te dizer foi minha agonia”…
Já que agora o coração está um pouco mais leve depois de se esvaziar pelas palavras, é hora de carregar as baterias para um novo dia.

“O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou…
O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou…” (Nando Reis)

Uma sexta-feira iluminada para todos.
                                                             Beijocas,
                                                                                  Dy.

1 Comentários:

Anônimo disse...

Louco na cabeça e estou me sentindo triste
As coisas que você disse, bem, talvez sejam verdade
Estou tendo sonhos engraçados muitas vezes
Eu sei o que significa, mas

Não posso explicar
Eu acho que é amor
Tentei te dizer isso
Quando eu fiquei triste

Mas não posso explicar(não posso explicar)
Yeah, ouça o que digo, garota(não posso explicar)

The Who

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