Visitas da Dy

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Luz dos Olhos

Luz dos Olhos

Essa semana aconteceu uma coisa muito engraçada.
No caminho para o trabalho pela manhã fui lendo um livro de crônicas de Martha Medeiros (Coisas da Vida) e encontrei um texto maravilhoso, que exponho aqui os fragmentos:

“Se alguém perguntar o que pode haver de mais íntimo entre duas pessoas, naturalmente que a resposta não será sexo, a não ser que não se entenda nada de intimidade, ou de sexo.
(…)
O filme ‘Encontros e desencontros’ mostra a complexidade de dois americanos no Japão – e a vivência profunda de sentir-se um estrangeiro, inclusive para si mesmo. Chega a ser previsível que a cena mais caliente do filme não seja a de um beijo e suas derivações, e sim a cena em que o casal de protagonistas está deitado na mesma cama, ambos vestidos, falando da vida, quando o cansaço e o sono os capturam. (…) eles apenas sentem-se à vontade para entrar juntos num estado de inconsciência, que é o momento em que ficamos mais vulneráveis e desprotegidos. (…) Poucas vezes o cinema mostrou cena tão íntima”.

Ao ler o texto a cena do filme que não conheço foi se desenhando em minha mente com outros personagens, mas com a mesma intimidade, com a mesma intensidade. Parei pra pensar em quantas pessoas já dormiram ao meu lado, bem nesse sentido que Martha coloca.
Nos deixar envolver pelo sono ao lado de alguém é realmente algo muito íntimo e que exige muita confiança no outro. Não se sabe o que pode se passar, podemos ter um psicopata conosco. Dei-me conta que dessa forma, pouquíssimas vezes me entreguei. Foram raras as pessoas com as quais me permiti cair em sono profundo, especialmente na mesma cama, coisa que demonstra uma proximidade e uma confiança ainda maior.
O fato curioso foi o de o filme tratar, segundo o texto, de um casal – que não necessariamente pode configurar uma relação amorosa, aqui pode ser mesmo só a forma de designar que eram um homem e uma mulher – que se sente estrangeiro até a si mesmos. Na hora me lembrei – e vi – essa cena acontecer comigo.
Recém chegada ao Rio fui passar o domingo com um amigo e o que se desenhou foi exatamente o fragmento acima: eu completamente alheia à cidade, já cansada de me sentir uma estranha no ninho, meio perdida e com a impressão de estar num mundo que não é o meu, estava em busca de uma boa companhia – que ele sempre foi.
Depois do almoço fomos ouvir boas canções da MPB e de um coral que não me lembro o nome, mas me lembro que era muito bom, e nos deitamos na cama pra tagarelar, ver o domingo passar, ter e ser companhia – pelo menos pra mim – e acabamos por dormir. Dormi tanto que nem vi a hora passar. Acordei já era noitinha. Entrega total ao cansaço, ao domingo preguiçoso, à confiança.
Martha diz que poucas vezes o cinema mostrou cena tão íntima. Eu digo que poucas vezes, na verdade, nenhuma vez até esse dia eu vi uma semelhança tão grande entre a realidade e a ficção.
Fui tomada de uma alegria e de uma certeza de que há pessoas que devem ser levadas conosco pra toda vida e que esse meu amigo tão amado será guardado, não num cofre, mas em um lugar especial, onde eu possa revisita-lo em minha memória sem muitos esforços. Senti uma saudade enorme dele e tive vontade de ligar, mas deixei passar. Mais tarde mandaria um email, tavez contaria o motivo, talvez dissesse só que era saudade.
O dia passou e não escrevi o email. Já no fim da noite recebi um sms dele! Que fantástico! Uma sintonia que nos acompanha há muito: várias vezes já postamos emails com minutos de diferença um pro outro, já nos “encontramos” no msn por puro acaso. Acabamos por combinar de pegar o mesmo ônibus para a volta pra casa e como o expediente ainda demorou a acabar me esqueci de contar o acontecido.
Conto agora. E mais que isso, confesso publicamente o quanto amo esse rapaz! Não há nada melhor que amizade pra nos tirar do tédio, pra nos tirar da rotina, pra nos fazer felizes.
Há anos, muitos já, ele é meu fiel escudeiro, meu ouvinte, conselheiro, parceirinho de passeios ótimos em museus, de ir a peças teatrais, comer pastel na pastelaria rolante, cachorro-quente de barraquinha no parque, de escola, de emprestar o ombro, de me fazer dar risada, de não me deixar desistir, de me emprestar até coisa que não se empresta: a fé em mim e em Deus.
Meu amigo forte e leve, presente e ausente, menino que vi crescer, homem que me ampara quando me desespero, que abre meus olhos e me mostra respostas que são claras, mas que eu, teimosa, não vejo, que ri das minhas maluquices, mas que não deixa de apostar pelo menos uma fichinha em mim.
Luz dos meus olhos, pés que caminham a uma distância segura pra eu saber que é apoio, que respeita meu tempo, meu espaço, meu ritmo, pessoa em quem confio de olhos fechados, dormindo!

Esse texto é para o meu amado amigo, Roberto Dutra.
Escrito há muitos meses atrás...

4 Comentários:

Anônimo disse...

Feliz é quem tem alguém assim na sua vida, tanto de um lado, quanto de outro...

Isaías Souza

Dy Eiterer disse...

Viu, Isaías, deu certo assim!

E digo que sou feliz por ter não só o Betinho, mas o Isaías, a Nandica, a Semiramis, a Zenilde e muitos outros amados ao meu lado, que se importam, se preocupam e que me amam.

A recíproca é sempre verdadeira!
Amigos, amo-os!

dy

Anônimo disse...

Dy, nunca li nada tão verdadeiro, tão íntimo, tão puro em toda minha e olha que leio bastante, não como gostaria pois a net às vezes toma nosso tempo pra leitura.

Me fez refletir com esse texto... pensando assim, nunca tive alguém que pudesse dormir ao lado e me sentir segura, com execeção quando durmo com meus pais,quando viajo uma vez por ano, teve uma época em que fui de férias e estava tão cansada de tudo que qdo cheguei lá eu dormir 12 horas seguidas das 19:00 as 07:00. Acordei como se tivesse nascido novamente.

Fico feliz e honrada com sua amizade e carinho... gosto muito de você e me preocupo sim, e mesmo distante eu cuido e acompanho sua rotina.
Um beijão e um abraço já cheia de saudades.Z

Dy Eiterer disse...

Oh, z!

Obrigada pro aparecer, por ler, por comentar, por me entender, por ser tão importante na minha vida!

O que posso dizer?
Não tenho amigos nessa vida!

Tenho joias preciosíssimas!

Postar um comentário